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MONOGRAFIA Padre Himalaya e o “Pirelióforo”

Engenharia de Produção Industrial

Alexandre Miguel Ramos Pereira Nº 20086381

Curso: Engenharia de Produção Industrial Disciplina: Projecto de Peças

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Padre Himalaya e o “Pirelióforo”

O Padre Manuel António Gomes, que ficou conhecido como “Padre Himalaya”, devido à sua elevada estatura. Foi um inventor extraordinário. Foi professor e aluno durante toda a vida.

Em 1904 criou uma máquina solar, para substituir o uso do petróleo. Um aparelho que denominou de "Pirelióforo" ("eu trago o fogo do Sol), com o qual conseguiu obter uma temperatura de 3500 graus, à qual fundem todos os metais e quase todas as rochas.

Queria generalizar o acesso a uma forma de energia gratuita. Preocupou-se com a utilização de energias renováveis e, em simultâneo, inventou explosivos.

A fim de divulgar o seu invento, decidiu participar na Exposição Mundial de 1904, a decorrer em Saint Louis, nos EUA. O investimento compensou, já que a invenção ganhou o grande prémio, duas medalhas de ouro e uma medalha de prata. Que para cuja dispendiosa construção contou com o auxílio financeiro de vários particulares, nacionais e estrangeiros, tendo o Governo português de então contribuído com "apoio moral". Teve ainda possibilidade de viajar pelo mundo, estabelecendo valiosos contactos, mas tendo recusado a proposta do Presidente Theodore Roosevelt para se naturalizar americano.

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Manuel António Gomes Nasceu no dia 9 de Dezembro de 1868 na aldeia de Santiago de Cendufe, concelho de Arcos de Valdevez, Distrito de Viana do Castelo, Minho. Filho e neto de agricultores pobres. Foi um rapaz inteligente e curioso pelas coisas da vida, trabalhou na terra e pastou o gado, actividades que promoveram o seu interesse pela natureza.

Aos 14 anos, em 1882 inscreveu-se no seminário de Braga, frequentando o Colégio

Espiritano, criado para seminaristas pobres. Tinha então 15 anos e embora nessa altura a força da Igreja fosse grande, florescia uma nova burguesia, possuidora de novas mentalidades, fruto do acompanhamento do progresso tecnológico.

Foi ali que recebeu a alcunha, que adoptou como nome próprio de “Himalaya”. Aluno irrequieto e pouco dado à bajulice, aberto às novas correntes filosóficas, leu todas as obras fundamentais na sua época, Leu tudo o que conseguiu sobre astronomia, antropologia, física, química, zoologia, geologia, botânica. Adquiriu, ainda, o gosto pelo experimentalismo, graças aos métodos de ensino inovadores praticados no Seminário. Exerceu durante anos a docência das disciplinas que o apaixonavam, Ciências Naturais, Física e Química no Colégio da Formiga, em Ermesinde, até se tornar padre, a 26 de Julho de 1891. É neste colégio que inicia as suas investigações solares.

Depois de ordenado padre ruma a Coimbra, com o intuito de frequentar o curso de

Matemática, tornando-se capelão no Colégio dos Órfãos e posteriormente vice-reitor. Após a frequência dos cursos livres de Química do Dr. Ferreira da Silva, que possuía bons amigos em França, muda-se na Primavera de 1898 para Paris, para prosseguir os estudos. Esta deslocação foi patrocinada por D. Emília Josefina dos Santos. Assistiu a aulas de cientistas de reconhecido mérito, seguiu as lições do físico Berthelot e de outros ilustres professores. Ao mesmo tempo que ia trabalhando na aplicação das suas teorias matemáticas e astronómicas à construção de um aparelho para a obtenção de altas temperaturas através da captação das radiações solares. A primeira máquina solar.

Com o forno solar o padre Himalaya pretendia obter azotatos da atmosfera e com eles produzir fertilizantes para a agricultura.

A primeira máquina solar foi construída em Neully sur Seine, e aqui decorreram as primeiras experiências, para o qual obteve do Governo francês, em 1899, a respectiva patente. Na capital francesa, incentivado pelo clima de entusiasmo por tudo o que era novo e mecânico, iniciou as suas experiências com o protótipo de um forno solar, baptizado “Pireliófero”, que, traduzido à letra, significa “eu trago o fogo do Sol”.

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No ano seguinte, construiu um segundo aparelho que terá sido montada no Verão de 1900, a cerca de 5 Km de Sorède, uma pequena aldeia de montanha dos Pirinéus Orientais. Numa colina junto às ruínas da Ermida de Castel d’Ultrera, junto à fronteira Espanhola. A montagem decorre numa atmosfera de espionagem industrial, a partir de peças mandadas construir em Paris, sendo o padre Himalaya acompanhado pelo Capitão Bazeries, responsável por questões de segredo militar. Tendo atingido 10 °C de temperatura. Construído sobre uma plataforma de pedra e areia são assentes carris circulares, sobre os quais deslizava a estrutura de suporte, que podia ser orientada de acordo com a posição solar. A campânula era em forma de calote esférica, com centenas de espelhos, e estava suspensa na estrutura por dois eixos, que permitiam uma orientação vertical ou horizontal. O padre Himalaya orientava-a verticalmente, apontando os reflectores para o sol e fazendo incidir o ponto focal na boca do pequeno forno refractário. Numerosos ensaios permitiramlhe redigir num manuscrito, um relatório das experiências realizadas, assim como alvitrar novas metodologias para a construção da “lente metálica”, tendo sempre como principal objectivo a obtenção de fertilizantes nitrosos.

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Em Março de 1901 viaja até Londres, onde estabelece um contrato com a Condessa de Penha Longa, viúva do banqueiro Pinto Leite, constituindo uma sociedade para explorar esta invenção: aparelho óptico para utilizar praticamente o calor do sol nas artes metalúrgicas e químicas e em todos os ramos da indústria. O padre Himalaya cede à sociedade a sua invenção, assim como as patentes já registadas em França, Espanha e Bélgica, comprometendo-se a prosseguir o seu trabalho e a realizar todos os aperfeiçoamentos necessários, enquanto a Condessa disponibiliza o capital necessário para a construção dos dois primeiros aparelhos de demonstração e para a mensalidade a pagar ao padre pelo seu trabalho. Responsabiliza-se ainda pelo pagamento e registo de novas patentes. Em Setembro desloca-se para Lisboa, instalando-se no palacete da Condessa, junto à Lapa, onde reformula e simplifica os projectos de construção para que os aparelhos possam ser construídos em Portugal e com custos reduzidos. Mostra-se céptico quanto à possibilidade de construção dos reflectores de que necessita, assim como da sua eventual qualidade.

Em Abril de 1902, na Tapada da Ajuda, é feita a primeira demonstração pública do funcionamento do “Pirelióforo”, que se traduz num enorme fiasco! Erros na construção da máquina levam a que o foco de luz saia distorcido, derretendo o seu próprio suporte. A relação contratual com a Condessa é reformulada e o entusiasmo desta no projecto torna-se praticamente nulo, julgando o padre como um simples visionário após ler o relatório de um exame efectuado à invenção, encomendado a um engenheiro civil português, um tal António Teixeira Júdice.

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Desalentado, mas com o firme objectivo de construir um aparelho que possibilite a geração de temperaturas na ordem dos 6000 a 7000 graus (tarefa impossível de acordo com as leis da termodinâmica), o padre Himalaya regressa a França, onde constrói nova máquina, mais aperfeiçoada, possivelmente ainda com o apoio da Condessa de Penha Longa. É ainda graças a nova reformulação do contrato com esta senhora que consegue apoio para se deslocar aos Estados Unidos, à Exposição Universal de St. Louis, em Abril de 1904. Todavia, e devido ao seu insucesso em Portugal, o “Pirelióforo” não constava do conjunto de mostragens da representação Portuguesa!

Mais tarde ele pode exibir a sua invenção. O mecanismo, o "Pirelióforo", consistia num enorme espelho parabólico formado por 6177 pequenos espelhos, com uma superfície reflectora de 80 m², que reflectiam a luz do Sol numa cápsula refractária, a qual funcionava como um cadinho, e onde se colocavam os materiais a fundir. Concentrava-se assim a energia solar, que incidia nessa superfície, com o objectivo de derreter todos os materiais colocados naquele foco de luz. Para que pudesse acompanhar o movimento do Sol, o Padre Himalaya concebeu um sistema que estava montado numa enorme armação em aço de 13 metros de altura, que acompanhava os movimentos do Sol mediante um mecanismo de relojoaria.

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A sua montagem é morosa e difícil, talvez devido aos trambolhões da viagem.

Finalmente, em Outubro, é realizada a primeira experiência. A multidão apinhava-se, como habitualmente, à entrada da exposição. O invento do padre Himalaya, pela sua imponência (80 m2 de superfície reflectora) e novidade tecnológica, exercia grande atracção sobre os visitantes e a demonstração do seu funcionamento é feita com enorme êxito. Consegue gerar temperaturas da ordem dos 3000-4000 graus, derretendo todos os materiais que coloca sob o foco de luz, sendo premiado com o “Grand Prize da Louisiana Purchase Exposition”. A revista Scientific American publica, nesta altura, um artigo do seu correspondente em St. Louis, intitulado “A Solar Reducing Furnace”, o qual vem credibilizar este invento junto da comunidade técnico-científica.

Para além deste prémio, o padre Himalaya foi convidado para integrar o Júri das

Artes Liberais, tendo recebido esta honra como se de um grande prémio se tratasse.

Contudo, a montagem do “Pirelióforo” não se fez com o dispositivo para a transformação do azoto em azotatos, não estando equipado com o reservatório e forno destilatório previstos nos planos efectuados em França. Não se sabe se tal se deveu ao receio de que a experiência não fosse bem sucedida, ou à premente falta de meios para a sua execução.

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Assim, não foi demonstrada a sua capacidade produtiva e o seu potencial comercial, geradores de eventuais interesses financeiros, mas apenas a sua capacidade de gerar altas temperaturas. Aos vencedores premiados da Exposição Universal foi proporcionada uma viagem de estudo por vários locais dos Estados Unidos.

Na viagem, o padre aproveitou para estabelecer contactos e relações de amizade que lhe foram valiosas em anos futuros.

Quando regressou ao recinto da feira, a sua máquina solar tinha sido completamente despojada dos 6117 espelhos côncavos de cristal, assim como do mecanismo de relojoaria. A sua desmontagem era caríssima e a Condessa de Penha Longa tinha abandonado o projecto de pesquisa sobre a energia solar. O armazém previsto para guardar a máquina nunca se concretizou!

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Quer em França, quer nos Estado Unidos, as forças económicas da altura não se mostraram interessadas no aproveitamento da energia solar, estando mais empenhadas na exploração petrolífera. Era a hora do petróleo, dos automóveis Ford e do “progresso” que não olhará a meios para impor a sua ganância destruidora da natureza.

Como a Condessa de Penha Longa, não se encontrava disponível para o apoiar financeiramente, o padre Himalaya passa a interessar-se também por explosivos, dados os seus conhecimentos químicos e a abertura no mercado para este tipo de produto. Monta na sua casa de Washington um laboratório e nele fabrica a “Pólvora Sem Fumo” ou Himalayite, patenteada em Maio de 1907 com a designação “Process of Making Smokeless Powder”. Esta pólvora cloratada é testada primeiro em pedreiras e posteriormente em vários arsenais do exército norte americano. A Himalayite resiste a grandes choques, fricções e temperaturas sem perigo de explosão, sendo fabricada com produtos de origem vegetal e mineral, de fácil obtenção e baixo custo.

De regresso a Lisboa, em Setembro de 1906, a receptividade aos seus trabalhos aumentou, sendo publicados artigos sobre os seus inventos em várias revistas, realçando, em particular, a descoberta do explosivo. A firma da Condessa de Penha Longa, a Pinto Leite & Brothers, interessa-se por este invento, sendo o padre convidado a realizar testes na quinta da Condessa, em Sintra. O Ministro da Guerra, Vasconcelos Porto, e o próprio Rei D. Carlos assistem a alguns ensaios dos explosivos. Em breve estabelece novo contrato com a Condessa para a exploração deste invento em Portugal e Colónias, assim como no mundo. Regista várias patentes de invenções de pólvora, em Inglaterra e também em Portugal.

Na Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas realizam-se estudos comparativos sobre os efeitos destrutivos da Himalayite. Conclui-se que é própria para o carregamento de petardos, mas o seu preço torna-a interessante para a utilização em minas e granadas.

Em 1908 o padre Himalaya adere à Academia de Ciências de Portugal, onde profere diversas conferências e participa em vários congressos.

Numa conferência, proferida em 2 de Março de 1909, sobre o Porto de Lisboa, em construção desde 1887, o padre critica as construções existentes, que no seu entender desvalorizam esteticamente a zona que vai da Alfândega à Torre de Belém; defende um cais portuário desde Sta. Apolónia até aos Olivais, propondo uma arrojada plataforma de meio quilómetro sobre uma estacaria de cimento armado e, numa antevisão da actual ponte Vasco da Gama, propõe a construção de uma

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ponte levadiça na zona do Beato em direcção ao Montijo. Finalmente, defende o aproveitamento das marés para o fornecimento de energia hidroeléctrica a Lisboa e a construção de uma estação de caminho de ferro em Cacilhas, para embarque do minério e de outras mercadorias.

Em Maio de 1910, no Congresso Nacional, a propósito da apresentação de soluções para a crise económica, agrícola e comercial, critica a opção pelo trigo, quando considera que existem outros cereais que se adequam melhor aos solos portugueses, como o milho e o centeio, que também produzem óptimo pão. Defende ainda que os terrenos não cultivados devem ser expropriados. Quando regressa de Viana do Castelo para Lisboa regista nova patente, em 25 de Setembro de 1911, desta vez de “Um motor directo”. Torna-se sócio fundador da Sociedade de Chímica Portuguesa, em Janeiro de 1912.

Após algum tempo de pesquisa de terrenos, o padre Himalaya, à frente da Companhia

Himalayite entretanto formada, constrói a fábrica da pólvora, na Quinta da Caldeira, no Seixal. Esta Companhia resultou novamente da participação da Condessa de Penha Longa, em conjunto com outros investidores da aristocracia enriquecida, os quais previam um negócio chorudo. O padre vai viver para a Quinta, instalando-se no edifício situado em frente ao moinho de maré do Seixal. Esta proximidade levou-o a conceber um plano para um moinho de múltiplas funções, voltando a defender, em 15 de Abril de 1913, na Academia de Ciências de Portugal, a utilização da energia das marés.

No Verão de 1913 uma seca enorme afligia o país, sendo o Alentejo a região mais afectada. O padre Himalaya apresenta, em Julho desse ano, uma comunicação sobre o processo de fazer chover, afirmando que o seu método é diferente do americano, baseandose numa acção conjugada vertical e horizontal sobre um prisma de ar provocado pelo tiro sincronizado de vários canhões. Pouco tempo depois, a comissão encarregue do estudo desta proposta desloca-se com o padre Himalaya à Serra da Estrela, onde se procedeu à experiência.

Houve gente que afirmou terem caído umas gotas de chuva nesse dia quente de Verão! Mas o método foi abandonado por ser demasiado caro, tendo os anos seguintes sido mais pluviosos.

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