O que são drogas psicotrópicas?

O que são drogas psicotrópicas?

(Parte 4 de 7)

Nome de alguns medicamentos vendidos no Brasil contendo drogas tipo opiáceos e opioides em suas formulações – dados dos laboratórios fabricantes, site da ANVISA e Dicionário de Especialidades Farmacêuticas – DEF 2007/2008.

Opiáceos/OpioidesIndicação de uso médico Nomes comerciais dos medicamentos

Preparações farmacêuticas

Naturais

Morfina Analgésico Dimorf®,

Dolo Moff® Morfenil®

Ampolas Comprimidos

Codeína Analgésico

Antigamente era usado como antitussígeno (ver quadro 1)

Ampolas Comprimidos Solução Oral

Sintéticos

Meperidina ou Petidina

Analgésico Dolantina®

Dolosal® Dornot® Petinan®

Ampolas

Propoxifeno Analgésico Doloxene A Comprimidos

Fentanil Analgésico Biofent®

Ampolas Adesivos Transdérmicos

MetadonaTratamento de dependentes de morfina e heroína Analgésico

Mytedom® Ampolas Comprimidos

Oxicodona Analgésico OxyContin® Comprimidos

Efeitos no cérebro

Todas as drogas tipo opiáceo ou opioide têm basicamente os mesmos efeitos no sistema nervoso central: diminuem sua atividade. As diferenças ocorrem mais em sentido quantitativo, isto é, são mais ou menos eficientes em produzir os mesmos efeitos; tudo fica, então, sendo principalmente uma questão de dose. Assim, temos que todas essas drogas produzem analgesia e hipnose (aumentam o sono), daí receberam também o nome de narcóticos, que são exatamente as drogas capazes de produzir esses dois efeitos: sono e diminuição da dor. Recebem também, por isso, o nome de drogas hipnoanalgésicas. Agora, para algumas drogas a dose necessária para esse efeito é pequena, ou seja, são bastante potentes, como, por exemplo, a morfina e a heroína; outras, por sua vez, necessitam de doses 5 a 10 vezes maiores para produzir os mesmos efeitos, como a codeína e a meperidina.

Algumas drogas podem ter, ainda, ação mais específica, por exemplo, de deprimir os acessos de tosse. É por essa razão que a codeína foi muito usada como antitussígeno, ou seja, para diminuir a tosse (ver quadro 1). Outras apresentam a característica de levar a uma dependência mais facilmente; daí serem muito perigosas, como é o caso da heroína.

Além de deprimir os centros da dor, da tosse e da vigília (o que causa sono), todas essas drogas em doses um pouco maior que a terapêutica acabam também por deprimir outras regiões do cérebro, como, por exemplo, as que controlam a respiração, os batimentos do coração e a pressão do sangue. Como será visto, isso é muito importante quando se analisam os efeitos tóxicos que elas produzem.

Em geral, as pessoas que usam essas substâncias sem indicação médica, ou seja, abusam delas, procuram efeitos característicos de uma depressão geral do cérebro: um estado de torpor, como isolamento da realidade do mundo, calmaria na qual realidade e fantasia se misturam, sonhar acordado, estado sem sofrimento, afeto meio embotado e sem paixões. Enfim, fugir das sensações que são a essência mesmo do viver: sofrimento e prazer que se alternam e se constituem em nossa vida psíquica plena.

Efeitos sobre outras partes do corpo

As pessoas sob ação dos narcóticos apresentam contração acentuada da pupila dos olhos (“menina dos olhos”), que às vezes chegam a ficar do tamanho da cabeça de um alfinete. Há também uma paralisia do estômago e o indivíduo sente-se empachado, com o estômago cheio, como se não fosse capaz de fazer a digestão. Os intestinos também ficam paralisados e, como consequência, a pessoa que abusa dessas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. É com base nesse efeito que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias, ou seja, são usados terapeuticamente como antidiarréicos.

Efeitos tóxicos

Os narcóticos usados por meio de injeções, ou em doses maiores por via oral, podem causar grande depressão respiratória e cardíaca. A pessoa perde a consciência e fica com uma cor meio azulada porque a respiração muito fraca quase não oxigena mais o sangue e a pressão arterial cai a ponto de o sangue não mais circular normalmente: é o estado de coma que, se não tiver o atendimento necessário, pode levar à morte. Literalmente, centenas ou mesmo milhares de pessoas morrem todo ano na Europa e nos Estados Unidos intoxicadas por heroína ou morfina. Além disso, como muitas vezes esse uso é feito por injeção, com frequência os dependentes acabam também por adquirir infecções como hepatites e mesmo Aids.

Aqui no Brasil, uma dessas drogas foi utilizada com alguma frequência por injeção venosa: é o propoxifeno (principalmente o Algafan®). Acontece que essa substância é muito irritante para as veias, que se inflamam e chegam a ficar obstruídas. Houve muitos casos de pessoas com sérios problemas de circulação nos braços por causa disso. Houve mesmo descrição de amputação desse membro devido ao uso crônico de Algafan®. Felizmente, esse uso irracional do propoxifeno não ocorre mais entre nós.

Outro problema com essas drogas é a facilidade com que levam à dependência, tornando-se o centro da vida das vítimas. E quando esses dependentes, por qualquer motivo, param de tomar a droga, ocorre um violento e doloroso processo de abstinência, com náuseas e vômitos, diarreia, cãibras musculares, cólicas intestinais, lacrimejamento, corrimento nasal etc., que pode durar até de 8 a 12 dias.

Além disso, o organismo humano torna-se tolerante a todas essas drogas narcóticas. Ou seja, como o dependente não consegue mais se equilibrar sem sentir seus efeitos, ele precisa tomar doses cada vez maiores, enredando-se mais e mais em dificuldades, pois para adquiri-las é preciso cada vez mais dinheiro.

Para se ter uma ideia de como os médicos temem os efeitos tóxicos dessas drogas, basta dizer que eles relutam muito em receitar a morfina (e outros narcóticos) para cancerosos, que geralmente têm dores extremamente fortes. E assim milhares de doentes de câncer padecem de um sofrimento muito cruel, pois a única substância capaz de aliviar a dor, a morfina ou outro narcótico, tem também esses efeitos indesejáveis. Atualmente, a própria Organização Mundial de Saúde tem aconselhado os médicos de todo o mundo que, nesses casos, o uso contínuo de morfina é plenamente justificado. Felizmente, são pouquíssimos os casos de dependência dessas drogas no Brasil, principalmente quando comparado com o problema em outros países. Entretanto, nada garante que essa situação não poderá modificar-se no futuro.

Quadro 1 – Xaropes de Codeína

Os xaropes são formulações farmacêuticas que contêm grande quantidade de açúcares, fazendo com que o líquido fique “viscoso”, “meio grosso” (“xaroposo”).

Nesse veículo ou líquido, coloca-se a substância medicamentosa que vai trazer o efeito benéfico desejado pelo médico que a receitou. Assim, por muito tempo foram produzidos xaropes para tosse em que o medicamento ativo é a codeína, como por exemplo, o Setux®, Eritós® e Pambenyl®, que não são mais fabricados.

Existem ainda muitos xaropes para tratar a tosse que contêm certas plantas em sua fórmula, como, por exemplo, o agrião, o guaco etc. Esses medicamentos, chamados de fitoterápicos, não tem os efeitos tóxicos da codeína nem causam dependência.

Mas também existem outras maneiras de se preparar tais remédios. Em vez de colocálos em um xarope, faz-se uma solução aquosa, às vezes com um pouco de álcool, tendo-se assim as chamadas gotas para tosse. Alguns desses remédios também tinham a codeína como princípio ativo, como era o caso do Belacodid® e Gotas Binelli®.

Mas como a codeína atua sobre a tosse? O cérebro humano possui uma certa área – a chamada centro da tosse – que comanda os acessos de tosse, e é justamente lá que a codeína vai agir. Toda vez que esse centro de tosse é estimulado há emissão de uma “ordem” para que a pessoa tussa. A codeína é capaz de inibir ou bloquear essa área; assim, mesmo que haja um estímulo para ativá-lo, o centro, estando bloqueado pela droga, não reage, ou seja, não dá mais a “ordem” para a pessoa tossir, e a tosse que vinha ocorrendo deixa de existir. Mas como os outros opiáceos, a codeína age em outras re giões no cérebro. Assim, outros centros que comandam as funções dos órgãos são também inibidos; com a codeína, a pessoa sente menos dor (ela é um bom analgésico), pode ficar sonolenta, e a pressão sanguínea, o número de batimentos do coração e a respiração podem ficar diminuídos.

O único xarope de codeína fabricado atualmente no Brasil é o Codein®, usado como analgésico. Os xaropes e as gotas à base de codeína antitussígenos não são mais fabricados no Brasil, mas antes eles eram vendidos nas farmácias brasileiras somente com a apresentação da receita do médico, que ficava retida para posterior controle. Infelizmente, isso nem sempre acontecia, pois algumas farmácias desonestas para ganhar mais dinheiro vendiam essas substâncias por “baixo do pano”. Ainda hoje esse problema persiste em algumas farmácias do Brasil para todos os medicamentos psicotrópicos. Contudo, os farmacêuticos responsáveis por esses estabelecimentos podem ser punidos caso sejam descobertos.

DO SISTEMA NERvOSO CENTRAL

Bolinhas Rebites

Nomes comerciais de alguns medicamentos à base de drogas tipo anfetamina vendidos no Brasil. Dados obtidos do Dicionário de Especialidades Farmacêuticas – DEF – 2007/2008.

AnfetaminaProdutos (nomes comerciais) vendidos em farmácias Dietilpropiona ou AnfepramonaDualid S; Inibex S; Hipofagin S Fenproporex Desobesi M MazindolFagolipo; Moderine; Absten S Metanfetamina Pervitin* Metilfenidato Ritalina; Concerta

* Retirado do mercado brasileiro, mas encontrado no Brasil graças à importação ilegal de outros países sul-americanos. Nos Estados Unidos é cada vez mais usado sob o nome de ICE.

Definição

As anfe ta mi nas são dro gas esti mu lan tes da ati vi da de do sis te ma ner vo so cen tral, isto é, fazem o cére bro tra ba lhar mais depres sa, dei xan do as pes soas mais “ace sas”, “liga das”, com “menos sono”, “elé tri cas” etc.

São cha ma das de “rebi te”, prin ci pal men te entre os moto ris tas que pre ci sam diri gir durante várias horas segui das sem des can so, a fim de cum prir pra zos pre de ter mi na dos. Também são conhe ci das como “bola” por estu dan tes que pas sam noi tes intei ras estu dan do, ou por pes soas que cos tu mam fazer regi mes de ema gre ci men to sem acom pa nha men to médi co.

Nos Estados Unidos, a metan fe ta mi na (uma anfe ta mi na) tem sido muito con su mi da na forma fuma da em cachim bos, rece ben do o nome de “ICE” (gelo).

Outra anfe ta mi na, meti le no dio xi me tan fe ta mi na (MDMA), tam bém conhe ci da pelo nome de “êxta se”, tem sido uma das dro gas com maior acei ta ção pela juven tu de ingle sa e agora, tam bém, apresenta um con su mo cres cen te no Brasil.

As anfe ta mi nas são dro gas sin té ti cas, fabri ca das em labo ra tó rio. Não são, por tan to, pro du tos natu rais. Existem várias dro gas sin té ti cas que per ten cem ao grupo das anfe ta mi nas, e como cada uma delas pode ser comer cia li za da sob a forma de remé dio, por vários labo ra tó rios e com diferen tes nomes comer ciais, temos um gran de núme ro des ses medi ca men tos, con for me mos tra a tabe la a seguir.

Efeitos no cére bro

As anfe ta mi nas agem de manei ra ampla afe tan do vários com por ta men tos do ser huma no. A pes soa sob sua ação tem insô nia (isto é, fica com menos sono), ina pe tên cia (perde o ape ti te), sentese cheia de ener gia e fala mais rápi do, fican do “liga da”.

Assim, o moto ris ta que toma o “rebi te” para não dor mir, o estu dan te que inge re “bola” para varar a noite estu dan do, um gor di nho que as engo le regu lar men te para ema gre cer ou, ainda, uma pes soa que se inje ta com uma ampo la de Pervitin® ou com com pri mi dos dis sol vi dos em água para ficar “liga dão” ou ter um “baque” estão na rea li da de toman do dro gas anfe ta mí ni cas.

A pes soa que toma anfe ta mi nas é capaz de exe cu tar uma ati vi da de qual quer por mais tempo, sen tin do menos can sa ço. Este só apa re ce horas mais tarde, quan do a droga já se foi do orga nis mo; se nova dose for toma da as ener gias vol tam, embo ra com menos inten si da de. De qual quer maneira, as anfe ta mi nas fazem com que o orga nis mo reaja acima de suas capa ci da des, esfor ços exces sivos, o que logi ca men te é pre ju di cial para a saúde. E, o pior é que a pes soa ao parar de tomar sente uma gran de falta de ener gia (aste nia), fican do bas tan te depri mi da, o que tam bém é pre ju di cial, pois nem con se gue rea li zar as tare fas que nor mal men te fazia anteriormente ao uso des sas dro gas.

Efeitos sobre outras partes do corpo

As anfe ta mi nas não exer cem somen te efei tos no cére bro. Assim, agem na pupi la dos olhos pro du zin do dila ta ção (midría se); esse efei to é pre ju di cial para os moto ris tas, pois à noite ficam mais ofus ca dos pelos faróis dos car ros em dire ção con trá ria. Elas tam bém cau sam aumen to do núme ro de bati men tos do cora ção (taqui car dia) e da pres são san guí nea. Tam bém pode haver sérios pre juí zos à saúde das pes soas que já têm pro ble mas car día cos ou de pres são, que façam uso pro lon ga do des sas dro gas sem acom pa nha men to médi co, ou ainda que se uti li zam de doses exces si vas.

Efeitos tóxi cos

Se uma pes soa exa ge ra na dose (toma vários com pri mi dos de uma só vez), todos os efei tos ante rior men te des cri tos ficam mais acen tua dos e podem surgir com por ta men tos dife ren tes do nor mal: fica mais agres si va, irri ta di ça, come ça a sus pei tar de que outros estão tra man do con tra ela – é o cha ma do delí rio per se cu tó rio. Dependendo do exces so da dose e da sen si bi li da de da pes soa, pode ocorrer um ver da dei ro esta do de paranoia e até alu ci na ções. É a psi co se anfe ta míni ca. Os sinais físi cos ficam tam bém muito evi den tes: midría se acen tua da, pele páli da (devi do à con tra ção dos vasos san guí neos) e taqui car dia. Essas into xi ca ções são gra ves, e a pes soa geralmen te pre ci sa ser inter na da até a desin to xi ca ção com ple ta. Às vezes, duran te a into xi ca ção, a tem pe ra tu ra aumen ta muito e isso é bas tan te peri go so, pois pode levar a con vul sões.

Finalmente, tra ba lhos recen tes em ani mais de labo ra tó rio mos tram que o uso con ti nua do de anfe ta mi nas pode levar à dege ne ra ção de deter mi na das célu las do cére bro. Esse acha do indi ca a pos si bi li da de de o uso crô ni co de anfe ta mi nas pro du zir lesões irre ver sí veis em pes soas que abusam des sas dro gas.

Aspectos gerais

Quando uma anfe ta mi na é con ti nua men te toma da por uma pes soa, esta come ça a per ce ber, com o tempo, que a cada dia a droga produz menos efei to; assim, para obter o que dese ja, pre ci sa tomar a cada dia doses maio res. Há até casos que de 1 a 2 com pri mi dos a pes soa pas sou a tomar até 40 a 60 com pri mi dos dia ria men te. Esse é o fenô me no de tole rân cia, ou seja, o orga nis mo acaba por se acos tu mar ou ficar tole ran te à droga. Por outro lado, o tempo pro lon ga do de uso tam bém pode tra zer uma sen si bi li za ção do orga nis mo aos efei tos desa gra dá veis (para noia, agressi vi da de etc.), ou seja, com peque nas doses o indi ví duo já mani fes ta esses sin to mas.

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