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Edição Especial Copa do Mundo 2014

Edição Especial Copa do Mundo 2014

ARQUITETURA AÇOARQUITETURA AÇO& Uma publicação do Centro Brasileiro da Construção em Aço Edição Especial Janeiro 2010

Ric ar do

Junqueir

A expectAtivA dA confirmAção do Brasil para sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014 deu lugar à preocupação de como atender a todas as exigências que um evento deste porte demanda. Ainda não é possível mensurar investimentos e números de obras que serão erguidas ou reformuladas em função do mundial. Mas é certo que o País ampliará bastante sua capacidade em termos de aeroportos, hotéis, estradas, anéis viários, estações e linhas de trens e metrô, entre outras obras.

Esta edição Especial Copa 2014 da revista Arquitetura & Aço reúne obras brasileiras e internacionais que são parâmetros em velocidade construtiva, segurança, sustentabilidade, flexibilidade e, acima de tudo, boa arquitetura. Em comum, os empreendimentos elencados em Obras de Referência trazem o uso do aço como escolha de grandes arquitetos e incorporadores, que contam aqui o muito que ganharam com a opção pelo material em tipologias distintas como estádios, estacionamentos, centros comerciais e também pontes.

De fato o Brasil precisa estar pronto para receber o volume de turistas e toda a atenção a que estará exposto – calcula-se que para cada espectador dentro do estádio, outros 10 mil estarão assistindo às transmissões dos jogos. Todos querem ver o País brilhar nas telas de TV, computadores, jornais, revistas e celulares do mundo inteiro. Mas também entendemos que, encerrado o evento histórico e de grande potencial de negócios, todo o fruto da mobilização construtiva seja, então, usufruído pelas cidades e pela população que nelas permanecerá.

Esse número especial reúne entrevistas com arquitetos brasileiros que sabem estar diante de uma oportunidade única para a transformação do País. Em seus depoimentos, eles contam como é possível construir eficientemente, de maneira sustentável, inteligente e econômica, e recomendam o aço como uma escolha inevitável para as grandes obras que devem funcionar pontualmente e também perdurar, integrando-se à paisagem e à realidade brasileiras. Boa leitura.

O CentrO BrasileirO da COnstruçãO em açO (CBCa) tem como missão promover e ampliar a participação da construção em aco no mercado nacional, realizando ações para sua divulgação e apoiando o desenvolvimento tecnológico. O escopo de atuação do CBCa, cujo gestor é o instituto aço Brasil (iaBr), estende-se por diversas áreas.

as parcerias mantidas com organizações similares permitem a troca de informações e o alinhamento de estratégias em prol da construção em aço. nas universidades, oferece bolsas de estudo e incentiva as pesquisas para o aprofundamento da produção científica sobre o tema. desde 2008, passou a promover concurso para estudantes de arquitetura e a turma vencedora representa o Brasil na versão internacional do concurso organizado pelo instituto latino-americano de Ferro e aço (ilaFa). Por meio de cursos especializados, presenciais e a distância, promove a qualificação da mão-de-obra.

O CBCa edita livros e manuais técnicos orientados pela demanda de informação das novas tecnologias, com as quais o mercado deparase diariamente. também publica a revista Arquitetura & Aço, divulgando as melhores obras e profissionais do País.

no campo da qualidade do aço, implementa ações, como o plano de atualização constante da normalização técnica, a avaliação e ações institucionais que visam o combate à não conformidade intencional dos produtos em todo o território nacional.

editorial do país do futebol Os gols

Com o objetivo de divulgar suas atividades, o CBCa mantém parcerias com entidades e universidades para a promoção de congressos, seminários e eventos.

sua principal ferramenta de comunicação, porém, é o site w.cbca-iabr.org.br, que reúne informações e conhecimento especializado sobre a construção em aço no Brasil e no mundo.

O CBCa junta-se aos esforços de organizações nacionais que congregam representantes da indústria local, entidades e profissionais ligados à construção em aço, contribuindo decisivamente para a modernização do ambiente construído.

sumário26. Estádios: o novo futebol. 34. Aeroportos: braços abertos para o mundo. 40. Hotéis: mais leitos, mais rapidez. 48. Hospitais: silêncio e segurança.

56. Estações: ordenação do fluxo e da paisagem. 62. Mobiliário urbano: a transformação da cidade. 70. Pontes e passarelas: transpondo limites. 78. Estacionamentos: o desafio de otimizar espaços. 84. Infraestrutura: o aço que está na base. 90. Centros comerciais: a flexibilidade dos layouts.

04. Os arquitetos do GMP e Siegbert Zanettini falam sobre construir em aço. 10. Números da cadeia produtiva mostram que ela está pronta para a Copa. 13. Em “Ensaio”, arquitetos propõem projetos que perduram para além de 2014. 2. Sustentabilidade: aço, o caminho lógico.

Arquitetura & Aço Edição Especial Copa do Mundo 2014 Janeiro 2010

Imagem do projeto para o Mineirão (BH), dos escritórios Gerkan, Marg & Partners (GMP) e Gustavo Penna Arquitetos & Associados

Gmp

Int ernational

4 &ARQUITETURA AÇO &ARQUITETURA AÇO 5 Hubert NieNHoff entrevista

O VOn Gerkan, MarG Und Partners (GMP) é O escritóriO qUe Vai PrOjetar O nOVO estádiO ViValdO liMa, eM ManaUs (aM), Para a cOPa de 2014, taMbéM faz Parte da eqUiPe resPOnsáVel Pelas refOrMas dO MaGalhães PintO, eM belO hOrizOnte (MG), e dO Mané Garrincha, eM brasília (df), aléM de ser cOnsUltOr Para a refOrMa dO MOrUMbi, eM sãO PaUlO (sP). VOlkwin MarG, ceO, é UM dOs fUndadOres, hUbert nienhOff, UM dOs sóciO-diretOres e ralf aMann, rePresentante nO brasil dO escritóriO qUe se tOrnOU referência nO desenhO de arenas esPOrtiVas nO MUndO. criadOres de estádiOs Para a cOPa da áfrica dO sUl, Para as OliMPíadas de PeqUiM (china), aléM dO estádiO OlíMPicO de berliM (aleManha), eles cOncederaM a seGUinte entreVista à ArquiteturA & Aço especiAl copA 2014

Arquitetura & Aço – Os Srs. falam na importância de utilizar materiais existentes no País para a construção dos estádios para a Copa. Neste sentido, qual o potencial do aço brasileiro para os estádios de 2014? GMP – Aqui, vemos um grande potencial, especialmente para o aço de alta qualidade. O uso deste material em projetos da GMP é marca registrada, pois os assuntos de sustentabilidade, funcionalidade, economia e engenhosidade da forma encontram-se em primeiro plano. Por suas características específicas, o aço como material de construção tem um papel especial: é o material ideal devido à sua alta eficiência, ao seu baixo peso quando comparado com a sua capacidade estrutural, à sua reciclagem simples e à sua alta capacidade de carga, especialmente em construções vencendo grandes vãos. O aço é imprescindível.

Por conta da Copa de 2014, os estádios existentes irão precisar de coberturas modernas, o que só é possível com o uso do aço. O fato é que se apresenta um grande impulso ao desenvolvimento da competência nacional no que se refere à construção em aço.

A – Quais os destaques do aço nos estádios que o GMP projetou ou reformou recentemente? Como pretende tratar os estádios brasileiros para 2014? GMP – Achamos essencial desenvolver, para cada lugar, soluções específicas dentro do contexto local, sua história e paisagem. Assim, também o aço é utilizado de maneira bem diferente dos estádios do GMP em Colônia, Berlim, Frankfurt ou na África do Sul: em Berlim, a construção em balanço, coberta por camada dupla em diálogo com o monumento histórico; em Frankfurt, em forma do princípio da roda de bicicleta otimizada com a cobertura retrátil interna; em Colônia, usando o princípio de construção da ponte já existente no parque de esportes; na Cidade do Cabo, como cobertura pênsil dentro do contexto da silhueta poderosa da Montanha da Mesa; em Porto Elisabeth, como cobertura em balanço em diálogo material entre as áreas cobertas por metal e por membranas; ou em Durban, como uma construção de cobertura sustentada por um arco monumental marcando a paisagem. Em primeiro plano está sempre a busca da forma específica, particular. Assim, também os projetos do GMP para os estádios da Copa no Brasil mostram abordagens bem diversas. O estádio de Manaus foi inspirado

O aço é uma marca nos projetos em que sustentabilidade, funcionalidade e economia estão em primeiro plano“ rALf AMANN

VoLkwiN MArg

“ imprescindível O aço é o estádio governador Magalhães Pinto, o Mineirão, em belo Horizonte (Mg), que será reformado em parceria com gustavo Penna Arquiteto & Associados

GMP/Gus t av o Penna

Ar quit et o

& As sociados

F ot os GMP/Divulgação

no vocabulário formal da Amazônia. Em Belo Horizonte, a intervenção reservada em relação ao monumento histórico do estádio do Mineirão existente estava em primeiro plano. No caso do Vivaldão, por exemplo, o aço é utilizado como material altamente efetivo e esteticamente marcante para a fachada e para a construção da cobertura, acrescentados por membrana. O foco é o uso das tecnologias e competências locais. As possibilidades múltiplas com perfis tubulares soldados nos permitem uma liberdade de criação na formulação da geometria da cobertura.

A – Os Srs. citam a valorização das cidades aproveitando os estádios novos para a realização de intervenções sociais. Olhando para as grandes cidades brasileiras, em particular as cidades-sede, quais as principais deficiências estruturais que as arenas de 2014 podem ajudar a solucionar? GMP – O impacto positivo a longo prazo para as cidades-sede da Copa não limitam-se às construções de cada um dos estádios, mas às medidas gerais da Copa: a melhora nos sistemas de transporte, da infraestrutura técnica e de turismo, como também o pós-uso público das instalações de esporte e de treinamento. Também não se deve subestimar os fatores “suaves”, psicológicos: por meio de tal evento, o país anfitrião coloca-se no centro dos interesses globais e pode apresentar-se como atração turística, além de tornar-se um centro de investimentos econômicos atraente. Um fenômeno que pôde ser observado na Alemanha em 2006 e também atualmente na África do Sul.

A – O fato de o aço ser 100% reciclável o coloca, no futuro, na construção de estádios e arenas esportivas? GMP – Sim, certamente! Os aspectos de sustentabilidade são pre- sieGbert zanettini cOMPletOU, eM 2009, MeiO sécUlO de arqUitetUra – qUase 40 cOMO PrOfessOr da facUldade de arqUitetUra e UrbanisMO da UniVersidade de sãO PaUlO (faU-UsP). aUtOr de PrOjetOs PreMiadOs e inOVadOres, ele cOMPleta UM PercUrsO de 1.200 Obras realizadas, qUe PassaM POr edifíciOs cOMO Os da escOla PanaMericana de artes, eM sãO PaUlO (sP), e O centrO de PesqUisa da PetrObras nO riO de janeirO (rj). a raciOnalizaçãO dO canteirO de Obras, O resPeitO aO aMbiente e a OtiMizaçãO da Vida útil das cOnstrUções sãO Presenças na bandeira qUe zanettini eMPUnha desde qUe se debrUçOU Pela PriMeira Vez sObre UMa Prancheta. “deMOrOU, Mas a arqUitetUra cOMeça a Perceber nO açO UMa saída Para Os Grandes PrObleMas na cOnstrUçãO ciVil”, diz O arqUitetO, qUe cOncedeU a entreVista a seGUir de seU escritóriO, UM edifíciO eM sãO PaUlO tOtalMente MOntadO cOM estrUtUra e cOMPOnentes Pré-fabricadOs eM açO

O aço oferece aplicação eficiente para estruturas de cobertura e também para fachadas e construções temporárias que precisam ser montadas num período curto enchidos pelo aço de forma ideal. É um material que oferece, do nosso ponto de vista, uma aplicação eficiente para estruturas de cobertura e outras construções de grandes vãos, mas também para fachadas e construções temporárias que precisam ser montadas num período muito curto.

A – O Estádio Olímpico de Berlim e o Ninho do Pássaro, em Beijing, têm forte caracterização determinada pelo aço. O que justifica sua utilização? GMP – Os dois projetos apresentam uma resposta à mesma demanda: fornecer uma cobertura ao estádio que dará à construção uma identidade própria, reconhecimento imediato. No entanto, os meios de formular esta resposta em termos de construção são diversos: enquanto o Ninho do Pássaro apresenta a sua arquitetura inconfundível a partir do posicionamento supostamente caótico dos seus perfis tubulares, o Olímpico de Berlim aposta em uma arquitetura reduzida e reservada, por usar uma estrutura esteticamente disciplinada e organizada, que se celebra pelo meio da luz de maneira efetiva. (M.H.V.) M

Acima, o estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão, em Manaus, projeto em parceria com a empresa Stadia limpa e racionalUrgente é a busca pela obra“

Acervo i nter no/Divulgação

GMP/Schlaich,

Ber germann

& P artner/St adia

Arquitetura & Aço – Há muitos anos o Sr. fala de como pagamos caro no Brasil pela falta da tradição na construção com aço. O Sr. nota que tem havido uma mudança neste cenário com a evolução recente da nossa indústria? Siegbert Zanettini - Sem dúvida. Uma nova geração de arquitetos está fazendo obras em aço em grande qualidade, ganhando prêmios, superando uma falta de tradição por aqui da construção racional, tecnológica. A juventude brasileira está se libertando do concreto. Temos exemplos ótimos de uma evolução qualitativa de design, quase tudo em aço, de casas pequenas a edifícios. Esta geração supera a anterior, que por pura falta de formação, usava o aço como se fosse concreto, misturava estas duas linguagens absolutamente diversas. Essa geração de agora vai mudar isso. O “Lelé” (João Filgueiras Lima) e eu – que éramos considerados outsiders quando falávamos da tecnologia do aço há 40 anos – finalmente estamos vendo a influência do nosso discurso se realizar. Isso é ótimo para a arquitetura e para o País.

A – Isso é algo que o Sr. nota dentro da universidade? SZ – Na verdade, noto mais no mundo real que dentro da universidade. O uso do aço ainda é muito pequeno nos dados oficiais. Mas na prática, vejo todos usando aço. Recentemente, me chamou a atenção as facilidades do aço que estão sendo descobertas não só pelos jovens arquitetos de que falo, mas também pelo sujeito que faz obra simples, sem projeto. É aquele cara que quer fazer “puxadinho, coberturinha, a aplicaçãozinha” da casa dele, o fechamento da sua loja. Este tipo de

Não tenho razão de construir se não for para acrescentar positivamente para o homem, para o ambiente, para as próximas gerações construção, que antes era um improvisado de madeira e tijolo, começa a ser feita em aço pela facilidade que as peças, que hoje saem prontas das fábricas, oferecem.

A – Mas, não é nesta facilidade da tecnologia que se encontra o ganho social que o Sr. vê no uso do aço, certo? SZ – O ganho social, trabalhista, está em primeiro lugar no canteiro de obras. Você não emprega um trabalhador sem formação, sem contrato, para uma obra em aço. A obra em aço requer organização: uniforme, capacete, óculos, aparelho auricular, quando é o caso. Isto deveria ser a realidade de todo o trabalho na construção civil no País, que ainda é mais perigosa do que deveria. Uma das razões é a falta de informação de quem trabalha – é comum ver um sujeito de chinelo no meio da obra, cheia de prego e ferro. Na obra dos Centros de Pesquisa da Petrobras, o Cenpes, ninguém entra na obra sem treinamento. Treinamento para produção e treinamento para a sua segurança.

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