17 - História de uma neurose infantil e outros trabalhos

17 - História de uma neurose infantil e outros trabalhos

(Parte 1 de 4)

História de uma neurose infantil e outros trabalhos

Dr. Sigmund Freud

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

„From the History of an Infantile Neurosis‟ 1925 C.P., 3, 473-605. (Trad. de A. e J. Strachey). Foram introduzidas algumas modificações na edição alemã de 1924, principalmente no tocante a datas; e acrescentou-se uma longa nota de rodapé no final. A presente tradução inglesa é revisão da publicada em 1925.

Este é o mais elaborado e sem dúvida o mais importante de todos os casos clínicos de

Freud. Foi em fevereiro de 1910 que o jovem e rico russo, de quem o relato trata, dirigiu-se a Freud para ser analisado. Sua primeira etapa de tratamento, que é abordada neste artigo, durou daquela data até julho de 1914, quando Freud considerou o caso encerrado. Começou a escrever o caso clínico em outubro do mesmo ano e concluiu-o em princípios de novembro. No entanto, retardou sua publicação por quatro anos. Na ocasião, nenhuma modificação foi feita, conta-nos ele (ver em [1]), mas dois longos trechos foram inseridos. O desenvolvimento posterior do caso, após concluída a primeira etapa de tratamento, está descrito por Freud na nota de rodapé que acrescentou à edição de 1924, no final do artigo (ver em [1] e [2]).

Informações ainda mais recentes também serão encontradas, em parte, fornecidas por material publicado posteriormente pelo próprio Freud, em parte, por dados que surgiram depois de sua morte.

Freud fez uma série de referências ao caso do „Homem dos Lobos‟ em trabalhos publicados antes e depois do próprio caso clínico, e talvez valha a pena enumerá-las. A primeira evidência do interesse de Freud pelo caso foi um parágrafo que apareceu, com a sua assinatura, no início do outono de 1912 (Zbl. Psychoanal., 2, 680), obviamente estimulado pelo sonho do lobo, que é motivo central do caso clínico. Apareceu sob a rubrica „Offener Sprechsaal‟ („Fórum Aberto‟) e consta do seguinte:

„Ficaria satisfeito se todos os meus colegas que se preparam para ser analistas coligissem e analisassem cuidadosamente quaisquer sonhos de seus pacientes cuja interpretação justifique a conclusão de que aqueles que os tiveram tenham sido testemunhas de um ato sexual nos primeiros anos de vida. Uma sugestão é sem dúvida suficiente para tornar evidente que tais sonhos são de um valor muito especial, em mais de um aspecto. Apenas esses sonhos podem, é claro, ser considerados como indicativos de que ocorreram na infância, e são lembrados a partir desse período.

Freud.‟ Um outro parágrafo sobre o assunto apareceu no começo de 1913 (Int Z. Psychoanal., 1,

79): „Sonhos de Crianças com um Significado Especial

„No Fórum Aberto do Zbl. Psychoanal., 2, 680, pedi a meus colegas que publicassem quaisquer sonhos ocorridos na infância “cuja interpretação justifique a conclusão de que aqueles que os tiveram tenham sido testemunhas de um ato sexual nos primeiros anos de vida”. Devo agradecer agora à Dra. Mira Gineburg (de Breitenau-Schaffhausen) por uma primeira contribuição que parece adequar-se às condições estabelecidas. Prefiro adiar uma consideração crítica desse sonho até que se tenha coligido mais material comparativo.

Freud.‟ Essa nota era seguida pelo relato do sonho em questão, pela Dra. Gincburg. Um sonho semelhante foi depois relatado por Hitschmann, no mesmo ano (Int. X. Psychoanal., 1, 476), mas não houve mais comunicações sobre o assunto por parte de Freud. Durante esse verão, contudo, ele publicou o seu artigo sobre „A Ocorrência, em Sonhos, de Material Oriundo de Contos de Fadas‟ (1913d), que na verdade relatava o sonho do lobo e que foi em parte reproduzido no caso clínico (ver em [1] e segs.); e no início do ano seguinte surgiu o artigo sobre „Fausse Reconnaissance no Tratamento Psicanalítico‟ (1914a), descrevendo outro episódio no caso. Também este foi parcialmente reproduzido aqui (ver em [1]). Há, também, uma referência indireta ao „Homem dos Lobos‟ em um debate sobre primeiras lembranças da infância, em „Recordar, Repetir e Elaborar‟ (1914g), Edição Standard Brasileira, Vol. XII, pág. 195, IMAGO Editora, 1976. O artigo metapsicológico sobre „Repressão‟ (1915d), que foi publicado antes do presente trabalho, embora escrito depois deste, contém um parágrafo referente à fobia de lobos do paciente. Muitos anos depois da publicação do caso clínico, Freud voltou ao caso no decorrer de uma argumentação sobre as fobias de animais das crianças em Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926d). Nos capítulos IV e VII desse trabalho, a fobia de lobos do paciente é comparada com a fobia de cavalos analisada no caso do „Little Hans‟ (1909b). Finalmente, em um de seus últimos artigos, „Análise Terminável e Interminável‟ (1937c), Freud fez alguns comentários críticos sobre a inovação técnica de estabelecer um tempo-limite para o tratamento, o qual ele introduziu neste caso, descrevendo-o ver em [1].

Aos olhos de Freud, o significado primário deste caso clínico na época da sua publicação era claramente o apoio que proporcionava para as suas críticas a Adler e, mais especificamente, a Jung. Havia ali evidência conclusiva para refutar qualquer negação da sexualidade infantil. Todavia, muitos mais proveitos de alto valor surgiram do tratamento, embora uma parte deles já tivesse sido dada a público no intervalo de quatro anos entre a elaboração do caso clínico e sua publicação. Havia, por exemplo, a relação entre as „cenas primárias‟ e as „fantasias primitivas‟, que conduziu diretamente ao obscuro problema da possibilidade de que o conteúdo mental da fantasias primitivas pudesse ser herdado. Isso foi examinado na Conferência XI das Conferências Introdutórias (1916-17), mas depois foi elaborado nos trechos adicionais das págs. 67 e 103 e segs. Outra vez, o notável material da Seção VII, que trata do erotismo anal do paciente, foi utilizado por Freud em seu artigo „As Transformações do Instinto‟ (1917c), pág. 131, adiante.

Ainda mais importante foi o esclarecimento dado pela presente análise sobre a primitiva organização oral da libido, que em certa medida é discutida adiante, em [1] e [4]. A primeira referência publicada de Freud a essa organização era a de um parágrafo acrescentado em 1915 à terceira edição dos seus Três Ensaios (1905d), Edição Standard Brasileira, Vol. VII, pág. 204, IMAGO Editora, 1972. O prefácio a essa terceira edição traz a data „Outubro de 1914‟ - exatamente o mês durante o qual escrevia o artigo sobre o „Homem dos Lobos‟. Parece provável que o material „canibalístico‟ revelado nessa análise tenha desempenhado um papel importante na preparação do caminho para algumas das mais significativas das teorias de que Freud se ocupava nesse período: as interconexões entre incorporação, identificação, a formação de um ideal do ego, o sentimento de culpa e os estados patológicos de depressão. Algumas dessas teorias já haviam sido expressas no último ensaio de Totem e Tabu (a redação deste caso clínico (Jones, 1955, 367).

Talvez a principal descoberta clínica seja a de revelar a evidência do papel determinante desempenhado na neurose do paciente pelos seus impulsos femininos primários. Seu marcado grau de bissexualidade era apenas a confirmação de pontos de vista há muito defendidos por Freud, que datavam da época de sua amizade com Fliess. Nos seus escritos subseqüentes, porém, Freud deu ainda mais ênfase ao fato da ocorrência universal da bissexualidade e da existência de um complexo de Édipo „invertido‟ ou „negativo‟. Essa tese recebeu sua expressão mais clara no trecho sobre o complexo de Édipo „completo‟, no capítulo I de O Ego e o Id (1923b).

Por outro lado, resiste com veemência a uma tentativa de inferência teórica no sentido de que os escrito em meados de 1913) e no artigo sobre narcisismo (concluído em princípios de 1914). Outras iriam aparecer em „Luto e Melancolia‟. Este último só foi publicado em 1917. Mas foi-lhe dada forma final no começo de maio de 1915; e muitas das idéias que contém haviam sido colocadas diante da Sociedade Psicanalítica de Viena, a 30 de dezembro de 1914, apenas algumas semanas após motivos relacionados com a bissexualidade são os determinantes invariáveis da repressão (ver em [1] e seg.) - problema a que Freud se referiu extensamente pouco depois, em „Uma Criança é Espancada‟ (1919e), ver em [1] e segs., adiante.

Finalmente, talvez seja legítimo chamar a atenção para a extraordinária habilidade literária com que Freud expôs o caso. Estava diante da tarefa pioneira de fornecer um relato científico de eventos psicológicos de novidade e complexidade jamais sonhadas. O resultado é um trabalho que não apenas evita os perigos de confusão e obscuridade, mas também prende a fascinada atenção do leitor do princípio ao fim.

O caso que me proponho relatar nas páginas que se seguem (uma vez mais apenas de maneira fragmentária) caracteriza-se por uma série de peculiaridades que outras pessoas quando iniciou o seu tratamento psicanalítico, vários anos depois. Tivera uma vida mais ou menos normal durante os dez anos que precederam a data de sua doença e cumpriu os estudos da escola secundária sem muitos problemas. Seus primeiros anos de vida haviam, contudo, sido dominados por um grave distúrbio neurótico, que começou imediatamente antes do seu quarto aniversário, uma histeria de angústia (na forma de uma fobia animal), que se transformou então numa neurose exigem ser enfatizadas antes que proceda a uma descrição dos próprios fatos. Diz respeito a um jovem cuja saúde se abalara aos dezoito anos, depois de uma gonorréia infecciosa, e que se encontrava inteiramente incapacitado e dependente deobsessiva de conteúdo religioso e perdurou, com as suas manifestações, até os dez anos.

Apenas essa neurose infantil seria o objeto da minha comunicação. Apesar do pedido direto do paciente, abstive-me de escrever um histórico completo da sua enfermidade, do tratamento e da recuperação, porque reconheci que tal tarefa era tecnicamente impraticável e socialmente impermissível. Ao mesmo tempo, isso afasta a possibilidade de demonstrar a relação entre a sua doença na infância e a sua doença posterior e permanente. No que diz respeito a esta, só posso dizer que, por causa dela, o paciente passou um longo período em sanatórios alemães, e foi, na época, classificada pelos mais autorizados especialistas, como um caso de „insanidade maníaco-depressiva‟. Esse diagnóstico era certamente aplicável ao pai do paciente, cuja vida, de muitas atividades e interesses, foi perturbada por repetidos ataques de grave depressão. No filho, porém, jamais consegui, durante uma observação que durou vários anos, detectar quaisquer mudanças de ânimo que fossem desproporcionais à situação psicológica manifesta, tanto na intensidade quanto nas circunstâncias do seu aparecimento. Formei a opinião de que este caso, como muitos outros que a psiquiatria clínica rotulou com os mais multifários e variáveis diagnósticos, deve ser considerado como uma condição que se segue a uma neurose obsessiva que acabou espontaneamente, mas deixou por trás um defeito, após a recuperação.

Minha descrição tratará, portanto, de uma neurose infantil que foi analisada não enquanto realmente existia, mas somente quinze anos depois de haver terminado. Esse estado de coisas tem suas vantagens, bem como desvantagens, em comparação com a alternativa. Uma análise conduzida sobre a própria criança neurótica deve normalmente parecer mais digna de confiança, mas não pode ser muito rica em material; demasiadas palavras e pensamentos têm que ser „emprestados‟ à criança, e ainda assim os estratos mais profundos podem tornar-se impenetráveis para a consciência. Uma análise de um distúrbio da infância por meio da recordação de um adulto intelectualmente maduro está livre dessas limitações; mas é preciso que levemos em conta a distorção e a reelaboração às quais o passado de uma pessoa está sujeito, quando visto na perspectiva de um período posterior. A primeira alternativa dá, talvez, resultados mais convincentes; a segunda é, com sobras, a mais instrutiva.

Em qualquer caso, pode-se dizer que a análise de neuroses infantis possui um interesse teórico particularmente alto. Proporciona-nos, por assim dizer, tanta ajuda no sentido de uma compreensão adequada das neuroses dos adultos, quanto os sonhos infantis em relação aos sonhos dos adultos. Não é que sejam, na verdade, mais perspícuos ou mais pobres de elementos; de fato, a dificuldade de perceber o acesso à vida mental de uma criança, torna-a uma tarefa particularmente difícil para o médico. Não obstante, por não haver ainda tantos dos depósitos posteriores, a essência da neurose salta aos olhos com uma nitidez inequívoca. Na fase atual da batalha que se desenrola à volta da psicanálise, a resistência às suas descobertas tomou, como sabemos, uma nova forma. Antigamente as pessoas contentavam-se em discutir a realidade dos fatos estabelecidos pela análise; e, para esse propósito, a melhor técnica parecia ser a de evitar examiná-los. Esse procedimento parece estar-se exaurindo lentamente; e as pessoas adotam agora outro plano - reconhecer os fatos, mas eliminar, por meio de interpretações torcidas, as conseqüências que a eles se seguem, de modo que os críticos podem ainda resguardar-se das novidades objetáveis tão eficientemente como antes. O estudo das neuroses infantis expõe a completa inadequação dessas tentativas superficiais e arbitrárias de reinterpretação. Mostra o papel predominante que é desempenhado na formação das neuroses por aquelas forças libidinais tão impulsivamente rejeitadas, e revela a ausência de quaisquer aspirações no sentido de objetivos culturais remotos, dos quais a criança nada sabe ainda e que não podem, portanto, ter qualquer significado para ela.

Outra característica que torna a presente análise digna de nota está ligada à gravidade da doença e à duração do tratamento. As análises que conduzem a uma conclusão favorável em pouco tempo, são de valor para a auto-estima do terapeuta e para substanciar a importância médica da psicanálise; mas permanecem em grande parte insignificantes no que diz respeito ao progresso do conhecimento científico. Nada de novo se aprende com elas. Na verdade, apenas são bem-sucedidas tão rapidamente, porque tudo o que era necessário para a sua realização já era conhecido. A novidade só pode ser obtida de análises que apresentam especiais dificuldades, e para que isso aconteça é necessário que a elas se dedique bastante tempo. Apenas em tais casos conseguimos descer aos estratos mais profundos e mais primitivos do desenvolvimento mental, e destes obter soluções para os problemas das formações posteriores. E depois disso, sentimos que, estritamente falando, só uma análise que penetrou tão fundo merece esse nome. Naturalmente, um único caso não nos dá toda a informação que gostaríamos de ter. Ou, melhor dizendo, poderia ensinar-nos tudo, se estivéssemos numa posição de tudo compreender e se não fôssemos compelidos pela inexperiência da nossa própria percepção a contentarmo-nos com pouco.

No que diz respeito a essas férteis dificuldades, o caso que vou expor nada deixa a desejar. Os primeiros anos do tratamento produziram escassas mudanças. Devido a uma concatenação afortunada, todas as circunstâncias externas conjugaram-se, todavia, para tornar possível proceder à experiência terapêutica. Acredito que em circunstâncias menos favoráveis o tratamento teria sido abandonado depois de pouco tempo. Do ponto de vista médico, posso apenas declarar que, num caso dessa natureza, devemos comportar-nos tão „atemporalmente‟ quanto o próprio inconsciente, se desejamos aprender ou conseguir alguma coisa. E, ao final, o médico será bem-sucedido, se tiver força para renunciar a qualquer ambição terapêutica de pouca visão. Não se deve esperar que a soma de paciência, adaptabilidade, compreensão interna (insight) e confiança exigida do paciente e de seus parentes se apresente em muitos outros casos.

O analista, contudo, tem o direito de achar que os resultados que obteve de tão extenso trabalho, num caso, ajudem substancialmente a reduzir a duração do tratamento em um caso subseqüente, de igual gravidade, e que, ao submeter-se numa ocasião única à atemporalidade do inconsciente, ele estará perto de dominá-lo no final.

O paciente a que me refiro aqui permaneceu muito tempo inexpugnavelmente entrincheirado por trás de uma atitude de amável apatia. Escutava, compreendia e permanecia inabordável. Sua indiscutível inteligência estava, assim, separada das forças instintuais que governam seu comportamento nas poucas relações vitais que lhe restavam. Exigiu uma longa educação induzi-lo a assumir uma parcela independente no trabalho; e quando, como resultado desse esforço, começou pela primeira vez a sentir alívio, desistiu imediatamente de trabalhar, com o objetivo de evitar quaisquer outras mudanças e de permanecer confortavelmente na situação que fora assim estabelecida. Sua retração diante de uma existência auto-suficiente era tão grande que excedia todas as aflições da sua doença. Só haveria um meio de superar isso. Fui obrigado a esperar até que o seu afeiçoamento a mim se tornasse forte, o suficiente para contrabalançar essa retração, e então jogar um fator contra o outro. Determinei - mas não antes que houvesse indícios dignos de confiança que me levassem a julgar que chegara o momento certo - que o tratamento seria concluído numa determinada data fixa, não importando o quanto houvesse progredido. Eu estava resolvido a manter a data; e finalmente o paciente chegou à conclusão de que eu estava falando sério. Sob a pressão inexorável desse limite fixado, sua resistência e sua fixação na doença cederam e então, num período desproporcionalmente curto, a análise produziu todo o material que tornou possível esclarecer as suas inibições e eliminar os seus sintomas. E também toda a informação que me possibilitou compreender a sua neurose infantil nasceu dessa última etapa do trabalho, durante a qual a resistência desapareceu temporariamente e o paciente dava a impressão de uma lucidez que habitualmente só é obtida através da hipnose.

Desse modo, o curso deste tratamento ilustra uma máxima cuja verdade era há muito apreciada na técnica da análise. A extensão da estrada pela qual a análise deve viajar com o paciente e a quantidade de material que deve ser dominado pelo caminho não têm importância em comparação com a resistência encontrada no decorrer do trabalho. Só têm importância na medida em que são necessariamente proporcionais à resistência. A situação é a mesma de um exército inimigo que precisa, hoje, de semanas e meses para abrir caminho através de uma região que, em tempos de paz, seria atravessada em poucas horas por um expresso e que, pouco tempo antes, fora transposta pelo exército defensor em alguns dias.

Uma terceira peculiaridade da análise, que será descrita nestas páginas, apenas aumentou a minha dificuldade em decidir fazer dela um relato. No todo, os seus resultados coincidiram, da maneira mais satisfatória, com o nosso conhecimento prévio, ou foram facilmente incorporados por ele. Muitos detalhes, no entanto, pareceram-me tão extraordinários e incríveis, que senti alguma hesitação em pedir a outras pessoas que acreditassem neles. Solicitei ao paciente que fizesse a mais rigorosa crítica das suas recordações, mas ele nada achou de improvável em suas afirmações e confirmou-as inteiramente. Em todo caso, os leitores podem ficar certos de que só estou relatando o que surgiu como experiência independente, não influenciada pela minha expectativa. De forma que nada mais me restou senão recordar a sábia sentença de que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Qualquer um que pudesse conseguir eliminar ainda mais completamente as suas convicções preexistentes, descobriria, sem dúvida, ainda mais coisas como estas.

Sou incapaz de fornecer um relato puramente histórico ou puramente temático da história do meu paciente; não posso escrever um histórico nem do tratamento nem da doença, mas sinto-me obrigado a combinar os dois métodos de apresentação. É sabido que não se encontraram meios de introduzir, de qualquer modo, na reprodução de uma análise o sentimento de convicção que resulta da própria análise. Exaustivos relatórios textuais dos procedimentos adotados durante as sessões não teriam certamente qualquer valia; e, de qualquer maneira, a técnica do tratamento torna impossível elaborá-los. Assim, análises como esta não são publicadas com a finalidade de produzir convicção nas mentes daqueles cuja atitude tenha sido, até então, de recusa e ceticismo. A intenção é apenas a de apresentar alguns novos fatos a pesquisadores que já estejam convencidos por suas próprias experiências clínicas.

Começarei, então, por fornecer um quadro do mundo da criança e por dizer tanto da história da sua infância quanto poderia ser sabido sem qualquer esforço; na verdade, não foi senão depois de vários anos que a história se tornou menos incompleta e obscura.

Os pais haviam casado jovens e mantinham ainda uma feliz vida em comum, sobre a qual a doença em breve lançaria as primeiras sombras. A mãe começou a sofrer de distúrbios abdominais e o pai teve seus primeiros ataques de depressão, que o levaram a ausentar-se de casa. Naturalmente, o paciente só chegou a perceber a enfermidade do pai muito mais tarde, mas tinha consciência da fraca saúde da mãe desde a mais tenra infância. Por conseguinte, ela tinha relativamente pouco a ver com as crianças. Um dia, certamente antes de completar quatro anos, enquanto a mãe saía para ver o médico e ele caminhava ao seu lado, segurando sua mão, ouviu-a lamentar a sua condição. As palavras da mãe causaram nele profunda impressão, e ele mais tarde aplicou-as a si mesmo (cf. pág. 85). Não era filho único; tinha uma irmã, aproximadamente dois anos mais velha, vivaz, dotada, precocemente maliciosa, que iria desempenhar um importante papel em sua vida.

Pelo que se podia lembrar, cuidava dele uma babá, uma velha sem instrução, de origem camponesa, com uma incansável afeição por ele. O menino era uma espécie de substituto de seu próprio filho, que morrera jovem. A família vivia numa granja e costumava passar o verão em outra. Ambas as propriedades eram mais ou menos próximas de uma cidade grande. Houve uma ruptura na sua infância quando os pais venderam as granjas e mudaram-se para a cidade. Os parentes próximos costumavam visitá-los com freqüência, numa ou na outra granja - os irmãos do pai, as irmãs da mãe com seus filhos, os avós maternos. Durante o verão os pais costumavam estar fora por algumas semanas. Numa lembrança encobridora ele viu-se a si próprio com a babá olhando a carruagem que se afastava com o pai, a mãe e a irmã, e depois voltando serenamente para dentro de casa. Devia ser muito pequeno na ocasião. No verão seguinte, sua irmã também ficou em casa e foi contratada uma governanta inglesa, que ficou responsável pelas crianças.

Anos mais tarde ele ouviu muitas histórias sobre a sua infância. Ele próprio sabia uma porção, mas eram naturalmente desconexas no que respeita a data e assunto. Uma delas, que foi repetida muitas e muitas vezes em sua presença, por ocasião da sua posterior enfermidade, apresenta-nos o problema de cuja solução nos ocuparemos. Nos primeiros anos, parece ter sido uma criança de muito boa índole, tratável, até mesmo tranqüila, de tal modo que costumavam dizer que ele é que devia ter sido a menina, e sua irmã mais velha, o rapaz. Certa vez, porém, ao regressarem das férias de verão, os pais encontraram-no transformado. Tornara-se inquieto, irritável e violento. Ofendia-se por qualquer coisa e depois tomava-se de raiva e berrava como um selvagem; de modo que, ao persistir esse estado de coisas, os pais expressaram as suas apreensões quanto à possibilidade de enviá-lo mais tarde para uma escola. Isso aconteceu durante o verão em que a governanta inglesa ficou com eles. Ocorria que esta era uma pessoa excêntrica e irascível e, além do mais, viciada em bebida. A mãe do menino inclinou-se, portanto, a atribuir a alteração no seu caráter à influência dessa inglesa, presumindo que ela o havia irritado profundamente com o tratamento que lhe dispensava. A perspicaz avó, que passara o verão com as crianças, era de opinião que a irritabilidade do menino fora provocada pelas discussões entre a inglesa e a babá. A inglesa havia chamado a babá de bruxa, repetidas vezes, obrigando-a a sair da sala; o menino tomara abertamente o partido da sua amada „Nanya‟ e demonstrara à governanta o seu rancor. O que quer que tenha acontecido, a inglesa foi mandada embora pouco depois do regresso dos pais, sem que tenha havido qualquer modificação conseqüente no insuportável comportamento do menino.

O paciente preservara a sua lembrança desse período de desobediência. Conforme recordava, fez a primeira das suas cenas num Natal, quando não lhe deram uma quantidade dupla de presentes - o que lhe era devido, porque seu aniversário era no dia de Natal. Não poupou nem mesmo a sua querida Nanya das suas malcriações e irritabilidade; atormentou-a, talvez, ainda mais sem remorsos do que a qualquer outro. Mas a fase que trouxe consigo a sua mudança de caráter estava inextrincavelmente ligada, na sua lembrança, com muitos outros fenômenos estranhos e patológicos que ele não conseguia dispor em seqüência cronológica. Ele misturava todos os incidentes que vou agora relatar (que não poderiam ter sido contemporâneos e que estão cheios de contradições internas), num único e mesmo período de tempo, ao qual deu o nome de „ainda na primeira granja‟. Achava que deviam ter saído dessa granja na época em que tinha cinco anos de idade. Assim, recordava ele que havia sofrido um medo, que sua irmã explorava com o propósito de atormentá-lo. Havia um determinado livro de figuras no qual estava representado um lobo, de pé, dando largas passadas. Sempre que punha os olhos nessa figura começava a gritar, como um louco, que tinha medo de que o lobo viesse e o comesse. A irmã, no entanto, sempre dava um jeito de obrigá-lo a ver a imagem, e deleitava-se com o seu terror. Entretanto, ele se amedrontava também com outros animais, grandes e pequenos. Certa vez estava correndo atrás de uma grande e bonita borboleta, com asas listradas de amarelo e acabando em ponta, na esperança de apanhá-la. (Era sem dúvida uma „rabo-de-andorinha‟.) De repente, foi tomado de um terrível medo da criatura e, aos gritos, desistiu da caçada. Também sentia medo e repugnância dos besouros e das lagartas. Ainda assim, conseguia lembrar-se de que, nessa mesma época, costumava atormentar os besouros e cortar as lagartas em pedaços. Também os cavalos despertavam nele um estranho sentimento. Se alguém batia num cavalo, ele começava a gritar, e certa vez foi obrigado a sair de um circo por causa disso. Em outras ocasiões, ele próprio gostava de bater em cavalos. Se esses tipos contraditórios de atitude em relação aos animais operaram, na verdade, simultaneamente ou não, se uma atitude substituiu a outra, mas se assim foi, quando e em que ordem - a todas essas perguntas sua memória não oferecia uma resposta decisiva. Também não sabia dizer se o seu período de rebeldia foi substituído por uma fase de doença ou se persistiu através desta. Mas, em todo caso, sua afirmações que se seguem justificam a suposição de que, durante esses anos da sua infância, passou por um ataque de neurose obsessiva, facilmente reconhecível. Relatou como, durante um longo período, ele foi muito devoto. Antes de dormir era obrigado a rezar muito tempo e a fazer, em uma série interminável, o sinal-da-cruz. Também à tarde costumava fazer uma ronda por todas as imagens sagradas penduradas na sala, levando consigo uma cadeira sobre a qual subia para beijar piamente cada uma delas. O que era totalmente destoante desse cerimonial devoto - ou, por outro lado, talvez fosse bastante coerente - é que se recordasse de certos pensamentos, determinadas blasfêmias que lhe vinha à cabeça como uma inspiração do diabo. Era obrigado a pensar „Deus-suíno‟ ou „Deus-merda‟. Certa vez, em viagem para uma estância de repouso na Alemanha, foi atormentado pela obsessão de ter que pensar na Santíssima Trindade sempre que via três montes de esterco de cavalo ou qualquer outro excremento na estrada. Nessa época costumava executar outra cerimônia peculiar quando via pessoas das quais sentia pena, como mendigos, aleijados ou gente muito velha. Respirava soltando o ar ruidosamente, para que não ficasse como eles; e, em determinadas circunstâncias, tinha que inspirar vigorosamente. Presumi naturalmente que esses sintomas óbvios de uma neurose obsessiva pertenciam a um período e estádio de desenvolvimento algo posterior aos sinais de ansiedade e à fase de maltratar os animais.

Os anos mais maduros do paciente foram marcados por uma relação bastante insatisfatória com o pai, que, depois de repetidos ataques de depressão, não conseguia mais ocultar os aspectos patológicos do seu caráter. Nos primeiros anos da infância do paciente essa relação havia sido muito afetiva, e a recordação dela conservou-se em sua memória. O pai gostava muito do menino, gostava de brincar com ele. Este se sentia orgulhoso do pai, dizia sempre que gostaria de ser um cavalheiro como ele. A babá disse-lhe que a irmã era a criança da sua mãe, mas ele era a do pai - e isso agradou-lhe bastante. Nos últimos anos da infância, no entanto, houve um estranhamento entre ele e o pai. Este mostrava uma inequívoca preferência pela irmã, e por isso sentiu-se muito desprezado. Mais tarde, o medo ao pai tornou-se o fator dominante.

Todos os fenômenos que o paciente associava com a fase da vida que começou com a sua desobediência, desapareceram por volta dos oito anos. Não desapareceram de uma vez, e ocasionalmente reapareciam; mas finalmente cederam, na opinião do paciente, diante da influência dos mestres e tutores que tomaram o lugar das mulheres, que até então haviam cuidado dele. Aqui, pois, em seu mais breve esboço, estão os enigmas para os quais a psicanálise teria de achar uma solução. Qual foi a origem da súbita mudança no caráter do menino? Qual era o significado da sua fobia e das suas perversidades? Como chegou a uma devoção obsessiva? E como se inter-relacionavam todos esse fenômenos? Lembrarei uma vez mais o fato de que o nosso trabalho terapêutico dizia respeito a uma doença neurótica subseqüente e recente, e só se poderiam esclarecer esses problemas anteriores quando o curso da análise deixasse o presente por algum tempo e nos forçasse a fazer um détour pelo período pré-histórico da infância.

É fácil compreender que a primeira suspeita recaiu sobre a governanta inglesa, pois a mudança no menino surgiu quando ela lá estava. Duas lembranças encobridoras persistiram, ambas incompreensíveis em si e relacionadas com a governanta. Em certa ocasião em que caminhava adiante das crianças, disse: „Olhem o meu rabinho!‟ Outra vez, em que haviam saído para dar uma volta de carro, o chapéu dela voou, para grande satisfação das duas crianças. Isso apontou para o complexo de castração e permitiria uma construção segundo a qual uma ameaça proferida por ela contra o menino fora amplamente responsável por originar a sua conduta anormal. Não há qualquer perigo em comunicar construções dessa natureza à pessoa que está sendo analisada; elas não prejudicam a análise, mesmo se são equivocadas; mas ao mesmo tempo, não são colocadas a não ser que haja alguma perspectiva de alcançar uma aproximação da verdade por meio delas. O primeiro efeito dessa suposição foi o aparecimento de alguns sonhos, os quais não foi possível interpretar completamente, mas que pareciam todos concentrar-se ao redor do mesmo material. Pelo que se podia compreender deles, diziam respeito a ações agressivas por parte do menino contra a sua irmã ou contra a governanta, com enérgicas reprovações e castigos por causa dessas ações. Era como se … após o banho dela … ele tivesse tentado … despir a sua irmã … arrancar-lhe as roupas … ou véus - e assim por diante. Mas não foi possível obter um conteúdo firme da interpretação; e de vez que esses sonhos davam a impressão de operar sempre sobre o mesmo material em diferentes formas, a leitura correta dessas reminiscências ostensivas tornou-se segura: só podia ser uma questão de fantasias que o paciente havia elaborado sobre a sua infância numa ou noutra época, provavelmente na puberdade, e que agora vinham outra vez à superfície sobre forma irreconhecível.

A explicação veio de uma só vez, quando o paciente se lembrou, de repente, de que, quando era ainda muito pequeno, a irmã o induzira a práticas sexuais. Primeiro veio a lembrança de que, no banheiro, que as crianças freqüentavam muitas vezes juntas, ela fez a seguinte proposta: „Vamos mostrar os nossos traseiros‟, e passou das palavras à ação. Subseqüentemente veio à luz a parte mais essencial da sedução, com todos os detalhes de tempo e lugar. Foi na primavera, numa época em que o pai estava fora de casa; as crianças estavam brincando num quarto do andar térreo, enquanto a mãe trabalhava numa sala ao lado. A irmã havia-lhe pegado no pênis e brincava com ele, ao mesmo tempo em que lhe contava histórias incompreensíveis sobre a babá, à guisa de explicação. A babá, dizia ela, costumava fazer o mesmo com toda a espécie de gente - por exemplo, com o jardineiro: ela mantinha-lhe a cabeça em pé e então pegava-lhe nos genitais.

Aí, então, estava a explicação das fantasias cuja existência já havíamos adivinhado.

Destinavam-se a apagar a lembrança de um evento que mais tarde pareceu ofensivo à auto-estima masculina do paciente, e atingiram o objetivo colocando uma inversão imaginária e desejável em lugar da verdade histórica. De acordo com essas fantasias, não era ele que havia desempenhado um papel passivo em relação à irmã, mas, pelo contrário, fora agressivo, tentara vê-la despida, fora rejeitado e punido, e iniciara, por essa razão, o comportamento colérico do qual a tradição familiar tanto falava. Era também apropriado incluir a governanta nessa composição imaginativa, já que a principal responsabilidade pelos seus acessos de ira foi a ela atribuída pela mãe e pela avó. Essas fantasias, portanto, correspondiam exatamente às lendas por meio das quais uma nação que se tornou grande e orgulhosa tenta esconder a insignificância e o fracasso dos seus primórdios.

A governanta pode, com efeito, ter sido apenas uma participação muito remota na sedução e em suas conseqüências. As cenas com a irmã tiveram lugar no início do mesmo ano em que, no auge do verão, a inglesa chegou para tomar o lugar dos pais ausentes. A hostilidade do menino para com a governanta veio à tona, entretanto, por outra via. Ao abusar da babá e maldizê-la como bruxa, ela estava seguindo, aos seus olhos, os passos da irmã, que lhe contara primeiro histórias tão monstruosas sobre a babá; e, desse modo, ela deu-lhe oportunidade de expressar abertamente contra ela própria a aversão que, como ouviremos, ele havia desenvolvido contra a irmã, como resultado da sua sedução.

Mas essa sedução pela irmã não foi certamente uma fantasia. Sua credibilidade aumentou com certa informação que jamais foi esquecida e que datava de um período posterior da sua vida, quando já estava crescido. Um primo, que tinha pelo menos dez anos mais do que ele, contou-lhe, numa conversa sobre a irmã, que se lembrava muito bem o quão precoce e sensual a menininha fora: uma vez, quando ela tinha apenas quatro ou cinco anos, sentara-se no colo do primo e abrira-lhe as calças para pegar-lhe no pênis.

Neste ponto eu gostaria de interromper a história da infância do meu paciente e dizer algo sobre essa irmã, sobre o seu crescimento e os fatos posteriores de sua vida, e sobre a influência que tinha sobre ele. Ela era dois anos mais velha e esteve sempre à sua frente em tudo. Quando criança era intratável e comportava-se como um menino, mas depois ingressou numa brilhante fase intelectual e distinguiu-se por suas agudas e realistas faculdades mentais; nos estudos inclinou-se para as ciências naturais, mas produziu também textos criativos tidos em alta conta pelo pai. Era mentalmente muito superior aos seus numerosos admiradores prematuros e costumava fazer piada às suas custas. Pouco depois dos vinte anos, no entanto, começou a ficar deprimida, queixando-se de que não era bonita o bastante, e afastou-se do convívio social. Realizou uma viagem na companhia de uma conhecida, uma senhora mais velha, e, ao regressar, contou uma série de histórias bastante improváveis de como fora maltratada pela companheira, permanecendo, porém, com uma afeição obviamente fixada em sua suposta atormentadora. Pouco depois, ao fazer uma segunda viagem, envenenou-se e morreu bem longe de casa. Seu distúrbio deve provavelmente ser considerado como o início de uma demência precoce. Ela foi uma das provas da hereditariedade visivelmente neuropática na família, mas de forma alguma a única. Um tio, irmão de seu pai, morreu depois de longos anos de vida excêntrica, com indícios que apontavam a presença de uma grave neurose obsessiva; além disso, um bom número de parentes colaterais eram, e são, afligidos por distúrbios nervosos menos sérios.

Independente do problema da sedução, o nosso paciente, quando criança, encontrou na irmã um competidor inconveniente no bom conceito dos pais e sentiu-se bastante oprimido pela sua impiedosa ostentação de superioridade. Mais tarde, invejava especialmente o respeito que o pai demonstrava pela capacidade mental e realizações intelectuais da irmã, ao passo que ele, intelectualmente inibido como estava desde a sua neurose obsessiva, tinha que contentar-se com uma estima em menor grau. A partir dos seus quatorze anos, as relações entre irmão e irmã começaram a melhorar; uma disposição mental semelhante e uma oposição comum aos pais aproximaram-nos tanto, que se tornaram os melhores amigos. Durante a tempestuosa excitação sexual da sua puberdade, ele se arriscou a uma tentativa de aproximação física mais íntima. Ela repudiou-o com tanta decisão quanto sagacidade, e ele se voltou imediatamente para uma camponesinha que servia na casa e tinha o mesmo nome da irmã. Ao fazê-lo, estava dando um passo que teve uma influência determinante na sua escolha de objeto heterossexual, pois todas as garotas pelas quais se apaixonou em seguida - muitas vezes com os mais claros indícios de compulsão - eram também criadas, cuja educação e inteligência estavam necessariamente muito abaixo da sua. Se todos esses objetos de amor eram substitutos para a figura da irmã a quem tinha que renunciar, então não pode ser negado que uma intenção de rebaixar a irmã e de pôr fim à sua superioridade intelectual, que se mostrara para ele tão opressiva, havia obtido o controle decisivo sobre a sua escolha de objeto.

A conduta sexual humana, assim como tudo o mais, foi subordinada por Alfred Adler a forças de motivo dessa natureza, que se originam da vontade de poder, do instinto auto-afirmativo do indivíduo. Sem negar a importância desses motivos de poder e prerrogativa, jamais me convenci de que desempenham o papel dominante e exclusivo que lhes foi atribuído. Se eu não tivesse seguido a análise do meu paciente até o fim, teria sido obrigado, por conta da minha observação desse caso, a corrigir a minha opinião preconcebida numa direção favorável a Adler . A conclusão da análise trouxe inesperadamente novo material que, pelo contrário, demonstrou que esses motivos de poder (nesse caso, a intenção de rebaixar) haviam determinado a escolha de objeto apenas no sentido de servir como uma causa contribuinte e como uma racionalização, ao passo que a verdadeira determinação subjacente possibilitou-me manter as minhas antigas convicções.

Quando chegou a notícia da morte da irmã, conforme relatou o paciente, ele mal sentiu qualquer sinal de dor. Teve que se esforçar para mostrar sinais de tristeza, e pôde rejubilar-se um tanto friamente por haver-se tornado então o único herdeiro da propriedade. Quando isso ocorreu, já sofria há vários anos da sua doença mais recente. Mas devo confessar que esse dado da informação introduziu, durante algum tempo, alguma incerteza ao meu diagnóstico do caso. Presumir-se-ia, sem dúvida, que a sua dor quanto à perda do mais amado membro da sua família encontraria uma inibição em sua expressão, como resultado da operação contínua do seu ciúme em relação a ela, somada à presença do seu amor incestuoso, que então se tornara inconsciente. Eu não podia, contudo, compreender que não tivesse havido algum substituto para as manifestações de pesar que faltaram. O que foi, afinal, encontrado numa outra expressão de sentimento que permanecera inexplicável para o paciente. Alguns meses após a morte da irmã, ele próprio fez uma viagem às imediações do lugar em que ela havia morrido. Ali procurou o túmulo de um grande poeta, que na época era o seu ideal, e derramou lágrimas amargas sobre a sua tumba. Essa reação pareceu estranha a si mesmo, pois sabia que mais de duas gerações se haviam passado desde a morte do poeta que admirava. Só entendeu quando se lembrou que o pai tinha o hábito de comparar os trabalhos da irmã morta com os do grande poeta. Deu-me outra indicação da forma correta de interpretar a homenagem que prestara ostensivamente ao poeta, por um erro na sua história, que consegui detectar nesse ponto. Antes, ele especificara repetidamente que a irmã havia-se matado com um tiro; mas foi então obrigado a fazer uma correção e dizer que ela tomara veneno. O poeta, no entanto, fora morto a tiros num duelo.

Volto agora à história do irmão, mas deste ponto em diante devo prosseguir um pouco sobre as linhas temáticas. A idade do menino na época em que a sua irmã iniciou a sedução era de três anos e três meses. Aconteceu, como já foi mencionado, na primavera do mesmo ano em cujo verão chegou a governanta inglesa, e em cujo outono os pais, ao regressarem, encontraram-no tão fundamentalmente alterado. É muito natural, então, relacionar essa transformação com o despertar da sua atividade sexual que havia entrementes ocorrido.

Como reagiu o menino às tentações de sua irmã mais velha? Por uma recusa, é a resposta, mas por uma recusa que se aplicava à pessoa, e não à coisa em si. A irmã não lhe agradava como objeto sexual, provavelmente porque seu relacionamento com ela já fora determinado numa direção hostil, devido à rivalidade no amor dos pais. Ele manteve-se distante da irmã e, além disso, as solicitações desta logo cessaram. Contudo, ele tentou ganhar, em vez dela, outra pessoa de quem gostava; e a informação que sua própria irmã lhe dera, na qual proclamara a sua Nanya como modelo, dirigiu sua escolha nessa direção. Começou, portanto, a brincar com o pênis na presença da babá, e isso, como muitos outros exemplos nos quais as crianças não escondem a sua masturbação, deve ser considerado como uma tentativa de sedução. A babá desiludiu-o; fez uma cara séria e explicou que aquilo não era bom; as crianças que o faziam, acrescentou, ficavam com uma „ferida‟ no lugar.

O efeito dessa informação, que equivalia a uma ameaça, pode ser reconhecido em várias direções. Em conseqüência dela, diminuiu a sua dependência da babá. Pode muito bem ter-se zangado com ela; e mais tarde, quando se manifestaram os seus acessos de ira, tornou-se claro que realmente estava amargurado com ela. Mas era característico dele que cada posição da libido, que era obrigado a abandonar, era, a princípio, obstinadamente defendida por ele contra o novo desenvolvimento. Quando a governanta entrou em cena e abusou da sua Nanya, expulsando-a da sala e tentando destruir uma autoridade, ele, pelo contrário, exagerou o seu amor pela vítima desses ataques e assumiu uma atitude brusca e desafiadora em relação à agressiva governanta. Não obstante, começou em segredo a procurar outro objeto sexual. Sua sedução dera-lhe o desígnio sexual passivo de ser tocado nos genitais; saberemos agora em relação a quem foi que ele tentou satisfazer esse desígnio e que caminhos o levaram a essa escolha.

Concorda inteiramente com as nossas previsões o fato de sabermos que, após as suas primeiras excitações genitais, iniciou-se a sua busca sexual, e que logo chegou ao problema da castração. Nessa época conseguiu observar duas meninas - a irmã e uma amiga dela - enquanto urinavam. Sua sagacidade pode muito bem ter-lhe permitido deduzir os verdadeiros fatos desse espetáculo, mas comportou-se como sabemos que se comportam outras crianças do sexo masculino nessas circunstâncias. Rejeitou a idéia de que via diante dele uma confirmação da ferida com a qual a babá o ameaçara e explicou a si mesmo que aquilo era o „traseiro frontal‟ das meninas. O tema da castração não se estabeleceu por essa decisão; encontrou novas alusões a ele em tudo o que ouvia. Certa vez em que as crianças ganharam uns confeitos coloridos em forma de bastão, a governanta, que era propensa a fantasias desordenadas, disse que eram pedaços de cobra cortada. Ele lembrou-se, depois, de que o pai encontrara uma vez uma cobra, ao caminhar por uma picada, e a fizera em pedaços com uma vara. Ouviu a história (tirada de Reynard the Fox), lida em voz alta, de como o lobo queria pescar no inverno e usou a cauda como isca, e como, dessa maneira, o rabo do lobo se congelou e partiu. Aprendeu os diferentes nomes pelos quais se distinguem os cavalos, conforme estejam ou não intactos os seus órgãos sexuais. Assim, ocupava-se com pensamentos sobre a castração, mas ainda não acreditava nela, nem a temia. Outros problemas sexuais surgiram para ele nos contos de fadas com que se havia familiarizado nessa época. No „Chapeuzinho Vermelho‟ e em „Os Sete Cabritinhos‟, as crianças eram tiradas do corpo do lobo. Seria o lobo uma criatura feminina, então, ou poderiam os homens ter também crianças dentro do corpo? Nessa época, a questão não se colocara ainda. Mais que isso, na época dessas perguntas ele não tinha ainda medo de lobos.

(Parte 1 de 4)

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