Filosofia World

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(Parte 1 de 5)

O Mercado, o Ciberespaço, a Consciência Pierre Lévy

2 A Darcia, que me fez descobrir o amor

Para os seres despertos, existe um único mundo comum. HERÁCLITO

Por perfeição e realidade entendo a mesma coisa. ESPINOSA

Até agora, poder-se-ia dizer, os homens viviam simultaneamente dispersos e fechados em si mesmos, como passageiros acidentalmente reunidos no porão de um navio de que desconheceriam a natureza móvel e o movimento. Na terra que os reunia não concebiam nada melhor para fazer que discutirem ou distraírem-se. Subitamente, por sorte, ou antes, pelo efeito normal da idade, os nossos olhos acabam por se abrir. Os mais ousados de entre nós chegaram à ponte. Viram o navio que nos levava. Vislumbraram a espuma no fio da proa. Deram-se conta que haveria uma caldeira para alimentar – e também um leme para dirigir. Sobretudo viram nuvens a pairar, aspiraram o perfume das ilhas, para lá do círculo do horizonte: não a agitação humana no local – nem a deriva - , mas a viagem. TEILHARD DE CHARDIN

Quando tinha oito anos, disse para comigo: “Mas quando é que as guerras vão terminar? Quando é que a maioria das pessoas se consagrará finalmente à ciência e ao amor?” Também me perguntava: “Que idade é que teria no ano 2000?” porque imaginava que nesse momento as coisas iriam melhor. Estava apaixonado pelo futuro. Passava o tempo na biblioteca municipal a ler livros de física e de astronomia. Queria compreender. Quando tinha oito anos, dizia às pessoas: “Vão ver, iremos à Lua e até mais longe.” Chamavam-me sonhador. No dia do meu oitavo aniversário, marquei encontro com o ano 2000. Dava esse tempo à humanidade para me mostrar do que era capaz. Só me interessava uma coisa: aquilo em que nós, os humanos, estávamos nos transformando, e não mudei. O ano 2000 chegou, vi e decidi tomar o partido da humanidade.

Decidi amar este mundo tal como ele é. Ao adotar essa atitude, tenho a sensação muito nítida de compreendê-lo melhor que se o denunciasse e o criticasse. Este livro é um canto de amor ao mundo contemporâneo e ao futuro que ele traz dentro de si. Amoo e canto-o muito simplesmente porque não há outros.

Quando captamos o mundo tal como ele é, como o melhor dos mundos possíveis, quando já não há necessidade de imaginar uma perfeição que só existe na nossa pequena imaginação limitada, então podemos começar a estudar seriamente o mundo real. Compreendendo-o, compreendemos a perfeição, isto é, o movimento de aperfeiçoamento dinâmico que o anima.

O mundo de hoje se edifica não é “perfeito” no sentido em que não corresponde efetivamente a nenhuma ideia preconcebida. Não é tranquilizador nem protetor. Surpreendentemente, está constantemente à beira do caos e da desorganização. Mas é precisamente nesta franja da ordem e do caos que se situam a invenção e a energia espiritual máxima. Todos os outros estados são piores.

A partir de agora, a grande aventura já não é a de países, de nações, de religiões, de quaisquer ismos, a grande aventura é a aventura da humanidade, a aventura da espécie mais inteligente do universo que conhecemos. Esta espécie ainda não está completamente civilizada. Ainda não tomou integralmente consciência que constitui uma única sociedade inteligente. Mas a unidade da humanidade está sendo feita agora. Depois de tantos esforços, chegou finalmente a unificação da humanidade, sob uma forma que não esperávamos: não é um império, não é uma religião conquistadora, uma ideologia, uma raça pretensamente superior, uma qualquer ditadura, são imagens, canções, o comércio, o dinheiro, a ciência, a técnica, as viagens, as misturas, a Internet, um processo coletivo e multiforme que emerge por todos os lados. Que acontecimento extraordinário! Tentei neste livro discernir a unidade da corrente que nos leva a dar um nome a este processo: a expansão da consciência.

Não prometo ao leitor uma verdade “científica”. Prometo-lhe simplesmente que

5 depois de ter lido honestamente este livro, ele terá uma visão mais ampla.

Não olho totalmente os mesmos objetos que os rabugentos. Em vez de me polarizar naquilo que morre, maravilho-me com aquilo que cresce. Na grande roda da vida, os dois movimentos de nascimento e de morte são complementares. Tento fazer ver aqui o que está nascendo. Não ignoro de modo algum a podridão. Tento fazer erguer os olhos para a rosa que se desenvolve acima dela. O problema não é saber se somos otimistas ou pessimistas, mas saber para onde dirigimos o olhar.

Oxalá o som do meu bandolim, acompanhado por todos os instrumentos e por todas as vozes que cantam a mesma canção de amor por todo o planeta, oxalá esta pequena música possa trespassar o uivo grave das sirenes do medo, do ódio e do desespero.

CAPÍTULO 1 MANIFESTO DOS PLANETÁRIOS

ou das Antilhas, música céltica e música árabe, estúdios de Nashville ou de Bristol

Aqui estamos. Nós. Os planetários. Conduzimos os mesmos veículos, tomamos os mesmos aviões, utilizamos os mesmos hotéis, temos as mesmas casas, as mesmas televisões, os mesmos telefones, os mesmos computadores, os mesmos cartões de crédito. Informamo-nos na câmara de eco dos meios de comunicação globalizados. Navegamos na Internet. Temos o nosso site. Participamos na silenciosa explosão do hipercórtex infinitamente reticulado do World Wide Web. Ouvimos músicas de todos os cantos do mundo: raï, rap, reggae, samba, jazz, pop, sons da África e da Índia, do Brasil Dançamos como loucos ao ritmo da Techno mundial em rave parties sob a luz zebrada de idênticos raios estroboscópicos. Lemos os nossos livros e os nossos jornais na grande biblioteca mundial unificada de Babel. Misturados com turistas, visitamos museus cujas coleções cruzam as culturas. As grandes exposições de que gostamos giram em torno do planeta como se arte fosse um novo satélite da Terra. Estamos todos interessados nas mesmas coisas: todas as coisas. Nada do que é humano nos é estranho.

Nós, os planetários, consumimos no mercado mundial. Comemos à mesa universal, baunilha e kiwi, coentros e chocolate, cozinha chinesa e cozinha indiana. Quando alguns rabugentos querem polarizar o nosso olhar sobre a distribuição de hambúrgueres de má qualidade ou de bebidas gasosas com açúcar, preferimos apreciar o alargamento do leque de possibilidades: poderíamos provar tantos frutos diferentes, tantas especiarias, tantos vinhos e licores há cinquenta anos, há cem anos?

Assistimos (e organizamos) colóquios internacionais, uma instituição rara e reservada a uns poucos há ainda cinquenta anos, mas que se torna hoje um desporto massificado. Acontece que a nossa reputação ultrapassa as fronteiras do país em que nascemos. Somos traduzidos em várias línguas, ou então não temos necessidade de ser traduzidos porque trabalhamos nas artes visuais, na música, na moda, no desporto. O nosso talento é reconhecido por toda a parte. E pouco importa que este talento seja acolhido num país ou noutro. Queremos simplesmente que ele desabroche.

Pouco a pouco, sem que nós tenhamos dado conta disso de imediato, o mundo chegou à nossa mão e fizemos dele o nosso campo de ação. A envergadura dos nossos atos aumentou até atingir as margens diante de nós. Temos clientes, parceiros e amigos por todos os lados. De súbito, aprendemos progressivamente a maneira de nos dirigirmos a todos, a todo o mundo. Os nossos compatriotas estão por toda a Terra. Começamos a constituir a sociedade civil mundial.

Somos cada vez mais numerosos. Trabalhamos numa empresa multinacional ou

internacionaisCotidianamente, para o melhor e para o pior, para compreender ou

transnacional, na diplomacia, na tecnologia de ponta, na investigação científica, nos meios de comunicação, na publicidade. Somos artistas, escritores, cineastas, músicos, professores, funcionários, internacionais, jogadores de futebol, alpinistas, navegadores solitários, comerciantes, aeromoças, consultores, acionistas, militantes de associações para sobreviver, para os amores ou para os negócios, em número cada vez maior, temos de olhar, comunicar e talvez agir para lá das fronteiras. Somos a primeira geração de pessoas que existe à escala do globo. Homens ou mulheres políticos, drogados, manequins, gente de negócios, prostitutos, terroristas, vítimas de catástrofes televisivas, cozinheiros, consumidores, telespectadores, internautas, imigrados, turistas: somos a primeira geração global.

Nenhuma geração em qualquer tempo viajou tanto como a nossa, tanto para o trabalho como para o prazer. O turismo tornou-se a maior indústria mundial. Nunca emigramos tanto como hoje, quer sejamos “pobres” atraídos pelo trabalho, quer sejamos ricos em busca de melhores condições fiscais ou de uma remuneração mais justa da nossa competência. Inversamente, nunca alimentamos, acolhemos, integramos, assimilamos e educamos tantos estrangeiros.

Já não somos sedentários, somos móveis. Também não somos nômades, porque os nômades não tinham campos nem cidades. Móveis: que passam de uma cidade para outra, de um bairro para outro da megalópole mundial. Vivemos em cidades ou metrópoles em relação umas com as outras, que serão (que já são) as nossas verdadeiras unidades de vida, muito mais que os “países”. Ou então vivemos no campo, em casas que são como navios no alto mar, conectados a todas as redes.

Somos budistas americanos, informáticos indianos, ecologistas árabes, pianistas japoneses, médicos sem fronteiras. Como estudantes, para aprender por toda a parte, circulamos cada vez mais em torno do globo. Vamos onde podemos ser úteis. Graças à Internet, damos a conhecer o que temos a oferecer à escala do planeta. Como produtores de vinho ou de queijo, instalamos um sistema de venda por correspondência na Web. A nossa geração está inventando o mundo, o primeiro mundo verdadeiramente mundial.

Já não nos agarramos a um ofício, a uma nação ou a qualquer identidade.

Mudamos de regime alimentar, de profissão, de religião. Saltamos de uma existência para outra, inventamos continuamente a nossa atividade e a nossa vida. Somos instáveis, tanto na nossa vida familiar como na nossa vida profissional. Casamo-nos com pessoas de outras culturas e outros cultos. Não somos infiéis, somos móveis.

A nossa identidade é cada vez mais problemática. Empregado? Patrão? Trabalhador autônomo? Pai? Filho? Amigo? Amante? Marido? Mulher? Homem? Nada é simples. Cada vez mais, tudo tem de ser inventado. Não temos modelos. Somos os primeiros a entrar num espaço completamente novo. Entramos no futuro que inventamos peregrinando pelo planeta.

De Homo erectus a Homo sapiens, a humanidade nasce algures na África oriental, entre um milhão de anos e trezentos mil anos antes de Jesus Cristo. As últimas hipóteses dos paleontólogos sugerem que a faculdade da linguagem tal como a conhecemos hoje só foi plenamente desenvolvida no Homo sapiens sapiens. A ajuizar pelas suas capacidades fonatórias, que pudemos reconstituir ao estudar o seu esqueleto, os homens de Neandertal não falavam ainda, ou falavam de um modo muito rudimentar. Antes de se expandir pela superfície do globo e de se misturar com as outras espécies de homens (ou de as suplantar, consoante as hipóteses), a espécie Homo sapiens sapiens parece ter aparecido na região dos grandes lagos africanos favorecida por um isolamento geográfico e por condições ecológicas muito particulares. Os nossos antepassados mais diretos habitavam todos a mesma zona geográfica. Originalmente, a sua população contava apenas alguns milhares ou algumas dezenas de milhares de indivíduos. Embora a coisa não esteja absolutamente demonstrada, é provável que tenham falado a mesma língua, ou línguas vizinhas, uma vez que estavam em comunicação uns com os outros.

A partir desta origem inescrutável, a partir deste ponto de partida unitário quase mítico, a humanidade separa-se de si mesma, dispersa-se: afastamento geográfico, divergência de línguas, separação progressiva das culturas, invenção de mundos subjetivos e sociais cada vez menos comensuráveis. Foi a primeira ruptura. O motor desta diáspora de várias dezenas de milhares de anos é relativamente simples: as sociedades de caçadores coletores não são sedentárias, ocupam um extenso território e o desenvolvimento demográfico traduz-se quase automaticamente pela cisão do grupo inicial e pela partida de um ou de vários subgrupos para outros horizontes. Vemos, pois que, numa primeira fase da história da humanidade – a mais longa – o crescimento demográfico se traduz automaticamente pela separação, pelo afastamento. Por vagas sucessivas, a humanidade ocupa todos os continentes, todos os habitats, da savana à floresta equatorial, da savana à floresta equatorial, do Saara à Groenlândia, do antigo mundo às Américas, da Mongólia às ilhas da Oceania.

A segunda grande “ruptura” da aventura humana – uma ruptura que se estendeu por vários milênios – é aquilo a que se convencionou chamar a revolução neolítica, ou seja, a mutação técnica, social, cultural, política e demográfica mais importante que se traduziu nomeadamente pela invenção da agricultura, da cidade, do Estado e da escrita. A revolução neolítica tem vários focos distintos, cujos três principais são, por ordem cronológica, o Oriente Médio (a Mesopotâmia e o Egito), a China e as civilizações précolombianas do México e dos Andes. Nestas zonas privilegiadas, a humanidade sedentariza-se, concentra-se, multiplica-se, acumula riquezas e registra os signos. A partir dos grandes focos iniciais, o sistema neolítico expande-se e submete progressivamente o conjunto da humanidade. Este processo não está, aliás, totalmente concluído hoje dado que raras sociedades de caçadores coletores ainda sobrevivem. É construído um novo espaço-tempo, o dos territórios, dos impérios e da história. Uma primeira tendência para a conexão, para a concentração ou para a comunicação intensa inverte, pois, o movimento de dispersão precedente. No entanto, esse processo continua a realizar-se à escala regional e apesar das (muito tênues) relações comerciais, a longa distância que ligam as regiões afastadas do mundo antigo, a humanidade continua

9 pulverizada.

Devemos deixar de olhar a história do ponto de vista de uma nação, de uma região do mundo ou de uma religião. Desde o seu início até esta manhã, a história humana é a aventura da nossa espécie no planeta. É nesta perspectiva que o início dos “tempos modernos”, que são datados no final do século XV, marca um momento importante, dado que este período dá início à reconexão global da espécie humana consigo mesma. Esta terceira grande mutação da aventura humana continua a acelerarse nos nossos dias. É cômodo datar esta nova fase da “descoberta” da América por Cristóvão Colombo, isto é, da interconexão das principais partes do mundo pelos habitantes ávidos, laboriosos e missionários da península europeia. É certo que este momento inaugural é marcado pela desigualdade das partes em presença, pela opressão de certos povos, pela rivalidade entre diferentes grupos para dominar o mundo. Mas, à escada em que nós nos colocamos, trata-se das modalidades brutais, violentas da reconexão, realizada numa semi-inconsciência, efetuada ou sofrida por grupos humanos que pensam com conceitos e animados por valores herdados do período da divergência. A visão da unidade da espécie humana, evidentemente partilhada por algumas grandes almas, não fazia parte da bagagem cultural da maioria. Esta unidade ainda não era vivida concretamente, como pode ser hoje e como será cada vez mais no futuro.

É surpreendente constatar que no final da Idade Média o desenvolvimento dos meios de transporte – a possibilidade do contato físico – foi rigorosamente paralela ao desenvolvimento da memória e das comunicações, graças à difusão da imprensa. Também no início dos tempos modernos, o aumento do conhecimento científico – nomeadamente o da geografia e da astronomia – deu aos humanos uma nova apreensão do espaço. O comércio, já global, deu origem a um movimento de desenvolvimento urbano e de crescimento econômico, ininterrupto desde então. Todos os movimentos de conexão, quer os abordemos na perspectiva da geografia, da comunicação, da ciência, do comércio, da urbanização ou dos agrupamentos políticos, são exatamente o mesmo ato de convergência e de alargamento dos horizontes.

A reconexão da humanidade consigo mesma é acompanhada por um certo número de “revoluções” na demografia, na economia, na organização política, no habitat e nas comunicações que é conceitualmente prático distinguir para fins de exposição, mas que, na realidade, não são mais que diferentes dimensões de um só e único fenômeno de transformação.

Ainda em meados do século X a grande maioria dos seres humanos era rural e entre estes rurais quase todos trabalhavam a terra e criavam animais. A revolução industrial que começou a transformar este estado de coisas surge hoje como início de um processo que conduz à revolução informacional contemporânea. Provavelmente, haverá sempre agricultores e ofícios de transformação da matéria, mas, mesmo nestas atividades, a parte principal tende a caber ao tratamento das informações e das mensagens, à gestão dos signos. Dado que a informática permite automatizar mesmo estas últimas operações, o trabalho humano tende a deslocar-se cada vez mais para o que não é automatizável, nomeadamente a criatividade, a iniciativa, a coordenação e a relação. Os nossos pais eram camponeses, os nossos filhos trabalharão nas nebulosas de

empresas de formação contínua em redeou pertencerão ao terceiro-mundo planetário

10 dos pobres das grandes metrópoles. Os nossos antepassados habitavam no campo, esse lugar bem diferente da cidade, enquanto nós e os nossos descendentes vivemos em zonas urbanas quase sem exterior. Estas zonas estão conectadas umas às outras por densas redes de transporte e de comunicações, unidas por referências econômicas, midiáticas e científicas cada vez mais convergentes, atravessadas pelos mesmos fluxos de turistas, de homens de negócios, de imigrantes, de mercadorias e de informações, irrigadas pelas mesmas redes bancárias, frequentadas pelas mesmas músicas, por revoltas equivalentes, por idênticos sem-teto. Num certo sentido, todas as grandes cidades do planeta são como os diferentes bairros de uma única megalópole virtual.

A revolução demográfica é uma dimensão capital do processo de metamorfose em curso. Embora o crescimento, sobretudo europeu, fosse já muito forte no decurso dos séculos XVIII e XIX (ver a colonização do mundo antigo e o povoamento da América), a quintuplicação, ou mais, do número de homens apenas no decurso do século X representa, em todos os aspectos, um acontecimento excepcional na aventura humana. Esta explosão demográfica foi acompanhada por um desenvolvimento igualmente notável das migrações sazonais ou temporárias, das deslocações de população e da mobilidade humana em geral. Não voltamos a ser nômades como os caçadores coletores, mas já não somos os sedentários do neolítico. O frequente crescimento das nossas viagens, a eficácia e o custo cada vez menor dos nossos meios de transporte e de comunicação, as turbulências das nossas vidas familiares e profissionais fazem-nos explorar progressivamente um terceiro estado, o do “móvel” na sociedade urbana mundial. Esta nova condição de móvel, ao multiplicar as vizinhanças, contribui para o encontro ou para a reconexão da humanidade consigo mesma, que é a característica da fase atual. De fato, uma vez o planeta explorado (no paleolítico), conquistado (no neolítico), posto em relação (nos tempos modernos), o crescimento demográfico já não leva à separação e ao afastamento como no tempo dos caçadores coletores, mas, pelo contrário, à densificação dos contatos à escala planetária.

O progresso das técnicas de transporte e de comunicação é simultaneamente motor e manifestação desta entrada em contato generalizada. Insisto no paralelismo dos transportes e das comunicações, porque o efeito de arrastamento mútuo é constante, fundamental, constatado por toda a parte, enquanto que a substituição do transporte físico pelas transmissões de mensagens é apenas local e temporária. A navegação de longo curso e a imprensa nascem juntas. O desenvolvimento dos correios estimula e utiliza a eficácia bem como a segurança das redes viárias. O telégrafo é difundido ao mesmo tempo que as linhas férreas. O automóvel e o telefone têm destinos paralelos. O rádio e a televisão são contemporâneos do desenvolvimento da aviação e da exploração espacial. Os satélites lançados pelos grandes foguetes estão ao serviço das comunicações. A aventura dos computadores e do ciberespaço acompanha a banalização das viagens e do turismo, o desenvolvimento do transporte aéreo, a extensão das autoestradas e das linhas de trens de alta velocidade. O telefone celular, o computador portátil, a ligação sem fio à Internet, em breve generalizados, mostram que o crescimento da mobilidade física é indissociável do aperfeiçoamento das comunicações.

Um computador e uma ligação telefônica permitem acessar quase todas as informações do mundo, imediatamente ou recorrendo a redes de pessoas capazes de enviar a informação procurada. Esta presença virtual do todo em qualquer ponto talvez tenha um paralelo físico no fato de qualquer edifício de uma grande cidade conter elementos materiais vindos de todas as partes do mundo e que concentram conhecimentos, saber-fazeres, processos de cooperação, uma inteligência coletiva acumulada há séculos e nos quais participaram de uma maneira ou de outra os mais diversos povos.

Os grandes abalos políticos do século X podem ser interpretados como as peripécias da crise de unificação, os sobressaltos de sociedades e de culturas herdeiras da fase de divergência – e habituadas a uma relativa estabilidade – que foram apanhadas no irresistível turbilhão da unificação e da mudança. A Segunda Guerra mundial e a guerra fria foram levadas a cabo para a conquista efetiva de um globo agora suficientemente encurtado para que a noção de império mundial não seja vazia de sentido. Estas duas guerras tinham por objetivo não só a cor nacional do império planetário mas sobretudo o modo de organização da grande colônia humana. No ruído e no furor, sem que nenhum dos campos seja absolutamente “puro”, sem que ninguém saiba exatamente o que está em jogo no conflito, os modos de organização mais poderosos, isto é, os mais livres, os mais abertos, os mais favoráveis à inteligência coletiva e à valorização de todas as qualidades humanas foram escolhidos pela seleção cultural.

É diretamente na corrida ao poder, poder econômico e comercial, poder cientÍfico, poder técnico, poder cultural, poder político, que o movimento de interconexão se enraíza. Ele não vem de um plano divino, exterior ao devir das sociedades humanas; sobe do interior, é endógeno: ele procura e exprime o maior poder. É porque a nossa espécie tende para o poder que ela se interliga e se reúne a si mesma com uma intensidade cada vez mais.

A recente constituição de mega-entidades político-econômicas em escala continental, como a União Europeia, a ALENA na América do Norte, o MERCOSUL na América do Sul, como os agrupamentos que se desenham na Ásia e na zona do Pacífico, apenas iniciam um processo inelutável.

Desde a queda do muro de Berlim, existe apenas um único grande império que domina o mundo: o império não territorial, um império das redes, um centro que faz sentir a sua influência por toda a parte e que arrasta o resto do planeta na sua ascensão para o poder. Pouco importa que este centro esteja aqui ou acolá, distribuído ou concentrado, é um centro virtual, um centro de inteligência coletiva. A humanidade encontra-se pela primeira vez em situação de quase unidade política.

A última década do século X fez-nos ultrapassar um limiar de planetarização notável: fim da bipolarização política mundial, explosão do ciberespaço, aceleração da globalização econômica. O comercio internacional desenvolveu-se. As empresas multinacionais e transnacionais multiplicaram-se e reforçaram-se. A vaga de desregulamentação, de privatização e de dissolução dos monopólios nacionais (nomeadamente nas telecomunicações) fez escapar as estratégias das grandes empresas mundiais ao controle dos Estados. Os capitais dançam à volta do mundo enquanto a integração financeira internacional se concentra.

O movimento de aquisições e de fusões que atinge todos os setores da economia exprime o encurtamento do espaço comum. Não exigimos que os filmes que vemos ou que a comida que comemos tenham sido produzidos no canto da nossa rua. Mas o que é

função haverá apenas quatro ou cinco mega-empresas planetáriascom uma frota

hoje uma nação? O que é senão um aglomerado de casas num dos bairros da megalópole planetária? É neste novo quadro que é necessário compreender o extraordinário movimento de concentração que se observa entre as grandes empresas. Torna-se absurdo que vinte e cinco sociedades de telefone, de automóvel, de aeronáutica ou de distribuição ofereçam o mesmo serviço no mesmo bairro. Brevemente, para cada grande sempre em mutação de pequenas empresas inovadoras à sua volta. A pressão dos consumidores, como a lógica profunda do marketing fará progressivamente destas imensas corporações, “serviços públicos planetários”. Estas empresas deverão seguir o movimento da sociedade do mesmo modo que o conduzirão, caso contrário serão abandonadas por consumidores cada vez mais a par das alternativas possíveis, especialmente graças à Web.

Os economistas que negam a novidade e a importância da fase atual de globalização – e há alguns – aproximando-a da situação que prevalecia antes da Primeira Guerra Mundial enganam-se completamente. É exato que o movimento contemporâneo de interconexão econômico do planeta prolonga uma tendência de vários séculos, que conheceu uma fase temporária de recuo na primeira metade do século X (as guerras mundiais, a emergência dos nacionalismos e a recessão dos anos 30). Mas o desenvolvimento das estradas, do carro individual, das linhas férreas, da aviação, do turismo, dos meios de comunicação, das telecomunicações em geral e do ciberespaço em particular, tal como os avanços do sufrágio universal, a libertação dos costumes, a urbanização crescente e a ascensão da ciência e da técnica, todas estas evoluções produziram uma humanidade infinitamente menor, mais densa, mais rápida, mais comercial, mais consumidora, mais comunicante, mais produtiva, mais inteligente, mais consciente de si mesma e do seu planeta que a do final do século XIX. Nunca estivemos tão perto uns dos outros. Nunca nos misturamos tanto. Nunca houve tantos planetários. Nunca houve juventude mundial, música mundial, cultural mundial como há agora. O final do século X marca um limiar decisivo e irreversível do processo de unificação planetária da espécie humana.

13 CENTRO E PERIFERIA NUM MUNDO INTERCONECTADO

A visão de um mundo interconectado não conduz necessariamente ao irenismo1 mas sim a uma nova apreensão dos conflitos. Efetivamente, só nos batemos com os nossos vizinhos ou, no mínimo, com adversários ao nosso alcance. Geralmente, o inimigo hereditário trava batalha em torno das fronteiras. A etnia detestada vive no mesmo território. A guerra é em larga medida um jogo no espaço e na proximidade, um trabalho topológico: cercar o adversário, separá-lo das suas próprias forças, interromper ou baralhar as suas comunicações, atingi-lo sem ser atingido, etc.

As duas guerras mundiais do século X tinham traduzido o encurtamento do espaço prático mundial. O terrorismo joga na ubiquidade e na midiatização num mundo interconectado.

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