livro a arquitetura nova

livro a arquitetura nova

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1Arquitetura Nova 1Arquitetura Nova

2Pedro Fiori Arantes 2Pedro Fiori Arantes

3Arquitetura Nova

Pedro Fiori Arantes

Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões

Posfácio de Roberto Schwarz

4Pedro Fiori Arantes

EDITORA 34

Editora 34 Ltda. Rua Hungria, 592 Jardim Europa CEP 01455-0 São Paulo - SP Brasil Tel/Fax (1) 3816-6777 editora34@uol.com.br

Copyright © Editora 34 Ltda., 2002 Arquitetura Nova © Pedro Fiori Arantes, 2002

A Editora 34 agradece às seguintes pessoas e instituições pela cessão de imagens reproduzidas neste livro: AD, Amélia Império Hamburger, Beatriz Lefèvre, Cristiano Mascaro, Denise Ivamoto, Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, Fernando Cabral, Fundação Vilanova Artigas, Jorge Hirata, José Moscardi Jr., Júlio Artigas, Marlene Milan Acayaba, MST Leste 1, Nabil Bonduki, Nelson Kon, Reginaldo Ronconi, Ros Kaupatez, Rosa Artigas, Sérgio Ferro, Sociedade Cultural Flávio Império, Usina

Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica: Bracher & Malta Produção Gráfica

Revisão: Alexandre Barbosa de Souza

1ª Edição - 2002

Catalogação na Fonte do Departamento Nacional do Livro (Fundação Biblioteca Nacional, RJ, Brasil)

Arantes, Pedro Fiori

A88aArquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões / Pedro Fiori Arantes; posfácio de Roberto Schwarz. — São Paulo: Ed. 34, 2002. 256 p.

ISBN 85-7326-251-6 Inclui bibliografia.

1. Arquitetura brasileira - História e crítica. 2. Mutirões autogeridos. I. Ferro, Sérgio. I. Império, Flávio. I. Lefèvre, Rodrigo. IV. Artigas, Vilanova. V. Schwarz, Roberto. VI. Título.

CDD - 720.01

5Arquitetura Nova

Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões

1. Artigas e o desenho9
O desenho da casa paulistana12
O desenho industrial30
2.1964: tijolos fora do lugar39
e a tal da Arquitetura Nova49
Arquitetos-pintores-cenógrafos, fazedores52
A Pintura Nova54
Flávio Império encena60
A poética da economia e as abóbadas70
4.1968: o lápis e o fuzil91
Das abóbadas à luta armada: o racha no Fórum de 6891
A resposta de Artigas: o Conjunto Zezinho Magalhães98
5. Crítica, utopia e assalariamento107
O canteiro e o desenho107
Um canteiro-escola130
Sérgio pintor e Rodrigo arquiteto-assalariado142
Flávio nos anos 70156
6. O fio da meada163
Novos personagens entram em cena164
Arquitetos na contramão173
O canteiro e o desenho no mutirão autogerido189
219
Posfácio, Roberto Schwarz225
Cronologias: Flávio, Rodrigo e Sérgio233

6Pedro Fiori Arantes

Agradeço a Jorge Oseki, animado interlocutor e orientador certeiro; a Ângela

Rocha, pela carinhosa co-orientação; a Ana Paula Koury, pesquisadora da Arquitetura Nova, cujo trabalho de mestrado também me foi fundamental; a Amélia Hamburger, pela amizade e inúmeras conversas na Sociedade Cultural Flávio Império; e ao amigo que me fez publicar este trabalho, Sérgio Ferro. Aos atentos leitores-comentadores: Alberto Martins, Roberto Schwarz, Iná Camargo, Nabil Bonduki, Ermínia Maricato, Ivone Mautner, Guilherme Wisnik, Bia Tone, Chico Barros e Luciana Ceron. E também a: Beatriz Lefèvre, Félix Araújo, Célia e Zé Chico Quirino, Fernando Haddad, Leda Paulani, Antônio Carlos e Maria do Carmo Ribeiro, João Marcos Lopes, Joana Barros, Wagner Germano, Reginaldo Ronconi, Alessandro Ventura, Ana Paula Tanaka, Bia Kara, Luciana Royer, Roberto Moura, Patrick Araújo, Téo (Michael), Roberta Asse, Walter Moreira, Paulo Eduardo, Sílvia e Alexandre Fix, e aos funcionários da biblioteca da FAU-USP. Especialmente: a Otília. E muito especialmente: a Mariana.

7Arquitetura Nova

Nada é mais comovente que reatar um fio rompido, completar um projeto truncado, reaver uma identidade perdida, resistir ao terror e lhe sobreviver.

Roberto Schwarz, “O fio da meada”

8Pedro Fiori Arantes 8Pedro Fiori Arantes

9Artigas e o desenho

1. ARTIGAS E O DESENHO

Retornando à FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), depois de dois anos de clandestinidade impostos pelo regime militar, Artigas é recebido com entusiasmo pelos estudantes e convidado a dar a aula inaugural do ano de 1967. O momento é de muita expectativa: pela primeira vez o grande mestre da faculdade iria pronunciar-se publicamente a respeito do golpe de 1964. Estavam todos se perguntando: “O que fazer?”.1

Mas, contrariando a expectativa geral, Artigas decidiu taticamente ignorar a situação política e falar, simplesmente, sobre “O desenho”.2 Apesar de não ter feito um discurso nos termos que o público imaginava, Artigas talvez tenha exposto ali, mais

1 Dalva Thomaz, Um olhar sobre Vilanova Artigas e sua contribuição para a arquitetura brasileira. Dissertação de Mestrado, FAU-USP, 1997, p. 314-5.

2 A aula foi publicada em 1975 pelo GFAU (Grêmio dos Estudantes da FAU-USP), depois em Caminhos da arquitetura (São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1981, reeditado por Cosac & Naify, 2001), e em Vilanova Artigas (São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1997). Segundo Dalva Thomaz, o tema da aula teria sido escolhido por Artigas em função da presença de informantes na primeira fileira. Entretanto, a pesquisadora reconhece que é plausível a atitude de Artigas ter sido determinada pela própria posição do PCB (Partido Comunista Brasileiro), da qual era importante militante: não fazer oposição aberta ao regime.

10Arquitetura Nova do que em qualquer outra oportunidade, o verdadeiro sentido que pretendeu imprimir à arquitetura.3

Artigas inicia a aula na Grécia Antiga, em busca do sentido original da arquitetura. Procurando distingui-la das demais artes e entender por que lhe foi dado “quase sempre um lugar privilegiado na história”, recorre ao conceito de “arte útil” em Platão. A arquitetura, diz ele, por oposição às outras artes, não apenas toma a natureza por “modelo”, mas se adapta a ela para “dominála em proveito do próprio homem”. Sua “utilidade”, no entanto, não pode se restringir ao reino das necessidades materiais, precisa exprimir uma intenção-invenção humana que vá além da “mera construção” e do seu uso imediato. Só assim ela se torna “útil” no sentido platônico: uma “atividade superior da sociedade”, que colabora ativamente para a vida moral e social da República.

A tensão entre necessidade e invenção na arquitetura desdobra-se na contradição conhecida entre arte e técnica. Contradição que permanecerá, segundo Artigas, irresolvida até o Renascimento, quando surge um instrumento novo capaz de lhe dar unidade: o desenho (“disegno”). Leonardo da Vinci, artista disegnatore, aparece nesse momento como o protótipo do arquiteto capaz de reunir, já em sentido moderno, arte e técnica.

Artigas passa, então, a definir o “desenho” a partir de seu duplo caráter: a simultaneidade que articula intenção e realização, fins e meios, desígnio e mediação. O desenho como desígnio é “intenção, propósito, projeto humano no sentido de proposta do espírito”. Ao mesmo tempo, ele só se efetiva porque é mediação necessária entre projeto e obra: “é risco, traçado para expressão de um plano a realizar, linguagem de uma técnica construtiva”.4

3 O ensaio sempre citado “Os caminhos da arquitetura moderna” (1952), a meu ver, tem muito menos interesse para a compreensão da obra de Artigas, uma vez que foi quase integralmente submetido ao dogmatismo do PCB.

4 Na mesma publicação do GFAU, há um texto de Flávio Motta, “De-

11Artigas e o desenho

Com a Revolução Industrial a contradição entre arte e técnica encontra uma nova instabilidade, “transformando-se em crise aguda”. Não por culpa do desenho, ressalva Artigas, mas pelo “aparecimento da máquina, de um lado, e do pensamento romântico, do outro”. Arte e indústria aparecem então em “oposição irredutível”. No final do século XIX configuram-se duas posições antagônicas: de um lado os passadistas que reivindicam uma arte artesanal e, de outro, os homens de espírito moderno que estabelecem as bases do “desenho industrial”. A vitória dos últimos é inequívoca e o novo desenho torna-se capaz de restituir a unidade entre arte e técnica — agora não mais como disegno renascentista mas como design.

A descrição do aparecimento do desenho é simultaneamente a da própria constituição moderna do arquiteto “desenhador”, figura única capaz de determinar, independente dos demais trabalhadores, o sentido da obra. Não por acaso, Artigas irá definir a arquitetura a partir do Desenho e, inequivocamente, adotar o ponto de vista do seu realizador: o Arquiteto — “nós, desenhadores”.

Contudo, e talvez por isso mesmo, Artigas não se preocupa em avaliar quais as dissociações que o desenho — primeiro como disegno e depois o design — irá produzir nos ofícios, no canteiro de obras e na indústria. O que ocorreu na divisão do trabalho com o aparecimento do arquiteto moderno? Quais as relações de produção que tornam possível ao desenho virar um objeto concreto? Estas não-questões da aula de Artigas serão enfrentadas posteriormente por Sérgio Ferro, em seu livro O canteiro e o desenho — uma resposta ao mestre.

senho e emancipação”, também de 1967, que procura investigar as acepções da palavra desenho em inglês: design como projeto e drawing como representação. É inegável a inspiração de Artigas e Flávio Motta no texto de Giulio Carlo Argan, Projeto e destino, de 1961 (São Paulo: Ática, 2001). O mote inicial de Argan, desenho é desígnio, é semelhante ao de Artigas, mas a interpretação do desenho como “reificação” do projeto em destino, está mais próxima daquela de Sérgio Ferro, como veremos mais adiante.

12Arquitetura Nova

Artigas encerra a aula em forma poética: “Ninguém desenha pelo desenho”, mas porque tem “catedrais no pensamento”, e recita Fernando Pessoa: “Quanto faças, supremamente faze”.

Conta-se, aliás, que foi por desenhar muito bem5 que o jovem Artigas acabou sendo convocado por Gregori Warchavchik em 1939 para ser seu sócio no concurso do Paço Municipal de São Paulo. Este encontro, ao que parece “casual”,6 foi importante para Artigas converter-se em arquiteto moderno.

Até então, trabalhara como estagiário no escritório de Oswaldo Bratke, onde aprendera “a fazer tudo direitinho”, e desde 1937 possuía uma pequena construtora com o sócio Duílio Marone. Suas casas repetiam as de Bratke, eram sólidas e bem executadas, seguindo “variações ecléticas” ao gosto da burguesia local. De acordo com Artigas, o trabalho era “puramente comercial” e o seu valor arquitetônico não era maior do que seu preço de mercado.7

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