O que são drogas psicotrópicas?

O que são drogas psicotrópicas?

(Parte 5 de 7)

Discute-se até hoje se uma pes soa que vinha toman do anfe ta mi na há tem pos e pára de tomar apre sen ta ria sinais dessa inter rup ção da droga, ou seja, se teria uma sín dro me de abs ti nên cia. Ao que se sabe, algu mas podem ficar nes sas con di ções em um esta do de gran de depres são, difí cil de ser supor ta da; entre tan to, não é regra geral.

Informações sobre con su mo

O consumo dessas drogas no Brasil chega a ser alarmante, tanto que até a Organização das

Nações Unidas vem alertando o Governo brasileiro a respeito. Dados de um relatório das Nações Unidas de 2007 indicam que o consumo de estimulantes no Brasil, principalmente para diminuir o apetite e misturado a outros remédios para perder peso, é um dos mais elevados do mundo. Uma preocupação se dá pela prescrição médica excessiva destes medicamentos, mas também pelo fato de que podem ser comprados sem receita médica, mesmo que isso contrarie a lei, ou ainda com receitas falsificadas.

Esse consumo exagerado pode ainda influenciar o uso indevido destes medicamentos por adolescentes. Por exemplo, entre 48.155 estudantes brasileiros do ensino fundamental e do ensino médio pesquisados nas 27 capitais do País, 1.782 adolescentes (3,7% deles), revelaram já ter experimentado pelo menos uma vez na vida uma droga tipo anfetamina. O uso frequente (seis ou mais vezes no mês) foi relatado por 240 estudantes (0,5% do total), sendo mais comum entre as meninas, as mais interessadas em perder peso.

Pasta de Coca Crack Merla

Definição

A cocaí na é uma subs tân cia natu ral, extraí da das folhas de uma plan ta encon tra da exclu siva men te na América do Sul, a Erythroxylon coca, conhe ci da como coca ou epadu, este últi mo nome dado pelos índios bra si lei ros. A cocaí na pode che gar até o con su mi dor sob a forma de um sal, o clo ri dra to de cocaí na, o “pó”, “fari nha”, “neve” ou “bran qui nha”, que é solú vel em água e serve para ser aspi ra do (“cafun ga do”) ou dis sol vi do em água para uso intra ve no so (“pelos canos”, “baque”), ou sob a forma de base, o crack, que é pouco solú vel em água, mas que se vola ti li za quan do aque ci da e, por tan to, é fuma da em “cachim bos”.

Também sob a forma base, a merla (mela, mel ou mela do), um pro du to ainda sem refi no e muito con ta mi na do com as subs tân cias uti li za das na extra ção, é pre pa ra da de forma dife ren te do crack, mas tam bém é fuma da. Enquanto o crack ganhou popu la ri da de em São Paulo, Brasília foi a cida de víti ma da merla. De fato, pes qui sas mos tram que mais de 50% dos usuá rios de dro gas da Capital Federal fazem uso de merla, e ape nas 2% de crack.

Por apre sen tar aspec to de “pedra” no caso do crack e “pasta” no caso da merla, não poden do ser trans for ma do em pó fino, tanto o crack como a merla não podem ser aspi ra dos, como a cocaí na pó (“fari nha”), e por não serem solú veis em água tam bém não podem ser inje ta dos. Por outro lado, para pas sar do esta do sóli do ao de vapor quan do aque ci do, o crack neces si ta de uma tem pe ra tu ra relati va men te baixa (95ºC), o mesmo ocor ren do com a merla, ao passo que o “pó” neces si ta de 195ºC; por esse moti vo o crack e a merla podem ser fuma dos e o “pó” não.

Há ainda a pasta de coca, que é um pro du to gros sei ro, obti do das pri mei ras fases de extração de cocaí na das folhas da plan ta quan do estas são tra ta das com álca li, sol ven te orgâ ni co como que ro se ne ou gaso li na, e ácido sul fú ri co. Essa pasta con tém mui tas impu re zas tóxi cas e é fuma da em cigar ros cha ma dos “basu kos”.

Antes de se conhe cer e de se iso lar cocaí na da plan ta, a coca (plan ta) era muito usada sob forma de chá. Ainda hoje esse chá é bas tan te comum em cer tos paí ses da América do Sul, como Peru e Bolívia, sendo em ambos per mi ti do por lei, havendo até um órgão do Governo, o “Instituto Peruano da Coca”, que con tro la a qua li da de das folhas ven di das no comér cio. Esse chá é até ser vi do aos hós pe des nos hotéis. Acontece, porém, que, sob a forma de chá, pouca cocaí na é extraí da das folhas; além disso, inge rin do (toma-se pela boca) o tal chá, pouca cocaí na é absor vi da pelos intes ti nos e, ainda, por essa via ela ime dia ta men te já come ça a ser meta bo li za da. Através do san gue, chega ao fíga do e boa parte é des truí da antes de che gar ao cére bro. Em outras pala vras, quan do a plan ta é inge ri da sob a forma de chá, muito pouca cocaí na chega ao cére bro.

Quandoaten tam... é tarde de mais para o recuo.

Todo mundo comen ta que vive mos hoje em dia uma epi de mia de uso de cocaí na, como se isso esti ves se acon te cen do pela pri mei ra vez. Mesmo nos Estados Unidos, onde, sem dúvi da, houve uma explo são de uso nes ses últi mos anos, já exis tiu fenô me no seme lhan te no pas sa do. E no Brasil tam bém, há cerca de 60 ou 70 anos uti li zou-se aqui muita cocaí na. Tanto que o jor nal O Estado de S. Paulo publi ca va esta notí cia em 1914: Há hoje em nossa cida de mui tos filhos de famí lia cujo gran de pra zer é tomar cocaí na e dei xar se arras tar até aos decli ves mais peri go sos deste vício.

Tanto o crack como a merla tam bém são cocaí na; por tan to, todos os efei tos pro vo ca dos no cérebro pela cocaí na tam bém ocor rem com o crack e a merla. Porém, a via de uso des sas duas for mas (via pul mo nar, já que ambos são fuma dos) faz toda a dife ren ça em rela ção ao “pó”.

Assim que o crack e a merla são fuma dos, alcan çam o pul mão, que é um órgão inten si vamen te vas cu la ri za do e com gran de super fí cie, levan do a uma absor ção ins tan tâ nea. Através do pul mão, cai quase ime dia ta men te na cir cu la ção, che gan do rapi da men te ao cére bro. Com isso, pela via pul mo nar, o crack e a merla “encur tam” o cami nho para che gar ao cére bro, surgindo os efei tos da cocaí na muito mais rápi do do que por outras vias. Em 10 a 15 segun dos, os pri mei ros efei tos já ocor rem, enquan to os efei tos após chei rar o “pó” surgem após 10 a 15 minu tos, e após a inje ção, em 3 a 5 minu tos. Essa carac te rís ti ca faz do crack uma droga “pode ro sa” do ponto de vista do usuá rio, já que o pra zer acon te ce quase ins tan ta nea men te após uma “pipa da” (fuma da no cachim bo).

Porém, a dura ção dos efei tos do crack é muito rápi da. Em média, em torno de 5 minu tos, enquan to após inje tar ou chei rar, duram de 20 a 45 minu tos. Essa certa dura ção dos efei tos faz com que o usuá rio volte a uti li zar a droga com mais fre quên cia que as outras vias (pra ti ca men te de 5 em 5 minu tos), levan do-o à depen dên cia muito mais rapi da men te que os usuá rios da cocaí na por outras vias (nasal, endovenosa) e a um inves ti men to monetário muito maior.

Logo após a “pipa da”, o usuá rio tem uma sen sa ção de gran de pra zer, inten sa eufo ria e poder.

É tão agra dá vel que, logo após o desa pa re ci men to desse efei to (e isso ocor re muito rapi da men te, em 5 minu tos), ele volta a usar a droga, fazen do isso inú me ras vezes, até aca bar todo o esto que que pos sui ou o dinhei ro para con se gui-la. A essa com pul são para uti li zar a droga repe ti da men te dá-se o nome popu lar de “fis su ra”, que é uma von ta de incon tro lá vel de sen tir os efei tos de “pra zer” que a droga pro vo ca. A “fis su ra” no caso do crack e da merla é avas sa la do ra, já que os efei tos da droga são muito rápi dos e inten sos.

Além desse “pra zer” indes cri tí vel, que mui tos com pa ram a um orgas mo, o crack e a merla pro vocam tam bém um esta do de exci ta ção, hipe ra ti vi da de, insô nia, perda de sen sa ção do can sa ço, falta de ape ti te. Esse últi mo efei to é muito carac te rís ti co do usuá rio de crack e merla. Em menos de um mês, ele perde muito peso (8 a 10kg) e em um tempo maior de uso ele perde todas as noções bási cas de higie ne, fican do com um aspec to deplo rá vel. Por essas carac te rís ti cas, os usuá rios de crack (cra que ros) ou de merla são facil men te iden ti fi ca dos. Após o uso inten so e repe ti ti vo, o usuá rio expe ri men ta sen sa ções muito desa gra dá veis, como can sa ço e inten sa depres são.

Efeitos no cérebro

A ten dên cia do usuá rio é aumen tar a dose da droga na ten ta ti va de sen tir efei tos mais intensos. Porém, essas quan ti da des maio res aca bam por levar o usuá rio a com por ta men to vio len to, irri ta bi li da de, tre mo res e ati tu des bizar ras devi do ao apa re ci men to de para noia (cha ma da entre eles de “noia”). Esse efei to pro vo ca um gran de medo nos cra que ros, que pas sam a vigiar o local onde usam a droga e a ter uma gran de des con fian ça uns dos outros, o que acaba levan do-os a situa ções extre mas de agres si vi da de. Eventualmente, podem ter alu ci na ções e delí rios. A esse con jun to de sin to mas dá-se o nome de “psi co se cocaí ni ca”. Além dos sin to mas des cri tos, o cra que ro e o usuá rio de merla per dem de forma muito mar can te o inte res se sexual.

Efeitos sobre outras par tes do corpo

Os efei tos pro vo ca dos pela cocaí na ocor rem por todas as vias (aspi ra da, ina la da, endovenosa). Assim, o crack e a merla podem pro du zir aumen to das pupi las (midría se), que prejudica a visão; é a cha ma da “visão bor ra da”. Ainda pode pro vo car dor no peito, con tra ções mus cu la res, con vul sões e até coma. Mas é sobre o sis te ma car dio vas cu lar que os efei tos são mais inten sos. A pres são arte rial pode ele var-se e o cora ção pode bater muito mais rapi da men te (taqui car dia). Em casos extre mos, chega a pro du zir para da cardíaca por fibri la ção ven tri cu lar. A morte tam bém pode ocor rer devi do à dimi nui ção de ati vi da de de cen tros cere brais que con tro lam a res pi ra ção.

O uso crô ni co da cocaí na pode levar a dege ne ra ção irre ver sí vel dos mús cu los esque lé ti cos, conhecida como rab do mió li se.

Aspectos gerais

Como ocor re com as anfe ta mi nas (cujos efei tos são em parte seme lhan tes aos da cocaí na), as pes soas que abu sam da cocaí na rela tam a neces si da de de aumen tar a dose para sen tir os mes mos efei tos ini ciais de pra zer, ou seja, a cocaí na induz tole rân cia. É como se o cére bro se “aco modas se” àque la quan ti da de de droga, neces si tan do de uma dose maior para pro du zir os mes mos efei tos pra ze ro sos. Porém, para le la men te a esse fenô me no, os usuá rios de cocaí na tam bém desenvol vem sen si bi li za ção, ou seja, para alguns efei tos pro du zi dos pela cocaí na, ocor re o inver so da tole rân cia, e com uma dose peque na os efei tos já sur gem. Mas para a angús tia do usuá rio, os efei tos produzidos com pouca quan ti da de de droga são exa ta men te aque les con si de rados desagra dá veis, como, por exem plo, a paranoia. Dessa forma, com o pas sar do tempo, o usuá rio necessi ta aumen tar cada vez mais a dose de cocaí na para sen tir os efei tos de pra zer, porém seu cére bro está sen si bi li za do para os efei tos desa gra dá veis, ocor ren do como con se quên cia do aumen to da dose uma inten si fi ca ção de efei tos indesejáveis, como paranoia, agres si vi da de, des con fian ça etc.

Não há des cri ção con vin cen te de uma sín dro me de abs ti nên cia quan do a pes soa para de usar cocaí na abrup ta men te: não sente dores pelo corpo, cóli cas, náu seas etc. Às vezes pode ocor rer de essa pes soa ficar toma da de gran de “fis su ra”, dese jar usar nova men te a droga para sen tir seus efei tos agra dá veis e não para dimi nuir ou abo lir o sofri men to que ocor re ria se real men te hou ves se uma sín dro me de abs ti nên cia.

Usuários de dro gas inje tá veis e Aids

No Brasil a cocaína é a substância mais usada na forma injetável. Os usuários de drogas injetáveis (UDIs) compartilham agu lhas e serin gas e expõem-se ao con tágio de várias doen ças, entre estas hepa ti tes, malária, den gue e Aids. Essa práti ca é, hoje em dia, um fator de risco para a trans mis são do HIV. Porém, os UDIs têm opta do por mudan ça de via, assim, hoje em São Paulo, mui tos anti gos UDIs uti li zam o crack por con si de ra rem mais segu ro, já que por essa via não com par ti lham serin gas e agu lhas. Entretanto, prin ci pal men te mulheres usuárias de crack, pros tituem-se para obter a droga e geral men te o fazem sob efei to da “fis su ra”. Nesse esta do, per dem a noção do peri go, não con se guem pro ce der a um sexo segu ro, expon do-se a doen ças sexual men te trans mis síveis (DST) e, ainda, poden do trans mi tir o vírus a seus par cei ros sexuais. Essa práti ca demons tra que o crack dian te das DST/Aids não é tão segu ro quan to se supo nha ini cial men te.

No Brasil, na década de 90, foram realizados três estudos multicêntricos em parceria com a

Organização Mundial da Saúde e a Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids do Ministério da Saúde (CN-DST/AIDS). Em agosto de 2000, os UDIs representavam 19,3% dos casos de Aids do país no acumulado histórico. A prevalência de casos de pessoas infectadas pelo HIV na população geral é de 0,6%. Já entre os usuários de drogas injetáveis, há uma prevalência de aproximadamente 80%. Contudo, segundo o Boletim Epidemiológico apresentado pelo Ministério da Saúde, o número de UDIs infectados pelo HIV tem diminuído entre os anos de 1983 e 2007. A porcentagem de casos notificados caiu de 27,6 no período de 1980 a 1995, para 7,2 em 2008 entre os homens e, de 21,7 para 3% entre as mulheres. As cam pa nhas do Ministério da Saúde, por meio da Coordenação Nacional de DST/Aids, têm redu zi do muito o núme ro de infec ta dos por essa via. Porém, ini ciam-se agora cam pa nhas que venham coi bir a trans mis são de DST/Aids por crack.

TAbACO

Este capí tu lo foi ela bo ra do em par ce ria com o INCA/Contapp.

Definição e his tó ri co

O taba co é uma plan ta cujo nome cien tí fi co é Nicotiana taba cum, da qual é extraí da uma subs tân cia cha ma da nico ti na. Começou a ser utilizada apro xi ma da men te no ano 1000 a.C., nas socie da des indí ge nas da América Central, em rituais mági co-reli gio sos, com o obje ti vo de puri ficar, con tem plar, pro te ger e for ta le cer os ímpe tos guer rei ros, além disso, esses povos acre di tavam que essa substância tinha o poder de pre di zer o futu ro. A plan ta che gou ao Brasil pro va vel mente pela migra ção de tri bos tupis-gua ra nis. A par tir do sécu lo XVI, seu uso foi intro du zi do na Europa, por Jean Nicot, diplo ma ta fran cês vindo de Portugal, após ter-lhe cica tri za do uma úlce ra na perna, até então incu rá vel.

No iní cio, uti li za do com fins cura ti vos, por meio do cachim bo, difun diu-se rapi da men te, atingin do Ásia e África no sécu lo XVII. No sécu lo seguin te, sur giu a moda de aspi rar rapé, ao qual foram atri buí das qua li da des medi ci nais, pois a rai nha da França, Catarina de Médicis, o uti li za va para ali viar suas enxa que cas.

No sécu lo XIX, surgiu o cha ru to que veio da Espanha e atin giu toda a Europa, Estados Unidos e demais con ti nen tes, sendo uti li za do para demons tra ção de osten ta ção. Por volta de 1840 a 1850, sur gi ram as pri mei ras des cri ções de homens e mulhe res fuman do cigar ros, porém, somente após a Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918), seu con su mo apre sen tou gran de expan são.

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