Mudanças climáticas e eventos extremos Brasil

Mudanças climáticas e eventos extremos Brasil

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Mudanças cliMáticas e eventos extreMos no brasil

PreFácio Fbds

A atenuação dos efeitos das mudanças climáticas globais e a adaptação a estas são os maiores desafios da humanidade neste início de século. O progresso econômico e científico, que contribuiu decisivamente para a solução de problemas históricos e aumentou o nível de bem-estar da população nas últimas décadas, trouxe um inimigo desconhecido até agora. Mais do que nunca, dependemos da geração de eletricidade, do transporte de passageiros e mercadorias, da produção de alimentos e de outras conquistas de nossa civilização, todas envolvendo a emissão de gases do efeito estufa (GEE).

Como consequência desse aumento da concentração de GEE na atmosfera, a elevação na temperatura média do planeta já é uma realidade e, de acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, uma elevação de 2ºC na temperatura média da Terra parece inevitável, mesmo que todas as medidas para reduzir as emissões e capturar carbono se concretizem. No cenário mais pessimista, mantendo-se as atividades atuais, as previsões são de um aumento de mais de 6°C na temperatura média da Terra, com consequências catastróficas para os ecossistemas e a humanidade. Embora os modelos adotem uma margem de incerteza, para a maioria dos cientistas que estuda esse campo não restam dúvidas quanto ao risco das mudanças climáticas e do papel humano no agravamento delas.

Como o equilíbrio climático do planeta é frágil, o aumento das temperaturas já registradas criou situações novas, como a redução da calota glacial, antes permanentemente congelada no Círculo Ártico, e intensificou fenômenos antigos, como furacões no sul dos Estados Unidos. Todas essas alterações têm grande poder de destruição, afetando milhões de pessoas e causando prejuízos de bilhões.

Nessa categoria de mudanças climáticas, eventos climáticos extremos – como chuvas intensas, vendavais e furacões, marés meteorológicas e grandes secas – representam as forças com maior poder de destruição. À intensidade desses eventos soma-se a dificuldade de gerenciamento de planos para a adaptação e a atenuação de seus efeitos, devido à impossibilidade de prevê-los com exatidão. O Furacão Catarina, que atingiu a costa brasileira em 2004, foi o primeiro registrado no Atlântico Sul, sendo um exemplo bastante representativo do caso em questão.

Os eventos climáticos extremos e sua relação com as mudanças climáticas globais não foram, até agora, totalmente estudados pela comunidade científica brasileira. Com o objetivo de motivar novos estudos sobre esse assunto e conscientizar a sociedade sobre os riscos dos eventos climáticos extremos no Brasil, o Lloyd’s e a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) estabeleceram uma parceria que resultou nesta publicação e na realização de um seminário para apresentar seu conteúdo e debatê-lo com os maiores especialistas do país no assunto.

Esta publicação está dividida em quatro temas que ajudam a compreender a mudança climática no Brasil: • Mudança climática global e eventos extremos no Brasil, que aborda o modo como a mudança climática afeta a ocorrência de eventos climáticos extremos — como grandes inundações — e os impactos desses eventos sobre a sociedade brasileira. • Risco e adaptação no setor energético brasileiro, que analisa a dependência da geração de eletricidade em usinas hidroelétricas no Brasil e como as mudanças na intensidade e distribuição de chuvas durante o ano podem afetar o equilíbrio entre o fornecimento e a demanda por eletricidade. • Adaptação do setor agrícola brasileiro, que estuda riscos na produção de alimentos e possíveis soluções.

• Elevação do nível do mar e adaptação em grandes cidades costeiras do Brasil, que considera como as elevações no nível do mar podem afetar a população brasileira e as infraestruturas próximas ao litoral do Oceano Atlântico, principalmente as metrópoles Rio de Janeiro e Recife.

Esperamos que essa publicação cumpra seu papel de alertar o governo, as empresas e a sociedade civil sobre os grandes desafios gerados pelas mudanças climáticas. Os planos de adaptação serão uma ferramenta fundamental para reduzir os danos à vida e à propriedade causados pelas mudanças na temperatura e nas chuvas, assim como pela intensificação dos eventos climáticos extremos associados a essas mudanças.

Israel Klabin Presidente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável - FBDS

Os cientistas que trabalham com mudanças climáticas costumam dizer que devemos esperar o inesperado. O Brasil passou por essa experiência pela primeira vez em 2004, quando o Ciclone Catarina atingiu a costa com velocidade de furacão. Os meteorologistas nunca tinham visto isso antes. Parece que o mundo hoje está tendo cada vez mais eventos nunca vistos: inundações na Europa Central e ciclones no Atlântico Sul. Por isso, precisamos nos preparar para o inconcebível e o improvável.

A atenção internacional geralmente se volta para o papel da floresta tropical brasileira – um grande agente de neutralização de carbono – mas a finalidade deste relatório é outra. Nosso objetivo é alertar os responsáveis por políticas estratégicas, acadêmicos e empresas sobre como a mudança climática afetará o Brasil, não como o Brasil afetará a mudança climática. É inegável que esta é uma abordagem sombria, com previsões de ondas de calor em São Paulo, invernos e outonos mais quentes, além de tempestades intensas em várias partes do país.

Mas o Brasil já está passando por eventos incomuns. As fazendas de São Paulo perderam 50 milhões de dólares durante uma onda de calor em 2004, áreas geralmente úmidas da Amazônia estão secando, e partes do Gasoduto Bolívia-Brasil estão sendo danificadas por condições meteorológicas extremas.

Acadêmicos, empresas, autoridades governamentais e seguradoras vão considerar este relatório uma ferramenta de valor inestimável para aprofundar a compreensão de como a mudança climática impactará o Brasil.

Produzida pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) em parceria com o Lloyd’s, esta publicação contém relatórios sobre quatro grandes desafios que o país enfrentará:

• Condições climáticas extremas; • O sistema de energia elétrica;

• A adaptação da agricultura;

• Elevação do nível do mar.

Cada um desses relatórios analisa em que medida o Brasil já está sofrendo a mudança climática, faz prognósticos (as dificuldades previstas para o futuro com a mudança climática) e, o mais importante, sugere formas de atenuar os efeitos das mudanças nos sistemas climáticos do Brasil.

As conclusões alcançadas pela FBDS refletem as descobertas do projeto 360 Risk Insight do Lloyd’s no Reino Unido sobre segurança climática1, abordando especificamente a necessidade de empresas, fazendas e indivíduos começarem a definir agora como poderão adaptar suas propriedades a eventos climáticos ainda mais extremos. No nível estratégico, é essencial que empresas e governos procurem formas de desacelerar o aquecimento global e reduzir as emissões de CO2. Mas também queremos ver políticas pragmáticas, que ajudem as pessoas a enfrentar as mudanças que já estão acontecendo. Um dos méritos do relatório da FBDS é identificar medidas específicas que podem ser adotadas por seguradoras no Brasil para gerenciar o risco advindo da insegurança climática.

O Lloyd’s está atento a essas ideias. Temos um histórico de 321 anos de adaptação aos riscos mundiais. Relatórios como este excelente estudo da FBDS contribuem para nossa compreensão de onde estão os desafios de hoje. Eu o recomendo ao leitor.

PreFácio lloYd’s

1 Mais detalhes no site: http://www.lloyds.com/News_Centre/360_risk_insight/The_debate_on_climate_change/.

Marco Antonio de Simas Castro General Representative & Managing Director Lloyd’s Brazil

Mudanças cliMáticas, condiçÕes

MeteorolÓGicas extreMas e eventos cliMáticos no brasil Jose a. Marengo

Os eventos climáticos extremos ocorrem de muitas formas, como enchentes, secas prolongadas, ondas de calor, tufões e tornados.

Esses fenômenos meteorológicos não são novidade. Através dos séculos, a humanidade desenvolveu uma boa percepção da frequência dos eventos climáticos extremos e das localizações geográficas onde eles têm mais probabilidade de ocorrer.

Mas isso está mudando. Como resultado das mudanças climáticas provocada pelo homem, a frequência dos eventos climáticos extremos aumentou, tanto em termos de quantidade quanto de intensidade. Isso passou a ser observado de modo mais nítido a partir da segunda metade do século 20.

No Brasil, ocorreram diversos eventos extremos nos últimos anos. O furacão Catarina provocou enchentes e deslizamentos e causou diversas mortes, assim como perdas econômicas significativas para a região Sul do país. Recentemente, a mesma região sofreu com chuvas torrenciais e ventos fortes que levaram a grandes danos.

Condições meteorológicas extremas também danificaram os dutos de gás que ligam o sul do Brasil à Bolívia, o que gerou consequências significativas para a população dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

No sudeste da Amazônia, historicamente uma região tropical e úmida, condições climáticas fora do comum têm causado a diminuição dos níveis fluviais, deixando isoladas algumas comunidades mais afastadas devido à redução da capacidade de navegação. Alguns rios chegaram a secar totalmente. Em alguns casos, incêndios nas florestas levam ao fechamento de aeroportos, afetando o modo de vida e trabalho dos moradores locais. Aparentemente, esse fenômeno foi causado por um Atlântico Norte tropical anormalmente quente, fazendo com que o ar seco se deslocasse do sul em direção a essa parte da região amazônica.

As projeções para o clima no futuro indicam mais umidade e mais processos dinâmicos ocorrendo na atmosfera, de modo que ventos extremos, assim como outros fenômenos, podem ocorrer com maior frequência e intensidade.

Estudos sobre o clima no futuro indicam que, por volta de 2010, haverá aumento da precipitação no sul do Brasil, assim como no oeste da Amazônia e na região litorânea entre o Amapá e o Ceará. Podem-se esperar menos chuvas no sul e no centro da Amazônia, no centro-oeste do Brasil e na maior parte da região Nordeste. Cenários piores mostram um aumento dos períodos secos (ou secas) no leste da Amazônia e em parte do Nordeste, enquanto que o número de dias consecutivos com grande umidade cairá na maior parte das regiões Nordeste e do Centro-Oeste do Brasil, e também no oeste e sul da Amazônia.

Altos índices pluviométricos mostram aumento na frequência e na intensidade das chuvas no Sul e no Sudeste do Brasil e, em menor grau, no oeste da Amazônia e na área litorânea do leste da Amazônia e no norte da região Nordeste. As chuvas diminuem ao longo da costa leste do Nordeste do Brasil, na faixa do Rio Grande do Norte até o Espírito Santo.

Por volta de 2020, enquanto as chuvas tenderão a aumentar no oeste da Amazônia e no Sul e Sudeste do Brasil, as demais regiões provavelmente registrarão chuvas menos intensas.

Por volta de 2030, o padrão dominante será uma redução na quantidade total de chuva e no número de dias úmidos na América do Sul tropical, com uma tendência para mais chuvas fortes em regiões como o oeste da Amazônia, e o Sul e o Sudeste do Brasil. Esse cenário é compatível com a previsão de aumento do número de dias secos consecutivos.

Todos os negócios e empresas sofrerão direta ou indiretamente com as consequências do aquecimento global. De modo direto, porque, sem qualquer adaptação, as empresas terão dificuldades em manter os atuais níveis de produção e eficiência operacional. E, de modo indireto, já os consumidores serão mais exigentes, examinando minuciosamente suas práticas sustentáveis.

O mercado de seguros pode contribuir para os esforços contra o aquecimento global por meio da criação dos incentivos corretos para seus clientes. Isso pode significar a oferta de produtos inovadores e menos dispendiosos para as empresas e para pessoas físicas que buscam melhores práticas com relação à mudança climática. Além disso, as companhias de seguro podem dedicar parte de suas carteiras de investimento à adoção de iniciativas verdes, como projetos de energia alternativa, de redução de emissões industriais e de retromodificação de prédios comerciais e residenciais.

1. IntroduçÃo

Em termos meteorológicos ou climatológicos, grandes desvios de um estado climático moderado (referidos daqui em diante como “eventos extremos”) ocorrem em escalas que podem variar desde dias até milênios. Mais importantes para as atividades humanas, entretanto, talvez sejam os eventos extremos a curto prazo (relacionados à meteorologia) e a médio prazo (relacionados ao clima), devido a seu potencial de impactos significativos. Os eventos climáticos e meteorológicos extremos também são um aspecto integrante da variabilidade climática, e sua frequência e intensidade podem variar de acordo com a mudança climática. Um desastre natural pode ser decorrente de atividades humanas, como o desmatamento de encostas próximas a áreas urbanas ou construções em áreas de risco, que pode intensificar as consequências de chuvas fortes. As chuvas dificilmente causam a morte de pessoas por si só, mas os deslizamentos produzidos por elas em áreas próximas a leitos de rios ou abaixo de inclinações desmatadas podem causar danos às populações.

Uma das mais importantes questões relacionadas a eventos extremos a curto prazo é se sua ocorrência está aumentando ou diminuindo como tempo; isto é, se há uma tendência a cenários propícios à ocorrência desses eventos. A variabilidade e as mudanças na intensidade e frequência de eventos extremos dependem não apenas da taxa de mudança do meio de uma determinada variável, mas também da ocorrência de mudanças nos parâmetros estatísticas que determinam a distribuição daquela variável. A análise de tendências mais complexa é a da precipitação extrema, devido ao baixo grau de correlação entre os eventos de precipitação. Assim, estimativas confiáveis de tendências em eventos de precipitação extrema são possíveis somente para regiões com redes densas, que permaneçam estáveis ao longo do tempo. A falta de observações climáticas a longo prazo de alta qualidade e homogêneas, ou a dificuldade de acesso a bases de dados, muitas das quais nas mãos de instituições governamentais em várias partes da América do Sul, é o maior obstáculo para a quantificação das mudanças extremas durante o século passado (Haylock et al. 2005, Vincent et al. 2006).

Historicamente, a variabilidade e os extremos causam impactos negativos sobre a população, aumentando a mortalidade e a morbidade nas áreas afetadas. Eventos climáticos extremos se tornaram mais intensos e/ou mais frequentes durante os últimos cinquenta anos no Sudeste da América do Sul. Eventos de chuva excepcionais ocorreram em meados de dezembro de 1999, causando inundações e deslizamentos ao longo da costa central da Venezuela, havendo informações de mais de 10.0 mortes, além de perdas econômicas estimadas em mais de 1,8 bilhão de dólares (Lyon, 2003). Eventos similares também ocorreram em fevereiro de 1951 e fevereiro de 2005. A alta vulnerabilidade do Brasil foi demonstrada durante um único evento catastrófico. No Sul do Brasil, o período de 2 a 24 de novembro de 2008 testemunhou chuvas intensas no estado de Santa Catarina, que causaram graves inundações e deslizamentos fatais. Em março de 2004, no mesmo estado, foi detectado o furacão Catarina, possivelmente o primeiro furacão a afetar o continente, deixando 9 mortes e perdas da ordem de 1 milhão de dólares.

Com as perspectivas de mudanças climáticas, cientistas, políticos e governantes do mundo inteiro estão procurando compreender a natureza das mudanças que provavelmente ocorrerão durante o século 21 e depois dele, assim como os efeitos que essas mudanças podem acarretar para as populações humanas e seus sistemas socioeconômicos. As mudanças na precipitação possuem implicações no ciclo hidrológico e nos recursos aquíferos em um clima mais quente no futuro. Espera-se que as mudanças climáticas alterem os valores de precipitação e aumentem a variabilidade dos eventos de precipitação, o que pode levar a enchentes e secas ainda mais intensas e frequentes. Claro que eventos de enchentes e secas extremas podem causar danos econômicos e ecológicos e, no pior dos casos, colocar vidas em risco. Em geral, muitas atividades econômicas e processos ambientais são altamente dependentes da precipitação. Ocorrências de déficit de precipitação em larga escala, muitas vezes, causam graves efeitos sobre atividades como agricultura, silvicultura, produção hidrelétrica, ecossistemas alagados e vida selvagem. Seus excessos são muitas vezes benéficos para as atividades anteriormente mencionadas. Entretanto, uma persistência de condições anormalmente úmidas também pode causar graves efeitos, como inundações e atrasos nas colheitas, entre outros. Por isso, os custos econômicos e sociais do aumento dos eventos extremos também podem ser mais altos, e os impactos serão substanciais nas áreas e setores mais diretamente afetados, como agricultura, geração de hidreletricidade, centros urbanos e biodiversidade.

Neste capítulo, relembramos os eventos extremos observados no Brasil durante os últimos cinquenta anos, quantificando as tendências em cada região do Brasil, sempre que os dados permitirem. Além disso, analisamos as projeções das mudanças climáticas futuras até o ano de 2030 para o Brasil, com base nas projeções de mudanças climáticas regionais desenvolvidas pelo INPE. O enfoque é nos extremos pluviais. Uma seção especial é dedicada à Amazônia, na qual os extremos são discutidos em termos de possíveis consequências para a região. Por fim, refletimos sobre algumas recomendações de medidas de adaptação e mitigação, além de práticas que podem ser suscitadas em debates e discussões com responsáveis pelo desenvolvimento de políticas e formadores de opinião.

A variabilidade do clima e dos eventos extremos tem afetado seriamente o Brasil durante os últimos anos. No Brasil subtropical, Groisman et al (2005) e Marango et al. (2009) identificaram um grande aumento sistemático da precipitação desde os anos de 1950 e, no Sudeste do Brasil, detectaram um aumento na frequência dos eventos pluviais extremos. Sobre o estado de São Paulo, Carvalho et al. (2004) descobriram que os eventos pluviais extremos exibem uma variabilidade interanual ligada ao El Niño e à La Niña, assim como variações intrassazonais associadas à atividade da Zona de Convergência do Atlântico Sul (SACZ) e do Jato de Baixos Níveis da América do Sul (SALLJ).

As enchentes causam enormes desastres econômicos, tanto para pessoas e companhias não seguradas, quanto para pessoas e companhias seguradas e empresas seguradoras. Além disso, as enchentes tiram um grande número de vidas humanas. Por sua vez, a seca pode comprometer cidades inteiras quanto ao fornecimento de eletricidade, gerada por fontes alimentadas por água da chuva, o que pode causar grandes prejuízos econô- micos. Episódios de falta de água podem causar graves problemas para a sociedade, além de grande êxodo de populações de regiões inteiras. No Sul do Brasil, chuvas fortes afetaram o estado de Santa Catarina de 2 a 24 de novembro de 2008 e causaram grandes inundações e deslizamentos fatais, que afetaram 1,5 milhão de pessoas, resultando em 120 mortes e deixando 69.0 pessoas desabrigadas. Os deslizamentos de terra e as inundações causadas pelas tempestades bloquearam quase todas as estradas da região, interrompendo o fornecimento de água e eletricidade de milhares de residências. Relatou-se que a maior parte das fatalidades foi causada por deslizamentos que destruíram totalmente residências e empresas. As tempestades romperam um trecho do gasoduto entre a Bolívia e o Sul do Brasil, forçando a suspensão de fornecimento de combustível para parte de Santa Catarina e as redondezas do estado do Rio Grande do Sul. Em algumas cidades, houve relato de saques a supermercados e farmácias por parte de vítimas famintas e desesperadas da enchente. Esse evento foi considerado a pior tragédia climática da história da região.

2. HistÓricos do cliMa e dos extreMos cliMáticos no brasil

Uma combinação incomum de condições meteorológicas favoreceu a intensificação da chuva ao longo da região litorânea de Santa Catarina. Estimativas extraoficiais dos prejuízos causados por esse evento pluvial extremo, enchentes e deslizamentos subsequentes são da ordem de 350 milhões de dólares, devido ao fechamento do Porto de Paranaguá, um dos mais importantes portos do sul do Brasil (INPE 2008). Eventos extremos anteriores durante o El Niño de 1983 causaram chuvas e enchentes intensas, gerando um prejuízo econômico de cerca de 1,1 bilhão de dólares em todo o estado de Santa Catarina. Além disso, Munich-Re (2009) relatou prejuízos totais da ordem de 750 milhões de dólares, com perdas seguradas de 470 milhões de dólares.

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