Tambores de Angola - Angelo Inacio - Robson Pinheiro

Tambores de Angola - Angelo Inacio - Robson Pinheiro

(Parte 1 de 8)

Volto à ativa novamente. Se bem não tenha dado ao luxo de ficar na inércia deste lado de cá. Aqui, igualmente, as notícias fazem ibope. Porem a temática é outra, que não aquela costumeira da velha Terra .

Os outros defuntos que compartilham comigo desta ventura quase nirvânica de viver deste lado do véu fazem também a “sua” notícia. Hoje, porém, tentarei falar de assuntos um pouco diferentes daqueles aos quais emprestara a minha pena quando metido nos labirintos da carne.

Como vê, meu caro, se abandonei aí o paletó e a gravata de músculos e nervos, conservei, no entanto, o jeito próprio do escritor e repórter, agora, porem, radicado em “outro mundo”, quando dizia quando estava aí. O bom agora é que não me sinto mais escrever àqueles velhacos de colarinho engomado, que nos julgam pela forma ou gramática, de acordo com os ditames das velhas academias da Terra. Igualmente, não tenho a obrigação, deste lado do túmulo, de me ater aos rigores das convenções dos escritores terrenos.

Estou mais solto, mais leve e mais fiel aos fatos observados.

Embora conserve os domínios de mim mesmo, a minha distinta e preciosa individualidade de morto-vivo metido à repórter e escritor do além, resolvi, por bem daqueles que me guardam na memória, adotar um pseudônimo para falar aos amigos que ficaram do lado de lá do rio da vida.

Assim sendo, meu caríssimo, enquanto emprestava sua mão para grafar meus pensamentos, que, desafiando todas as expectativas de meus colegas de profissão, teimam em continuar constantes, sem ser interrompido pela morte ou lançado às chamas do inferno, empresto-lhe igualmente as minhas pobres experiências, compartilhando com você um pouco das histórias que almejo levar ao correio dos defuntos e dos que se julgam vivos.

Creio que será proveitoso para ambos, o momento em que estaremos juntos. No mínimo, sentirei mais de perto o calor das humanas vidas, enquanto você experimentará mais intensamente a presença de um fantasma metido à repórter e comentarista do além-túmulo.

Despeço-me, para breve retornar. Com o carinho de um amigo,

Ângelo Inácio http://livroespirita.4shared.com/

Para o bem não há fronteiras...

Num mundo onde a ignorância e o sofrimento abrem chagas no coração humano, o chamado da espiritualidade ecoa em nós de forma a rasgar o véu do preconceito espiritual.

A seara, de extensão condizentes com as nossas necessidades de evolução, espera corações fortalecidas no propósito de servir sem distinções.

A humanidade desencarnada, despidas de dogmas e limitações, abre-se em realização plena em favor daqueles ainda presos a conceitos inibidores da alma.

Pretos-velhos, doutores, caboclos, pintores, filósofos, cientistas e uma gama infinita de companheiro, chegam a nós demonstrando a necessidade urgente de fazer algo, movimentando em nós mesmos, em favor do próximo, os recursos que promovam a libertação das criaturas.

Ao abrir as páginas desta obra, encontrará corações simples, anônimos, porém envoltos pela força da fé no Criador e sinceramente no coração, em fazer o bem pelo bem.

João Cobú

(Pai João)

Abril de 1983. O sol se assemelhava a um deus guerreiro, lançando as suas chamas que aqueciam as moradas dos mortais, como dardos flamejantes que ameaçavam as vidas dos homens. Fazia intenso calor naquele dia, quando o senhor Erasmino se dirigia para seu escritório na avenida Paulista, que, nesse momento, regurgitava de gente, com seu trânsito infernal, desafiando a paciência daqueles que se julgavam possuidores de tal virtude.

Desde muito cedo sentira estranhas sensações que não sabia definir, embora houvesse gastado seu precioso fosfato na tentativa inútil de encontrar explicação para o sentimento esquisito, para as impressões que tentavam dominá-lo. Nunca se sentira desta forma e confessava a si mesmo que algo incomodava sobremaneira.

Quando sua mãe o aconselhou a rezar antes de sair, acabou ignorando-a, pois a velha, acostumada com certas posturas místicas, não fazia lá seu gênero. A pobre mãe tentara de todas as formas convencer o filho desnaturado a se deter um pouco para conversar, para trocarem algumas impressões. Ele recusou terminantemente, alegando a escassez de tempo, em vista das atividades profissionais.

A cabeça parecia rodopiar com a sensação de tontura que o dominava aos poucos. Eram impressões novas, diferentes daquelas consideradas normais até então. Parecia pressentir vultos em torno de si, mas, não conseguindo precisar exatamente o que acontecia, tentou mudar de pensamento, em vão. Começou a suspeitar que estava ficando louco ou, pelo menos, sofrendo de algum problema neurológico, tais os sintomas que detectava em si.

medicamento, para conseguir trabalhar direito

Já fazia algum tempo que não conseguia dormir direito, parecia acometido de pesadelos e passava a noite acordado, sendo obrigado, pela manhã, a tomar algum

Sintomas de melancolia aliados a depressão sucediam-se o completavam-se para estabelecer o clima psíquico adequado para a sintonia com mentes desequilibradas.

Erasmino foi-se desgastando psicologicamente pelo incomodo que sofria.

Procurou médicos e psicólogos, gastando muito dinheiro em tentativas que se provaram inúteis em seu caso particular.

Aos poucos foi-se achando perseguido pelos colegas de trabalho. Em todos via adversários gratuitos que, segundo suas suspeitas, o espreitavam para tentar de alguma forma e por motivo ignorado se livrar dele, tomar o seu lugar no emprego ou intervir em sua vida.

A psicose foi a tal ponto que mesmo em relação aos familiares pensou sofrer perseguição. Não adiantavam os conselhos da mãe, e as sessões com o psicólogo já haviam terminado, sem se obter algum resultado mais definido.

Seguindo o conselho de “amigos”, começou a freqüentar lugares de suspeita moral, entediando-se com as aventuras sexuais, que, de pronto, tornaram sua vida um tormento ainda maior. Foi justamente a partir de tais aventuras que a problemática começou a piorar.

Erasmino! Erasmino!

Eram sussurros. A princípio distantes e depois mais constantes, em casa, no trabalho ou nas tentativas de diversão.

A noite parecia ouvir vozes que chamavam pelo seu nome. O desespero aumentou quando, determinado dia, ao levantar-se, deparou com um vulto de homem prostrado à entrada de seu quarto. A visão se apresentava aos seus olhos estupefatos como sendo de um senhor idoso, todo envolto em roupas esfarrapadas e apresentando os dentes podres, em estranho sorriso emoldurando o rosto. Percebeu ainda, antes de desmaiar, o mau cheiro que exalava da estranha aparição, causando-lhe intenso mal-estar.

Entre imagens de pesadelo e da realidade, pôde perceber-se em ambiente diferente de onde se encontrava o seu corpo físico. Parecia algo familiar. Não era tão desagradável na aparência, aquele lugar. As impressões estranhas que sentia vinham de algo que pairava no ambiente, talvez da atmosfera local.

Em meio a vapores que envolviam sua mente, quem sabe do próprio lugar onde se encontrava, percebeu estranha conversa.

Sentado em uma cadeira de espaldar alto, um espírito estava com alguém que lhe parecia de certa forma familiar.

_ Nós o queremos exatamente como se encontra. Sua mente está confusa e não acredita muito em nossa existência. Aos poucos vamos minando-lhe as resistências psicológicas, e o caos estabelecer-se-á.

Gargalhadas foram ouvidas naquela situação e paisagem mental em que se envolvera. Tal pesadelo parecia não ter fim, quando se sentiu atraído ao corpo pelos gritos de alguém.

Quando acordou, secundado pelos familiares aflitos, resolveu contar todo o tormento que vivia há alguns meses.

Procurei médicos, psicólogos e até já fiz uso de alguns medicamentos, mas

tudo foi em vão, nada surtiu efeito. Acredito que esteja louco, ou alguma coisa semelhante...

Que é isso, meu filho? – Falou à mãe que tudo ouvia, desconfiada.
Parece até caso de mediunidade – aventurou a irmã.

Erasmino levantou-se furioso com as duas, pois não admitia a hipótese de alguma interferência espiritual, a tudo julgando como produto de sua própria mente.

Por mais que procurasse a causa dos males que o acometiam, não conseguia uma explicação lógica, racional.

Os dias se passaram, e o clima era de intranqüilidade entre os familiares, devido à atitude de Erasmino para com sua irmã.

A tensão se estabelecera, em razão das dificuldades em solucionar o caso, que a cada dia parecia mais e mais complicado.

Novamente estava em casa, desta vez preparando-se para sair com alguns amigos, quando, ao entrar na sala, estranho mal-estar o dominou. Parou entre os umbrais da porta. Os amigos, que naquela ocasião já sabiam o que vinha ocorrendo, ampararam-no, conduzindo-o para o sofá, providenciando uma bebida para que ingerisse, tentando amenizar a situação.

O efeito da bebida foi como uma bomba. Imediatamente tudo girou à sua volta, e um torpor o invadiu de imediato, levando-o quase à inconsciência. Começou a gaguejar, não conseguindo coordenar as idéias que lhe afluíam à cabeça. Num misto de pavor e desespero, por desconhecer o que se passava com ele, tentava impedir que sua boca emitisse palavras que já não dominava mais. O transe estabelecido, ouviu sair de sua própria boca, com entonação diferente da que lhe era própria, as palavras nem tanto corteses:

_ Miseráveis, miseráveis!!! – falava com estranha voz – eu o destruirei, eu farei com que repare o mal que me causou – continuava falando, transtornando a todos, que ouviam estarrecidos a voz diferente que saia de sua boca.

_ São todos covardes, tem medo de mim; não sabem o que pretendo nem quem eu sou? – continuou a falar à voz que fazia uso de suas cordas vocais, causando o desespero da família e dos amigos, que tentavam em vão chamá-lo pelo nome, pretendendo acorda-lo do transe, sem ao menos saberem o que se passava.

Depois de muitas tentativas, prostrou-se, finalmente, ante os olhos aflitos de sua mãe e de sua irmã, eu eram atendidas pelos amigos.

Olhos esbugalhados, Erasmino chorava como criança, pois conservara a plena consciência do ocorrido, não conseguindo, no entanto, coordenar as palavras que lhe saiam da boca.

O que ocorreu depois foi um verdadeiro interrogatório, que os amigos lhe faziam, enquanto a Sra. Niquita, sua mãe, corria chamando a vizinha para auxilia-la, pois nunca vira o filho em situação semelhante.

_ Sabe, D. Niquita, eu queria muito lhe falar desde há alguns dias, mas a senhora não me dava oportunidade.

_ Eu não sei o que está acontecendo com meu filho, D. Ione, ele está muito diferente, mas o que ocorreu agora foi o máximo que eu poderia agüentar. Eu tenho medo do meu próprio filho. Imagine, como posso conviver com tudo isso? È tudo tão estranho que não me restou outro jeito senão recorrer a sua ajuda – falou, chorando.

_ A senhora tem que ter muita fé, pois o caso de Erasmino pode ser muito difícil. Eu acho que ele é médium e tem que desenvolver; por isso, ele está levando couro dos espíritos. Olha, eu sei de casos em que a pessoa até chegou a ficar louca, por não obedecer aos guias. É um caso muito sério.

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