afetos celebrados

afetos celebrados

AFETOS CELEBRADOS

uma viagem contemporânea pelo mundo dos ex-votos.

Suyan Sant’Anna Baptista de Mattos

Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central/FACIPLAC e Secretaria da Educação/SEDF

Pós-doutorado em Artes - Universidade de Buenos Aires/UBA, doutorado em História da Arte, Universidade Nacional Autônoma de México/UNAM, mestrado em Artes Visuais, Universidade Nacional Autônoma de México/UNAM. Apresentou várias conferências e oficinas em congressos e simpósios no Brasil, Argentina e México. Participou de várias exposições coletivas e individuais no Brasil, México, Espanha, Argentina, Holanda e Hong Kong.

No ano passado, 2008, o “Projeto Re(vi)vendo Êxodos/ Roteiro Missão Cruls: Centenário de Guimarães Rosa”1 convidou-me para ministrar uma oficina acompanhada por uma breve palestra a respeito dos ex-votos na Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Matosinhos, interior do estado de Minas Gerais. O resultado deste convite provocou-me uma vontade de sentar e escrever a respeito do que foi feito. Por meio de  fotografias e vídeo registrei momentos líricos promovendo uma vontade de exposição e divulgação.

Antes de seguir, é necessário conceituar o ex-voto. Conceito difícil, ainda mais hoje, com tantas mudanças sociais, tecnológicas, econômicas, enfim, culturais. Ao longo desta dissertação, se fará necessário pontuar o que é um ex-voto, pois ao ritmo acelerado de uma contemporaneidade, este conceito sempre está em constante mudança, sempre agregando novos fatores.

O ex-voto é uma oferenda de testemunho público de agradecimento feita a santos de particular devoção por ter recebido uma graça ou um milagre. Suas representações acontecem de várias formas: iconográfica (pintura ou fotografia), escultórica, inscrições em tábuas, mármores ou outro material considerado nobre.

Com o tema elegido, ex-voto, fui a busca de material tanto material como imaterial: a busca de uma religiosidade presente numa cultura considerada múltipla e diversa.

Percebe que a produção dos ex-votos mudaram, tanto na literatura como no suporte apresentado, como testemunha Juliana Barreto Farias. Antes, tínhamos os “fazedores de carta”, profissionais que documentavam as histórias para os pagadores de promessas. Podemos afirmar que os ex-votos foram e continuam efêmeros, seguimos afirmando que eles são advindos de um cotidiano atual e ao serem colocados na sala de milagre, eles se transformam, passam a pertencer a outro mundo e passam a ter outro significado, pois são descolados do seu contexto (muletas, óculos, roupas, sapatos, etc).

  Os pedidos variam conforme a necessidade do humano e do espírito, desde evitar uma ameaça de morte, curar uma doença, evitar perigos, transformando estas ações em milagres que salvam. Alcançado o desejo, registra-se por meio de legenda a narrativa do milagre e a identificação do agraciado e do agraciador, bens pessoais, elementos simbólicos como velas e flores, cruzes usadas em peregrinações; enfim, uma propriedade de elementos materiais com apreço pessoal, poético e simbólico.

Atualmente, a prática do ex-voto diminuiu muito por questões ligadas tanto a tecnologia como a religiosidade. Com o advento da fotografia e do ex-voto de cera semi-industrializada, desapareceu a preocupação de apresentar uma obra estética. O ex-voto perdeu em valor artístico, mas não deixou de ter um grande significado como forma de expressão da religiosidade, fé e esperança de uma sociedade conhecida como crente em seus santos e na concretização dos seus pedidos.

Por conta da presença do uso e fabrico do ex-votos numa classe menos economicamente favorecida, podemos nos ater que muitos dos ex-votos podem se apresentar numa forma artística, por conta da incapacidade do devoto contratar alguém para faze-lo ou mesmo comprá-lo.

A museóloga Maria Augusta Machado da Silva, em seu livro “Ex-votos e orantes no Brasil”, classifica os ex-votos em duas categorias vinculadas a distintos processos culturais. A primeira é a mágica, que corresponde a estágios primários de relacionamento com a divindade ou seus agentes. A segunda é a mágico-religiosa, que tem como forma de expressão a paraliturgia popular. (SILVA, 1981, p. 67)

Para alcançar o resultado apresentado, a fabricação de um grande ex-voto (tapete/manto) com o objetivo da agradecer ao Alto o logro do projeto Re(vi)vendo Êxodos, ofereci aos alunos material que permeasse o mundo do religioso a partir de uma poética lírica e feminina. Tesouras, alfinetes, cianinhas, rendas, fitas, tecidos e plásticos bordados foram somados a bilhetes, papéis desenhados pelos alunos com os seus pedidos como também a objetos pessoais. A cola e a agulha fazem  o papel do sacro e do profano, a ser pensado em sentido outro que não o litúrgico: seja ela fé messiânica, angústia, erotismo ou riso - em livre jogo de velar e desvelar.

Este par sagrado/profano se justifica com o desejo de festa, de festar do devoto, que tem uma visão de mundo conectada ao mistério, ao mágico, a graça do alcance do milagre, a concretização da promessa pedido. Geralmente a desobriga (colocação do ex-votos num determinado local da sala de milagre que uma igreja tem) é feita em dias santos, em dias de festas, assim a presença do sagrado com o profano.

Houve a necessidade de escolher um lugar para expor este grande ex-voto (tapete/manto) e assim o fizemos: escolhemos a sala de milagres (a maior parte das igrejas tem um recito onde as pessoas podem depositar os seus ex-votos), materialidade da graça e da produção artística contemporânea. A apresentação é um acúmulo de pedidos fragmentados, retalhos de desejos individuais, coletivos, diversos em costuras, bordados, alinhavos de crença em eternizar em ex-voto. Oração visual que se fez escutar ao olhar, imprimindo no observador uma sensação de estar parado frente a uma ruidosa/silenciosa procissão de fé. Buscar o sagrado no profano, a partir do livre, do autônomo, despido de todo e qualquer conceito anterior, provocando um estranhamento e uma perplexidade no ocidental e no moderno. Sagrado e profano em relações intercambiáveis se permeiam, mesclam-se.

Objetivo da oficina/palestra e concretização do ex-voto tapete/manto: experienciar o sagrado em sitios profanos, vivenciar o sublime. A arte se firma como espaço sagrado por constituir-se força capaz de mover afetos, pela perenidade que confere a produções e pensamentos humanos, e, especialmente, pela potência estética e poética em múltiplas re-significações que inúmeras vezes, ao estreitar a distância que nos separa do sublime, reaproxima-nos de nós.

  

A finalização do trabalho tapete/manto se enche de visualidade, é uma assemblage na sala de milagre. Objeto plástico que alcança a fé, modo de ver e se relacionar com o que é sagrado e próprio a cada ser, produto da própria experiência de cada aluno, de cada membro da sociedade de Matosinhos. O saber fazer, o fabricar une pensamentos diferentes, pois são pessoas diferentes, são pessoas do urbano se encontrando com o local, unidas na costura.

   O tapete/manto produzido pelos alunos da Caminhada lança um debate sobre a prática da religiosidade popular que vem se intensificando na contemporaneidade, seja para glorificá-la, ressaltando o seu caráter libertador, seja para exorcizá-la como pouco ortodoxa, do ponto de vista teológico, ou alienada sob outros prismas.

Algumas tendências tratam as manifestações populares como processos ligados ao religioso independentes das relações sociais nas quais estão inseridas. E o fabricar deste tapete/manto induziu a um “festar”, ligado ao mundo da graça e do milagre, pois foi almejado o pedido. Remeto o ex-voto a questão do simbólico e o seu fazer também, pois ele é lido, escrito e interpretado num mundo em que a percepção visual e táctil precisam explicar a comunicação do crente e do divino. Já que a própria expressão "sala de milagres" conduz o pensamento a "promessas". 

Como a disposição dos objetos colocados na sala de milagre segue uma organização necessária aos seus devotos. Necessitei também de organizar a nossa sala de milagre: pendurei o nosso tapete/manto na parede de frente a entrada, possibilitando que o visitante possa desfrutar daquela visão produzida por eles mesmos, confirmando uma representatividade do ambiente e de seus elementos plásticos. O nosso ex-voto define-se como objeto matéria participando como testemunha ao desejo do outro que aqui é a caminhada do Projeto Re(vi)vendo Êxodos.

O nosso ex-voto foi colocado em local público e com acesso coletivo, a Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Matosinhos/MG e apresenta uma série de formas testemunhais: os alunos/comunidade/devotos entrelaçaram o tecido poeticamente, constituindo num só tempo, o universal e o particular. São tesouras, agulhas, cianinhas, rendas conduzindo imagens sagradas e profanas, já que unindo a este universo, foi costurado bilhetes, cartas, cartões no tapete/manto. É a materialidade da produção artística contemporânea. São retalhos de histórias individuais cozendo o silêncio do saber fazer, em alinhavos de fé, eternizando uma oração plástica que é o ex-voto/tapete/manto.

O homem tem necessidade de fazer uso de símbolos ou signos para expressar o que for necessário no seu espaço de vivência A partir dos dados de Eco, pode-se remeter ao ex-voto a questão sígnica e simbólica. Isso implica a noção de documento-testemunho, pois a semiologia permite ler, desvendar o aspecto signológico dos objetos. Assim, o ex-voto‚ nas formas escrita, artística – em bi e tridimensão do documento –, enfim uma infinidade de "coisas" (objetos) passíveis de serem lidas e interpretadas, um mundo em que a percepção visual e táctil reserva para a codificação-explicação da comunicação entre o crente e a divindade.

A disposição que demos ao nosso ex-voto, tapete/manto, foi calculada para que o público ao entrar na igreja pude-se vê-lo em sua plenitude e que representasse o ambiente como um lugar sagrado e de constante movimento, já que a segunda proposta da oficina/palestra era o cumprimento da continuação da fabrição do tapete/manto, ex-voto.

O nosso ex-voto, tapete/manto, transforma também em um registro social, um testemunho histórico. Passa a ter um caráter comunicativo. É claro o poder simbólico que traz em sua forma, em sua textura, em sua essência perpetua um caráter signíco proporcionado por uma dialética do fazer. Assim, proponho que analizem este tapete/manto como uma pesquisa cultural, respaldado em histórias de fé e religiosidade, não necessariamente a católica.

Tapete/manto produzido pela comunidade de Morrinhos junto com os estudantes do Centro de Ensino Médio Setor Leste por ocasião do projeto Re(vi)vendo Êxodos / Roteiro Missão Cruls: Centenário de Guimarães Rosa.

Referências

ARAÚJO, Iaperí. Elementos da arte popular. Natal: UFRN. Ed. Universitária, 1985.

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BARROS, Souza. Arte, folclore e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: MEC/Civilização Brasileira, 1977.

BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo:Cultrix, 1972.

BATAILLE, Georges. A Experiência Interior. Tradução de Celso Libânio Coutinho et ali. São Paulo, Editora Ática, 1992.

BENJAMIN, Walter. O autor como produtor. In Walter Benjamin: Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

CERTEAU, Michael de. A Invenção do Cotidiano. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

CHARTIER, Roger. Cultura Popular - revisando um conceito historiográfico. Estudos Históricas. Rio de Janeiro, v.8, n. 16, 1995.

CANCLINI, Nestor Garcia. As culturas populares no capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1983.

COSAC , Charles. Hábitos Estranhos . In: Farnese Objetos . São Paulo: Cosac naify, 2005.

CHARTIER, Roger. Cultura Popular - revisando um conceito historiográfico. Estudos Históricas. Rio de Janeiro, v.8, n. 16, 1995.

CRAVO NETO, Mario. Ex-voto. São Paulo, 1986.

DELEUZE, Gilles. Proust e os Signos. São Paulo: Ed. 34, 2003.

DERRIDA, Jacques. A Farmácia de Platão . Trad. Rogério da Costa. São Paulo: Iluminuras, 2005.

ECO, Umberto. O Signo. Lisboa: Progresso, 1977.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano . Trad. Rogério Fernandes. São Paulo. Ed Martins Fontes, 1999.

FARNESE DE ANDRADE. A Grande Alegria. In: Farnese Objetos . São Paulo: Cosac naify, 2005.

FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978.

FISHER, Ernst. A necessidade da arte. 8 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. 253 p.

GOMES, Alair O. Os Espaços do Sonho. In: Revista Cultura – Ano 2 – nº 7 julho a setembro de 1972.

Milagres do cotidiano”de Guilherme Pereira das Neves, “A fé não costuma falhar”de Juliana Barreto Farias e “Tradição reinventada”de Luís Américo Silva Bonfim in Revista História da Biblioteca Nacional, ano 4, no. 41, 02/2009.

LANGER, Suzanne. Filosofia em nova chave. São Paulo: Perspectiva, 1071.

LE GOFF, Jacques e Nora, Pierre. História: novas Abordagens.    Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

SCARANO, Julita. Fé e Milagre, São Paulo, EDUSP/FAPESP, 2004.

TODOROV, Tzvetan. Semiologia e Lingüística. Petrópolis. Vozes. 1971.

1O Projeto Re(vi)vendo Êxodos tem como propósito a formação intelectual de professores, alunos do Centro de Ensino Médio Setor Leste/SEDF e comunidade em geral a partir da teoria e prática de identidade, patrimônio e meio ambiente. O Roteiro Missão Cruls objetiva-se a partir do estímulo, articulação, integração e desenvolvimento das diversas modalidades do turismo por meio de caminhadas, além de reviver o espírito de aventura da Missão liderada por Luiz Cruls como também sedimentar as bases históricas do processo de mudança da capital para o centro do país.

Comentários