Quanto é evidente a evidência na saúde?

Quanto é evidente a evidência na saúde?

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Algumas estratégias podem ser pensadas para melhorar a implementação comentada.

Formação de recursos humanos (ensino graduado, pós-graduado e em serviço) mediante aprendizado baseado em solução de problemas.

Divulgação em todos os níveis (livros, jornais científicos, boletins institucionais etc.) do paradigma de conduta baseada em evidência.

Sensibilização de legisladores para evidências orientadoras de corretas diretrizes para atenção à saúde.

Na prática assistencial

Em todos os cenários e para todos os profissionais envolvidos no atendimento a pacientes é necessário tornar claro o que é mais eficaz e eficiente, incentivar o conhecimento contemporâneo de iniciativas capazes de mudar a prática médica, acreditar que mudança de comportamento é possível, identificar fatores facilitadores e dificultadores de mudanças, ensinar a lidar com a incerteza e comunicá-la ao paciente.

Conseqüentemente, haverá redução de inaceitável variabilidade nas práticas clínicas correntes, melhora na qualidade do atendimento e tomadas de decisão mais racionais, o que se refletirá na melhor atenção à saúde individual e coletiva.

Há grandes dificuldades em introduzir a evidência na prática clínica, como demonstrado pela quantidade de pacientes que não recebem cuidado apropriado, ou recebem o que é desnecessário ou perigoso. Algumas estratégias intentam mudar esse comportamento. É necessária ampla abordagem, envolvendo médicos, equipes de saúde, hospitais e o meio como um todo, com ênfase em setores específicos e grupos-alvo. Os planos de mudança devem guiar-se pela evidência da efetividade das medidas e pelo pré-conhecimento das barreiras que dificultam o caminho. Em geral, a evidência mostra que a transferência da evidência para a prática não é superior a todas as mudanças em todas as situações1.

Na gestão de saúde

A adoção de evidências nas tomadas de decisão gerenciais levará a maior racionalidade das condutas (com critérios definidos a priori), otimização dos

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Políticas de saúde baseadas em evidência constituem tema que começa a ser discutido. Ainda se pratica um sistema de saúde não baseado em evidência. Embora não seja possível definir o melhor modelo para a atenção à saúde, já há progresso nesse campo5.

A aplicabilidade e a transferência de evidências são raramente referidas em revisões sistemáticas, programas ou intervenções feitas pelo setor público de saúde. As intervenções em saúde pública podem ser medidas por uma ampla série de indicadores que avaliem estilos de vida, qualidade de vida, morbidade e mortalidade. Aplicabilidade se refere a quanto um processo de intervenção pode ser implementado em outro cenário e transferência, a quanto a efetividade medida de uma intervenção pode ser alcançada em outro cenário. As intervenções em saúde pública dependem muito de seu contexto. Se não houver aplicabilidade e possibilidade de transferência de resultados de uma revisão sistemática, eles serão irrelevantes num novo contexto.

É importante considerar tais aspectos porque muitas vezes faltam recursos para avaliar as intervenções em saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento. Assim, só lhes resta estimar os benefícios das intervenções a partir de evidências obtidas alhures.

Dois tipos de argumentos tentam desacreditar a eficácia da aplicação do modelo de evidência no âmbito da saúde pública. O primeiro é de que as políticas são fadadas ao insucesso porque os profissionais se ressentem delas, dizendo que estão em desuso, e que a burocracia subverte seus próprios fins. O resultado da ordem é a contra-ordem, ou a desordem. O outro argumento é de que as organizações governamentais só se preocupam em economizar e rejeitam qualquer iniciativa que as ameace com aumento de despesas14. A alternativa é trabalhar para aumentar a credibilidade no sistema, por meio de processos transparentes e bem fundamentados. Outra possibilidade é incentivar a atitude de que cada um é parte do todo e deve ser instrumento de mudança.

Na publicação em saúde

A ciência se baseia em experimentação e dados. Ironicamente, muito do que se publica sobre ciência ainda se baseia largamente em fé, não em estudo. Assim, o transformador movimento do embasamento pela evidência também deve permear as publicações. A importância de publicações baseadas em evidência ultrapassa a prática assistencial. Além de auxiliá-la, permite um entendimento e uma visão crítica que melhora o trabalho dos profissionais de saúde15.

A fidedignidade e o atendimento ao princípio da evidência também valem para as publicações leigas. O poder da imprensa e de outros meios que influenciam a opinião pública é bem conhecido. É preocupante quando uma notícia versa sobre procedimentos sem base em evidência ou que são, no mínimo, controversos. Muitas vezes, uma publicação dessa natureza influencia de tal modo os indivíduos que eles passam a pressionar os profissionais e os serviços de saúde para ter acesso a determinados procedimentos ou medicamentos16.

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Vol. 3, Nº 6 - Sildenafil: mais potencial do que potência?

Este Boletim é direcionado aos profissionais de saúde, com linguagem simplificada, de fácil compreensão. Representa a opinião de quem capta a informação em sólidas e éticas pesquisas disponíveis, analisa e interpreta criticamente seus resultados e determina sua aplicabilidade e relevância clínica no contexto nacional. Tal opinião se guia pela hierarquia da evidência, internacionalmente estabelecida e aceita. Assim, revisões sistemáticas, metanálises e ensaios clínicos de muito bom padrão metodológico são mais considerados que estudos quase-experimentais, estes, mais do que estudos observacionais (coortes, estudos de casos e controles, estudos transversais), e ainda estes, mais do que a opinião de especialistas (consensos, diretrizes, séries e relatos de casos). É pela validade metodológica das publicações que se fazem diferentes graus de recomendação de condutas.

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