Orientação espaço temporal e aprendizagem

Orientação espaço temporal e aprendizagem

FÁVERO, Maria Teresa Martins –PPE -UEM CALSA, Geiva Carolina –DTP -UEM

Resumo

Estamos na era do digital, onde a maior diversão das crianças são jogos de videogame ou de computadores e brinquedos eletrônicos de controle remoto. A ausência de espaço e a privação de movimento na atual geração provocam um verdadeiro “desequilíbrio motor". A falta de espaço e a necessidade de atividades corporais fazem com que nos preocupemos em aliar o desenvolvimento psicomotor às aprendizagens escolares. Apesar de vários estudos (Cunha, 1990; Oliveira, 1992; Furtado, 1998) atentarem para a importância do trabalho psicomotriz, as escolas continuam relegando a um segundo plano esta prática. Porém, o que parece simples a primeira vista, pode ser muito complexo, pois para o professor não é fácil diagnosticar as dificuldades de aprendizagem e, mais ainda, relacioná-las com a experiência psicomotora. Este trabalho se propôs a investigar as relações existentes entre desenvolvimento psicomotor e desempenho grafo-escrito em alunos da 3ª série do ensino fundamental, verificando se as relações estabelecidas na idade pré-escolar se mantêm durante os primeiros ciclos do ensino fundamental. Para tanto foram aplicados testes de avaliação de desenvolvimento psicomotor, proposto por Oliveira (2003), e teste de avaliação das dificuldades de aprendizagem escrita proposto por Sisto (2002). Os resultados preliminares demonstram que dos 54,1% de sujeitos que apresentam dificuldade na grafo escrita, destes, 76% tinham dificuldades de coordenação, 61% não desenvolveram noções de esquema corporal, orientação espacial e temporal e 46% apresentaram dificuldades em lateralidade. O estudo demonstra a necessidade de se proceder adiante, buscando mais esclarecimentos a respeito das relações entre desenvolvimento psicomotor e aprendizagem grafo-escrita.

Palavras-chave: desenvolvimento psicomotor, grafo-escrita, orientação espaço-temporal.

Introdução O desenvolvimento das cidades, acompanhado pelo crescente desenvolvimento

e a falta de criatividade. Estamos na era do digital..., do virtualA maioria das crianças desta

tecnológico, trouxe comodidade e conforto, porém, trouxe também aliados como o sedentarismo geração aprecia jogos de videogame ou de computadores e brinquedos eletrônicos de controle remoto. Como coloca Freire (1992, p. 12), “quando no apartamento, (as crianças) movimentam mais os dedos num videojogo e num sintonizador de televisão do que o corpo como um todo e quando na favela, não brincam, trabalham para sobreviver”.

Trabalhando a dança com crianças de todas as idades há quinze anos pude perceber o quanto à falta de atividade tem provocado dificuldades cada vez maiores de realizar movimentos

* Área Temática da Extensão: Educação. Área do CNPq: Ciências Humanas.

simples, causando tensões musculares desnecessárias, rigidez, má postura, um verdadeiro “desequilíbrio motor". Fonseca (1987, p.21), retrata este fato quando afirma: “[...] a ausência de espaço e a privação de movimento é uma verdadeira talidomida da atual sociedade, continuando na família (urbanização) e na escola. A não-aceitação da necessidade de movimento e da experiência corporal da criança põe em causa as atividades instrumentais que organizam o cérebro”.

Há algum tempo talvez fosse desnecessário preocupar-se em aliar o desenvolvimento psicomotor às aprendizagens escolares, visto que, as brincadeiras de esconde-esconde, de bolinha de gude, de amarelinha, de soltar pipa, de subir em árvores, entre outras, proporcionavam as bases psicomotoras que permitiam a criança recortar, colar, pintar, ler e escrever aos sete anos de idade, quando então, ingressavam na escola. Porém, a vida moderna proporciona às crianças um excesso de inatividade, levando a um déficit do desenvolvimento psicomotor.

A falta de atenção para a importância do movimento humano tem os seus fundamentos na concepção dualista do homem, onde a mente predomina sobre o corpo desprezando as maiores necessidades da criança: o movimento, a atividade constante e a vivência corporal (Colello, 1995). Apesar de vários estudos atentarem para a importância do trabalho psicomotriz, as escolas continuam relegando a um segundo plano esta prática. Pensam no ato de escrever apenas como um ato motor que repetido várias vezes, através de movimentos mecânicos e sem sentido pode ser bem fixado. Segundo Colello:

A evolução infantil caminha no sentido da interiorização e abstração dos modos de ação inteligente. É bem verdade que, num primeiro momento, a criança aprende a lidar com o meio a partir de atividades sensório motoras e de operações concretas, e que, posteriormente, ela se torna capaz de realizar tarefas semelhantes por meio de uma ação mental. Mas isso não justifica a pressa dos educadores cujas práticas pretendem queimar etapas, forçando a interiorização de formas de pensamento que não estão suficientemente maduras para dispensar o fazer corporal. [...] quanto tempo levarão nossos educadores para se conscientizar de que o estímulo motor e expressivo são caminhos fundamentais para atingir tudo aquilo que a escola mais objetiva? (Colello, 1995, p. 20-21).

A literatura traz vários estudos que estabelecem as relações entre o desenvolvimento psicomotor e a aprendizagem durante a educação infantil. Furtado (1998), pesquisou o desempenho psicomotor e a aprendizagem da leitura e escrita, e os resultados do seu trabalho demonstram que ao provocar o aumento do potencial psicomotor da criança, amplia-se também as condições básicas para as aprendizagens escolares. Os resultados de um estudo realizado por

Nina (1999), sobre a organização percepto-motora e o aprendizado da leitura e escrita em classes de alfabetização, apontam para a necessidade de, desde o ensino pré-escolar, serem oferecidas atividades motoras direcionadas para o fortalecimento e consolidação das funções psicomotoras, fundamentais para o êxito nas atividades do bom aprendizado da leitura e escrita. Estudos anteriores realizados por Cunha (1990) atestam para a importância do desenvolvimento psicomotor e cognitivo. A autora constatou que o desenvolvimento psicomotor é de grande importância para o aprendizado da leitura e escrita e que as crianças com nível mais alto de desenvolvimento psicomotor e conceitual são as que apresentam os melhores resultados escolares. Ainda sobre este aspecto, Oliveira (1992) realizou um trabalho de reeducação psicomotora com crianças que apresentavam dificuldades de aprendizagem. Os resultados obtidos mostraram que a maioria delas obteve uma melhoria no desempenho escolar. Estes estudos preocuparam-se, na sua grande maioria, com a idade pré-escolar, período que compreende dos cinco aos sete anos de idade. Diante disto, este trabalho se propõe a investigar as relações existentes entre desenvolvimento psicomotor e desempenho grafo-escrito em alunos da 3ª série do ensino fundamental, verificando, assim, se as relações estabelecidas na idade pré-escolar se mantém durante os primeiros ciclos do ensino fundamental.

Porém, o que parece simples a primeira vista, pode ser muito complexo, pois o professor tem dificuldades em diagnosticar as dificuldades de aprendizagem e, mais ainda, em relacionar a experiência psicomotora como auxílio para as dificuldades apresentadas. Como afirma Collelo:

[...] as aulas de educação física parecem se restringir a atividades de recreação ou de fortalecimento muscular, nos quais o movimento parece ter um fim em si mesmo. Paralelamente, os professores, em sala de aula, trabalham a motricidade infantil, visando apenas a uma mecânica padronizada de comportamento. Quando a escrita é considerada um ato prioritariamente motor (que não impõe ao aprendiz grandes esforços cognitivos), a maior preocupação dos alfabetizadores recai no treinamento das habilidades responsáveis pelos aspectos figurativos da escrita (coordenação motora, discriminação visual e organização espacial)[...] (Collelo, 1995, p17).

Assim, estimular o desenvolvimento psicomotor é fundamental para a facilitação das aprendizagens escolares, pois, é através da consciência dos movimentos corporais e da expressão de suas emoções que ela poderá desenvolver os aspectos motor, intelectual e sócio-emocional.

Procedimentos do estudo

A coleta de dados foi realizada com alunos, de ambos os sexos, da 3ª série do ensino fundamental de uma escola pública municipal da cidade de Paranavaí – PR. Para testagem dos alunos foi aplicada uma avaliação psicomotora adaptada de Oliveira (2003), um teste de avaliação de dificuldades de aprendizagem – ADAPE, adaptado de Sisto (2002). Todos os alunos foram filmados e fotografados durante as aulas, enquanto da realização de cópia, ditado ou escrita espontânea para posterior análise do material coletado. Foram avaliados ainda, a produção espontânea de texto em papel branco, não pautado, e o desenho livre. Utilizou-se também o parecer da professora da classe para compor a avaliação-diagnóstica das áreas psicomotora e grafo-escrita dos alunos investigados.

Resultados Preliminares

Tendo como base os critérios de avaliação propostos por Sisto (2002), através do instrumento de Avaliação de Dificuldades de Aprendizagem da Escrita (ADAPE), constatou-se que a grande maioria dos alunos da 3ª série do ensino fundamental investigados apresentam algum tipo de dificuldade de aprendizagem da escrita (Tabela I)

Tabela I Critérios de avaliação das dificuldades de aprendizagem na escrita (DA) utilizados para os alunos de terceira série:

Palavras erradas Categoria 3ª Série

Até 10 erros 1A Sem indícios de DA 1 - 19 erros 1B DA leve 20 - 49 erros 3 DA média 50 ou + erros 4 DA acentuada

Num total de 24 alunos da classe, 70,7% apresentaram algum tipo de dificuldade na aprendizagem da escrita. Deste total 54,1%, estavam no nível médio ou acentuado. O que vem de encontro aos dados do SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica (INEP, 2003), onde em 2001, 59% dos alunos brasileiros da 4ª série do ensino fundamental não desenvolveram competências elementares de leitura e escrita. Deste total, 2,2% não foram alfabetizados adequadamente, não conseguindo ao menos responder aos itens da prova. Isso demonstra que uma grande parte dos estudantes tem apresentado algum tipo de dificuldade de aprendizagem e que a escola tem se tornado impotente frente a estes dados.

Os resultados do Teste Psicomotor revelaram que dentro dos 54,1% de sujeitos que apresentaram dificuldade na grafo escrita, 76% tinham dificuldades de coordenação, 61% não desenvolveram noções de esquema corporal, orientação espacial e temporal e 46% apresentaram dificuldades em lateralidade.

Discussão dos Resultados:

Como já havíamos citado anteriormente, o número de crianças que chegam ao final do 2º ciclo sem se alfabetizarem é muito grande. Algumas destas crianças apresentam distúrbios ou déficit cognitivo, outras, entretanto, apresentam apenas dificuldades de aprendizagem, com parâmetros cognitivos normais. Sisto (2202) relata este fato: “No Brasil não há estatísticas abrangentes sobre este fato, mas tendo-se por base a quantidade de crianças que não se alfabetizam nem na 1ª, nem na 2ª série, só para citar um exemplo, pode-se esperar que o número de crianças que podem apresentar características de dificuldades de aprendizagem é bem maior do que se imagina”. O que se pode concluir é que algumas destas dificuldades podem estar relacionadas ao baixo desenvolvimento psicomotor apresentado por estas crianças. A escrita, como já foi observado, exige do aprendiz desenvolvimento da estruturação espaço-temporal; destreza motora para o suporte do lápis; motricidade global e manual sem perturbações importantes, suficiente implantação e definição da lateralidade e adequado desenvolvimento perceptivo, visual e auditivo (Lofiego, 1995). Dentre os conceitos psicomotores observados o que mais nos chama a atenção é a relação orientação espaço temporal e escrita. Como relata Ajuriaguerra:

A escrita é uma atividade que obedece às exigências muito precisas de estruturação espacial. A criança deve compor sinais orientados e reunidos de acordo com leis; deve em seguida, respeitar as leis de sucessão que fazem destes sinais palavras e frases. A escrita é, pois, uma atividade espaçotemporal muito complexa (Ajuriaguerra 1988, p.290).

A análise dos resultados sugere a existência de relação entre desempenho psicomotor e desempenho nas representações grafo-escritas, principalmente no que diz respeito à Orientação Espacial (tabela I) e Orientação Temporal (Tabela II):

Tabela I

Comparativo – Dificuldade de aprendizagem X Perfil Psicomotor – Orientação Espacial

OU ACENTUADA 8 5 13

ALUNOS COM DA LEVE OU SEM INDÍCIOS DE DA - 1 1

TOTAL 24

Tabela I

Comparativo – Dificuldade de aprendizagem X Perfil Psicomotor – Orientação Temporal

OU ACENTUADA 8 5 13

ALUNOS COM DA LEVE OU SEM INDÍCIOS DE DA - 1 1

TOTAL 24

Qualquer aprendizagem escolar é, fundamentalmente, um processo de relação perceptivo- motora. Como afirma Oliveira:

Quando uma criança consegue se orientar em seu meio ambiente, estará mais capacitada a assimilar a orientação espacial no papel. Muitas professoras, preocupadas com o desenvolvimento espacial ligado ao ensino da leitura e escrita, em vez de se preocupar em trabalhar estas noções ao nível de movimentação do corpo, de interiorização das ações, tentam começar esta orientação pelos exercícios gráficos. Isto é um erro, pois as crianças apenas aprendem a imitar e decorar o que é exigido delas, sem que haja qualquer transformação mental significativa (OLIVEIRA, 2002, p. 81)

Não pretendemos com isso afirmar que a educação psicomotora é a solução para todos os problemas de aprendizagem, mas sim, ressaltar que os fatos levam a crer a relação existente entre o desenvolvimento psicomotor e as dificuldades na grafo escrita e na aprendizagem. Dessa maneira, a escola pode contribuir auxiliando os seus alunos no sentido de proporcionar atividades psicomotoras que melhorem as noções de espaço tempo da criança. Há a necessidade de se proceder adiante, buscando mais esclarecimentos a respeito desta relação.

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