Psicologia Positiva

Psicologia Positiva

(Parte 1 de 10)

w.psicologia.com.pt Documento produzido em 26-09-2008

[Trabalho de Licenciatura]

PSICOLOGIA POSITIVA (2007)

Patrícia Nunes Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Portugal

Contactos: patricianunes87@gmail.com

Na Psicologia, surge um “novo” paradigma de investigação, ou seja, há uma mudança de perspectiva - do negativo para o positivo. A Psicologia Positiva passa a abordar o funcionamento positivo da personalidade, o bem-estar subjectivo e o ensino da resiliência. As emoções e sentimentos têm um papel crucial na forma como as pessoas reagem às circunstâncias do meio.

Há ainda algumas actividades que favorecem o bem-estar psíquico e consequentemente, a forma de ver o mundo. As diferenças individuais desempenham também uma função importante ao longo de todo este processo.

Palavras-chave: Bem-estar, emoções positivas, optimismo, psicologia positiva, resiliência, saúde mental

1. CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS: A PSICOLOGIA POSITIVA

A psicologia positiva é descrita como um movimento que nos últimos anos tem ganho terreno dentro das ciências sociais e do comportamento, considerando, entre outros, aspectos como a felicidade e outras emoções positivas, os seus benefícios e as formas de os desenvolver. A psicologia positiva pretende ser uma disciplina científica, rigorosa e baseada na evidência, identificando intervenções que promovam o bem-estar e a qualidade de vida.

O movimento da Psicologia Positiva emerge como tentativa de romper o viés negativo sobre o desenvolvimento humano através do estudo dos aspectos positivos presentes nos indivíduos. Nesse sentido, temáticas como as emoções positivas destacam-se nos actuais estudos

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[Trabalho de Licenciatura] científicos da psicologia. Tendo ganho destaque na última década, a psicologia positiva é o estudo científico dos factores e processos que conduzem à optimização do funcionamento humano, focando a atenção nas forças, em vez de se debruçar sobre as fraquezas; construindo e solidificando o que de melhor a vida oferece, em vez de tentar reparar o pior; e preocupando-se em promover na pessoa comum a forma mais proveitosa de viver a vida, em vez de se concentrar num processo de cura de pessoas perturbadas. Desta forma, e desviando-se da tendência da psicologia clínica, de se concentrar na patologia, este recanto da psicologia trata os traços positivos que incorporam o nosso repertório humano. Tendo por base o conceito de resiliência, a psicologia positiva pretende explicar como em situações benignas do dia-a-dia as pessoas usufruem do melhor da sua vida e de si mesmas. Este interesse não é, contudo, novo.

Em 1902, William James escrevia sobre a “determinação da mente em ser saudável”; em 1958, Allport manifestava interesse pelas características positivas que compunham o repertório humano; Maslow (1968) focou o estudo da pessoa saudável e, mais recentemente, refere-se como exemplo a investigação que Cowan (2000) tem desenvolvido na área da resiliência em crianças e adolescentes. Em termos de intervenção, a psicologia positiva preconiza que tratar “não é apenas arranjar o que está danificado; é também cuidar de algo ou alguém e fomentar o que temos de melhor” (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000). Desta forma, amplificam-se forças, em vez de se corrigirem fraquezas, o que tem sido um dos principais objectivos desta disciplina.

A psicologia positiva trata do estudo das experiências positivas subjectivas, dos traços positivos do ser humano e das instituições que permitem a experiência e a manifestação destes traços positivos. A psicologia positiva tenta levar os psicólogos a adoptarem uma postura mais apreciativa dos potenciais, das motivações e das capacidades dos indivíduos, procurando transformar as antigas questões em novas oportunidades de compreender eventos psicológicos como optimismo, altruísmo, esperança, alegria, satisfação, e outros tão importantes para a investigação quanto depressão, ansiedade, angústia e agressividade.

Chama-se a atenção para o estudo do conceito de resiliência enquanto capacidade profunda para a superação de crises em situações adversas, estando presente em indivíduos, comunidades e instituições.

Pensando no porquê da psicologia positiva ser ainda tão nova (como corpo teórico), podem mencionar-se três razões. Primeiro, a perturbação e o sofrimento apelam de uma maneira mais pungente à atenção da ciência do que um estado de saúde e bem-estar que não inspira cuidado (a patologia constitui-se, desta forma, como o foco de investimento clínico). A segunda razão é de ordem pragmática e histórica: com a Segunda Guerra Mundial e com o regresso dos ex- combatentes a casa, muitos deles com enorme sofrimento físico e psíquico, o estudo da psicopatologia vê a sua importância aumentar, sendo que os diagnósticos e os tratamentos tomam o caminho do modelo médico. A terceira (questionável) é, se o destaque atribuído ao negativo não estará, porventura, relacionado com a nossa própria natureza e com as nossas teorias sobre os processos psicológicos. Neste sentido, a literatura tem documentado que os acontecimentos

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[Trabalho de Licenciatura] negativos têm um maior impacto que os positivos e que a informação que concerne aos eventos negativos é processada de forma mais pormenorizada do que a que remete para as experiências positivas.

Se temos esta disciplina à qual chamamos positiva, tal implicará então que a “demais

Psicologia” é negativa? A resposta é óbvia: é apenas devido ao sucesso que a ciência, à qual chamamos Psicologia, tem tido desde o seu início em diagnosticar, medir e tratar o ‘negativo’ da experiência humana, que se abre neste momento um espaço para dedicar ao estudo das forças e virtudes humanas. E, de muitos desafios que assomam o trilho da psicologia positiva, um que pede atenção é precisamente o de continuar a definir o que é ‘positivo’ e ‘bom’ em termos de experiência humana, estando esta tarefa longe de ser simples.

Diener e Suh (1997) sugerem três directrizes para definir ‘positivo/bom’. É algo que é escolhido de forma sistemática, que é vista como fonte de satisfação (seja um objecto, acontecimento, processo ou resultado); é algo que é julgado de uma maneira positiva/boa e tem como base um sistema de valores ou um conjunto de normas culturais.

Em Janeiro de 2000, Martin Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi afirmam, numa edição especial da revista American Psychologist, que “a psicologia não está a produzir suficiente conhecimento sobre o que faz a vida valer a pena ser vivida”. Desta forma, parece que a promoção da experiência de uma existência o mais completa e gratificante possível deverá constar também da competência da Psicologia.

A Psicologia Positiva veio abrir novas perspectivas para a investigação e intervenção.

Apoia os esforços para minorar os problemas sociais, tais como a toxicodependência, a criminalidade e a doença mental. Incentiva o estudo dos factores protectores e dos factores de risco. Para além disso mobiliza a compreensão das emoções e dos traços positivos que podem ser mobilizados para a resolução de problemas.

A Psicologia Positiva vem trazer uma mensagem de esperança em vez de medo, atente-se nos exemplos, “a maior parte das pessoas não abusa de bebida” e “a maior parte das pessoas que joga a dinheiro consegue controlar-se”. Esta mudança da afirmação de não focar o negativo mas sim o positivo apresenta a ideia base da Psicologia Positiva.

Há uma grande aposta na prevenção em vez do tratamento. A Psicologia Positiva procura mudar a centralidade do tratamento para a prevenção. Ajudam-se mais as pessoas se pudermos prevenir os problemas antes de acontecerem (prevenção primária), ou intervir antes que piorem (prevenção secundária). Por último, se as outras estratégias não funcionarem vai-se para o tratamento (prevenção terciária).

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2. BREVE RESENHA HISTÓRICA

A história da psicologia confunde-se com estudos voltados à patologia e ao seu tratamento – a atmosfera biomédica cartesiana vigente no período do nascimento da psicologia contribuiu nessa direcção. Isso resultou em olhares muito bem treinados em identificar padrões de problemas e míopes para o “lado positivo” das pessoas. Como tentativa de romper esse viés negativo sobre o desenvolvimento humano, surgiu, na última década do século X, com raízes na Psicologia Humanista, o movimento da Psicologia Positiva.

Calçado em um novo paradigma epistemológico, este novo campo científico apontou como principal objecto de estudo da psicologia o funcionamento saudável e adaptativo do ser humano, interessando-se pelos traços psicológicos e experiências consideradas positivas tais como optimismo, satisfação, bem-estar, felicidade, gratidão, esperança, resiliência, empatia. Martin Seligman, um dos expoentes da Psicologia Positiva, chama a atenção para essa mudança de foco, defendendo que, sem deixar de lado ter como objecto de estudo a patologia e seu tratamento, a psicologia deve abrir espaço para o estudo das “habilidades positivas” do ser humano, redireccionando o enfoque para a promoção da qualidade de vida.

3. IMPORTÂNCIA DO CONCEITO DE RESILIÊNCIA PARA A PSICOLOGIA POSITIVA

A psicologia positiva é apresentada como um movimento de investigação de aspectos potencialmente saudáveis dos seres humanos, em oposição à psicologia tradicional e à sua ênfase nos aspectos psicopatológicos. Entre os fenómenos indicativos de vida saudável destaca-se a resiliência, por referir-se a processos que explicam a superação de adversidades, cujo discurso hegemónico foca o indivíduo.

Resiliência é frequentemente referida por processos que explicam a "superação" de crises e adversidades em indivíduos, grupos e organizações (Yunes & Szymanski, 2001, Yunes, 2001, Tavares, 2001). Por tratar-se de um conceito relativamente novo no campo da Psicologia, a resiliência vem sendo bastante discutida do ponto de vista teórico e metodológico pela comunidade científica.

Alguns estudiosos reconhecem a resiliência como um fenómeno comum e presente no desenvolvimento de qualquer ser humano (Masten, 2001), e outros enfatizam a necessidade de cautela no uso "naturalizado" do termo.

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A noção de resiliência vem sendo utilizada há muito tempo pela Física e Engenharia, sendo um dos seus precursores o cientista inglês Thomas Young, que, em 1807, considerando tensão e compressão, introduz pela primeira vez a noção de módulo de elasticidade. Young descrevia experimentos sobre tensão e compressão de barras, buscando a relação entre a força que era aplicada num corpo e a deformação que esta força produzia. Esse cientista foi também o pioneiro na análise de stress trazido pelo impacto, tendo elaborado um método para o cálculo dessas forças (Timosheibo, 1983). Silva Jr. (1972) denomina como resiliência de um material, correspondente a determinada solicitação, a energia de deformação máxima que ele é capaz de armazenar sem sofrer deformações permanentes. Dita de uma outra maneira, a resiliência refere- se à capacidade de um material absorver energia sem sofrer deformação plástica ou permanente. Nos materiais, portanto, o módulo de resiliência pode ser obtido em laboratório através de medições sucessivas ou da utilização de uma fórmula matemática que relaciona tensão e deformação e fornece com precisão a resiliência dos materiais.

É importante ressaltar que diferentes materiais apresentam diferentes módulos de resiliência.

Em Psicologia, o estudo do fenómeno da resiliência é relativamente recente. Vem sendo pesquisado há cerca de trinta anos, mas apenas nos últimos cinco anos os encontros internacionais têm trazido este constructo para discussão. A sua definição não é clara, tão-pouco precisa quanto na Física ou na Engenharia, e nem poderia sê-lo, haja vista a complexidade e multiplicidade de factores e variáveis que devem ser tidos em conta no estudo dos fenómenos humanos.

Os precursores do termo resiliência na Psicologia são os termos invencibilidade ou invulnerabilidade, ainda bastante referidos na literatura. Vários autores (Masten & Garmezy, 1985; Rutter, 1985; Werner & Smith, 1992) relatam que "em 1974, o psiquiatra infantil E. J. Anthony introduziu o termo invulnerabilidade na literatura da psicopatologia do desenvolvimento para descrever crianças que, apesar de prolongados períodos de adversidades e stress psicológico, apresentavam saúde emocional e alta competência" (Werner & Smith, 1992).

Alguns anos depois, já se discutia a aplicação do termo, que parecia sugerir que as crianças seriam totalmente imunes a qualquer tipo de desordem, independentemente das circunstâncias. Como afirmaram Masten e Garmezy (1985): "um termo menos olímpico como resiliência ou resistência ao stress, era necessário". Segundo Rutter (1985, 1993), um dos pioneiros no estudo da resiliência no campo da Psicologia, invulnerabilidade passa uma ideia de resistência absoluta ao stress, de uma característica imutável, como se fossemos intocáveis e sem limites para suportar o sofrimento. Rutter (1993) considera que invulnerabilidade passa somente a ideia de uma característica intrínseca do indivíduo, e as pesquisas mais recentes têm indicado que a resiliência ou resistência ao stress é relativa, que as suas bases são tanto constitucionais como ambientais, e que o grau de resistência não tem uma quantidade fixa, mas sim, varia de acordo

com as circunstâncias (Rutter, 1985)Resiliência e invulnerabilidade não são termos

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[Trabalho de Licenciatura] equivalentes, afirmam Zimmerman e Arunkumar (1994). Segundo estes autores, resiliência refere-se a uma "habilidade de superar adversidades, o que não significa que o indivíduo saia da crise ileso, como implica o termo invulnerabilidade". Apesar destas considerações, é esta versão inicial de resiliência como invulnerabilidade ou resistência às adversidades que ainda vem orientando a produção científica de muitos pesquisadores da área. Tal perspectiva tem dado lugar à construção de um conceito que define a resiliência como um conjunto de traços e condições que podem ser replicados, conforme afirma Martineau (1999) na sua análise crítica sobre o discurso dos, denominados por ela, experts no assunto. A autora detectou três perspectivas distintas nos discursos vigentes sobre resiliência.

Em primeiro lugar, cita o discurso dominante e bem-documentado dos especialistas, resultante de elaborados estudos psicométricos e da análise estatística dos dados obtidos por medidas e em ambientes controlados através de resultados de testes, notas de escola e perfis de personalidade ou temperamento. Estes são alguns exemplos de instrumentos utilizados para se chegar a um conjunto de características e traços que identificam a "criança/pessoa resiliente". Martineau sumariza que os principais traços vistos como características fixas da resiliência, que formam um consenso na opinião de diversos autores são: sociabilidade, criatividade na resolução de problemas e um senso de autonomia e de proposta. Estas medidas do observável e de alguma maneira mensurável acabam por definir o que os autores (experts) chamam de resiliência.

Em segundo lugar, a autora analisa o discurso experiencial, menos valorizado e subordinado ao discurso dos especialistas, cuja base são os estudos qualitativos, com dados obtidos a partir de histórias de vida de adultos relatadas a psicoterapeutas (e identificados por outras pessoas como "resilientes"), nas quais "estão embutidas as idiossincrasias de memória, narrativa, identidade, interpretação e subjectividade" (Martineau, 1999, p. 73). São histórias de vida construídas e reconstruídas através das múltiplas interpretações do indivíduo.

Em terceiro lugar, Martineau apresenta o discurso de pessoas que trabalham directamente com crianças e adolescentes (educadores, psicólogos, assistentes sociais), uma perspectiva de resiliência ainda em construção, que sintetiza aspectos dos dois discursos, dos experts e do experiencial. Ao posicionar-se, Martineau afirma que reificar/replicar as características de uma determinada criança como "resiliente" (através da mensuração de um conjunto de traços) é negar que resiliência é contingente, imprevisível e dinâmica.

O quadro seguinte apresenta um sumário dos processos-chave da resiliência segundo Walsh (1998).

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