personalidade materna e resultados de crianças no psicodiagnóstico interventivo: o que significa mãe suficientemente boa?

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Personalidade materna e resultados de crianças no psicodiagnóstico interventivo: o que significa ‘mãe suficientemente boa’?

Valéria Barbieri

André Jacquemim

Zélia Maria Mendes Biasoli Alves Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto (USP)

A noção de ‘mãe suficientemente boa’, essencial na indicação terapêutica e prognóstica da criança, é cercada por ambigüidades, por exemplo, a disparidade entre as características atribuídas a uma genitora nessas condições e os sucessos reportados por Winnicott na Consulta Terapêutica, de pacientes cujas mães eram deprimidas. A necessidade de definição desse conceito em bases empíricas justificou a execução desta pesquisa, em que seis mães cujos filhos apresentavam comportamentos anti-sociais foram avaliadas pelo Teste de Rorschach, contrapondo-se seus resultados com o sucesso ou fracasso terapêutico deles no Psicodiagnóstico Interventivo. Uma vez que a ‘mãe suficientemente boa’ é aquela que sustenta a melhora da criança, os resultados indicaram que as características maternas associadas ao sucesso do filho consistiram na ausência de prejuízos severos no Controle Pulsional e nos Relacionamentos Interpessoais. Assim, não é necessário que a mãe apresente um funcionamento egóico na plenitude de suas condições para ser classificada nessa categoria.

Palavras-chave: Mãe; psicodiagnóstico; psicoterapia; teste de Rorschach; transtorno de conduta.

Maternal personality and children’s results on the interventive psychodiagnosis: What is the meaning of ‘good-enough mother ’?

The notion of ‘good-enough mother’, essential to children’s therapeutic and prognostic indication, is full of ambiguities e.g. the disparity between the characteristics ascribed to a parent in such conditions and the success on the Therapeutic Consultations of patients whose mothers were depressed, as it was reported by Winnicott. The necessity of defining this concept on empirical data foundations justified this research in which six mothers whose children presented anti-social behaviour were assessed by Rorschach Test, comparing their results with the therapeutic success or failure of their infants in the Interventive Psychodiagnosis. Considering that the ‘good-enough mother’ is that one who supports children’s improvement, the results indicated that maternal characteristics linked to children’s success consisted in absence of severe handicaps on the Control of the Impulses and on the Interpersonal Relationships. Therefore, it is not necessary for a mother to have an ego functioning in its plenitude to be classified in this category.

Key words: Mother; psychodiagnosis; psychotherapy; Rorschach test; conduct disorder.

v. 36, n. 2, p. 117-125, maio/ago. 2005 PSICOPSICOΨΨ

O papel da família no desenvolvimento afetivo infantil é reconhecido há muito tempo na literatura psicológica, especialmente após a introdução do conceito freudiano de série complementar, segundo o qual a etiologia dos transtornos mentais repousaria na herança genética, na vida intra-uterina, no trauma do nascimento mas, sobretudo, nas experiências da criança.

Esse reconhecimento fundamentou teorias de que a patologia infantil seria determinada pelos complexos emocionais da família, dentre elas a do bode expiatório, em que o filho é concebido como receptáculo da enfermidade dos pais (Soifer, 1983). A difusão desse pensamento fez com que permanecesse na Psicologia Clínica a idéia de que crianças doentes apresentariam pais doentes e, assim, não poderiam ser por eles ajudadas.

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O exame de um artigo de Winnicott (1955/1993a) sobre um menino paranóide aponta a possibilidade de muitos enganos terem sido cometidos em nome da aplicação indiscriminada dessa teoria; nele o autor relata como o ambiente familiar dessa criança se transformou em uma espécie de hospital psiquiátrico, também se organizando de maneira paranóide, no qual ela se adaptava bem, até que lhe foi possível voltar ao normal. Nessa situação a consonância entre a patologia infantil e a familiar significava que os pais empregavam os próprios recursos, inclusive sua capacidade regressiva, para atender às necessidades do filho e auxiliá-lo na retomada do seu desenvolvimento.

A possibilidade de contar com a família como um aliado ou agente terapêutico foi explorada em dois estudos psicanalíticos; o primeiro, clássico, refere-se à análise do pequeno Hans (Freud, 1909/1976) em que, devido à inviabilidade de assistir pessoalmente seu paciente, Freud utilizou-se do pai dele como intermediário no tratamento. O segundo diz respeito à Consulta Terapêutica (Winnicott, 1971/1984) que, além de proporcionar à criança um espaço de auto-expressão, que permite realizar um diagnóstico dinâmico, inclui entrevistas devolutivas’ com os pais, seguidas de orientação. Após esse processo a criança é dispensada, sendo marcados retornos espaçados para acompanhar a evolução do caso, prescindindo da necessidade de um vínculo contínuo e duradouro com o profissional.

A despeito de seus fundamentos teóricos e resultados positivos, a Consulta Terapêutica esbarra no problema da impossibilidade de os pais ajudarem seu filho, quando a patologia dele for expressão da familiar. Consciente dessa dificuldade, Winnicott (1071/1984) asseverou que embora seja possível fazer um trabalho eficaz mesmo com crianças muito doentes, esse método é contra-indicado se o paciente vive em uma situação social ou familiar anormal, que não lhe fornece a provisão que necessita; nos demais casos, poder-se-ia confiar em um ‘ambiente desejável médio’ ou ‘suficientemente bom’, capaz de utilizar as mudanças que ocorrem na criança durante a consulta como indicativas da anulação da dificuldade.

A conceituação de ‘ambiente desejável médio’ aparece de forma esparsa na teoria winnicottiana, pela designação de algumas qualidades à ‘mãe suficientemente boa’. A despeito dessa ênfase nos predicados maternos não se pode dizer que Winnicott tenha negligenciado o papel do pai, o que é atestado em seus escritos sobre o tema (Winnicott, 1945/1982), e nos de simpatizantes de sua obra que organizaram e ampliaram seu pensamento a esse respeito, como Outeiral (1997), Houzel (2000) e Rosenfeld (2000). Como a consideração conjunta das características das mães e dos pais ‘suficientemente bons’ é complexa a ponto de inviabilizar sua abordagem em profundidade no escopo de um único artigo científico, será priorizado neste estudo a análise dos atributos maternos.

As características da ‘mãe suficientemente boa’ que podem ser depreendidas da obra de Winnicott e de psicanalistas que se ocuparam do tema, se modificam conforme os estágios de desenvolvimento do bebê, podendo ser sistematizadas como se segue.

Estágio de Dependência Absoluta: ante o predomínio do auto-erotismo, do processo primário de pensamento e dos relacionamentos de natureza subjetiva no bebê, é papel da mãe oferecer-lhe holding, que implica no prosseguimento da provisão fisiológica intra-uterina e no estabelecimento de uma rotina de cuidados que produzem nele o sentimento de ter uma existência contínua. Esse sentimento também se desenvolve com base nas experiências de ilusão quando a mãe, ao se ajustar aos objetos que o bebê cria impelido pela necessidade, vai ao encontro de sua onipotência, proporcionando-lhe a sensação de que a realidade é gerada por ele. Paralelamente, ela introduz o mundo externo ao filho, de acordo com suas condições de assimilá-lo, auxiliando-o a adquirir seu sentido de self e iniciar as tarefas de integração, personalização e realização.

A mãe do recém-nascido é auxiliada no cumprimento dessas funções pela preocupação materna primária, que se desenvolve ao final da gravidez (Winnicott, 1956/1993b) e que, segundo Geissman (2000), pressupõe a identificação da mulher com o bebê e com sua própria mãe. Portanto, a natureza da figura materna que ela dispõe é influência importante na qualidade do cuidado que oferecerá. No final dessa etapa a função da mãe é desiludir o filho capacitando-o para o desmame e alcance do próximo estágio de desenvolvimento, quando o pai lhe será apresentado, mas de maneira mediada por ela e, portanto, dependente da qualidade da sua figura paterna.

Estágio de Dependência Relativa: capaz de maior integração no tempo, de viver sem a completa fusão com a mãe e de uma simbolização mais desenvolvida, o bebê pode ingressar na área de conciliação entre as realidades interna e externa e fazer uso do objeto transicional. Este, significando ao mesmo tempo separação e união, permite que o bebê preencha o espaço vazio entre o seu corpo e o da mãe (períodos de ausência dela), estando assim preparado para o desmame. Para tanto, é necessário que a criança disponha de um objeto interno vivo e suficientemente bom e, sendo a integração do self ainda precária, as qualidades dele dependem das características do objeto externo (Winnicott, 1951/1993c).

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Embora Winnicott atribua a tarefa do desmame à mãe, Furman (2000) defende que é o bebê quem toma a iniciativa e rejeita ativamente o seio, logo que consegue diferenciar entre o objeto e o investimento libidinal nele realizado. Por conseguinte, é o bebê que desilude a mãe e não o contrário, sendo que a reação dela a essa experiência determinará a atitude da criança diante do crescimento. A aptidão materna para suportar essa desilusão foi denominada por Furman como a capacidade de ‘être lá pour être quittée’, sendo que se a mãe se sentir muito magoada porque o bebê a rejeita, ele perderá a chance de descobrir que crescer não é um processo arriscado nem maldoso para com ela, de modo a colocar a relação em perigo. Essa habilidade assemelha-se ao conceito winnicottiano da ‘capacidade para estar só’ (Winnicott, 1958/1990), que implica na integração da personalidade e na presença de um objeto interno bom e consistente, que proporciona ao indivíduo auto-suficiência para viver na ausência de objetos externos. Portanto, a capacidade materna para a transicionalidade (brincar e sonhar, preenchendo o espaço entre si mesma e o bebê) é preditora de sua disposição para deixar o filho crescer. Ainda, como a maior integração pulsional dessa etapa promove o sentimento de culpa ou de preocupação, a sobrevivência da mãe é crucial, bem como suas condições de aceitar as restituições do bebê, o que o tornaria confiante na própria capacidade reparadora e livre para utilizar as pulsões.

Estágio de Rumo à Independência: a maior integração da personalidade e a crescente constituição da realidade externa limitam a onipotência dos períodos anteriores, e permitem à criança ir prescindindo do cuidado materno real por meio da introjeção dele e da projeção de suas necessidades pessoais. Como os conflitos principais deste período gravitam em torno do Complexo de Édipo, a criança se depara com o problema de desenvolver defesas para a contenção e manejo da ansiedade de castração, da ambivalência, dos sentimentos de exclusão e para prosseguir na aquisição de sua identidade sexual, sendo esse o setor em que a mãe (e também o pai) poderia ajudá-la. Portanto, o auxílio a ser proporcionado pelos pais dependeria de suas próprias condições defensivas, da aceitação de sua identidade sexual e da transformação de seus sentimentos de rivalidade em solidariedade.

A análise dos pontos de vista de Winnicott, Furman e Geissman permite concluir que as características maternas promotoras do desenvolvimento infantil harmonioso consistiriam em: dispor de uma figura materna boa e forte como objeto de identificação; dispor de uma figura paterna boa e preservada; ter sido suficientemente iludida; capacidade para a transicionalidade; capacidade para regredir e retornar da regressão; flexibilidade defensiva; aceitação da própria identidade sexual; apresentar pulsões integradas ao self; boa elaboração edípica; capacidade de contenção das angústias e apresentar superego fundado em bases realistas. De modo sintético, a caracterização da ‘mãe suficientemente boa’ vincular-se-ia à qualidade dos seus objetos internos (paterno e materno) e à natureza do seu ego e superego.

Essa listagem de predicados, demasiado ideal, colide com a assertiva de Winnicott (1971/1984) de que a ‘mãe suficientemente boa’ é a ‘devotada’, ‘comum’. O assunto torna-se ainda mais complexo quando se verifica que, na Consulta Terapêutica ele obteve êxitos com crianças cujas mães apresentavam traços depressivos ou, ao menos, evidência de uma imago morta em sua realidade psíquica, sugerindo que a despeito da consistência e clareza teórica do conceito de ‘mãe suficientemente boa’, na prática existem várias indefinições.

A ambigüidade que paira sobre esse conceito, acrescida da observação sobre a dificuldade de avaliar a qualidade do meio externo da criança (Winnicott, 1971/1984), justificam a realização de um estudo visando sua definição a partir de dados empíricos, já que ele é elemento essencial para a indicação terapêutica e enunciação do prognóstico da criança.

Partindo da premissa de que a ‘mãe suficientemente boa’ é aquela que coopera para promover e sustentar a melhora da criança, esta pesquisa averiguou a existência de associações entre características de personalidade de mães cujos filhos foram submetidos ao Psicodiagnóstico Interventivo1, e os resultados terapêuticos deles. Além de uma definição mais precisa do conceito em questão, este estudo buscou estabelecer, ainda que em caráter preliminar, as indicações e contra-indicações dessa recente e promissora prática clínica, no que concerne à personalidade materna. As características das crianças vinculadas ao sucesso ou malogro terapêutico foram abordadas em trabalho anterior (Barbieri, Jacquemin e Biasoli-Alves, 2004).

Sujeitos

Seis mães de sete crianças entre 5 e 10 anos que foram submetidas ao Psicodiagnóstico Interventivo devido a comportamentos anti-sociais como mentiras, furtos, agressividade física ou verbal e comportamento desafiador. A maioria das crianças foi encaminhada pela diretora de uma escola pública de ensino funda-

1 A descrição minuciosa dessa prática clínica, em que os pais têm um papel ativo no tratamento dos filhos, é encontrada em Barbieri (2002).

120Barbieri, V. et al.

PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 36, n. 2, p. 117-125, maio/ago. 2005 mental, com o nível socioeconômico das famílias variando entre médio e baixo. Todas as genitoras eram casadas, sendo que sua faixa etária se estendeu de 27 a 48 anos e o grau de instrução de não alfabetizada a ensino médio. Foram excluídos da amostra genitores (mães e pais) com história de comportamentos agressivos, internação psiquiátrica ou uso de drogas.

Material

O instrumento utilizado para a avaliação das mães foi o Teste de Rorschach, cujos resultados foram apurados segundo o referencial da escola francesa e interpretados de acordo com as normas brasileiras estabelecidas por Augras (1969/1986). Para o atendimento específico da criança fez-se uso, além do Teste de Rorschach, da entrevista de anamnese, da entrevista familiar diagnóstica, de sessões lúdicas, da Bateria Gráfica de Hammer e do Teste de Apercepção Temática para Crianças – Forma Animal (CAT-A). Também foram realizadas entrevistas de follow-up com ambos os pais para determinar o resultado de sucesso ou malogro terapêutico da criança.

Procedimento

A diretora da escola encaminhou os alunos para a intervenção proposta acatando os critérios descritos no tópico Sujeitos. Os pais que concordaram em participar do trabalho foram convocados para a entrevista de anamnese e as mães, em sessão ulterior, submetidas à aplicação individual, não interventiva, do Teste de Rorschach, após o que se iniciou o atendimento do filho.

No primeiro contato com a criança era administrado o Teste de Rorschach de modo tradicional e em seguida procedia-se à aplicação interventiva dos demais instrumentos, iniciando com duas sessões lúdicas e prosseguindo com a entrevista familiar diagnóstica, Bateria Hammer e CAT-A. Finalizado esse processo, havia a convocação de ambos os pais para a entrevista devolutiva seguida de orientação, e a família era dispensada.

O período de follow-up variou entre 3 e 8 meses sendo que em um caso, quando não foi possível aos pais comparecerem pessoalmente, o seguimento foi realizado por telefone.

Análise dos resultados

Os dados foram analisados de maneira descritiva, contrapondo-se os resultados das genitoras no Teste de Rorschach com o sucesso ou fracasso terapêutico do filho, avaliado por meio das entrevistas de follow-up.

Uma vez que as características das ‘mães suficientemente boas’ poderiam ser investigadas em termos da natureza do seu ego e superego e da qualidade das figuras materna e paterna, os indicadores do Psicograma do Teste de Rorschach foram apreciados de modo integrado, conforme os grupos representativos das funções egóicas sistematizados por Loureiro e Romaro (1985): Produção, Ritmo, Pensamento, Teste da Realidade, Controle Pulsional, Funcionamento Defensivo e Relacionamentos Interpessoais. O nível de integridade dessas funções foi aferido como preservado ou comprometido em grau leve, moderado ou severo, complementando-se a análise pelo indicador Natureza da Relação de Objeto e pelo diagnóstico da Estrutura de Personalidade. Como as condições do ego dependem de suas relações com o superego, e como a organização da personalidade é determinada pelas fantasias que o ego tem sobre si mesmo e seus objetos (Segal, 1963/1975), a análise dessas funções foi considerada suficiente, sem necessidade de avaliações específicas das figuras materna e paterna e do superego das genitoras.

Quanto aos resultados terapêuticos, foram considerados bem sucedidos os casos em que foi relatado, no follow-up, melhora acentuada dos sintomas, mesmo que houvesse necessidade de encaminhamento posterior à ludoterapia. Esse critério fundamentou-se nos objetivos do Psicodiagnóstico Interventivo que, similarmente à Consulta Terapêutica, não visa substituir uma análise quando ela é necessária, mas quando ela não é (Barbieri et al., 2004). Os casos em que a criança não apresentou qualquer melhora ao final da intervenção foram considerados mal sucedidos.

Apresentação e discussão dos resultados

Breve descrição dos casos:

1 – Beatrice: 10 anos de idade, nível socioeconômico médio, residia com o pai, a madrasta e um irmão de 13 anos. A mãe biológica faleceu quando ela tinha 4 anos. Foi encaminhada por uma neurologista devido a furtos de dinheiro dos familiares, que deixaram de acontecer após o término do atendimento. O follow-up se estendeu por 6 meses. Sucesso terapêutico.

2 – Leonardo: 10 anos, nível socioeconômico baixo, residia com o pai, a mãe e um irmão de 2 anos. Foi encaminhado pela diretora da escola por agitação, brigas com os colegas e insubordinação aos professores, comportamentos que não aconteciam em casa. O período de seguimento do caso foi de 3 meses, com a mãe relatando melhora acentuada dos sintomas, não tendo mais recebido reclamações da escola. Sucesso terapêutico.

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