O que são drogas psicotrópicas?

O que são drogas psicotrópicas?

(Parte 2 de 7)

O álcool é uma das pou cas dro gas psi co tró pi cas que tem seu con su mo admitido e até incenti va do pela socie da de. Esse é um dos moti vos pelos quais ele é encara do de forma dife ren cia da, quan do com pa ra do com as demais dro gas.

Apesar de sua ampla acei ta ção social, o con su mo de bebi das alcoó li cas, quan do exces si vo, passa a ser um pro ble ma. Além dos inú me ros aci den tes de trân si to e da vio lên cia asso cia da a episó dios de embria guez, o con su mo de álcool a longo prazo, depen den do da dose, fre quên cia e cir- cuns tân cias, pode pro vo car um qua dro de depen dên cia conhe ci do como alcoo lis mo. Dessa forma, o con su mo ina de qua do do álcool é um impor tan te pro ble ma de saúde públi ca, espe cial men te nas socie da des oci den tais, acar re tan do altos cus tos para a socie da de e envol ven do ques tões médi cas, psi co ló gi cas, pro fis sio nais e fami lia res.

Efeitos agu dos

A inges tão de álcool pro vo ca diver sos efei tos, que apa re cem em duas fases dis tin tas: uma esti mu lan te e outra depres so ra.

Nos pri mei ros momen tos após a inges tão de álcool, podem apa re cer os efeitos esti mu lan tes, como eufo ria, desi ni bi ção e loqua ci da de (maior faci li da de para falar). Com o pas sar do tempo, come çam a surgir os efei tos depres so res, como falta de coor de na ção moto ra, des con tro le e sono. Quando o con su mo é muito exa ge ra do, o efei to depres sor fica exa cer ba do, poden do até mesmo pro vo car o esta do de coma.

Os efei tos do álcool variam de inten si da de de acor do com as carac te rís ticas pes soais. Por exem plo, uma pes soa acos tu ma da a con su mir bebi das alcoó licas sen ti rá os efei tos do álcool com menor inten si da de, quan do com pa ra da com outra que não está acos tu ma da a beber. Um outro exem plo está rela cio na do à estru tu ra físi ca: a pes soa com estru tu ra físi ca de gran de porte terá maior resis tên cia aos efei tos do álcool.

O con su mo de bebi das alcoó li cas tam bém pode desen ca dear alguns efei tos desa gra dá veis, como enru bes ci men to da face, dor de cabe ça e mal estar geral. Esses efei tos são mais inten sos para algu mas pes soas cujo orga nis mo tem difi cul da de de meta bo li zar o álcool. Os orien tais, em geral, têm maior pro ba bi li da de de sen tir esses efei tos.

Álcool e trân si to

A inges tão de álcool, mesmo em peque nas quan ti da des, dimi nui a coor de na ção moto ra e os refle xos, com pro me ten do a capa ci da de de diri gir veí cu los ou ope rar outras máqui nas. Pesquisas reve lam que gran de parte dos aci den tes é pro vo ca da por moto ris tas que haviam bebi do antes de diri gir. Nesse sentido, o Código de Trânsito Brasileiro de 1997 foi alterado pela Lei no 1.705, de 19 de junho de 2008, conhecida como "Lei Seca". Pela nova legislação, é proibido dirigir após o consumo de qualquer quantidade de bebidas alcoólicas. A Lei prevê penas para os motoristas infratores de suspensão temporária da Carteira de Habilitação, apreensão do veículo e prisão para os motoristas que apresentem concentração de álcool no sangue superior a 0,6g por litro de sangue.

Alcoolismo

Como já cita do neste texto, a pes soa que con so me bebi das alcoó li cas de forma exces si va, ao longo do tempo, pode desen vol ver depen dên cia, con di ção conhe ci da como alcoo lis mo. Os fato res que podem levar ao alcoo lis mo são varia dos, envol ven do aspec tos de ori gem bio ló gi ca, psi co ló gi ca e socio cul tu ral. A depen dên cia do álcool é con di ção fre quen te, atin gin do cerca de 10% da popu la ção adul ta bra si lei ra. A tran si ção do beber mode ra do ao beber pro ble má ti co ocor re de forma lenta, tendo uma inter fa ce que, em geral, leva vários anos. Alguns sinais da depen dên cia do álcool são: desen volvi men to da tole rân cia, ou seja, a neces si da de de beber maio res quan ti da des de álcool para obter os mes mos efei tos; aumen to da impor tân cia do álcool na vida da pes soa; per cep ção do “gran de dese jo” de beber e da falta de con tro le em rela ção a quan do parar; sín dro me de abs ti nên cia (apare ci men to de sin to mas desa gra dá veis após ter fica do algu mas horas sem beber) e aumen to da inges tão de álcool para ali viar essa sín dro me.

A sín dro me de abs ti nên cia do álcool é um qua dro que apa re ce pela redu ção ou para da brus ca da inges tão de bebi das alcoó li cas, após um perío do de con su mo crô ni co. A sín dro me tem iní cio 6 a 8 horas após a para da da inges tão de álcool, sendo carac te ri za da por tre mor das mãos, acom panha do de dis túr bios gas trin tes ti nais, dis túr bios do sono e esta do de inquie ta ção geral (abs ti nên cia leve). Cerca de 5% dos que entram em abs ti nên cia leve evo luem para a sín dro me de abs ti nên cia grave ou deli rium tre mens que, além da acen tua ção dos sinais e sin to mas anteriormente refe ri dos, se carac te ri za por tre mo res gene ra li za dos, agi ta ção inten sa e deso rien ta ção no tempo e no espa ço.

Efeitos sobre outras partes do corpo

Os indi ví duos depen den tes do álcool podem desen vol ver várias doen ças. As mais fre quentes são as relacionadas ao fíga do (estea to se hepá ti ca, hepa ti te alcoó li ca e cir ro se). Também são fre quen tes pro ble mas do apa re lho diges ti vo (gas tri te, sín dro me de má absor ção e pan crea ti te) e do sis te ma car dio vas cu lar (hiper ten são e pro ble mas cardíacos). Há, ainda, casos de poli neu ri te alcoó li ca, carac te ri za da por dor, for mi ga men to e cãi bras nos mem bros infe rio res.

Durante a gra vi dez

O con su mo de bebi das alcoó li cas duran te a ges ta ção pode tra zer con se quên cias para o recém-nas ci do, e, quan to maior o con su mo, maior o risco de pre ju di car o feto. Dessa forma, é reco men dá vel que toda ges tan te evite o con su mo de bebi das alcoó li cas, não só ao longo da gesta ção, como tam bém duran te todo o perío do de ama men ta ção, pois o álcool pode pas sar para o bebê atra vés do leite mater no.

Cerca de um terço dos bebês de mães depen den tes do álcool, que fize ram uso exces si vo dessa droga duran te a gra vi dez, é afe ta do pela “sín dro me fetal pelo álcool”. Os recém-nas ci dos apre sentam sinais de irri ta ção, mamam e dor mem pouco, além de apre sen ta rem tre mo res (sin to mas que lem bram a sín dro me de abs ti nên cia). As crian ças gra ve men te afe ta das, e que con se guem sobre viver aos pri mei ros momen tos de vida, podem apre sen tar pro ble mas físi cos e men tais que variam de inten si da de de acor do com a gra vi da de do caso.

SOLvENTES OU INALANTES

Cola de sapateiro, Esmalte, Lança-perfume e Acetona

Definição

A pala vra sol ven te sig ni fi ca subs tân cia capaz de dis sol ver coi sas, e ina lan te é toda subs tância que pode ser ina la da, isto é, intro du zi da no orga nis mo atra vés da aspi ra ção pelo nariz ou pela boca. Em geral, todo sol ven te é uma subs tân cia alta men te volá til, ou seja, eva po ra-se muito facil men te, por esse motivo pode ser facil men te ina la do. Outra carac te rís ti ca dos sol ven tes ou ina lan tes é que mui tos deles (mas não todos) são infla má veis, quer dizer, pegam fogo facil men te.

Um núme ro enor me de pro du tos comer ciais, como esmal tes, colas, tin tas, tíneres, pro pe lentes, gaso li na, remo ve do res, ver ni zes etc., con tém esses sol ven tes. Eles podem ser aspi ra dos tanto invo lun tá ria (por exem plo, tra ba lha do res de indús trias de sapa tos ou de ofi ci nas de pin tu ra, o dia intei ro expos tos ao ar con ta mi na do por essas subs tân cias) quanto volun ta ria men te (por exem plo, a crian ça de rua que chei ra cola de sapa tei ro, o meni no que chei ra em casa ace to na ou esmal te, ou o estu dan te que chei ra o cor re ti vo Carbex® etc.).

Todos esses sol ven tes ou ina lan tes são subs tân cias per ten cen tes a um grupo quí mi co cha ma do de hidro car bo ne tos, como o tolue no, xilol, n-hexa no, ace ta to de etila, tri clo roe ti le no etc. Para exem pli fi car, eis a com po si ção de algu mas colas de sapa tei ro ven di das no Brasil: Cascola® – mistu ra de tolue no + n-hexa no®; Patex Extra® – mis tu ra de tolue no com ace ta to de etila e aguar rás mine ral; Brascoplast® – tolue no com ace ta to de etila e sol ven te para bor ra cha. Em 1991, uma fábri ca de cola do inte rior do Estado de São Paulo fez ampla cam pa nha publi ci tá ria afir man do que final men te havia fabri ca do uma cola de sapa tei ro “que não era tóxi ca e não pro du zia vício”, por que não con ti nha tolue no. Essa indústria teve um comportamento reprovável, além de criminoso, já que o produto anunciado ainda continha o solvente n-hexano, sabidamente bastante tóxico.

Um pro du to muito conhe ci do no Brasil é o “cheiri nho” ou “loló”, tam bém co nhe ci do como “chei ri nho da loló”. Trata-se de um pre pa ra do clan des ti no (isto é, fabri ca do não por um esta bele ci men to legal, mas, sim, por pes soas do sub mun do), à base de clo ro fór mio mais éter, uti li za do somente para fins de abuso. Mas já se sabe que, quan do esses “fabri can tes” não encon tram uma daque las duas subs tân cias, eles mis tu ram qual quer outra coisa em subs ti tui ção. Assim, em rela ção ao “chei ri nho da loló” não se conhece bem sua com po si ção, o que com pli ca quan do se tem casos de into xi ca ção aguda por essa mis tu ra. Ainda, é impor tan te cha mar a aten ção para o lança-per fu me.

Esse nome desig na ini cial men te aque le líqui do que vem em tubos e que se usa no Car na val. À base de clo re to de etila ou clo re ti la, é proi bi da sua fabri ca ção no Brasil e só apa re ce nas oca siões de Carna val, con tra ban dea da de outros paí ses sul-ame ri ca nos. Mas cada vez mais o nome lança-per fu me é tam bém uti li za do para desig nar o “chei ri nho da loló” (os meni nos de rua de várias capi tais bra silei ras já usam estes dois nomes – chei ri nho e lança – para desig nar a mis tu ra de clo ro fór mio e éter).

Efeitos no cére bro

O iní cio dos efei tos, após a aspi ra ção, é bas tan te rápi do – de segun dos a minu tos no máxi mo – e em 15 a 40 minu tos já desa pa re cem; assim, o usuá rio repe te as aspi ra ções várias vezes para que as sen sa ções durem mais tempo.

Os efei tos dos sol ven tes vão desde uma esti mu la ção ini cial até depres são, poden do tam bém surgir pro ces sos alu ci na tó rios. Vários auto res dizem que os efei tos dos sol ven tes (quais quer que sejam) lem bram os do álcool, entre tan to este não pro duz alu ci na ções, fato bem des cri to para os sol ven tes. Entre os efei tos, o pre do mi nan te é a depres são, principalmente a do fun cio na men to cere bral. De acor do com o apa re ci men to desses efei tos, após ina la ção de sol ven tes, foram divi di- dos em qua tro fases: Primeira fase: a cha ma da fase de exci ta ção, que é a dese ja da, pois a pes soa fica eufó ri ca, apa ren te men te exci ta da, sentindo ton tu ras e tendo per tur ba ções audi ti vas e visuais. Mas podem tam bém apa re cer náu seas, espir ros, tosse, muita sali va ção e as faces podem ficar aver me lha das. Segunda fase: a depres são do cére bro come ça a pre do mi nar, ficando a pes soa confusa, desorien ta da, com a voz meio pas to sa, visão emba ça da, perda do auto con tro le, dor de cabe ça, pali dez; ela come ça a ver ou a ouvir coi sas. Terceira fase: a depres são apro fun da-se com redu ção acen tua da do estado de aler ta, incoorde na ção ocu lar (a pes soa não con se gue mais fixar os olhos nos obje tos), incoor de na ção motora com mar cha vaci lan te, fala “engro la da”, refle xos depri mi dos, podendo ocor rer pro ces sos alu ci na tó rios evi den tes. Quarta fase: depres são tar dia, que pode che gar à incons ciên cia, queda da pres são, sonhos estra nhos, poden do ainda a pes soa apre sen tar sur tos de con vul sões (“ata ques”). Essa fase ocor re com fre quên cia entre aque les chei ra do res que usam saco plás ti co e, após um certo tempo, já não con se guem afas tá-lo do nariz e, assim, a into xi ca ção torna-se muito peri go sa, poden do mesmo levar ao coma e à morte.

Finalmente, sabe-se que a aspi ra ção repe ti da, crô ni ca, dos sol ven tes pode levar à des trui ção de neu rô nios (célu las cere brais), cau san do lesões irre ver sí veis no cére bro. Além disso, pes soas que usam sol ven tes cro ni ca men te apre sen tam-se apá ti cas, têm difi cul da de de con cen tra ção e défi cit de memó ria.

Efeitos sobre outras partes do corpo

Os sol ven tes pra ti ca men te não agridem outros órgãos, a não ser o cére bro. Entretanto, exis te um fenô me no pro du zi do pelos sol ven tes que pode ser muito peri go so. Estes tor nam o cora ção huma no mais sen sí vel a uma subs tân cia que o nosso corpo fabri ca, a adre na li na, que faz o número de bati men tos car día cos aumen tar. Essa adre na li na é libe ra da toda vez que temos de exer cer um esfor ço extra, como, por exem plo, cor rer, pra ti car cer tos espor tes etc. Assim, se uma pes soa inala um sol ven te e logo depois faz esfor ço físi co, seu cora ção pode sofrer, pois ele está muito sen sí vel à adre na li na libe ra da por causa do esfor ço. A lite ra tu ra médi ca já cita vários casos de morte por arrit mia car día ca (bati das irre gu la res do cora ção), prin ci pal men te de ado les cen tes.

Efeitos tóxi cos

Os sol ven tes quan do ina la dos cro ni ca men te podem levar a lesões da medu la óssea, dos rins, do fíga do e dos ner vos peri fé ri cos que con tro lam os mús cu los. Por exem plo, veri fi cou-se, em outros paí ses, que em fábri cas de sapa tos ou ofi ci nas de pin tu ra os ope rá rios, com o tempo, acaba vam por apre sen tar doen ças renais e hepá ti cas. Em decorrência disso, nesses paí ses passou a vigorar uma rigo ro sa legis la ção sobre as con di ções de ven ti la ção des sas fábri cas, e o Brasil tam bém tem leis a res pei to. Em alguns casos, prin ci pal men te quan do exis te no sol ven te uma impu re za, o ben ze no, mesmo em peque nas quan ti da des, pode levar à dimi nui ção de pro du ção de gló bu los bran cos e ver me lhos pelo orga nis mo.

Um dos sol ven tes bas tan te usados nas nos sas colas é o n-hexa no. Essa subs tância é muito tóxi ca para os ner vos peri fé ri cos, pro du zin do dege ne ra ção pro gres si va, a ponto de cau sar trans tor nos no mar char (as pes soas aca bam andan do com difi cul da de, o cha ma do “andar de pato”), poden do até che gar à para li sia. Há casos de usuá rios crô ni cos que, após alguns anos, só podiam se loco mo ver em cadei ra de rodas.

Aspectos gerais

A depen dên cia entre aque les que abu sam cro ni ca men te de sol ven tes é comum, sendo os com po nen tes psí qui cos da depen dên cia os mais evi den tes, tais como dese jo de usar a substância, perda de outros inte res ses que não seja o sol ven te. A sín dro me de abs ti nên cia, embo ra de pouca inten si da de, está pre sen te na inter rup ção abrup ta do uso des sas dro gas, sendo comum ansie da de, agi ta ção, tre mo res, cãibras nas per nas e insô nia.

Pode surgir tole rân cia à substância, embo ra não tão dra má ti ca em relação a outras dro gas (como as anfe ta mi nas, que os depen den tes pas sam a tomar doses 50-70 vezes maio res que as ini ciais). Dependendo da pes soa e do sol ven te, a tole rân cia ins ta la-se ao fim de um a dois meses.

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