projeto de fachadas

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Projeto de fachadas

Por Juliana Nakamura Téchne 92 - novembro de 2004

Apesar de o enfoque se voltar para a produção, detalhar o acabamento externo ajuda a evitar as patologias que podem ser tornar onerosas para as construtoras

As patologias em fachadas certamente estão entre os problemas mais temidos pelos construtores. Importantes não só pelo aspecto visual, os revestimentos cumprem um papel na durabilidade e proteção das edificações. Parece óbvio que essa fase de construção mereça ser tratada com planejamento e cuidadosos procedimentos executivos. Porém, só nos últimos anos as construtoras passaram a investir em projeto de revestimento de fachada, acompanhando o movimento de racionalizar, de forma geral, os serviços na construção.

A principal característica desse tipo de trabalho é o foco dado à produção. Mais do que plantas e desenhos com detalhes construtivos, o projeto de fachadas descreve como o revestimento deve ser realizado. Isso se justifica porque grande parte das patologias que atinge as fachadas decorre de falhas durante a execução. Dessa forma, o primeiro objetivo é oferecer todo o detalhamento construtivo necessário para que as decisões sejam planejadas, em vez de serem tomadas no canteiro. "Não dá para exigir que o engenheiro da obra seja um especialista em revestimento", diz Luiz Sérgio Franco, diretor da Arco e professor da Poli-USP. "É comum também se atribuir a responsabilidade dos problemas à baixa qualidade da mão-de-obra. Só que é preciso entender que a mão-de-obra executa apenas aquilo que outros mandam", acrescenta.

A idéia é tratar minuciosamente os pontos que são focos em potencial de patologias. O escopo varia muito em função do material escolhido.Quando se trata de revestimentos convencionais, como cerâmicas, revestimentos argamassados, pinturas e pedras assentadas, o projeto descreve todas as interferências existentes na fachada, possíveis zonas de estrangulamento causado por tensões excessivas, locais de enrijecimentos ou reforços de base, dimensionamento e posicionamento de juntas de movimentação, traços, forma de assentamento.

"Já quando trabalhamos com sistemas afastados, como as placas de rochas com insertes metálicos, é preciso descrever as interferências, tratamento das ligações, dimensionamento e características das pedras em função da carga de vento, testes das peças metálicas de fixação e vedação da fachada", explica Otávio Luiz do Nascimento, professor da FEA/ Fumec (Faculdade de Engenharia e Arquitetura da Fundação Mineira de Educação e Cultura) e diretor técnico da Consultare Engenharia.

Há, portanto, constante interação com outros projetos. De acordo com Gilberto de Ranieri Cavani, pesquisador do Laboratório de Revestimentos da Divisão de Engenharia Civil do IPT, muitas das vulnerabilidades detectadas em fachadas poderiam ter sido solucionadas ainda na concepção arquitetônica ou estrutural. O problema mais comum diz respeito aos frisos, que precisam coincidir com as juntas de dilatação. Há, ainda, situações em que é necessário elevar a rigidez de um ponto da estrutura para evitar fissuração. Da mesma forma são importantes as interfaces com o sistema de alvenaria, caixilharia e impermeabilização, pontos que devem receber telas de reforço ou outros dispositivos.

Assistência e controle A segunda parte do projeto consiste em uma espécie de memorial descritivo que orienta o pessoal de campo quanto à especificação e compra de materiais e equipamentos. Isso inclui desde a escolha da argamassa e realização de ensaios, até a estocagem, manuseio, transporte e aplicação. "As fachadas existem no projeto de arquitetura meramente por um conceito estético. Não há especificação técnica sobre como executar", revela Franco.

A necessidade de o planejamento executivo acompanhar a especificação dos revestimentos fica evidente quando se fala, por exemplo, em placas cerâmicas do tipo rabo de andorinha, que apresentam ranhuras profundas no tardoz. Ao contrário de outros tipos de placas cerâmicas, esse revestimento deve ser assentado com dupla camada, ou seja, com aplicação de argamassa colante na peça e na superfície. "Se esse material for especificado sem detalhamento, o pedreiro irá assentá-la com apenas uma camada e poderá descolar no futuro", alerta Gilberto Cavani. Também é recomendado que placas desse tipo não componham grandes panos e, principalmente, que haja uma rigorosa fiscalização sobre a execução.

Em tese, com um projeto minucioso em mãos, o executor sabe exatamente o que deve ser feito e o engenheiro de obra sabe o que exigir dos empreiteiros. No entanto, apenas o fato de existirem detalhes construtivos pormenorizados no papel não garante que tais procedimentos serão realizados como previsto. Daí a necessidade de o projetista se ater também ao controle da execução.

Muitos apontam essa como a parte mais crítica de todo o processo. Como o serviço normalmente é contratado por empreitadas, para a mão-de-obra quanto mais rápida for a execução, melhor. O problema é que muitas vezes esse "ganho de velocidade" se converte em perda de qualidade. Além disso, é um trabalho difícil de fiscalizar. "Se eventualmente alguém comete alguma imperícia na colocação de uma peça cerâmica, depois de fixada fica difícil identificar o que foi feito", alerta Cavani. "Nesse caso, há necessidade de uma equipe muito bem treinada e conscientizada", continua. Por isso, o projeto de revestimento de fachadas precisa considerar também suporte e treinamento do pessoal de campo. "É igualmente importante a orientação sobre ensaios e métodos para controle da qualidade e acompanhamento dos resultados junto com a construtora para que, se detectados problemas, possamos tomar as medidas necessárias", conta Luiz Sérgio Franco.

Uma série de pequenas falhas de execução pode implicar conseqüências graves para as construtoras. "Já vi fachadas com destacamento simplesmente porque o pedreiro executou o emboço sem tomar o cuidado de limpar a base", comenta o professor da Poli-USP. Outra situação que pode gerar patologias é o uso de argamassa com pouca água. "O empreiteiro não reclama quando a argamassa seca muito rápido porque ele ganha por metro quadrado produzido", explica Cavani.

Pelo mesmo motivo já foram registrados casos em que o pedreiro, sobretudo para fazer requadros e varandas, acrescentou gesso à argamassa para acelerar o endurecimento. O resultado é que, após alguns anos, a argamassa expande e o revestimento cai.

Por essas e outras razões, a falta de fiscalização na obra pode ser desastrosa. "Recomendamos para o pessoal de canteiro, principalmente no começo, exercer uma fiscalização intensa. Às vezes, um problema simples põe tudo a perder", alerta Marco Addor, diretor da Addor e Associados. "A execução da fachada, assim como uma fundação, precisa ser acompanhada de perto pelo projetista", complementa.

Preocupação com desempenho Embora seja evidente que uma obra racional exija que o maior número de situações de canteiro sejam antevistas e detalhadas previamente, a utilização de projeto de revestimento de fachadas é nova, embora crescente.

Segundo Luiz Sérgio Franco, um dos poucos profissionais que oferecem esse tipo de serviço no Brasil, as construtoras só procuravam seu escritório para esse tipo de trabalho em casos excepcionais. Hoje, várias construtoras já incluem essa despesa no orçamento. "Naquela época fazíamos no máximo quatro projetos por ano. Hoje, são três ou quatro projetos por mês", revela. "É uma tendência. No início dos anos 90 começou a se falar sobre projeto de alvenaria. Já no final da década foi a vez de esse cuidado se estender à fachada", comenta Valério Paz Dornelles, diretor da Techo Logys.

O uso sistemático de projeto de revestimento de fachadas, porém, ainda se limita a um pequeno grupo de construtoras que priorizam o desempenho técnico de suas construções, antes mesmo de custos. Até porque não é o objetivo desse tipo de projeto agregar economia, nem aumentar a produtividade, mas evitar patologias. Mesmo assim, alguns ganhos podem ser obtidos com a racionalização da espessura do emboço, por exemplo. Ou então, com melhor contratação dos empreiteiros e a organização logística do canteiro. "Qualquer serviço que receba mais atenção na obra, fica melhor executado", conclui Luiz Sérgio Franco.

Pedras fixadas com insertes

Foto 1 - As placas pétreas são fixadas com peças metálicas chumbadas à estrutura deixando-se um espaço vazio entre o substrato e o revestimento. É por causa dessa camada de ar existente entre as placas e a vedação da edificação que esse sistema ficou conhecido como fachada ventilada.

Foto 2 - Os insertes metálicos são fixados à estrutura (quando de concreto) com chumbadores de expansão, preferencialmente inoxidáveis.

Foto 3 - Posicionados os sustentadores, as placas de rocha são instaladas. Rasgos inferiores da rocha devem ser preenchidos com selante. Em seguida, instalam-se os componentes do tipo retentores, ajustando-se a posição da placa e preenchendo-se previamente os rasgos superiores com selante.

Foto 4 - Finalmente parte-se para o ajuste de prumo, alinhamento da placa e rejuntamento.

Dicas De acordo com a engenheira Eleana Patta Flain, professora da FAU-Mackenzie, todas as etapas da execução do revestimento da fachada com placas pétreas têm a sua devida importância, no entanto, a escolha do tipo de rocha merece cuidados especiais. "Por ser um produto natural, há uma grande variabilidade da tonalidade e padrões das pedras, e isso merece cuidado para não comprometer o aspecto estético da fachada", diz. É preciso conhecer bem as características e propriedades, como a resistência da pedra. A engenheira recomenda ainda informar-se sobre os métodos corretos, materiais mais indicados e periodicidade para executar a limpeza dos revestimentos pétreos, que podem manchar ou degradar.

Cerâmica

Foto 1 - A estrutura é coberta primeiro por uma camada de chapisco para tornar a superfície homogênea. Na seqüência, é aplicada argamassa de emboço. Para evitar fissuras nas junções da alvenaria com estruturas de concreto, colocam-se telas de aço galvanizado, fibra de vidro ou similar.

Foto 2 - Após 24 horas de executado o chapisco, inicia-se o emboço. Para isso pode-se utilizar argamassa fabricada no próprio canteiro ou argamassa pré-fabricada específica para esse fim. A espessura do emboço deve ser de, no máximo, 25 m. Quando for necessária espessura maior, recomenda-se fazer duas ou mais camadas de 10 a 15 m. Nesse caso, é preciso observar o tempo de cura de sete dias entre as aplicações.

Foto 3 - Misturar a argamassa colante em um recipiente limpo, observando a quantidade de água, que pode variar de acordo com as condições climáticas do local. Deixar a argamassa repousar durante cinco a dez minutos e voltar a mexer sem adicionar mais pó ou líquido. Durante o uso, mexer ocasionalmente para manter a mistura trabalhável. Argamassas com tempo vencido jamais devem ser utilizadas.

Foto 4 - Antes da aplicação, umedecer a parede e delimitar uma área de trabalho que permita o assentamento da cerâmica em poucos minutos. Aplicar a argamassa colante na parede, primeiro com o lado liso e depois com o lado denteado da desempenadeira, formando cordões.

Foto 5 - Posicionar a peça cerâmica e pressionar com a mão, batendo em seguida com martelo de borracha. Observar as juntas de assentamento e o posicionamento das eventuais juntas de dilatação do revestimento. Para controlar o distanciamento entre as peças, indicase o uso de espaçadores.

Foto 6 - Limpar todas as juntas e a superfície das peças assentadas enquanto a argamassa ainda estiver fresca. Deve-se, então, retirar os espaçadores e fazer o rejuntamento, no mínimo, 24 h após o término do assentamento. A retirada do excesso deve ser feita com uma esponja úmida. Para finalizar, passa-se um pano limpo e seco sobre a superfície.

Dicas e especificações

• O revestimento cerâmico especificado deve ter absorção de água inferior a 6% e expansão por umidade inferior a 0,6 m/m, segundo a norma técnica. Porém, em fachadas, recomenda-se usar cerâmicas com EPU (expansão por umidade) de no máximo 0,4 m/m.

• Peças cerâmicas com mais de 20 x 20 cm devem ser ancoradas ecanicamente ou com argamassas especiais.

• Porcelanato e peças cerâmicas tipo rabo de andorinha devem ser sempre assentados por dupla colagem.

• Durante o chapisco, reboco e assentamento da cerâmica, as superfícies não podem estar sob ação direta do sol.

• Floreiras devem ser previamente impermeabilizadas.

• O projeto de revestimento de fachadas deve prever juntas de assentamento e de dilatação, fundamentais para absorver as deformações. Podem ser usadas as aberturas, mudanças de pavimentos e projeções de sacadas para posicionar as juntas de dilatação e alinhar melhor as juntas de assentamento.

• Verificar o tempo em aberto da argamassa colante. Para saber se a argamassa perdeu suas condições pode-se dar um leve toque na sua superfície. Caso os dedos não sujem, ela deverá ser descartada.

Argamassa monocamada

Foto 1 - Antes de iniciar a aplicação a superfície deve estar limpa e regularizada. Na junção de dois materiais diferentes, onde existirem riscos de fissura, deve-se colocar uma tela de fibra de vidro sobre a junção dos materiais. O uso da tela é recomendado também nos vãos de esquadrias, minimizando a possibilidade de fissuras, porém não elimina o uso de vergas e contravergas nos bordos dos vãos de esquadrias.

Foto 2 - Uma vez misturado conforme as especificações do fabricante, o produto pode ser aplicado. No caso da aplicação por projeção mecânica, deve-se aplicar uma espessura inicial em movimentos circulares para a preparação da base.

Foto 3 - Na seqüência, é preciso aplicar uma camada mais espessa em movimentos de vaivém, na horizontal.

Foto 4 - Essa camada deve, então, ser regularizada com uma régua estriada. Pode ser dado o acabamento escolhido. No entanto, cada tipo requer espessuras mínimas tanto para a primeira, quanto para a segunda camada.

Obs.: a aplicação pode ser feita manualmente. Nesses casos, uma primeira camada deverá ser aplicada estendendo-se metade da espessura da monocapa, que precisa ser estriada e apertada sobre a base com régua denteada. Em seguida, uma segunda camada deve ser aplicada sobre a primeira, sendo alisada com desempenadeira, régua ou raspador.

Dicas

Aplicado diretamente sobre a alvenaria, esse tipo de revestimento combina as funções de proteção e decoração em um único produto. Assim, são eliminadas as fases de argamassa de emboço, reboco, pinturas e texturas. Porém, o material não pode corrigir imperfeições da estrutura. "A estrutura deve ter rigidez e prumo garantidos", alerta Marco Addor. Quando houver falhas superiores a 2 cm de largura, altura ou profundidade na alvenaria ou nas juntas, será necessário o preenchimento com argamassa de regularização (veja também artigo no final desta edição).

Argamassa comum

Foto 1 - As superfícies não devem apresentar desníveis de prumo e planeza. Só então a argamassa para chapisco pode ser feita, empregando cimento e areia grossa, na proporção de 1:3 ou 1:4. Aplicado sobre as superfícies previamente umedecidas, o chapisco tem características impermeabilizantes e cria um substrato de aderência para a fixação de outro elemento.

Foto 2 - A camada seguinte é o emboço, que tem a função de regularizar a superfície. Sua espessura deve ser de 1 a 2,5 cm e o traço depende do acabamento utilizado. Primeiro são colocadas taliscas que servirão de referência para o acabamento. Na fase seguinte preenchese o espaço entre as taliscas, verticalmente, com a mesma argamassa do emboço.

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