TEXTO 2 protestantismo-tupiniquim-modernidade-e-democracia-rever TEXTO 2

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Protestantismo Tupiniquim, Modernidade e Democracia: limites e tensões da(s) identidade(s) evangélica(s) no Brasil contemporâneo

Sandro Amadeu Cerveira* [sandroamadeuyahoo.com.br]

Resumo

Esse trabalho pretende apresentar elementos para o debate a respeito da identificação do ser evangélico no Brasil contemporâneo a partir de uma perspectiva político relacional de identidade. Exploramos alguns elementos sociológicos comuns à maioria das comunidades evangélicas, analisados utilizando a noção de seita como concebida por Weber e Troeltsch. Sem pretensões de descrever minuciosa e exaustivamente os elementos litúrgicos ou doutrinários das muitas denominações evangélicas, propõe-se que essa forma específica de organização eclesiástica sectária, marcada pelo conversionismo, denominacionalismo e condição minoritária, deve ser levada em consideração no esforço analítico sobre a identidade evangélica no Brasil. O foco do trabalho, portanto, concentra-se na interação entre o jogo de forças envolvido na construção dessa identidade e os processos de modernização e democratização.

Palavras-chave: evangélicos, identidade, seita, modernização, democracia.

Abstract

This paper presents elements concerning the debate on evangelical identification in contemporary Brazil, based upon both a political and relational perspective of identity. We explore some of the sociological elements common to a majority of evangelical communities, analyzing them using the concept of sect as conceived by Weber and Troeltsch. Without the intention of describing meticulously and exhaustively the liturgical or doctrinal elements of the various evangelical denominations, we intend to state that this specific form of sectarian ecclesiastical organization, marked by conversionism, denominationalism and its minority status, must be taken into account as part of the analytical effort concerning evangelical identity in Brazil. The focus of this paper, therefore, concentrates on the interaction between

*Sandro Amadeu Cerveira é licenciado em História e doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais.

the power plays involved in the construction of this identity and the process of modernization and democratization..

Keywords: evangelicals, identity, sect, modernization, democracy.

Introdução

A presença dos evangélicos na arena pública brasileira é hoje um fenômeno consolidado. Segundo o IBGE o contingente de adeptos era, em 2000, de 26 milhões de pessoas, ou seja, 15,45 % da população brasileira. Os evangélicos estavam crescendo até então a uma taxa de 7,9% ao ano e praticamente duplicaram entre 1991 e 2000. Em alguns Estados os percentuais são ainda maiores: Rio de Janeiro (21%), Espírito Santo (27,5%) e Rondônia (27,7%). A força das instituições evangélicas se expressa também em sua presença nos meios de comunicação de massa, nos esportes e na política institucional. Da Constituinte à eleição de Lula, o peso político da chamada Bancada Evangélica tem se feito sentir. Impressiona seu peso efetivo e simbólico, sobretudo se comparado com a trajetória dos protestantes em outros países de tradição católica e presença evangélica mais recente. O impacto dessa presença tem sido acompanhado freqüentemente por uma curiosidade que,, por vezes raia a perplexidade em relação a quem seriam e o que desejariam os evangélicos.

O objetivo desse trabalho se insere modestamente nesse grande tema. Pretende-se contribuir ao debate sobre quem são os evangélicos mediante uma análise sócio-histórica de elementos da configuração institucional evangélica brasileira com foco em alguns aspectos comuns à grande maioria das igrejas evangélicas brasileiras desde que o chamado protestantismo de missão lançou suas raízes em solo nacional.

Para os fins desse trabalho, recorro à literatura já abundante no Brasil sobre os evangélicos, como, por exemplo, Freston, Pierucci, Mariano, Oro, Buriti, Machado entre outros, assim como a fontes primárias recolhidas durante pesquisa como integrante do Grupo de Historia Oral da FAFICH/UFMG e no desenvolvimento do mestrado em ciência política também na Universidade Federal de Minas Gerais. As fontes primárias consistem basicamente de fontes orais, como entrevistas semi-estruturadas com lideranças evangélicas, escritas como

documentação das próprias igrejas e organizações evangélicas, além de observação a cultos, encontros, seminários, congressos e reuniões em geral.

Quem são os evangélicos?

radical ao conceito de identidade, sugerindo que: “a identidade não corresponderia a

Ao falar de identidade nos afastamos de uma perspectiva essencialista em relação a essa categoria e nos aproximamos do que seria um olhar político relacional. Monteiro (1997) situa a passagem de uma visão centrada na essência para uma visão preocupada com as relações do grupo, sobretudo as que se dão nas fronteiras, a partir do seminário dirigido por Lévi-Strauss no College de France, em 1974-75. O próprio Lévi-Strauss faz uma crítica nenhuma experiência substantiva, mas seria um foco virtual, um esforço de construção indispensável à explicação, mas cuja existência seria puramente teórica” (Monteiro,1997: 62).

Assim, as identidades não resultam espontaneamente do pertencimento empírico a uma cultura.

Seriam ao contrário, conseqüência de um processo simbólico de autodesignação de traços culturais (...) que retira sua inspiração de um repertório cultural disponível (próprio ou alheio). (...) a identidade não é mais definida como um modo de ser cuja natureza profunda é preciso revelar, mas como um jogo simbólico no qual a eficácia depende do manejo competente de elementos culturais. (Monteiro, 1997: 63)

A noção de identidade como defendida por Monteiro (1996) tem sido mobilizada em particular quando o objeto são os grupos indígenas brasileiros. O vigor dessa categoria, assim delineada está justamente na possibilidade de se analisar grupos fragmentados e minoritários que eventualmente vem à arena pública demandar reconhecimento, direitos e recursos.

Os evangélicos no Brasil não possuem assim como os católicos, por exemplo, um centro institucional autorizado a falar em seu nome; tampouco possuem uma homogeneidade doutrinária, litúrgica ou mesmo de costumes e tradições capaz de ser utilizada como senha

única de identidade. Some-se a isso o conhecido afã competitivo dos evangélicos na busca de novos adeptos; competição com as religiões afro-brasileiras e com o catolicismo, mas também entre os próprios grupos evangélicos numa guerra mais ou menos santa, mais ou menos intensa. Por fim, também é correto dizer que apesar do crescimento dos evangélicos estes continuam sendo grupos minoritários, pouco conhecidos em suas particularidades, diante de uma população majoritariamente católica, ainda que nominalmente.

Embora não se negue, ou desconsidere, a presença de elementos doutrinários comuns entre os diferentes tipos de evangélicos optamos por dar prioridade nesse trabalho a algumas características relacionadas com a formatação social em interação com as demais esferas sociais. Esses elementos são típicos, ainda que não exclusivos de grupos religiosos com uma formatação que Weber (1979) e Troeltsch (1956) chamaram de seitas em contraste com as igrejas.

A clássica tipologia opõe dois grandes modelos organizacionais dos quais destaco apenas alguns elementos por considerá-los centrais. A Igreja seria marcada, entre outras coisas, por sua superioridade numérica, abrangência que em geral coincide com um território e/ou etnia e por alguma forma de adesão presumida pelo nascimento. As seitas, por sua vez, se caracterizariam por ser uma parte (secta) de/ou em relação a um grupo religioso maior, por uma abrangência restrita em termos territoriais ou étnicos e por uma adesão voluntária.

É desnecessário lembrar que para a sociologia da religião essas categorias não possuem o peso normativo e pejorativo que o senso comum ou a apologia religiosa lhe atribuem. É importante, porém destacar, que embora exista um interessante debate sobre a validade e vigor dessas categorias para analisar os fenômenos religiosos contemporaneamente o detalhamento dessa discussão extrapolaria os limites desse trabalho. De qualquer forma a relevância dos tipos ideais não está em que eles descrevam cada caso concreto a ponto de coincidir com os casos empíricos senão que nos forneçam marcos racionais úteis em termos descritivos ou explicativos.

Em termos sociológicos, a grande maioria das organizações evangélicas pode ser considerada sim como seita. De fato a totalidade das denominações evangélicas que estão se expandindo podem ser assim definidas. É necessário levar em conta esse formato tão

marcante entre os protestantes de missão, pentecostais e neopentecostais ao abordar o jogo de forças em torno da identidade evangélica. Destaco três características comuns às denominações evangélicas: conversionismo, denominacionalismo e sua condição minoritária. Proponho que essas características têm implicações importantes exatamente por afetarem não só as relações dos evangélicos entre si, mas, sobretudo pelas conseqüências no processo de interação com os “de fora” sejam eles outras religiões, a sociedade em geral ou o próprio Estado nacional.

Você já aceitou Jesus?

A discussão clássica sobre a relação entre protestantismo e modernidade passa ainda, segundo o teórico alemão E. Troeltsch, pelo caminho do indivíduo. Para esse autor, o vínculo forte do protestantismo com a modernidade está relacionado, sobretudo, com o papel fundamental atribuído ao indivíduo no protestantismo em detrimento da comunidade.

O historiador brasileiro Antônio Gouveia de Mendonça (Mendonça; Velasques, 1990) ecoa a análise do teórico alemão. Para ele, o deslocamento de autoridade promovido pelo protestantismo está na raiz de seu “contínuo divisionismo”. A preponderância do indivíduo, já presente na Reforma alemã, potencializada na Reforma radical e exacerbada pelos dissinters ingleses, marcou o protestantismo de forma indelével. É necessário mencionar que o protestantismo mantém um processo de alimentação mútuo com a modernidade, e está, ligado ao iluminismo e mesmo ao renascimento (Dreher, 1999).

Ao discutir a afinidade histórica entre protestantismo e modernidade é preciso evitar anacronismos. O individualismo contemporâneo, com toda sua carga normativa, não estava presente nem mesmo nos mais “avançados” grupos da reforma. A convergência estaria, segundo Mendonça em consonância com Troeltsch, na ênfase na liberdade do indivíduo, para se relacionar com o divino e para ler e interpretar os textos sagrados à revelia de uma autoridade eclesiástica central. Esta marca profunda do protestantismo ainda se faz presente no protestantismo moderno não por algum “vanguardismo” religioso, mas por ser esta uma característica ainda comum aos evangélicos, somada à configuração sociológica de seita ocidental que ainda marca as igrejas evangélicas brasileiras em sua grande maioria.

Segundo Stuart Mill , a razão da defesa de liberdade individual tornou-se uma necessidade decorrente justamente da falta de unidade religiosa e da impossibilidade de qualquer grupo religioso se tornar hegemônico.

Aqueles que primeiro quebraram o jugo daquilo que se auto-intitulava a Igreja Universal em geral estavam tão pouco inclinados a admitir a diferença de opinião quanto àquela própria igreja. Mas quando passou o calor do conflito, sem dar uma vitória completa a qualquer das facções, e cada igreja ou seita foi levada a limitar suas esperanças de manter a posse do terreno que já havia ocupado, as minorias, percebendo que não tinham nenhuma chance de se tornar maiorias, viram-se na necessidade de implorar àqueles, aos quais não puderam converter, a permissão para diferir. Conseqüentemente, é quase exclusivamente sobre este campo de batalha que os direitos do indivíduo contra a sociedade têm sido afirmados sobre amplas bases de princípio e que a pretensão da sociedade em exercer a autoridade sobre os dissidentes tem sido abertamente contestada (Mill1 apud Wefort, 2003: 205,206).

Robert N. Bellah recupera a análise weberiana no mesmo sentido, falando da importância e afirmando, esta sim, a precedência da luta pela liberdade religiosa para cada indivíduo como a matriz de todas as demais liberdades.

Muito importante nos batistas e em outros sectários como os quakers foi a absoluta centralidade da liberdade de religião, do caráter sagrado da consciência individual em matéria de credo religioso. Geralmente pensamos em liberdade de religião como um entre os muitos tipos de liberdade, de direitos humanos, declarados durante o Iluminismo europeu, os quais tiveram repercussão no mundo desde então. Entretanto, Georg Jellinek, amigo e professor de Weber nesses assuntos, publicou um livro em 1895 intitulado Die Erklärung der Menschen-und Bürgerrechte, traduzido para o inglês em 1901 sob o título The declaration of the rights of man and of citzens (Nova York: Holt, 1901), em que argumentava que a fonte fundamental de todas as noções modernas de direitos

1MILL, J.S. Utilitarism, on liberty and representative government.London, Dent & Sons, 1968. p.122-218. Tradução de Cid Knipell Moreira.

humanos se encontra nas seitas radicais da Reforma Protestante, particularmente entre os quakers e os batistas (Souza, 1999: 299).

Bellah cita a seguinte passagem de Economia e Sociedade, em que Weber referenda essa hipótese.

Assim a seita consistente ocasionou um direito pessoal inalienável do governado contra qualquer poder político, hierocrático ou patriarcal. Tal liberdade de consciência pode ter sido o mais antigo direito do homem- como Jellinek argumentou, convincentemente, trata-se, de toda maneira do direito mais básico do homem, por compreender toda ação eticamente condicionada e por garantir a liberdade frente à compulsão, especialmente por parte do poder do Estado. O conceito era desconhecido, nesse sentido, na Antigüidade, na Idade Média e também para Rousseau (Souza, 1999: 299).

A relação entre protestantismo e individualismo seria então uma decorrência necessária da forma como o protestantismo se constitui em contraponto ao catolicismo, uma religião de pretensões universais e exclusivistas em meio à formação dos estados nacionais.

No século XIX, o ideário liberal estava em alta., havia um otimismo fruto das vitórias das revoluções liberais do século XVIII, mas sobretudo em virtude dos resultados políticos na Inglaterra e despontando rapidamente nos Estados Unidos. A crença na modernidade associada ao protestantismo era a crença dos liberais brasileiros, assim como dos primeiros protestantes que aqui aportaram. A conjunção liberalismo, maçonaria e protestantismo, analisada por Vieira (1980), aponta para esse otimismo. O investimento em colégios, as inovações educacionais e a aproximação com políticos como Rui Barbosa, endossaram essa perspectiva. Vieram, entretanto, os anos trinta e o liberalismo entra em declínio. Nazismo, fascismo, stalinismo e até mesmo o Welfare State pareciam indicar que o sonho do liberalismo pleno não só não era possível como não era desejável. O protestantismo brasileiro crescia numericamente de forma tímida e não trouxe o impacto em termos macrosociais esperados. Por outro lado, o protestantismo real parecia bastante conservador do ponto de vista político e social, sobretudo por seu caráter sectário, esvaecendo o ideal de um protestantismo efetivamente moderno. Atualmente, críticas advindas do próprio mundo

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