DRP - METODOLOGIA APLICADA NA IDENTIFICAÇÃO DE PROBLEMÁTICAS AMBIENTAIS NA AMAZÔNIA: ASSENTAMENTO JOÃO BATISTA II, BRASIL

DRP - METODOLOGIA APLICADA NA IDENTIFICAÇÃO DE PROBLEMÁTICAS AMBIENTAIS NA...

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Cristiane F. G. da Costa−Embrapa Amazônia oriental1; Peter Hans P. de M. Müller2 1 cristianeformigosa@yahoo.com.br./ ² peterhansmuller@yahoo.com.br

RESUMO − O estudo objetivou a aplicação de metodologias de DRP para o embasamento de planos de ação estratégica socio, econômico e ambiental, levando em consideração o uso dos recursos naturais na agricultura familiar. No ano de 2008 no assentamento João Batista I, localizado no município de Castanhal-PA, foi feito a aplicação do processo metodológico de Diagnóstico Rural Participativo em busca de informações de algumas realidades econômica, social, ambiental e cultural. As técnicas utilizadas consistiram em: análise de fontes secundárias, entrevista não estruturada (diálogo), entrevista semiestruturada e caminha transversal. Os resultados obtidos indicaram que as participações dos assentados foram importantes para o desenvolvimento do conhecimento científico, que permitiu uma interpretação mais criteriosa da realidade da comunidade rural em foco.

Palavras-chave: Diagnóstico Rural Participativo, comunidade rural, agricultura familiar, caminha transversal.

ABSTRACT − The study aimed to apply DRP methodologies for the upgrading of strategic action plans for questions social, economic and environmental, considering the use of natural resources in family farming. In settlement João Batista I (year 2008), located in the municipality of Castanhal-PA, was applied of the process methodological of Participatory Rural Appraisal for information about realities economic, social, environmental and cultural. The evaluation was made with the techniques: analysis of secondary sources, unstructured interview (dialogue), semi-structured interview and transect walk. The results indicated that participating farmers were important to the development of the scientific knowledge, which allowed a more careful interpretation of the reality of the rural community.

Keywords: Participatory Rural Appraisal, rural community, family farming, transect walk.

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INTRODUÇÃO Processos que aperfeiçoam um agroecossistema, como o DRP (Diagnóstico Rural

Participativo), são necessários para refinar as tecnologias agrícolas. Sob o ponto de vista da pesquisa agroecológica, existe a necessidade de uma maior ênfase no conhecimento, na análise e na interpretação das complexas relações existentes entre as pessoas, os cultivos, o solo, a água e os animais (ALTIERI, 1989). Pois, as formas de apropriação e uso dos recursos naturais pelos atores locais revelam uma relação intrínseca entre o homem e a natureza, sendo essa responsável pelas mudanças estabelecidas no meio socio-ambiental (BRONZATTO et al., 2003). O entendimento da dinâmica sócio-ambiental e a definição de estratégias em áreas de assentamentos rurais de reforma agrária, como o João Batista I, vêm sendo alvo de diferentes investigações nos últimos anos. Segundo Curado et al. (2003), a geração de informações tecnológicas voltadas à agricultura familiar se mostra latente, exigindo do poder público a implementação de ações concretas no sentido de se reverter o quadro histórico de exclusão que se reflete na agricultura familiar de assentamentos de reforma agrária. Visando compreender a relação entre o trabalhador rural, o seu trabalho, e o meio ambiente, diagnosticando as racionalidades e valores que regem o ambiente rural, foi feito no ano de 2008 um estudo de caso, utilizando o processo metodológico do Diagnóstico Rural Participativo, no assentamento João Batista I-PA. A definição do assentamento João Batista I como objeto de análise para a realização da pesquisa ocorreu por ser uma experiência já estruturada legalmente, que subentende o direito a terra e benefícios à comunidade. O diagnóstico teve por finalidade a obtenção do conhecimento necessário para o planejamento de ações que favoreçam o desenvolvimento integrado e sustentável local. Assim, objetivou-se na aplicação do processo metodológico de Diagnóstico Rural Participativo, através principalmente da técnica de “caminhada transversal”, a busca de informações de algumas realidades econômica, social, ambiental e cultural do assentamento João Batista I, visando construir uma análise rápida, porém aplicável e com teor científico, para a identificação das potencialidades de agrossistemas e das condições sócio-ambientais.

Agricultura sustentável associada à agricultura familiar A agricultura sustentável respeita a diversidade e independência, utiliza os conhecimentos da ciência moderna para desenvolver e não marginalizar o saber tradicional acumulado ao longo

V Simpósio Internacional e VI Simpósio Nacional de Geografia Agrária (SINGA) 2011 3 dos séculos por grandes contigentes de pequenos agricultores em todo o mundo (Tratado das ONGs/ECO 92). O desenvolvimento sustentável, definido no Relatório de Brundtland (1987) como um desenvolvimento que atendesse as necessidades presentes e futuras sem comprometer as gerações futuras (SERAGELDIN, 1993), integrado a agricultura familiar, é o locus mais indicado para a consolidação de um novo padrão de produção agrícola, já que as características desse novo padrão levarão a agricultura familiar a ser valorizada (VEIGA, 1995). A situação do agricultor em relação à propriedade da terra define a suas estratégias de manutenção, sobrevivência e determina a identidade do agricultor (BRANDENBURG, 1999). Dessa forma, a existência da produção familiar está vinculada a posse da terra, tanto para a estruturação técnica da produção como para construção da identificação do agricultor. Considerando o conhecimento local da comunidade rural, destacando os interesses reais do agricultor em uma lógica de adequação e otimização do espaço para garantir segurança alimentar, percebe-se que o novo padrão de produção agrícola (caracterizado pela sustentabilidade) tem como seus principais insumos os conhecimentos agroecológicos e a participação das comunidades e dos movimentos sociais organizados. Esses conhecimentos agroecológiocos levam resultados econômicos e mercadológicos a se associarem a resultados sociais e ambientais. No contexto da sustentabilidade, a agricultura é sustentável quando ocorre de forma ecologicamente equilibrada, economicamente viável, socialmente justa, culturalmente adequada (Tratado das ONGs/ECO 92). O surgimento de sistemas agrários desenvolvidos com bases científicas, como agroecossistemas que incorporam idéias agroecológicas, pode favorecer aos agricultores quantidade e qualidade de produção. Essas bases científicas são fundamentadas em técnicas e metodologias, como Diagnóstico Rural Participativo, que serve para diagnosticar e planejar novas propostas para o desenvolvimento socioeconômico e ambiental.

DRP - Diagnóstico Rural Participativo O advento da luta pela terra e o aumento do surgimento de assentamentos rurais em todo o país fez com que o termo ‘‘participação’’ entrasse em foco para controlar as decisões do povo do meio rural em debates de estruturação econômica, política e social. A partir da década de 1980, com o processo de redemocratização do país, o termo ‘‘participação’’ passou a ser

V Simpósio Internacional e VI Simpósio Nacional de Geografia Agrária (SINGA) 2011 4 utilizado como palavra-chave, especialmente para dar legitimidade às ações realizadas por organizações e instituições políticas e sociais. Para aperfeiçoar o desenvolvimento socioeconômico e ambiental de populações rurais, destaca-se o surgimento de técnicas e metodologias participativas, como o DRP, que tem sido utilizado, cada dia mais, por diversas entidades e organizações em processos de diagnóstico e planejamento rural (SOUZA, 2009). O DRP surgiu do Rapid Rural Appraisal (RRA) desenvolvido por Robert Chambers nos Estados Unidos (GOMES et al., 2001). Segundo Souza (2009), a metodologia prega, além da maior rapidez na obtenção de dados importantes para a promoção do desenvolvimento socioeconômico de populações rurais, a participação ativa dos beneficiários envolvidos no processo e uma multidisciplinaridade técnica. De acordo com Pretty et al. (1995), o DRP precisa respeitar, as seguintes características: os técnicos agropecuários como facilitadores (reconhecendo que as populações rurais são criativas e capazes); utilização de técnicas que permitam maior visualização e um maior compartilhamento das informações (como a confecção de mapas e diagramas); a efetiva participação dos agricultores na pesquisa; e, a obtenção de informações sobre o meio rural a partir do conhecimento das comunidades de uma maneira rápida e efetiva. Porém, o DRP não pode ser interpretado como um pacote fechado de técnicas utilizado indiscriminadamente, pois, a simples aplicação das mesmas não torna participativo o processo de levantamento da realidade (GOMES, 2001; SOUZA, 2009). A principal característica do Diagnóstico Rural Participativo é o fato de ter a possibilidade de construir novos caminhos e técnicas com a capacidade de diagnosticar e planejar de forma participativa e emancipativa. Dessa forma, algumas das técnicas são: análise de fontes secundárias; entrevista não estruturada (diálogo); entrevista semi-estruturada; mapeamento participativo; calendário sazonal; entra e sai; caminhada transversal; rotina diária; diagrama de venn; e, matriz de realidade/desejo. No sentido de entender algumas das técnicas de DRP, são destacadas abaixo as seguintes técnicas testadas no assentamento em objeto de análise:

Análise de fontes secundárias

São informações obtidas através de fontes (documentos, projetos, estudos científicos, mapas, estatísticas, fotos etc...) que permitam uma visão global da região do diagnóstico. É de extrema importância analisar com precisão tais fontes (SOUZA, 2009).

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Entrevista não estruturada (diálogo) É mais utilizada quando se tem muito tempo e vai fazer um trabalho em longo prazo. Nesse tipo de entrevista, o entrevistador aproxima-se mais do universo do entrevistado. É baseada em um plano claro que é mantido em mente. Com o tempo, o entrevistado vai ficando mais à vontade e as informações mais completas. A entrevista é o encontro entre duas pessoas, com a finalidade de uma delas obter informações a sobre um assunto, podendo ser a partir de um diálogo de natureza informal (MARCONI; LAKATOS, 2003).

Entrevista semiestruturada É importante para gerar dados complementares em situações em que não haverá novas chances para entrevistas. Ela tem algumas das qualidades da entrevista não estruturada, mas é baseada em um roteiro com perguntas e tópicos que precisam ser abordados. A técnica repete diversos equívocos das técnicas estritamente quantitativas, deixando o entrevistador muito preso às questões do roteiro. O registro pode ser feito com gravador ou com anotações, e pode ser realizada com informante chave, com grupos, individualmente, entre outros. Este tipo de entrevista deve considerar certa informalidade, intercalando questões mais fechadas e direcionadas com argumentações mais abertas (SOUZA, 2009).

Caminhada Transversal

A Caminhada Transversal consiste em percorrer uma determinada área, acompanhado de informantes locais e que conheçam bem a região. Deve-se estar atento à paisagem e indagando ao informante sobre questões pertinentes àquele local, como problemas ambientais, situação no passado, uso da terra, realidade presente, perspectivas, potencialidades e limitações. Nessa caminhada, observa-se todo o agroecossistema por onde se passa, sendo todo o percurso representado através de esquemas e anotado pelo pesquisador (SOUZA, 2009). Essas informações facilitaram o entendimento de questões em foco pelo pesquisador (ALENCAR; GOMES, 2001).

MATERIAL E MÉTODOS O estudo foi realizado no assentamento João Batista I, localizado a 24 km do município de

Castanhal-PA. Foram coletadas informações relevantes das condições sociocultural, econômica e ambiental, para as análises necessárias à elaboração do diagnóstico elaborado com técnicas de DRP. As técnicas utilizadas consistiram em: análise de fontes secundárias, entrevista não estruturada (diálogo), entrevista semiestruturada e caminha transversal.

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da produção agrícola, assim como as técnicas, e seus embates com o meio ambiente
dos assentados com a posse da terra

Primeiramente, foi realizada uma entrevista não estruturada (diálogo) com os líderes do assentamento, em que foi exposto o histórico da comunidade, o processo da ocupação da área, aspectos sociais, a infraestrutura da comunidade, sistemas de produção do assentamento, problemas enfrentados e a realidade no ano de 2008 do assentamento. Para complementação e controle do estudo foi desenvolvida uma entrevista com os agrilcultores do assentamento, com um questinário semiestruturado (utilizando a técnica “retro-alimentar”), para relacionar os conhecimentos dos agricultores. Posteriormente, foi feita uma visita em um lote de 12 ha de um agricultor do assentamento, em que se desenvolveu a técnica da “caminhada transverval” para a coleta de dados. A “caminhada transverval” consiste em percorrer uma extensão de terra com auxílio de agricultores conhecedores do local. Foram feitas observações da apropriação do espaço rural e Outras observações e questionamentos foram possíveis de serem feitos, tais como: forma de ocupação da área; a posse dos lotes do assentamento; a divisão da área para as famílias; as transformações da ruptura com o passado comparando com a realidade presente; perspectivas No momento da “caminhada transversal” pelo assentamento se estabeleceu um diálogo informal com o agricultor informante, que deu as informações necessárias e nos levou aos pontos estratégicos da propriedade visitada. Houve a preocupação de não interromper as falas deste. Os materiais utilizados para a coleta de dados do diagnóstico durante a visita foram: cartolina, caneta pilot e bloco de anotações.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Optou-se pela pesquisa de natureza qualitativa, que permite privilegiar a compreensão de forma integrada dos acontecimentos com o sujeito da investigação. Os fatores históricos foram relacionados com o contexto vivenciado pelo grupo de agricultores em foco, e a coleta de dados propriamente dita foi feita a partir de uma combinação de diferentes técnicas de DRP. Dessa forma, na primeira etapa da pesquisa foi feita uma análise de fontes secundárias, o que permitiu a elaboração de um roteiro de entrevistas. A partir desse roteiro aplicou-se uma entrevista não estruturada e uma semiestruturada. Com essas informações integradas foi feito o detalhamento dos seguintes temas: a formação e histórico do assentamento João Batista I; descrição e avaliação do assentamento no ano de 2008.

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