EPIDEMILOGIA

EPIDEMILOGIA

(Parte 2 de 11)

Período de diagnóstico Categoria de exposição

Ano Sexo Sexual Sangüínea Perinatal Ignorado

1980 Masc. 1 - - - Fem. - - - - 1981 Masc. - - - - Fem. - - - - 1982 Masc. 8 1 - - Fem. - - - - 1983 Masc. 31 4 - 5 Fem. - - - 1 1984 Masc. 110 13 - 16 Fem. 1 2 - 2 1985 Masc. 419 54 1 46 Fem. 6 7 - 5 1986 Masc. 800 123 4 116 Fem. 13 38 3 13 1987 Masc. 1514 424 19 317 Fem. 36 155 1 48 1988 Masc. 2197 792 29 620 Fem. 78 293 43 104 1989 Masc. 2844 1145 60 865 Fem. 151 314 51 183 1990 Masc. 3427 1803 94 1425 Fem. 242 380 81 330 1991 Masc. 4490 2422 112 1656

Fem. 462 593 112 540 1992 Masc. 5652 2820 142 1775 Fem. 1021 753 126 502 1993 Masc. 6073 3118 173 1945 Fem. 1548 843 174 564 1994 Masc. 6285 2546 215 2238 Fem. 1684 643 213 735 1995 Masc. 4842 2415 158 1731 Fem. 1586 607 177 689 1996 Masc. 761 306 18 227 Fem. 293 86 17 489

(*) 1996 - Dados preliminares até semana 35, terminada em 31/08). Fonte: Boletim epidemiológico PNDST/Ministério da Saúde

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Usuários de drogas injetáveis - Atualmente este vem sendo o grupo onde a epidemia vem aumentando de forma mais acelerada nos últimos anos (ver tabelas I e II). Na verdade seu crescimento vem sendo tão forte que proporcionalmente sua distribuição está próxima aos homo/bissexuais (o que não quer dizer que este segundo grupo possua um número semelhante ao dos usuários de drogas; como os usuários vem crescendo muito nos últimos anos a sua proporção vem adquirindo uma importância maior).

Lugar

A distribuição geográfica dos casos de uma doença interessa ao epidemiologista, pois uma simples inspeção dos dados pode nos indicar se os casos se encontram dispersos, ou formando conglomerados (concentrações).

locais naturais de aglomeração, fontes comuns etc

Este reconhecimento, podendo variar desde métodos rotineiros de construção de mapas até instrumentais mais elaborados, oriundos da geografia, geologia, meteorologia etc., nos permite elaborar algumas hipóteses sobre os meios de transmissão, tais como a importância da veiculação hídrica,

No caso da SIDA, é interessante observar a grande concentração de casos nas grandes cidades (ver tabela IV), que correspondem, no caso brasileiro, as áreas mais desenvolvidas do sul e sudeste. Mesmo levando-se em conta a carência da assistência médica nas regiões mais carentes do país (como norte e nordeste), a diferença é gritante, mostrando claramente a necessidade de campanhas específicas para estas áreas.

Não devemos entretanto aceitar estes dados sem crítica; o Amapá por exemplo‚ um estado onde a incidência dos casos de SIDA ainda é muito pequena. Não obstante, a Guiana Francesa, cuja fronteira faz divisa com este estado, possui uma das maiores incidências de SIDA da América Latina. Como o movimento migratório entre estes dois locais não é desprezível, cabe-nos questionar a baixíssima incidência de SIDA no Amapá, ainda mais quando qualquer relatório do Ministério da Saúde, aponta que cerca da metade do óbitos deste estado são devidos a causas “mal definidas” (isto é, óbitos onde os recursos médicos disponíveis não foram suficientes para um diagnóstico, ou ainda, óbitos onde sequer houve acompanhamento médico).

Este último item talvez perca um pouco de importância nas grandes cidadesonde mecanismos de
locomoção não chegam a se tornar um empecilhopara grandes deslocamentos dentro desta;
entretanto este é um ponto importante na epidemiologia para muitas doenças transmissíveis e

Num nível de micro-análise por sua vez, seria interessante conhecer os diversos subgrupos (em cada cidade), que possam vir a formar quase que guetos em seus locais de moradia ou trabalho. certamente no caso da SIDA merece alguma atenção.

John Snow, foi um famoso médico britânico do século XIX, um dos primeiros anestesistas da

mecanismo de transmissão da cólera, ao formular 3 tipos de perguntas : quemestava adquirindo a
infecção (tipo de trabalho, renda, escolaridade,hábitos higiênicos etc.), a localização espacial dos
doentes, bem como a referência destes em relação às fontes de água existentes, efinalmente a
distribuição temporal dos casos
Apesar de seustrabalhos pertencerem aos clássicos da literatura epidemiológica (cuja

Inglaterra e principalmente, uma pessoa organizada em termos metodológicos, que conseguiu elucidar o leitura é fortemente recomendada), nos interessa neste momento a relação que John Snow conseguiu retirar da observação espacial dos casos. Em seus artigos é muito forte a correlação entre a distribuição hídrica e a ocorrência da cólera.

nunca é pouco salientar, que mesmo a observação dos padrões espaciais, taiscomo os idealizados

Hoje a epidemiologia está trabalhando em métodos que aplicam todo um arsenal estatístico à distribuição espacial (que é encontrada na literatura em inúmeros trabalhos que necessitam abordar as relações espaciais de doenças tais como câncer, defeitos congênitos, malária, violência, etc.). Entretanto por Snow, podem nos fornecer importantes sugestões sobre a doença estudada.

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Tabela IV

Distribuição do coeficiente de incidência da SIDA (taxa por 100.0 habitantes), segundo período de diagnóstico e local de residência (macrorregião), Brasil, 1980-1996(*)

Ano Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul Total

1980 - - - - - - 1981 - - - - - - 1982 - - - - - - 1983 - - - 0.1 - - 1984 - - - 0.2 - 1.8 1985 - 0.1 0.2 0.8 0.1 0.4 1986 - 0.2 0.5 1.6 0.3 0.8 1987 0.2 0.5 0.7 3.5 1.2 1.8 1988 0.5 0.8 1.1 5.5 1.3 2.9 1989 0.7 1.2 1.7 7.1 1.8 3.9 1990 1.0 1.5 2.5 9.5 3.1 5.3 1991 1.3 2.1 4.3 12.5 4.9 7.1 1992 1.8 2.1 5.5 15.5 5.5 8.6 1993 2.3 2.4 6.7 16.9 7.6 9.6 1994 2.8 2.3 6.8 16.3 8.9 9.6 1995 2.9 2.3 6.9 13.0 7.1 7.9 1996 1.4 0.6 2.4 1.1 1.9 1.2

Fonte: Boletim epidemiológico PNDST/Ministério da Saúde

(*) 1996 - Dados preliminares até semana 35, terminada em 31/08).

doentes podem falar afavor de uma má qualidade técnica no manuseio de doentes ou
simplesmente a coexistência em dado local de pacientes muito graves ealtamente manipulados (como
de que umafonte comum desempenha um papel importante nesta disseminação.
TempoAs variáveis ligadas à distribuição dos casos de uma doença em função do tempo,

Deslocando o enfoque acima para o universo hospitalar, a CCIH se beneficia em muito do conhecimento espacial das infecções observadas em determinado período de tempo. Concentrações de num CTI), favorecendo a transmissão de infecções, principalmente quando medidas básicas de higiene não são aplicadas. Por outro lado, a disseminação ampla de determinado agente infeccioso pode ser um indício formam juntas com as ligadas às pessoas e lugar, o tripé‚ da epidemiologia, que no momento chamaremos de “descritiva”.

A análise de um surto, seja infeccioso ou não, quandoregistrado num histograma (um
resultante (de uma pessoa infectada para outra suscetível, através de fonte comum etc.). No casoda

gráfico onde a área de cada barra representa a freqüência observada), nos permite em muitas situações formular hipóteses acerca do modo de transmissão da referida doença , pela simples inspeção da figura SIDA, a abcissa é medida em anos, visto que tratamos de um vírus lento (onde o tempo médio de

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incubação, ou seja, o tempo médio necessário para queum infectado se torne clinicamente doente, situa-

se hoje ao redor de 13 anos).

grupos(homossexuais/bissexuais, heterossexuais, usuários de drogas, etc.) trocam entre si, o
número médio de parceiros/ano bem como o número médio derelações com cada parceiro, o tamanho
proporcional de cada um destesgrupos com comportamento de risco em relação a população total, o
tempo médio para que um paciente infectado se torne infectante (e aindade forma complementar, se esta
capacidade de ser infectante é constanteou não ao longo do período de incubação, etc.).
Todos estes fatores nãosão exclusividade da SIDA; doenças como a malária, sarampo,
poliomielite, câncer, violência, enfim, todas as doenças possueminúmeros itens que devem ser

A interpretação desta curva apresenta uma considerável dificuldade, visto os inúmeros componentes que dela participam, tais como a proporção de relações sexuais que cada um dos levados em conta, quando deparamos com a tentativa de estimar o que deverá ocorrer no futuro.

Em alguns momentos, como no caso da SIDA, o contato íntimo (através do sexo ou por transfusões) apresenta um aspecto importante na epidemiologia. No caso da esquistossomose, temos a entrada de um hospedeiro intermediário, o que acrescenta a alternativa de combatê-lo para se tentar controlar a doença.

Apesar de inúmeros programas para erradicação ou controle da esquistossomose centrarem no vetor é‚ interessante observar que o único país a erradicar esta endemia foi o Japão que investiu pesadamente em saneamento básico. Dentre as doenças infecciosas existentes, a única erradicada mundialmente foi a varíola o que a torna um importante exemplo de como a dinâmica de uma doença transmissível, uma vez compreendida, facilita a projeção para outras patologias.

Um dos fatores que mais ajudava a perpetuação do vírus da varíola era sua alta infectividade.

diagnosticadoAtualmente duas doenças apresentam reais possibilidades de erradicação :
poliomielite e sarampo. No caso dapólio (atualmente erradicada do Brasil e da maior parte dos países
dasAméricas), a estratégia brasileira consistiu na eliminação sistemática dos suscetíveis, através de
grandes campanhas de vacinação em massaEstas campanhas não só visavam a imunização, como
também se baseavam naconstante substituição do vírus selvagem pelo vacinal no meio ambiente.

Inúmeras outras circunstâncias facilitaram a sua erradicação, como por exemplo a existência de uma vacina altamente eficaz, o fato de que um infectado ou vacinado adquiria imunidade permanente, a inexistência de outro hospedeiro que não o homem, e finalmente a distribuição temporal da doença que era lenta o suficiente para permitir a vacinação de bloqueio, uma vez que um caso houvesse sido Sarampo, possui um comportamento bastante semelhante à varíola, entretanto sua maior capacidade em se propagar rapidamente, complica bastante as estratégias de erradicação. Por outro lado, as sucessivas campanhas de vacinação apesar de terem sido capazes de reduzir bastante o número de casos da doença, criaram um problema adicional que é o de acumular na idade adulta um contigente cada vez maior de suscetíveis ao sarampo.

Distribuição de casos e incidência de SIDA segundo ano de diagnóstico, Brasil, 1980-1996.

Incidencia

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Coeficientes e taxas utilizados em epidemiologia

doença, para se formar uma idéia do risco de se adoecer, estaremos muito provavelmente formulando
conclusões equivocadas, pois este número de casos dever ser relativizadoem função do número de
pessoas existentes na referida população, ouainda, ao número de pessoas em risco de adoecer, para
a doençaanalisada.
Imagine por exemplo duas cidades A e B, onde ocorreramrespectivamente 10 e 100
casos de uma dada doença no ano de 1991. Aprimeira vista, B parece ter uma situação menos
controlada para adoença em questão. Se relativizarmos as duas cidades em função de suas
respectivas populações (100 pessoas na cidade A e 100.0 em B) estaimpressão inicial se mostrará
completamente infundada, visto que 10/100representa que nesta cidade, ocorreu ao longo de 1991,
10 casos emcada 100 habitantes, enquanto que em B, teremos 100/100.0 ou seja 1 caso para cada

Pode-se entender a idéia básica dos coeficientes ou taxas na saúde, se levarmos em conta que sua principal função é a de resumir, em alguns poucos números, uma série de dados que de outra forma se tornariam confusos e de difícil interpretação. Se utilizarmos o número de casos de uma determinada 10.0 habitantes (um número cem vezes menor). Podemos a grosso modo dizer que os indicadores nos fornecem uma idéia de probabilidade (ou melhor dizendo, uma velocidade média de transformação de uma pessoa sadia ou viva numa doente ou morta).

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Tabela V

incidência, Maio 1989

Coeficientes de incidência acumulada da AIDS (por 100.0 habitantes), segundo ordem de

Posto Global África Américas Europa Oceania Ásia

2 Guiana Franc. (148)
3 Bahamas (110)
4 Congo (57)
5 Uganda (4)
6 Eua (38)
7 Malawi (35.5)
8 Haiti (3.4)
9 Burundi (28.2)
10 Barbados (27.6)
1 Trin. Tobago (27.5)
12 Guadalupe (25.7)
13 R.Centro Afr. (23.9)
14 Ruanda (20.1)
15 Zâmbia (18.2)
16 Tanzânia (17.9)
17 Martinica (14)

1 Bermuda (173)

18 S.V.Granadina(12)

19 Quênia (12.4)
20 R.Dominicana (12)
23 Granada (10.6)

21 Suíça (12.2) 2 França (1.5) 24 Canadá (9.5)

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Tabela V - Coeficientes de incidência acumulada da AIDS (por 100.0 habitantes), segundo ordem de incidência, Maio 1989 (continuação)

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