Patologia

Patologia

Aluna: EDNARA LAGO DE OLIVERA RA: B18778-6 Turma: FS2A34

PATOLOGIA

AULA 1 – REVISÃO EM CITOLOGIA

Introdução

As células são os menores e mais simples componentes do corpo humano. A maioria das células são tão pequenas, que é necessário juntar milhares para cobrir a área de um centímetro quadrado. As unidades de medida são o macrômetro (µm), o nanômetro (nm) e o angstron (Å).

O termo célula (do grego kytos = cela; do latim cella = espaço vazio), foi usado pela primeira vez por Robert Hooke (em 1655) para descrever suas investigações sobre a constituição da cortiça analisada através de lentes de aumento. A teoria celular, porém, só foi formulada em 1839 por Schleiden e Schwann, onde concluíram que todo ser vivo é constituído por unidades fundamentais: as células. Assim, desenvolveu-se a citologia (ciência que estuda as células), importante ramo da Biologia. As células provêm de outras preexistentes. As reações metabólicas do organismo ocorrem nas células.

Componentes químicos da célula

Água - 70% do volume celular é composto por água, que dissolve e transporta materiais na célula e participa de inúmeras reações bioquímicas.

Sais minerais - Os minerais são nutrientes com função plástica e reguladora do organismo.  São elementos tem sua origem no solo e não podem ser produzidos por organismos vivos.

Carboidratos - Compostos orgânicos formados por carbono, hidrogênio e oxigênio. Exemplos: monossacarídeos (glicose e frutose); dissacarídeos (sacarose, lactose e maltose); polissacarídeos (amido, glicogênio e celulose). Que tem a função de fornecer energia através das oxidações e participação em algumas estruturas celulares.

Lipídios - Compostos formados por carbono, hidrogênio e oxigênio; insolúveis em água e solúveis em éter, acetona e clorofórmio. Exemplos: lipídios simples (óleos, gorduras e cera) e lipídios complexos (fosfolipídios). Tem participação celular e fornecimento de energia através da oxidação.

Proteínas - Compostos formados por carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, que constituem polipeptídios (cadeias de aminoácidos). Exemplo: Albumina, globulina, hemoglobina etc. Sua função é na participação da estrutura celular, na defesa (anticorpos), no transporte de íons e moléculas e na catalisação de reações químicas.

Ácidos Nucléicos - Compostos constituídos por cadeias de nucleotídeos; cada nucleotídeo é formado por uma base nitrogenada (adenina, guanina, citosina, timina e uracila), um açúcar (ribose e desoxirribose) e um ácido fosfórico.

Ácido Desoxirribonucléico (DNA) - Molécula em forma de hélice formada por duas cadeias complementares de nucleotídeos. O DNA é responsável pela transmissão hereditária das características.

Ácido Ribonucléico (RNA) - Molécula formada por cadeia simples de nucleotídeos. O RNA controla a síntese de proteínas.

Trifosfato de Adenosina (ATP) - Tipo especial de nucleotídeo, formado por adenina, ribose e três fosfatos. Tem a função de armazenar energia nas ligações fosfato.

Membrana Celular

A membrana celular é semipermeável e seletiva; transporta materiais passiva ou ativamente.

Transporte Passivo - Difusão no sentido dos gradientes de concentração, sem gasto de energia. Como no transporte de glicose.

Transporte Ativo - Movimentação contra gradientes de concentração, com gasto de energia. Exemplo: bomba de sódio, que concentra K+ mais dentro que fora da célula e Na+ mais fora que dentro.

Transporte Facilitado - Proteínas transportadoras ou permeases modificam a permeabilidade da membrana; ocorre tanto passiva quanto ativamente.

Organização do Citoplasma Celular

Citoplasma Fundamental

Hialoplasma - Colóide com 85% de água e proteínas solúveis e insolúveis (microfilamentos e microtúbulos); reversão de gel para sol e vice-versa.

Retículo Endoplasmático (RE) - Sistema de endomembranas que delimitam canais e vesículas.

RE Rugoso - Retículo endoplasmático associado a ribossomos; local de síntese de proteínas; também denominado RE granular.

RE Liso - Retículo endoplasmático sem ribossomos; local de síntese de lipídios e de carboidratos complexos; também denominado RE agranular.

Ribossomos - Grânulos de 15 a 25 nm de diâmetro, formados por duas subunidades; associam-se ao RE ou encontram-se livres no hialoplasma; são constituídos por proteínas e RNA ribossômico; ligam-se ao RNA mensageiro formando polirribossomos. Tem a função de síntese de proteínas.

Complexo de Golgi - Sistema de bolsas achatadas e empilhadas, de onde destacam-se as vesículas; pequenos conjuntos que são denominados dictiossomos. Armazenam substâncias produzidas pela célula.

Lisossomos - São pequenas vesículas que contêm enzimas digestivas; destacam-se do complexo de Golgi e juntam-se aos vacúolos digestivos. Fazem a digestão intracelular; em alguns casos, extracelular.

Peroxissomos - São pequenas vesículas que contêm peroxidase. Tem a função de decomposição de peróxido de hidrogênio (H2O2), subproduto de reações bioquímicas, altamente tóxico para a célula.

Vacúolos - São cavidades limitadas por membrana lipoprotéica. Os vacúolos podem ser digestivos, autofágicos ou pulsáteis.

Vacúolo Digestivo - As partículas englobadas são atacadas pelas enzimas lisossômicas, formando um fagossomo.

Vacúolo Autofágico - Digere partes da própria célula.

Vacúolo Pulsátil - Controla o excesso de água da célula; comum nos protozoários de água doce.

Centríolos ou Diplossomos - Organelas constituídas por dois cilindros perpendiculares um ao outro; cada cilindro é formado por nove trincas de microtúbulos; ausentes nas células dos vegetais superiores. Tem a função de orientação do processo de divisão celular.

Cílios e Flagelos - São expansões filiformes da superfície da célula; os cílios são curtos e geralmente numerosos; os flagelos são longos e em pequeno número. São formados por nove pares periféricos de microtúbulos e um par central; o corpúsculo basal, inserido no citoplasma, é idêntico aos centríolos. Tem a função de movimentação da célula ou do meio líquido.

Mitocôndrias - São organelas ovóides ou em bastonete, formadas por uma dupla membrana lipoprotéica e uma matriz. A membrana externa é contínua e a interna forma as cristas mitocondriais. Nestas, prendem-se as partículas mitocondriais, constituídas por enzimas respiratórias: NAD, FAD e citocromos. Possuem DNA, sintetizam proteínas específicas e se auto-reproduzem. Produz energia na célula, sob forma de ATP.

Célula e Energia (Respiração Celular)

A respiração celular é a obtenção de energia pela oxidação de moléculas orgânicas, principalmente glicose.

Núcleo

É como se ele fosse o cérebro da célula. É geralmente único e aproximadamente esférico. Apresenta membrana nuclear (ou carioteca), suco nuclear (ou cariolinfa), filamentos de cromatina e nucléolos.

Carioteca - Membrana dupla, lipoprotéica, interrompida por poros.

Cariolinfa - Massa semilíquida que preenche o núcleo.

Cromatina - Filamentos formados por DNA e proteínas; compreende a eucromatina, porção ativa e pouco visível, e a heterocromatina, porção inerte ou pouco ativa e bem visível; forma os cromossomos durante a divisão celular.

Nucléolo - Corpúsculo constituído por RNA ribossômico e proteínas; presente no núcleo interfásico.

Núcleo Interfásico - Período de síntese de RNA e duplicação do DNA

Cromossomos

O cromossomo é constituído por uma longa fita dupla de DNA. O DNA é o material que constitui os genes. O cromossomo é composto de proteínas chamadas histonas, que se arranjam em grupos de oito, e são envolvidas pela molécula de DNA. Estes grupos de oito histonas, enroladas pelo DNA são chamados de nucleossomos. Há muitos nucleossomos na molécula de DNA. São formados por espiralização ou condensação dos filamentos de cromatina, os cromonemas.

AULA 2 - SAÚDE E DOENÇA

O conceito de saúde pode bem ser incluído entre os considerados imprecisos, ou seja, aqueles que, embora aplicados a categorias concretas e de relevância, não permitem sua definição com objetividade, a partir de elementos aceitos universalmente.

Nem por isto deixa de ser amplamente utilizado, tanto no campo da produção do conhecimento científico como na normatização das relações sociais. Podemos dizer que, ao contrário de conceitos bem estabelecidos, demarcados pelos limites que explicitam as suas condições, os conceitos imprecisos são definidos a partir de questões centrais, ou atratores, e de suas interações com outros conceitos com os quais se relacionam, sempre a partir de perspectivas definidas em determinado período histórico.

Assim, conceitos como equilíbrio, capacidade de realização e bem estar, certamente compõem seu núcleo central, embora não sejam suficiente para delimitar completamente o conceito de saúde. Igualmente, doença, sofrimento, incapacidade e não atendimento de necessidades básicas são conceitos externos que, por contraste, permitem sua construção.

Já a ideia de doença é mais imediatista, sempre impondo, ao mesmo tempo, certas competências operacionais e algum tipo de explicação. Historicamente, ela é muito anterior à concepção de saúde, estando presente, de diferentes formas, em todas as organizações sociais conhecidas. Remetendo a questão da identificação e classificação da doença e dos doentes a um saber técnico, que pressupõe divisão de trabalho e transferência de poder.

Assim, diversas concepções de saúde e doença podem coexistir através da persistência de modelos antigos, mas que ainda atendem a necessidades atuais. Nas comunidades tradicionais de coletores e caçadores, a ocorrência de doenças era explicada de modo compatível com sua visão de mundo, pela influência de demônios e outras forças sobrenaturais, que conviviam com os homens e podiam ser por eles invocados ou controlados, desde que fossem utilizados os meios adequados. Esta visão mágica do processo saúde-doença permitia um alto grau de manipulação e era complementada por cuidadosas observações empíricas sobre a utilidade medicinal de produtos naturais, transmitidas cuidadosamente de geração a geração. A efetividade deste modelo dependia da grande interação destas populações com seu ambiente e da força de sugestão que a crença nos poderes dos feiticeiros induzia.

Com a urbanização e estratificação social, o poder de diagnosticar, controlar e explicar as doenças ficou concentrado em um segmento social urbano, os sacerdotes, sempre vinculados aos grupos dominantes. A capacidade de mediar as atenções de deuses e humanos passou a ser monopolizada por estes atores sociais, e o modo mágico de lidar com as doenças foi suplantado pelo modelo místico, ou religioso, que se tornou hegemônico. A doença passou a ser vista como pecado, resultado da desobediência a códigos de condutas prescritos pelos deuses e vigiados pelos sacerdotes, sendo atribuído ao enfermo a responsabilidade, individual ou coletiva, por seus sofrimentos.

Na Grécia, com a escola de Hipócrates, e já sob uma cultura que privilegiava uma reflexão filosófica a cerca do mundo e a observação cuidadosa da natureza, uma medicina de elite pode ser implementada, tendo como princípio o equilíbrio entre o indivíduo e seu ambiente. Era uma medicina centrada no cuidado do corpo, onde o papel do médico era procurar colaborar na restauração da harmonia 9

Este modo de entender a saúde e a doença tinha sua racionalidade na observação cuidadosa dos fenômenos, na concepção da doença enquanto fenômeno natural, e portanto passível de explicação teórica, e na transmissão do conhecimento em condições capazes de assegurar um certo controle sobre a competência dos praticantes.

Sob o Império Romano, esta doutrina clássica, mesmo que restrita apenas a certos grupos sociais, se difundiu pelo Ocidente. Explicações e práticas relacionadas com o pensamento mágico, com o misticismo religioso e com a doutrina hipocrática conviveram com a tradição empírica relacionada com o uso de ervas medicinal, integrando os modos de viver dos diferentes grupos sociais. Mesmo durante o período medieval, quando a ideologia religiosa dominante procurou impor uma visão unificada do mundo, estas diferentes concepções sobre saúde e doença foram mantidas.

Durante o século XIV teve início uma pandemia de peste que devastou a Europa, eliminando mais de um quarto da população, desorganizando o processo social e trazendo outras concepções sobre saúde e doença. No Ocidente criou-se então toda uma cultura centrada no horror e na convivência com a morte, impondo-se as ideias de culpa e de pecado. Judeus e mulheres acusadas de feitiçaria foram massacrados, enquanto todas as diferentes práticas médicas se mostravam absolutamente ineficazes.

O Renascimento cultural e científico possibilitou uma maior compreensão da constituição do corpo humano, estudado detalhadamente por médicos e artistas, e as doenças, como os outros fenômenos, passaram a ser atribuídas a causas naturais. Os grandes avanços na física mecânica e na compreensão da composição química da matéria resultaram na representação do corpo humano como uma máquina, passível de defeitos em seu funcionamento, e que, quando compreendidos, poderiam ser corrigidos. Acompanhando as ciências naturais, preocupadas em descobrir e catalogar novas formas de vida de um mundo que estava sendo revelado, a clínica realizou um grande esforço de identificar, classificar e descrever doenças, novas e antigas.

Apesar desses avanços conceituais, persistiam as limitações técnicas anteriores, e a eficácia dos atos médicos era, na melhor das hipóteses, quase nula. Muitas vezes, pelo contrário, agravavam as condições dos seus pacientes, aumentando o risco de infecções. A atenção à saúde era limitada aos cuidados individuais dos doentes, sendo o diagnóstico e o prognóstico os procedimentos que inicialmente melhor incorporaram a racionalidade científica.

A partir da metade do século XVIII, importantes transformações passaram a ocorrer na Europa, com impactos notáveis sobre as condições de vida e saúde. O crescimento demográfico anterior, a acumulação de capitais resultante da espoliação colonial, o fortalecimento dos Estados Nacionais, com crescentes funções reguladoras, o desenvolvimento técnico de novas máquinas e a consolidação da lógica de produção capitalista possibilitaram a ampliação em níveis inéditos da capacidade produtiva.

A urbanização acelerada e a industrialização são com frequência os processos mais destacados, tanto por seus impactos sobre as condições de produtividade como nas condições de trabalho e qualidade de vida da classe trabalhadora.

Mas estas transformações também modificaram radicalmente as concepções sobre saúde e doença e as formas daquelas sociedades intervirem nestas questões. Inicialmente o adensamento de pessoas em bairros operários e fábricas sem nenhuma condição de saneamento, submetidas a forte desgaste pela carga excessiva de trabalho e alimentação inadequada, resultou em agravamento das condições de saúde a um ponto capaz de ameaçar até mesmo a sobrevivência biológica destes grupos sociais, e portanto a indispensável reprodução ampliada da força de trabalho.

Os avanços das ciências da vida observados na segunda metade do século XIX, com a identificação da estrutura celular, dos principais processos fisiológicos e da teoria evolutiva das espécies, fundamentaram de modo científico a idéia de saúde enquanto situação de adaptação às condições do meio externo. Os modelo de necessidade de equilíbrio entre os meios interno e externo de Claude Bernard, e da seleção natural equilíbrio, e da seleção natural dos mais aptos de Darvin se mostraram muito pertinentes enquanto paradigmas capazes de integrar questões como ordem, diferença e mudança.

A metáfora das sociedades como um grande organismo permitiu a elaboração da noção de patologia social e que fossem desde então propostos métodos próprios para o estudo das doenças neste nível, dando início à estatística vital e à epidemiologia. Uma concepção positiva de saúde, vinculada a condições de vida adequadas, pode então ser elaborada e difundida amplamente, ficando as enfermidades bem caracterizadas como resultado da pobreza e da injustiça, e sua possibilidade de superação.

Dá célula à Patologia

De acordo com a teoria celular, a célula é formada por uma membrana, um citoplasma e um núcleo, que originam uma estrutura viva capaz de controlar seus níveis energéticos, mantendo-os em equilíbrio com o meio extracelular.

As membranas são formadas pela combinação de moléculas básicas do tipo lipoproteínas e fosfolipídeos; a polimerização dos nucleotídios origina o núcleo, mais precisamente o DNA e o RNA, responsáveis pelo controle das reações moleculares internas à membrana ou nela realizadas.

O DNA e o RNA formam o código genético e são as estruturas informacionais e controladoras da manutenção dos níveis energéticos internos, traduzida principalmente pela biossíntese de proteínas.

O citoplasma, por fim, é composto predominantemente por proteínas imersas em um meio aquoso, originando uma espécie de "gel" no qual se processam inúmeras reações químicas e o transporte de moléculas. No citoplasma estão imersas as organelas, compartimentos delimitados por membranas mais simples, com funções específicas de respiração, síntese energética e transporte.o vinculada ao progresso social.

Cada célula tem a propriedade de adquirir características e funções peculiares. A união de células com características comuns é denominada de tecido. O tecido, pois, é composto predominantemente por células e pela substância intercelular. Formada pelas mesmas moléculas primárias que compõem a célula, a substância intercelular é responsável pela arquitetura básica na qual a célula se apoia. É na substância intercelular que se processam as comunicações célula a célula

Conceito de Patologia

A Patologia é o ramo da ciência médica que estuda as alterações morfológicas e fisiológicas dos estados de saúde. O termo "patologia" origina-se do grego ("pathos" = sofrimento, doença; "logia" = estudo). Busca explicar as causas e motivos dos sinais e sintomas das doenças através de técnicas diversas. Estas técnicas podem ser moleculares, microbiológicas, imunológicas e morfológicas.

É dividida em:

Patologia Geral: estuda as alterações das células e tecidos.

Patologia Sistêmica: estuda as alterações em órgãos e sistemas especializados. A Patologia engloba áreas diferentes como:

Etiologia: Estuda as causas gerais de todos os tipos de doenças, podendo ser determinados por fatores intrínsecos ou adquiridos.

Patogenia: A palavra patogenia expressa o modo pelo qual um agente patogênico promove a agressão a um organismo.

Alterações morfológicas: refere-se às alterações estruturais nas células ou nos tecidos que são característicos de doença ou levam ao diagnóstico do processo etiológico. O exercício da patologia diagnóstica se dedica a identificar a natureza e a progressão das doenças por meio do estudo de alterações morfológicas nos tecidos e de alterações químicas nos pacientes.

Fisiopatologia: é o estudo do mecanismo que leva ao aparecimento de doenças, permitindo a elaboração de estratégias de prevenção e tratamento das mesmas. É importante diferenciar de fisiopatogenia, que descreve os mecanismos através dos quais a doença se estabelece.

Didaticamente, a Patologia tem sua história dividida em fases. Estas nada mais são do que a descrição dos conceitos utilizados para explicar a origem dos estados de doença vigentes em um determinado intervalo de tempo e segundo a corrente filosófica predominante.

A Fase Humoral (Idade Antiga - final da Idade Média) - O mecanismo da origem das doenças era explicado, nessa fase, pelo desequilíbrio de humores. Os humores eram considerados os líquidos do corpo, em particular, a água, o sangue e a linfa. Os deuses tinham o poder de controlar esse desequilíbrio, bem como de restituir a normalidade do organismo. Essa visão mítica de doença foi criada principalmente pela civilização antiga grega.

A Fase Orgânica (séc. XV - XVI) Nessa época, há o predomínio da observação dos órgãos do corpo, feita principalmente às custas das atividades de necrópsia (estudo do cadáver) ou de autópsia (estudo de si mesmo).

A Fase Tecidual (séc. XVI-XVIII) - A Fase Tecidual enfatiza a estrutura e a organização dos tecidos. É nesse período que se iniciam os primeiros estudos sobre as alterações morfológicas teciduais e suas relações com os desequilíbrios funcionais.

A Fase Celular (séc.XIX) – Com o predomínio da visão morfológica, somada à aplicação do microscópio óptico às pesquisas médicas, segue-se a Fase Celular, período considerado "inicial à Patologia Moderna". A preocupação com o estudo da célula, principalmente de suas alterações morfológicas e funcionais, é determinante na busca da origem de todo processo mórbido.

A Fase Ultracelular (séc. XX) – A Fase Ultracelular é a fase atual do pensamento conceitual sobre Patologia, envolvendo conceitos sobre biologia molecular e sobre as organelas celulares. Os avanços bioquímicos e a microscopia eletrônica facilitam o desenvolvimento dessa linha de estudo.

Morfostase e Homeostase

Os conceitos de Saúde e Doença invariavelmente referem-se aos termos "morfostase" e "homeostase". A MORFOSTASE e a HOMEOSTASE referem-se, respectivamente, ao equilíbrio da forma e da função. Portanto, pode-se dizer que: “Saúde é a manutenção da morfostase e homeostase”.

Nos estados de saúde, as reações energéticas do organismo ocorrem respeitando padrões de tempo, de local e de intensidade que indicam estados de normalidade dessas reações. As reações que obedecem esses padrões de normalidade são denominadas Reações Homólogas. As reações homólogas são assim chamadas por serem comuns a todos os indivíduos de uma determinada espécie, podendo-se determinar, com isso, suas formas e funções normais.Já o termo "doença" pode ser compreendido como se segue: "A doença é resultado da ação de uma agressão que leva a uma alteração não compensada da homeostase e ou da morfostase”.

O conceito de doença utiliza como critérios de alterações as reações heterólogas, as quais podem ser entendidas como as reações homólogas em situações de anormalidade. Veja a seguir a classificação para as reações heterólogas.

Reações Heterólogas

O distanciamento dos padrões de normalidade e o estabelecimento do processo patológico são norteados por reações ditas Heterólogas (diferentes na origem e na estrutura), ou seja, que são resultado da alteração das reações homólogas e que modificam, assim, o estado normal do organismo. Compreendem, portanto, alterações no tempo, no local e na intensidade das respostas corpóreas a agressões, subdividindo-se, assim, em:

Reações de heterocronia: o tempo de resposta do organismo é alterado. Um exemplo clássico de heterocronia seriam os casos de crianças com 5 anos que já apresentam pêlos na face.

Heterotopia: quando há o aparecimento de um tecido em um local onde não é comumente encontrado. A presença de glândulas sebáceas (Grânulos de Fordyce) na mucosa bucal pode servir como exemplo de heterotopia.

Heterometria: alteração na intensidade da resposta do organismo: Ex.: O aumento da quantidade de muco nas vias respiratórias, fato comum de estados gripais, é uma manifestação corpórea rotineira e que também constitui uma reação heteróloga.

Submissão passiva: o tecido não dispensa energia (ATP) nas alterações morfológicas e funcionais consequentes à agressão, ou seja, participa passivamente. As Degenerações e Infiltrações pertencem a esse grupo.

Submissão ativa: o tecido participa ativamente em sua resposta à agressão, isto é, há um gasto de energia (ATP) para alcançar a morfostase e a homeostase. Nesse grupo, insere-se aInflamação.

Submissão adaptativa: o tecido adapta-se à agressão, ora às custas do gasto de energia, ora passivamente. As Alterações de Crescimento e as Neoplasias encaixam-se nesse grupo.

AULA 3 – HIPERPLASIA

O termo hiperplasia é o aumento do número de células num órgão ou num tecido. A hiperplasia ocorre se a população celular for capaz de sintetizar DNA permitindo, assim, que ocorra a mitose. Devido ao envelhecimento as células vão perdendo a capacidade de sofrer mitose pois não podem mais duplicar seu DNA devido a falta de telômeros dentro do núcleo celular, pois essa substancia vai se perdendo a medida que a célula se multiplica durante toda a vida, por este motivo as pessoas idosas não possuem um corpo atlético, pois suas células já estão envelhecidas.

Hiperplasia Fisiológica

É a hiperplasia mediada por níveis hormonais. Ex: Mama e útero na gravidez e na puberdade e aumento do endométrio após menstruação.

Hiperplasia Hormonal

Ocorre um aumento na capacidade funcional de um tecido quando é necessário. Ex: Proliferação do epitélio glandular da mama feminina na puberdade e durante a gravidez.

Hiperplasia Compensatória

Ocorre um aumento da massa tecidual após dano ou ressecação parcial. Ex: Regeneração do fígado..

Hiperplasia Patológica

Resultam, em geral, de estimulação hormonal excessiva ou então do efeito do fator de crescimento sobre as células-alvo. A hiperplasia nodular da próstata é causada por alterações hormonais relacionadas com a idade avançada, tais como a diminuição dos níveis de testosterona e aumento relativo dos de estrógeno.

Hiperplasia Reacional

São aquelas que aparecem durante a vida intra-uterina.

Hipertrofia

É o aumento quantitativo dos constituintes e das funções celulares, o que provoca aumento das células e órgãos afetados. Para ocorrer hipertrofia, deve-se atender algumas exigências: primeiro o fornecimento de O2 e de nutrientes deve ser maior para suprir o aumento das exigências celulares. Além disso, as células devem ter suas organelas e sistemas enzimáticos íntegros, por isso células lesadas não podem se hipertrofiar. Órgãos e tecidos cuja atividade depende da estimulação nervosa só podem hipertrofiar se a inervação estiver preservada.

Hipoplasia

É a diminuição da atividade formadora dos tecidos orgânicos, é o hipodesenvolvimento de um órgão ou tecido pela a diminuição do número de células que o compõe. A diminuição popular de um tecido em um determinado órgão ou parte do corpo, afeta o local tornando-se menor e mais leve que o normal, mas os padrões básicos de sua arquitetura continuam os mesmos. Existem várias causas para que ocorra a hipoplasia, desde a má formação e desenvolvimento do embrião no útero até ações fisiológicas e patológicas. Na embriogênese, a hipoplasia desencadeia um defeito na formação de um órgão ou parte dele, como na hipoplasia pulmonar. Após o nascimento, essa diferenciação celular é resultado da diminuição no ritmo da renovação celular, aumento da taxa de distribuição das células ou a ocorrência dos dois ao mesmo tempo.

Metaplasia

Metaplasia é uma alteração reversível quando uma célula adulta, seja epitelial ou mesenquimal, é substituída por outra de outro tipo celular. Pode ser interpretado como uma tentativa do organismo de substituir um tipo celular exposto a um estresse a um tipo celular mais apto a suportá-lo. Por exemplo, uma forma comum de metaplasia, o epitélio pseudoestratificado colunar ciliar do trato respiratório, submetido cronicamente a irritação pela fumaça do cigarro, passa a ser do estratificado pavimentoso. Deficiência de vitamina A, doença do refluxo gastroesofágico, litíases, entre outros fatores, também podem levar à metaplasia.

Embora a metaplasia leve ao surgimento de um epitélio mais apto ao ambiente hostil geralmente isto se dá às custas de perdas. No caso do trato respiratório, o epitélio substituto (metaplásico) é desprovido da capacidade de secreção de muco e da ação ciliar. Portanto, a metaplasia representa geralmente uma mudança indesejada. Além disso, o mesmo estímulo, hostil, que gerou a metaplasia, se persistir, pode induzir a transformação neoplásica. Dessa forma, temos o carcinoma de células escamosas no trato respiratório e o adenocarcinoma no esôfago de Barrett.

A metaplasia também ocorre em células do tecido conjuntivo com a formação de cartilagem, tecido adiposo ou osso (tecidos mesenquimais) em tecidos que originalmente não possuem esses elementos. Existem quatro tipos distintos de metaplasia:

Epitelial escamoso: ocorre em fumantes, onde o epitélio pseudo-estratificado ciliado que reveste os brônquios pode transformar-se em epitélio estratificado pavimentoso. Consequentemente há a perda de secreção de muco. Pode ocorrer também no caso de refluxo esofágico na esofagite de Barrett, onde as células estratificadas pavimentosas desse órgão são substituídas por células colunares semelhantes às intestinais. Outro local onde pode aparecer esse tipo de metaplasia é no colo uterino, sendo o epitélio colunar substituído por epitélio escamoso estratificado.

Epitelial glandular: ocorre, por exemplo, quando há a substituição do epitélio colunar mucoso da endocérvice do trato reprodutivo feminino.

Do trato reprodutivo: pode ocorrer em diversos epitélios do trato reprodutivo feminino. Um exemplo ocorre no epitélio germinativo do ovário, quando durante o processo de ovulação, leva à uma hiperplasia que pode resultar em cisto ovariano, resultando em um cistoadenoma seroso, podendo evoluir para um cistoadenocarcinoma seroso.

Do tecido conectivo: é quando acomete tecido conjuntivo levando à formação de cartilagemtecido adiposo ou ósseo em locais onde originalmente não existiam.

Displasia

Displasia, no contexto da saúde, é um termo generalista utilizado para designar a ocorrência de anomalias relacionadas ao desenvolvimento de um órgão ou tecido, intimamente relacionadas a leitura do código genético. Ocorre em todos animais, inclusive em humanos. Também se refere ao local que cresceu anormalmente. Pode se tornar um tumor maligno.

Lesão celular reversível desencadeada por irritantes crônicos. Sua alteração pode acontecer na forma, tamanho ou organização de um determinado tecido ou epitélio, podendo variar em três níveis:

  1. Leve

  2. Moderada

  3. Grave

Quando atinge o nível grave pode ser denominado de carcinoma "in situ", que é uma forma precoce de tumor).

AULA 4 – ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS

Degeneração Gordurosa

É o acúmulo anormal reversível de lipídios no citoplasma de células parenquimatosas (principalmente de túbulos renais, hepatócitos, e fibras do miocárdio - células que normalmente metabolizam muita gordura) onde normalmente lipídios não seriam evidenciados histologicamente, formando vacúolos (pequenos e múltiplos ou único e volumoso) em consequência de desequilíbrios na síntese, utilização ou mobilização dos lipídio.

Na degeneração gordurosa, o lipídio predominante é o triglicerídio. Tanto uma dieta rica em gordura (excesso de gordura no fígado), quanto pobre em proteína (são as proteínas que carregam a gordura do fígado para os tecidos) podem gerar uma degeneração gordurosa. Muitas agressões são capazes de produzir uma esteatose:

Entrada excessiva de ácidos graxos livres

Aumento da ingestão de gordura

Jejum prolongado

Produção de ácidos graxos a partir do excesso de Acetil-CoA

Agentes tóxicos (Etanol)

Metabolismo Lipídico

O metabolismo lipídico ou metabolismo dos lipídios ocorre no fígado, estes lipídios são provenientes de duas fontes: dos alimentos ingeridos e da reserva orgânica que é o tecido adiposo.

Diariamente, ingerimos cerca de 25g-105g de lipídios. Estes lipídios estão geralmente sob forma de triglicerídeos (TG). O armazenamento de ácidos graxos na forma de TG é o mais eficiente e quantitativamente mais importante do que o de carboidratos na forma de glicogênio. Quando hormônios sinalizam a necessidade de energia metabólica, promove-se a liberação destes TG com o objetivo de convertê-los em ácidos graxos livres, os quais serão oxidados para produzir energia. No entanto, outras formas de lipídios fazem parte da dieta diária, como os fosfolipídios, o colesterol e as vitaminas lipossolúveis.

No duodeno, a primeira parte do intestino delgado, sob a ação da bile que é constituída por sais biliares, produzida no fígado e transportada pelo canal colédoco até o duodeno, os lipídios da dieta são emulsionados, formando partículas de 500-1000 micra de diâmetro, contendo principalmente TG. Estas partículas ativam as lipases pancreáticas, enzimas responsáveis pela digestão de lipídios. As enzimas encontram-se no suco pancreático, atuando apenas em pH alcalino (8 a 8,5) que é garantido pelo bicarbonato de sódio (NaHCO3) que também se encontra no suco pancreático. As lipases quebram os lipídios em ácidos graxos livres e monoglicerídeos, catalisando a hidrólise dos triglicerídeos com a formação de dois monoglicérideos e dois ácidos graxos. Os ácidos graxos são os principais mecanismos de produção de energia.

No interior do enterócito jejunal, os ácidos graxos livres e os monoglicerídicos são ofertados ao REL, sendo novamente convertidos em TG. O colesterol é convertido em ésteres de colesterol.

Os TG + fosfolípides + colesterol e seus ésteres + ácido graxos livres + vitaminas lipossolúveis reagem no REL com proteínas, formando partículas estáveis denominadas quilomícrons. A partir do próprio REL, forma-se um vacúolo que engloba os quilomícrons. Estes vacúolo então se abrem para o espaço intercelular e os seus conteúdos são captados pela linfa, penetrando pelo ductos lactíferos e vasos linfáticos, chegando ao ducto torácico e despejando-os na corrente circulatória venosa (os quilomícrons não entram no sangue portal porque são demasiadamente grandes para penetrar nos capilares intestinais).

Uma vez na circulação, os quilomícrons passam através dos sinusóides hepáticos, que possuem descontínua, caem no espaço de Disse e são ofertados à vilosidades dos hepatócitos.

Dos quilomícrons, o hepatócito remove os triglicérides, hidrolisando-os em ácidos graxos livres e glicerol (alguns autores acreditam que a hidrólise ocorre pela ação de lipases lipoprotéicas existentes nas células endoteliais dos capilares). Os ácidos graxos livres são usados para o metabolismo energético ou são esterificados no RER, onde são conjugados com (proteínas (proteínas receptoras de lípides ou apoproteínas), formando lipoproteínas que são exportadas pelo hepatócito e utilizadas por outros órgão. Na formação das lipoproteínas estáveis para exportação, são fundamentais os fosfolípides sintetizados no hepatócito pela esterificação de grupos hidroxila do glicerol para ácido fosfórico e ácidos graxos; eles dão estabilidade à molécula lipoprotéica, além de serem importantes na formação das membranas celulares. Os TG no RER podem ainda servir como fonte energética, ao serem convertidos em colesterol e ésteres que, incorporando fosfolípides, são oxidados em corpos cetônicos.

Os quilomícrons são também ofertados aos adipócitos depois de serem convertidos em ácidos graxos livres e glicerol pela ação de lipases lipoprotéicas existentes nas células endoteliais dos capilares, abundantes no tecido adiposo. O glicerol é ofertado ao fígado onde é reutilizado.

AULA 6 – ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS

Degeneração Hialina

É basicamente caracterizada por um acúmulo de proteínas, podendo ser epitelial (dentro da célula, substância com forma de pequenos grânulos acidófilos ou aglomerados irregulares) ou conjuntiva (fora da célula, atingindo o tecido conjuntivo fibroso e a parede dos vasos, daí também o nome conjuntivo-vascular). Com aspecto homogêneo de certa transparência, brilho e corado de róseo, podemos dizer que o nome provém dessas características singulares. Há vários tipos de degeneração hialina.

Degeneração hialina extracelular

Degeneração hialina propriamente dita

É a mais comum, atingindo o tecido conjuntivo fibroso (ex: cicatrizes antigas) e a parede de vasos (ex: arteríolas e capilares glomerulares – hipertensão, diabetes, lúpus eritematoso)

Amiloidose

Síndrome que agrupa processos patológicos diversos, cuja característica comum é o depósito intercelular e na parede de vasos de uma substância hialina, amorfa, proteinácea. Ocorre acúmulo, em vários tecidos de amilóide, uma substância proteica rara (que normalmente não está presente no corpo). Há três tipos de amiloidose:

Amiloidose Primária: causa desconhecida, sendo que a doença pode estar associada a alterações das células plasmáticas, como o mieloma múltiplo;

Amiloidose Secundária: resulta de outras doenças (tuberculose, infecções dos ossos, artrite reumatóide, febre familiar do Mediterrâneo);

Amiloidose Hereditária: afeta os nervos e certos órgãos e foi detectada em indivíduos provenientes de Portugal, da Suécia, do Japão e de muitos outros países.

Uma quarta forma pode estar associada ao envelhecimento normal, afetando, sobretudo o coração.

O diagnóstico é fácil (técnica microscópica com uma coloração específica - vermelho congo), embora seja dificultado pela associação da amiloidose a diversas outras doenças e devido à grande diversidade de sintomas.

O prognóstico é diverso, indo desde a inofensividade até a doença terminal.

Degeneração hialina intracelular

Degeneração Hialina Goticular:  Surgimento de várias gotículas hialinas dentro das células. Ocorre principalmente em doenças renais onde o glomérulo permitirá a passagem de proteínas que serão pinocitadas. Há um aumento na reabsorção de proteínas nas vesículas e proteinúria.

Corpúsculo de Russel: A Imunoglobulina formará o corpúsculo, ocorrerá uma cristalização no citoplasma do plasmócito.

Degeneração Hialina de Mallory: Aparece em patológicas como cirrose hepática e carcinoma hepático. Os hepatócitos apresentam massas hialinas. Ocorre devido a destruição de proteínas do citoesqueleto, por exemplo. É reversível

Corpúsculo de Councilman (Rocha Lima) -Encontrados nos hepatócitos em hepatites virais resultantes da apoptose; ocorre a degeneração do nucléolo e a proteína decorrente da apoptose fica acumulada.

Degeneração Hialina na deficiência de Alfa-1-antitripsina

A alfa-1-antitripsina (A1AT) é uma glicoproteína de 52 kDa produzida principalmente pelos hepatócitos que liberam diariamente cerca de 2g da proteína na circulação. A principal função da A1AT é inibir a elastase neutrofílica, uma protease de serina que tem a capacidade de hidrolisar as fibras de elastina no pulmão. Entretanto, devido a alterações da estrutura proteica causadas por mutações em seu gene, algumas vezes a proteína perde sua capacidade inibitória ou se agrega em forma de corpúsculo de inclusão nos hepatócitos, ocasionando a diminuição dos seus níveis séricos normais.  Essa deficiência é refletida no pulmão sob a forma de enfisema, bronquite crônica ou bronquectasia. No fígado, o acúmulo da proteína mutante nos hepatócitos pode levar à colestase neonatal, hepatopatia crônica ou cirrose.

Degeneração Hialina de Crooke

Esta alteração é observada nas células basófilas produtoras de ACTH da hipófise na Síndrome de Cushing. A base desta alteração não é conhecida.

Degeneração Cérea de Zenker

Processos degenerativos e necróticos celulares associados a coagulação focal de proteínas citoplasmáticas levam ao aparecimento de massas homogêneas acidofílicas (hialinas). É observada nas células musculares estriadas de músculos como o diafragma, retroabdominais e gastrocnêmio nos casos de doenças febris graves, como a febre tifoide, difteria, leptospirose, e também no choque anafilático.

AULA 7 – ALTERAÇÕES DEGENERATIVAS

Degeneração Mucóide

Alteração real ou aparente (embebição em água e íons) da Substância Fundamental Amorfa, que se apresenta intumescida, basófila (devida aos Mucopolissacárides Ácidos - MPS Ac), metacromática, com dissociação das fibras colágenas, e com fibroblastos apresentando núcleos hipercromáticos e estrelados, devido ao aumento da síntese ou à despolimerização incipiente (com liberação de MPS Ácidos sulfatados ou carboxilados) resultando no aparecimento de material de aspecto mucóide (lembrando tecido conjuntivo fetal primitivo - "Gelatina de Wharton"). É um processo agudo e reversível, sendo encontrado mais frequentemente nos ligamentos, tendões, meniscos, dura-máter espinhal, na mixomatose dos coelhos (causada por um poxvírus, afetando principalmente o limite pele - mucosas e as orelhas), no hiper e hipotireoidismo (com formação do "Mixedema" na derme) e em algumas imunopatias.

Degeneração Glicogênica

 São processos nos quais a glicose é reabsorvida pelas células dos rins (tubulares renais) e células do fígado (hepatócitos), sendo armazenada na forma de glicogênio, conferindo às células tubulares um aspecto finamente vacuolizado que se assemelha à degeneração hidrópica.

AULA 8 – MORTE CELULAR

O termo "apoptose" foi introduzido em 1972, mas somente no início da década de 90 começou a ser intensamente investigado. "Apoptose" origina-se do grego e significa "cair fora", ou seja, é o mecanismo pelo qual a célula promove a sua autodestruição de modo programado. Esse fenômeno já foi observado, dentre outros processos, durante a embriogênese (principalmente nas fases de organogênese e de involução), durante os processos de metamorfose (relacionados principalmente a metaplasias), em quadros de alteração hormonal, como a menopausa (envolvendo as células endometriais), em tumores com fases de regressão ou de intensa proliferação e em algumas doenças virais (como a hepatite viral).

A importância desse mecanismo, em primeira instância considerado normal, relaciona-se primeiramente ao controle da densidade populacional de células normais; pode ser interpretado também como o instrumento de deleção de células danificadas por toxinas, radiação ou outros estímulos.

Os eventos celulares que fazem parte da apoptose incluem, inicialmente, a condensação da cromatina nuclear, oriunda da fragmentação do DNA por endonucleases; o mecanismo da ativação dessas endonucleases ainda não está completamente estabelecido. Há também diminuição do volume celular, decorrente de ligações interprotéicas no citoplasma. As células em apoptose manifestam receptores para macrófagos, os quais fagocitam essas células. Todos esses eventos são controlados por genes responsáveis pelo crescimento e diferenciação celular.

Lesão Celular Irreversível

Ocorre quando a célula torna-se incapaz de recuperar-se mesmo depois de cessada a agressão, caminhando para morte celular, que pode ser por um ou dois possíveis mecanismos: necrose e apoptose.

Necrose

A necrose é a manifestação final de uma célula que sofreu lesões irreversíveis. Segundo Guidugli-Neto (1997), o conceito de morte somática envolve a "parada definitiva das funções orgânicas e dos processos reversíveis do metabolismo". A necrose é a morte celular ou tecidual acidental em um organismo ainda vivo, ou seja, que ainda conserva suas funções orgânicas. Vale dizer que é natural que a célula morra, para a manutenção do equilíbrio tecidual. Nesse caso, o mecanismo de morte é denominado de "apoptose" ou "morte programada".

A etiologia da necrose envolve todos os fatores relacionados às agressões, podendo ser agrupadas em agentes físicos, agentes químicos e agentes biológicos:

1) Agentes físicos: Ex.: ação mecânica, temperatura, radiação, efeitos magnéticos;

2) Agentes químicos: compreendem substâncias tóxicas e não tóxicas. Ex.: tetracloreto de carbono, álcool, medicamentos, detergentes, fenóis etc.

3) Agentes biológicos: Ex.: infecções viróticas, bacterianas ou micóticas, parasitas etc.

Esses agentes provocam o comprometimento dos níveis celulares de respiração aeróbica, desíntese protéica, de manutenção da integridade das membranas celulares e de manutenção da capacidade de multiplicação celular (RNA e DNA). A ação das causas sobre esses sistemas provoca a perda da homeostase e da morfostase celular de tal forma que a célula perde a sua vitalidade. A necrose, assim, abrange alterações regressivas reversíveis que, em algum ponto e por algum estímulo desconhecido, passam a ser irreversíveis; instalada a irreversibilidade e a necrose propriamente dita, inicia-se o processo de desintegração celular (autólise).

Dinâmica da Morte e Necrose Celular

Estágio 1: Dilatação RER e discreta condensação cromatina nuclear, separação de alguns ribossomos do RER, edema celular (água no citoplasma)

Estágio 2: Condensação mitocôndrias, aumento edema celular, tumefações bolhosas irregulares ao longo da membrana celular.

Estágio 3: Ponto de morte celular – sem retorno – fase de necrose. Mitocôndrias marcadamente inchadas, aumento da dispersão dos ribossomos e do edema celular

Estágio 4: Degradação por autólise e desnaturação protéica (irregularidades grosseiras na membrana), lisossomas primários aumentados e inúmeros lisossomas secundários

Estágio 5: Desaparecimento dos lisossomas primários e secundários, soluções de continuidade da membrana celular

Estágio 6: Estrutura normal da célula está irreconhecível - restos de membrana (fragmentação e distorção das organelas), sombras das estruturas celulares.

Tipos de necroses

O tecido necrosado pode apresentar várias formas macro e microscópicas, dependendo dos seguintes fatores: agente etiológico, composição do tecido e enzimas que permanecem ativas. Assim, podemos diferenciar vários tipos de necrose, de acordo com as alterações morfológicas que resultam da influência desses fatores. Essa diferenciação é de utilidade, uma vez que oferece um indício quanto à etiologia da necrose. P. ex., a necrose caseosa é mais frequentemente provocada pelo bacilo de Koch.

Podem se diferenciar os seguintes tipos de necrose: 1) necrose coagulativa; 2) necrose liquefativa; 3) necrose caseosa e 4) necrose de tecido gorduroso. Alguns autores diferenciam um quinto tipo, a necrose gomosa. No entanto, esse tipo de necrose é considerado como uma variedade da necrose coagulativa. Similarmente, há autores que classificam a necrose caseosa como variedade da necrose coagulativa.

Necrose coagulativa – A necrose coagulativa ou necrose por coagulação se caracteriza pelo aspecto peculiar das células mortas, que apresentam citoplasma opaco, acidófilo, devido à ação coagulante das substâncias que atuam sobre as proteínas celulares. Possivelmente, pela desnaturação das enzimas líticas não ocorre a liquefação dos tecidos. Muitas vezes a arquitetura grosseira do tecido fica preservada durante algum tempo, mesmo quando os detalhes celulares são perdidos. Resumindo, o que caracteriza a necrose coagulativa é a persistência do arcabouço celular por um período relativamente longo . Macroscopicamente a área necrosada aparece bem delimitada, mais pálida e com consistência maior que o tecido normal.

Necrose liquefativa – A necrose liquefativa ou necrose por liquefação se caracteriza pela consistência mole ou pelo estado líquido do tecido necrosado. O amolecimento e lise do tecido necrosado se deve à ação das enzimas liberadas pelo tecido morto, pelas células inflamatórias ou pelo agente causal, favorecida pela estrutura e constituição do tecido.

Este tipo de necrose é característico do sistema nervoso central que, pela sua riqueza em lipídios e baixo conteúdo protéico, apresenta pequena capacidade coagulativa, facilitando a liquefação. Pode ser observada também no centro dos abscessos, sendo responsável pela dissolução dos tecidos e formação da parte líquida do pus. Neste caso, contribuem para a dissolução dos tecidos as enzimas liberadas pelas bactérias, leucócitos e pelas células necrosadas.

Necrose caseosa – A necrose caseosa ou necrose por caseificação se caracteriza pela aparência do tecido necrosado semelhante à massa do queijo (caseum = queijo). O tecido morto se apresenta como uma massa amorfa esbranquiçada ou amarelada, opaca, de consistência pastosa, friável e seca. Ao microscópio se apresenta como uma massa eosinófila granulosa, com perda total dos limites celulares e da estrutura citoplasmática. Podem se vistos restos nucleares picnóticos e em cariorrexe. Este tipo de necrose ocorre pela autólise rápida e completa, de modo que a arquitetura do tecido fica prejudicada. É característica da tuberculose, mas pode ser observada também em outros processos inflamatórios como histoplasmose, tularemia, paracoccidiodomicose, etc.

Necrose de tecido gorduroso – A necrose de tecido gorduroso é considerada tradicionalmente um tipo especial. Porém, a sua única característica especial é a de envolver tecido adiposo, causando o desdobramento das gorduras em ácidos graxos livres e glicerol. Os ácidos graxos saem das células e se saponificam com sais alcalinos, formando sabões que se apresentam como precipitados brancos (manchas em pingo de vela).

Exemplos de necrose de tecido gorduroso ocorrem no tecido adiposo peripancreático na pancreatite aguda e na necrose gordurosa mamária. Na pancreatite aguda há liberação de lípases pancreáticas na cavidade peritonial, resultando de sua ação sobre as gorduras, a necrose de tecido gorduroso. Os ácidos graxos liberados pela ação da lípase combinam-se com sais de cálcio formando sabões, que desencadeiam focos de intensa reação inflamatória aguda no peritônio.

A necrose de tecido gorduroso na glândula mamária resulta aparentemente de um trauma, ocasionando uma resposta inflamatória crônica que pode resultar na formação da uma massa fibrosa firme.

Evolução das Necroses

O tecido necrosado, de modo geral, comporta-se como elemento estranho que o organismo procura eliminar. O modo de eliminação depende da extensão da massa necrosada, do local onde se localiza e da causa da necrose. Assim pode ocorrer absorção, drenagem, cicatrização e calcificação, encistamento e a gangrena.

Absorção - A absorção do tecido necrosado pelos macrófagos dos tecidos vizinhos (fagocitose). Esta forma de eliminação ocorre quando a área necrosada é pequena, e desde que o tecido vizinho possua capacidade de fagocitose.

Drenagem - A drenagem do tecido necrosado pode ocorrer através de vias excretoras normais ou neoformadas. Exemplo de drenagem é a do tecido pulmonar necrosado na tuberculose, que pode ser eliminado através da árvore brônquica num acesso de tosse, deixando no seu lugar uma cavidade (caverna tuberculosa).

Cicatrização e Calcificação - Esta forma de evolução das necroses consiste na substituição do tecido morto por uma cicatriz fibrosa, como ocorre nos infartos. A deposição de sais de cálcio sobre o tecido necrosado (calcificação distrófica) é outra possível evolução das necroses, especialmente nas necroses caseosa e de tecido gorduroso.

Encistamento -- A formação de pseudocistos ocorre principalmente no sistema nervoso central, onde a capacidade de absorção é reduzida e não há meios de drenagem do tecido morto. A área necrosada (necrose liquefativa) constitui uma cavidade pseudocística contendo líquido, revestida pelo tecido vivo circundante.

Gangrena -- A gangrena resulta da ação de agentes externos sobre o tecido necrosado. A gangrena pode ser seca, úmida ou gasosa.

A gangrena seca se caracteriza pela desidratação do tecido necrosado, que se torna duro e seco como pergaminho, semelhante aos tecido das múmias (daí a denominação de mumificação, também usado para esta gangrena). Ocorre mormente nas extremidades, como pés, orelhas, nariz, sendo a causa mais frequente a isquemia. Em condições fisiológicas este tipo de gangrena ocorre no cordão umbilical da criança após o nascimento.

A gangrena úmida ocorre pela ação de bactérias anaeróbicas saprófitas que causam a liquefação e putrefação do tecido morto. Ocorre principalmente em tecidos úmidos, que favorecem a penetração das bactérias, como pulmão, mucosa uterina e intestinos. Nesta gangrena há formação de produtos que quando absorvidos pelo organismo causam intoxicação grave, por vezes fatal. Um tipo de gangrena úmida é o NOMA, que ocorre na mucosa bucal de pessoas malnutridas.

A gangrena gasosa é aquela em que se formam bolhas, devido à ação de bactérias anaeróbicas gasógenas (gen. Clostridium, principalmente C. perfrigens, C. septicum, C. histoliticum e C. bifermentans), que sintetizam enzimas que desintegram os tecidos necrosados, liberando produtos tóxicos e gases. Esta gangrena ocorre em ferimentos infectados e especialmente em ferimentos de guerra. É de extrema gravidade e quase sempre fatal.

A Fibrose Cística

Também conhecida como Mucoviscidose, é uma doença genética autossômica (não ligada ao cromossoma x) recessiva (que são necessários para se manifestar mutações nos 2 cromossomas do par afetado) causada por um distúrbio nas secreções de algumas glândulas, nomeadamente as glândulas exócrinas (glândulas produtoras de muco).

O cromossoma afetado é o cromossoma 7, sendo este responsável pela produção de uma proteína que vai regular a passagem de cloro e de sódio pelas membranas celulares.

A Fibrose Cística engloba-se num grupo de patologias denominadas D.P.O.C (doença pulmonar obstrutiva crônica) que se caracterizam por haver uma obstrução crônica das vias aéreas, diminuindo a capacidade de ventilação.

Quando se utiliza o termo DPCO está-se a referir a todas as doenças pulmonares obstrutivas mais comuns como a bronquite crónica (tosse produtiva na maioria dos dias, por pelo menos 3 meses num ano), enfisema pulmonar (quando muitos alvéolos estão destruidos e os restantes ficam com o seu funcionamento alterado), asma brônquica e bronquiestasias.

Mucopolissacaridose

É um subgrupo das doenças de depósito lisossômicos (DDL) as quais pertencem ao ainda maior grupo de doenças intitulados "Erros Inatos do Metabolismo", configurando-se numa doença metabólica causada por deficiência de enzimas.

Nas MPS, existe a deficiência ou falta de uma determinada enzima nos lisossomos, o que leva ao acumulo de glicosaminoglicanos (GAG), esse acumulo pode levar a disfunção na função celular e, na maioria dos casos, efeitos patológicos nas célulastecidos e órgãos. A incidência acumulada de todas as MPS é de 1: 22.500 nascidos vivos, porém poucos estudos foram feitos, o que leva a crer que essa incidência é subestimada.

As manifestações clínicas das MPS's são normalmente multissistêmicas (afetam diversos órgãos) e muito variáveis, existindo formas leves a muito graves. Existem sete tipos de MPS atualmente descritas, resultado da deficiência de uma enzima lisossômica.

Síndrome de Hurler 

A Síndrome de Hurler é deficiência de a-L-iduronidase (gene localizado 4p16.3). A morte ocorre, em geral, aos dez anos, em consequência de problemas cardio-respiratórios. Pode ser detectada em exame das vilosidades coriônicas e tem uma incidência de 1/100.000. Outras denominações para “essa patologia são Gargulismo” e mucopolissacaridoses ou acúmulo de mucopolisacarídeos, atualmente denominados glicosaminoglicanos.

Síndrome de Hunter

A síndrome de Hunter ou mucopolissacaridose tipo II (MPS II) é um raro e grave distúrbio genético  que afeta principalmente os homens. A doença interfere na capacidade do organismo em quebrar e reciclar determinadas substâncias conhecidas como mucopolissacarídeos ou glicosaminoglicanos (GAGs). A síndrome de Hunter é uma das várias doenças de depósito lisossômico.

Na síndrome de Hunter, os GAGs se acumulam nas células de todo o corpo em virtude da deficiência ou da ausência da enzima iduronato-2-sulfatase (I2S). Este acúmulo interfere no funcionamento de determinadas células e órgãos do corpo e produz uma série de graves sintomas no paciente . À medida que o acúmulo de GAG se intensifica nas células de todo o corpo, os sinais da síndrome de Hunter se tornam mais visíveis.

Para algumas pessoas, as manifestações físicas incluem características faciais típicas, como volume da cabeça aumentado (macrocefalia) e aumento de abdômen. Os portadores da síndrome de Hunter também podem apresentar perdas auditivas, espessamento das válvulas cardíacas (levando a um declínio progressivo na função cardíaca), doença obstrutiva das vias aéreas, apnéia do sono e aumento do fígado e baço. A amplitude dos movimentos e a mobilidade também podem ser afetadas. Em alguns casos da doença, o envolvimento do sistema nervoso central pode ocasionar atrasos no desenvolvimento e problemas no sistema nervoso central. Nem todos os portadores de MPS II são acometidos da mesma maneira e a velocidade da progressão dos sintomas é muito variável. No entanto, não se pode esquecer que a síndrome de Hunter é geralmente grave, possui caráter progressivo  e, invariavelmente, afeta a qualidade de vida do paciente, podendo levar à diminuição significativa de  sua expectativa de vida.

Glicogenoses

 As glicogenoses são doenças secundárias a um erro no metabolismo, hereditário, o qual resulta de concentrações alteradas de glicogênio no organismo. Existem mais de 10 diferentes tipos, dependendo do defeito enzimático encontrado.

   O glicogênio está presente em todas as células animais, sendo mais abundante no fígado e nos músculos. É a forma através da qual armazenamos a glicose da dieta. A glicose chega ao fígado pela veia porta. Quando há necessidade de uso da glicose (situações de stress, jejum), há quebra desse glicogênio por meio de processo enzimático ocorrendo então, liberação da glicose para a circulação sanguínea. Dessa forma, o fígado proporciona a liberação de glicose para vários órgãos, incluindo o cérebro. Quando o glicogênio não consegue ser quebrado devido à deficiência de algumas das enzimas envolvidas, este se acumula no órgão e, a não liberação de glicose para a circulação acarreta uma série de consequências.

 É causada pela deficiência da enzima chamada glicose-6-fosfatase. Se subdivide em Ia, Ib e Ic. É o tipo mais comum e o órgão acometido é o fígado. Esta enzima também é encontrada nos músculos, rins e mucosa do intestino delgado. Como esta enzima é a principal responsável pela liberação de glicose para a circulação, é de se esperar que as pessoas com glicogenose tipo I sejam incapazes de manter níveis adequados de glicemia nos períodos de jejum. Como consequências metabólicas temos:

  Hipoglicemia: Muitas crianças apresentam, como primeiro sintoma, convulsões secundárias à hipoglicemia. No entanto, a hipoglicemia pode não ser acompanhada de sintomas visto que o cérebro pode fazer uso do ácido láctico como substrato. Estudos têm mostrado que, com o avançar da idade, há uma tendência à diminuição da hipoglicemia. Ainda não se sabe, com certeza, a explicação para esse fato, mas três mecanismos têm sido sugeridos: presença de atividade residual da enzima em alguns indivíduos; presença da enzima amilo-1,6-glicosidase, a qual é responsável pela liberação de cerca de 8-10% da glicose produzida pelo fígado; presença da a-glicosidase ácida que libera todo o glicogênio degradado pelo lisossomo na forma de glicose.

   Acidose láctica: o lactato geralmente está aumentado em cerca de quatro vezes o normal. O ácido láctico é produzido nos músculos e hemácias e metabolizado no fígado, sendo desviado para a síntese de ácidos graxos ou gliconeogênese. Seu acúmulo na glicogenose tipo I decorre da sua não utilização na gliconeogênese. Mesmo com o controle da doença, os níveis nunca atingem valores normais.

   Aumento do ácido úrico: a hiperuricemia resulta da diminuição da excreção de urato pelo rim (devido competição com ácido láctico) e do aumento na produção de ácido úrico. Como consequência pode aparecer cálculos renais, gota e nefropatia.

Hiperlipidemia: algumas características clínicas dessa doença, como obesidade e "face de boneca", demonstram a deposição anormal de gordura. O proeminente aumento do fígado observado nesses pacientes se deve muito mais à infiltração de gordura do que ao acúmulo de glicogênio. Os níveis séricos de triglicerídios estão bastante elevados, podendo atingir 4000-6000mg/dL. Por outro lado, os níveis de colesterol e fosfolípides estão moderadamente elevados. A hiperlipoproteinemia é principalmente causada pela elevação das frações VLDL e LDL. A alteração do metabolismo dos lipídios está relacionada com a alteração do metabolismo dos carboidratos e conseqüente alteração hormonal. Apesar do perfil lipídico poder sugerir risco para doença coronariana, não há relatos de doença coronariana precoce nesses pacientes.

Desordens hematológicas:

Disfunção das plaquetas (reduzida adesividade e alteração na agregação) levando a um tempo de sangramento prolongado. Como conseqüência, é comum a queixa de sangramentos nasais e tendência para hemorragia durante procedimentos cirúrgicos. O controle da doença corrige essas alterações;

Alteração nos leucócitos polimorfonucleares: neutropenia tem sido descrita no subtipo Ib, podendo atingir valores abaixo de 1500/mm. Também há uma deficiência na função dessas células. Esses fatores contribuem para aumentar a susceptibilidade desses pacientes às infecções.

Alterações gastrointestinais: frequentemente há o aparecimento de diarréia intermitente, pois como já mencionado, a enzima também ocorre na mucosa do delgado. Tem sido descrita diarréia secundária à sobrecarga de lactose e glicose. Recentemente, há relatos de associação da glicogenose tipo I com doença inflamatória intestinal.

Adenomas e neoplasias hepáticas: os adenomas ocorrem em cerca de 50-70% dos pacientes a partir da segunda e terceira décadas de vida. A patogênese não está muito bem esclarecida. Os dois principais tipos de lesão descritos são o hepatoma e o adenoma hepatocelular com displasia. São detectados por meio da ultra-sonografia ou tomografia computadorizada. Os adenomas podem responder à dieta, diminuindo de tamanho ou tornando-se indetectáveis ou, podem sofrer transformação maligna. Os níveis de a-feto-proteína são úteis na monitorização da progressão do tumor.

Clínica: Os sinais mais comuns são a hipoglicemia e o aumento da tamanho do fígado. Classicamente, a doença é descrita nos primeiros 28 dias de vida (período neonatal). Os bebês costumam apresentar hipoglicemia após pequenos períodos de jejum ou após infecções. A hipoglicemia se caracteriza por palidez, suor frio, convulsões. Ao exame físico nota-se o aumento hepático, a obesidade troncular, a "face de boneca". Também há atraso no crescimento estatural. A glicogenose tipo Ib também pode se complicar com infecções piogênicas, gengivoestomatite recorrente e doença inflamatória intestinal.

   Diagnóstico: As alterações laboratoriais mais freqüentes são: hipoglicemia após 3-4 horas de jejum (também pode ocorrer com um número menor ou maior de horas), aumento do ácido láctico e do colesterol, aumento de ácido úrico e triglicerídios, aumento de fosfolípides e aumento discreto das enzimas hepáticas(TGO e TGP). A determinação da enzima em amostra de tecido hepático confirma o diagnóstico, mas poucos serviços dispõem desse método. Também pode-se fazer estudos com DNA.

Tratamento

Dieta: amido cru (MaizenaR) a cada 2-4 horas (dependendo do intervalo de tolerância ao jejum) na dose de 1,75-2,5g/kg/dose. Este intervalo também deve ser respeitado durante a noite. O amido deve ser dado, preferencialmente, com água fria. A mistura com água morna ou quente ou limonada, acelera sua hidrólise. O colesterol fica restrito a menos de 200mg/dia. A dieta deve ser isenta de frutose e galactose (leite, frutas, verduras) se não houver melhora dos parâmetros bioquímicos. Geralmente, pequenas doses de frutose e galactose são bem toleradas. Nos casos mais graves, há necessidade de utilização de sonda nasogástrica.

Transplante Hepático: pode ser considerado nos casos que não respondem ao manejo dietético e necessitam freqüentes internações. 

Hiperuricemia: o alopurinol pode ser usados nos casos em que o manejo dietético não é suficiente para controlar os níveis de ácido úrico.

Disfunção plaquetária: a infusão de DDAVP pode ser útil para os casos de hemorragia, ou antes de procedimentos cirúrgicos.

Glicogenose tipo III

Também chamada doença de Cori, é causada pela deficiência da enzima amilo-1,6-glicosidase a qual é expressa em muitos tecidos. Clinicamente, é muito parecida com a glicogenose tipo I. Apresenta hipoglicemia, aumento do fígado e retardo do crescimento. Durante a Segunda década de vida, a velocidade de crescimento aumenta, o fígado diminui e a hipoglicemia melhora tanto que, muitos adultos toleram várias horas de jejum.

Usualmente, não há elevação dos níveis de triglicérides, mas frequentemente, o colesterol está elevado.

Há, também, comprometimento da musculatura e evidências de cardiomiopatia têm sido encontradas.

O tratamento é semelhante ao da glicogenose tipo I, sendo que esses pacientes se beneficiam de alta ingesta proteica.

Glicogenose tipo IV

Também chamada doença de Andersen, é causada pela deficiência da enzima amilo-1,4-1,6-glicosidase. Acomete, principalmente, o fígado. O quadro clínico é de hepatoesplenomegalia (aumento do fígado e do baço) e alterações neuromusculares variadas. Não há tratamento eficaz. O transplante de fígado é a única modalidade curativa.

Glicogenose tipo V

Também chamada doença de MacArdle, é causada pela deficiência da enzima fosforilase muscular. Acomete os músculos. O quadro clínico é de dor muscular (cãimbras) induzida pelo exercício e fraqueza progressiva, algumas vezes associada a mioglobinúria.

Glicogenose tipo VI

Também chamada doença de Hers, é causada pela deficiência da enzima fosforilase hepática.

Clínica e laboratório: hepatomegalia, leve retardo de crescimento,  boa tolerância  ao  jejum, elevação de  triglicérides, colesterol e ácido úrico.

Tratamento: dieta semelhante ao tipo III, pouca necessidade de tratamento.

Glicogenose tipo VII

Causada pela deficiência da enzima fosfofrutoquinase. A clínica é semelhante ao tipo V, acrescentando-se hemólise.

Glicogenose tipo IX

Causada pela deficiência da enzima fosforilase quinase. Dividida em subtipos A, B e C. Acomete o fígado e, talvez, o músculo. A clínica é semelhante ao tipo VI. O subtipo C também acomete as células sangüíneas.

Glicogenose tipo X

Causada pela deficiência do AMP cíclico dependente de quinase. Acomete fígado e músculos. A clínica se caracteriza por hepatomegalia.

AULA 9 - NEOPLASIA

Conceito

        No organismo, verificam-se formas de crescimento celular controladas e não controladas. A hiperplasia, a metaplasia e a displasia são exemplos de crescimento controlado, enquanto que as neoplasias correspondem às formas de crescimento não controladas e são denominadas, na prática, de "tumores". A primeira dificuldade que se enfrenta no estudo das neoplasias é a sua definição, pois ela se baseia na morfologia e na biologia do processo tumoral. Com a evolução do conhecimento, modifica-se a definição. A mais aceita atualmente é: "Neoplasia é uma proliferação anormal do tecido, que foge parcial ou totalmente ao controle do organismo e tende à autonomia e à perpetuação, com efeitos agressivos sobre o hospedeiro" (Pérez-Tamayo, 1987; Robbins, 1984).

 Várias classificações foram propostas para as neoplasias. A mais utilizada leva em consideração dois aspectos básicos: o comportamento biológico e a histogênese.

As neoplasias geram proliferações locais de clones celulares cuja reprodução foge ao controle normal, e que tendem para um tipo de crescimento autônomo e progressivo, e para a perda de diferenciação.

Nos organismos multicelulares a taxa de proliferação de cada tipo celular é controlada por um sistema que permite a replicação em níveis homeostáticos.As replicações contínuas servem para restaurar perdas celulares decorrentes do processo de envelhecimento celular, é uma atividade essencial para o organismo, porém, deve seguir um equilíbrio. Uma característica principal das neoplasias  é justamente o descontrole dessa proliferação.

A reprodução celular é fundamental e em geral existe uma correlação inversa entre a sua diferenciação e multiplicação.  Quanto mais complexo é o estado de diferenciação menor é a taxa de reprodução. Já nas neoplasias, ocorre paralelamente ao aumento do crescimento, a perda da diferenciação celular. Ou seja, as células neoplásicas perdem progressivamente as características  de diferenciação e se tornam atípicas.

A célula neoplásica sofre alteração nos seus mecanismos regulatórios de multiplicação, adquire autonomia de crescimento e se torna independente de estímulos fisiológicos.

Então, neoplasia pode ser entendida como proliferação anormal, descontrolada e autônoma (fora do controle do organismo que regulam a proliferação celular), na qual as células reduzem ou perdem a capacidade de se diferenciar, em consequência de alterações nos genes que regulam o crescimento e a diferenciação celular.

É importante destacar que o aparecimento de células neoplásicas indicam um novo crescimento tecidual com células modificadas geneticamente.

Do ponto de vista clínico, evolutivo e de comportamento, as neoplasias são divididas em duas categorias: Malignas e Benignas.

As neoplasias benignas geralmente não são letais e nem causam sérios transtornos ao hospedeiro.  As malignas, em geral, tem crescimento rápido, e muitas provocam perturbações homeostáticas graves, acabando por levar o paciente à morte.

Etiologia

As causas ainda são desconhecidas, devido a complexidade, ainda não foi possível isolar o agente agressor.

Em termos genéticos, os genes alterados ditos promotores  da neoplasia são denominados de Oncogenes. Estes genes podem estar ativos ou inativos. Este último é conhecido como proto-oncogenes.

Didaticamente os agentes neoplásicos são divididos em:

- Agentes físicos:  Energia radiante, energia térmica.

- Agentes químicos: Corantes, fumo.

- Agentes biológicos: virais e bacterianos.

Nomenclatura

Leiomioma uterino, neoplasia benigna (sufixo “oma” do tecido muscular liso (prefixo “leiomio”). As setas apontam algumas formações nodulares originárias da proliferação das células musculares lisas do útero.

Para as neoplasias benignas: acrescenta-se o sufixo OMA ao tecido de origem. Ex: Papiloma (origem do epitélio escamoso),  adenoma (origem do epitélio granular), fibroma (origem do epitélio conjuntivo).

Para neoplasias malignas:  Utiliza-se carcinoma de origem epitelial e sarcoma de origem mesenquimal. Ex: adenocarcinoma (epitélio glandular), fibrossarcoma (epitélio conjuntivo).

Existem excessões para essa classificação, que são:

- Melanoma: neoplasia maligna com nomenclatura benigna.

- Linfoma: neoplasia maligna com nomenclatura benigna.

- Granuloma: Processo inflamatório crônico com nomenclatura de neoplasia benigna.

Hepatocarcinoma (hepato - fígado; carcinoma - neoplasia maligna epitelial). Há proliferação neoplásica do hepatócito, uma célula cuja origem é epitelial (setas).

Classificação

A classificação para as neoplasias podem ser feitas através do seu comportamento (se agressivas ou não), chamadas de classificação prognóstica, mas, basicamente são dividas em benígnas e malígnas.

Dentro dessa classificação, a neoplasia contém características macroscópicas e microscópicas peculiares, como:

Características anatômicas macroscópicas:

Neoplasia benigna:

- Velocidade e crescimento: lento

-  Forma de crescimento: expansivo

- Crescimento à distância (metástases): ausente

Neoplasia maligna:

-Velocidade e crescimento: rápido

-  Forma de crescimento: expansivo e infiltrativo

- Crescimento à distância (metástases): presente

Características anatômicas microscópicas:

Neoplasia Benigna: Tumores benignos apresentam células semelhantes as de origem, seus núcleos não estão alterados, ou seja, a célula neoplásica é indistinguível do normal. Porém produz um arranjo tecidual diferente que seguem os padrões macroscópicos.

As células são bastante semelhantes entre si e também em relação às células nervosas normais. Surge somente um padrão tecidual diferente, uma distribuição e disposição novas das células.

Neoplasia Maligna: Apresentam células com núcleos alterados. Irregularidade na forma, tamanho e número; podem surgir mitoses atípicas, hipercromasia nuclear (grande quantidade de cromatina), pleomorfismo (variados tamanhos de núcleos e da célula como um todo); relação de núcleo citoplasma alterado.

Neoplasia maligna epitelial, exibindo hipercromatismo (setas), células de tamanhos e formas variados (pleomorfismo), vacuolização no citoplasma e alteração da relação núcleo-citoplasma

Diagnóstico

O diagnóstico das neoplasias é feito por intermédio da observação de um tumor (se suas características clínicas).  São feitos exames complementares, como exames imagenológicos (radiografia, tomografia), bioquímico e histopatológico.

Para concluir, as neoplasias podem crescer no seu local de origem, dito crescimento primário ou in situ. Porém, em um desenvolvimento neoplásico maligno, observa-se um crescimento secundário, ou seja, distante do seu local de origem.

Os crescimentos secundários se desenvolvem de duas maneiras:

- Invasão: quando as células anatômicas penetram no tecido vizinho, mantendo continuidade anatômica com a massa neoplásica de origem.

- Metástase: constitui um crescimento à distância sem continuidade anatômica, sendo que para isso é necessário a invasão e desgarro, a circulação destas e implantação em um outro local onde ocorra proliferação celular.

Os órgãos mais afetados pela mestástase são o pulmão, fígado, rim, cérebro e ossos.

Metástase

Do grego metástatis = (mudanças de lugar, transferência) é a formação de uma nova lesão tumoral a partir de outra, mas sem continuidade entre as duas. Isto implica que as células neoplásicas se desprendem do tumor primário, caminhando através do interstício - ganham assim uma via de disseminação - sendo levadas para um local distante onde formam uma nova colônia neoplásica.

Em cada um destes passos, as células malignas têm de superar os sistemas de controle do organismo que mantêm as células nos seus sítios primitivos. Metástases só se formam em tumores malignos; contudo, nem todos os cancros originam metástases, mesmo os que são localmente invasivos, como o carcinoma basocelular. Metástases são o selo definitivo de malignidade (por definição,neoplasias benignas não originam metástase), sendo um sinal de mau prognóstico. Em muitos pacientes, a primeira manifestação clínica de um cancro está relacionada com suas metástases.

Quando as células cancerosas se disseminam pela corrente sanguínea e formam colônias em outros locais, as colônias são chamadas metástases. Esta condição agrava muito a situação da doença e dificulta o processo de cura. Apenas 1 em cada 1.000 células que se desprendam do tumor primário poderá formar metástase, isso porque elas precisam de habilidades específicas para transpor as barreiras celulares e se disseminar. É comum acontecer das células se "encalharem" em algum gânglio e ali originar um novo tumor.

Para onde as células de câncer se espalham na metástase

As células de câncer podem se espalhar para quase todas as partes do corpo. Células de câncer frequentemente se espalham para nódulos linfáticos perto do tumor primário. Isso é chamado envolvimento dos nódulos linfáticos. Quando o câncer se espalha a outros órgãos ou para nódulos linfáticos longe do tumor primário, isso é chamado câncer metastático.

Os locais mais comuns de metástase a partir de tumores sólidos são os pulmões, ossos, fígado e cérebro. Alguns tipos de câncer tendem a se espalhar para certas partes do corpo. Por exemplo, no câncer de pulmão frequentemente ocorre metástase ao cérebro ou ossos, e câncer de cólon frequentemente se espalha para o fígado. Câncer de próstata tende a se espalhar para os ossos. Câncer de mama comumente se espalha aos ossos, pulmões, fígado e cérebro. Porém, cada um desses tipos de câncer também pode se espalhar para outras partes do corpo.

Uma vez que as células sanguíneas viajam através do corpo, leucemia, mieloma múltiplo e linfoma geralmente não são locais quando o câncer é diagnosticado. Células desses tipos de câncer podem ser encontradas no sangue, vários nódulos linfáticos, ou outras partes do corpo como fígado ou ossos. Esse tipo de propagação não é referida como metástase.

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