2006nov mumias

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ASPECTOS CIENTÍFICOS DA MUMIFICAÇÃO Química Virtual | Novembro 2006 | p. 1

Química Virtual | Novembro 2006 | p. 2

A MUMIFICAÇÃO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE3
Ponderações Iniciais3
A mumificação no Antigo Egito4
A VIDA E A MORTE SEGUNDA A CIÊNCIA6
Uma visão termodinâmica da vida6
As transformações do corpo após a morte9
OS ASPECTOS QUÍMICOS DAS MUMIFICAÇÕES12
As famosas múmias egípcias12
O Homem de Tollund16
TÉCNICAS ATUAIS DE PRESERVAÇÃO EM HUMANOS19
A conservação do corpo de Lênin20
A plastinação21
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA23
PARA SABER MAIS25
AGRADECIMENTO26
SOBRE O AUTOR26

Sumário

* A foto da capa corresponde à múmia conhecida como “o homem de Tollund”, considerada a mais bem preservada no pântano da Europa e quiçá do mundo. As explicações científicas para esta preservação terão um capítulo especial neste artigo.

[Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente desde que seja devidamente referenciado]

CHEMELLO, E. Aspectos científicos da mumificação. Química Virtual, Novembro (2006). w.quimica.net/emiliano

Química Virtual | Novembro 2006 | p. 3

A mumificação na história da humanidade

Ponderações Iniciais

Uma das poucas certezas que temos na vida é a morte. Ela é, ao meu ver, um tipo de certeza no mínimo “estranha”, pois não sabemos previamente como e muito menos quando iremos partir desta para seja lá o que nos espera no pós-morte. As religiões trazem várias interpretações a respeito da morte e, freqüentemente, com mais intensidade sobre o que há depois dela, mas, invariavelmente, ninguém escapa deste destino, independente de status social, raça e demais distinções que as pessoas fazem em vida. Como se demonstrou ao longo da história, muitos tentaram, com objetivos diversos, perpetuar a forma do corpo e evitar a decomposição. Para esta prática de preservação do corpo se dá o nome de mumificação.

Freqüentemente quando se ouve ou lê o termo múmia logo vem a nossa memória uma associação ao povo egípcio. E pelo fato deste povo ter produzido as múmias mais famosas do mundo, cercadas de mistério e superstições, haverá muitas referencias ao processo realizado pelos egípcios neste artigo (veja Figura 1). Não obstante, ao longo da discussão, explorarei informações sobre outras práticas em momentos distintos da história, com objetivos igualmente diferentes, a fim de demonstrar o que me é de principal interesse: a química envolvida nos processos de conservação dos corpos.

Antes de analisar "quimicamente" os aspectos envolvidos no processo de mumificação, julgo necessárias algumas ponderações iniciais sobre o que significava, para o povo egípcio em especial, o ritual religioso que ocorreu a mais de três mil anos. Contudo, não é objetivo aqui exaurir o assunto, pois ele é inesgotável. Acredito que esta atitude – de situar o leitor e “alimentá-lo” com aspectos importantes da história – tem um alto grau de bom senso, pois creio que não seja importante apenas saber o que se fazia, mas também com qual propósito.

Começarei as ponderações fazendo uma análise do termo “múmia”.

seria: "qualquer cadáver encerrado em local muito seco e quente que,

Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss, uma das acepções de múmia passando pelos processos de dissecação e endurecimento, não entra em estado de putrefação". Perceba que esta definição engloba as múmias naturais, que podem ocorrer devido às condições do ambiente. Mas as mais famosas foram produzidas artificialmente, através de técnicas de embalsamamento. A ligação de múmias com o povo egípcio é tanta que nas acepções da palavra, neste mesmo dicionário, há referências apenas a este povo, desconsiderando o fato de haver inúmeras citações na bibliografia de múmias de outras civilizações, inclusive mais antigas que as do próprio povo egípcio. Contudo, a expressão "múmia" não é de origem egípcia, mas na verdade deriva da palavra árabe "mumiyah", que significa "corpo preservado por cera ou betume". Hoje, técnicas, como a da plastinação, permitem que consigamos conservar o corpo por um tempo relativamente longo. Iremos tratar mais detalhadamente sobre a plastinação na última parte deste artigo.

Outro aspecto importante que gostaria de explorar um pouco mais é o de que múmias antigas não terem sido produzidas somente na civilização egípcia, havendo citações na literatura de mumificações de origem asteca e múmias, tanto naturais como artificiais, no Peru e Chile. Como exemplo, podemos citar os chinchorros, um povo que viveu cerca de dois mil anos antes que os egípcios. Eles formaram uma cultura sul-americana

Figura 1 - Restos mumificados do Faraó egípcio Ramsés I que viveu entre 1290 e 1204 a.C.

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na costa chilena há sítios arqueológicos [...] com mais de 9.0 anos”.

(atual norte do Chile e o sul do Peru) que usava técnicas impressionantes e que produziu as múmias mais antigas já encontradas até hoje (veja Figura 2). Virgilio Schiappacasse, professor do museu de História Natural de Santiago do Chile, em entrevista à revista Superinteressante, afirmou que

Há também ocorrências de mumificações em tempos não tão remotos. A múmia mais famosa do mundo moderno está guardada em um mausoléu na Praça Vermelha, em Moscou. O corpo do líder comunista Vladimir Lênin, morto em 1924, foi preservado por uma equipe de embalsamadores que trabalhou durante quatro meses para criar a ilusão de que ele estava apenas dormindo. Esta preservação e seus aspectos químicos merecerão um breve capítulo à parte mais adiante neste artigo.

A mumificação no Antigo Egito

Diante da idéia de imortalidade, durante séculos formou-se o eixo central da vida religiosa e social dos antigos egípcios. Foi com uma existência religiosa voltada para os destinos além-túmulo e a preservação desta imortalidade que as crenças na ressurreição e na vida futura guardaram uma grande unidade durante longos períodos, estando presente nos elaborados ritos funerários, na construção de sepulturas, no aperfeiçoamento das minuciosas técnicas de mumificação e nos cuidados com o destino da alma e da morada espiritual.

Todo o ser humano, segundo os egípcios, possuía uma força espiritual, uma força vital e um corpo. Na morte, quebrava-se o vínculo entre estes três elementos. Para renascer e viver para sempre em uma terra em que todos permanecessem jovens, ágeis e belos, a força vital e a força espiritual de uma pessoa tinham que reconhecer seu corpo e se unir novamente a ele. A felicidade no além dependia da habilidade do embalsamador.

Quem não fica com medo ou então um pouco impressionado com as produções cinematográficas que exibem as múmias cercadas por mistérios? Mesmo agora, pirâmides, sarcófagos, tesouros e maldições povoam a imaginação e são popularizados na literatura, no cinema de aventura, suspense ou terror, nos bailes de carnaval e, atualmente, no lucrativo surto "esotérico" da nossa sociedade. Este artigo não procurará tratar destas questões, mas sim demonstrar as técnicas - avançadas para a época - de mumificação na tentativa de perpetuar a existência do corpo do homem na Terra no afã de uma vida pós-morte.

Ao prepararem as múmias, os egípcios tinham uma verdadeira lição de anatomia. Aproveitavam o momento para aprender as relações das estruturas internas do corpo humano (veja Figura 3). Esse processo de mumificação contribuiu muito para a medicina e justifica o destaque que os egípcios antigos possuíram nesta área. Naquele tempo já existiam médicos, os quais no Egito antigo eram chamados de “sunu”, palavra equivalente a “Doutor”. Dentre os três tipos de categorias de sunus, merece destaque uma que atendia as pessoas em espécies de consultórios, parecido com o que acontece hoje. O mais interessante disto tudo é que eles eram especialistas em determinadas áreas do corpo. Cito o exemplo do mais antigo sunu do Egito antigo, Hesy-Ra, que viveu por volta de 3000 a.C e só cuidava de dentes.

Figura 3 – Representação do ritual de mumificação pelos egípcios.

Figura 2 - Foto de uma múmia produzida pelos chinchorros.

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Os vermes despertavam uma atenção toda especial, sendo que os

Faraós tinham médicos exclusivos para tratar deste mal. Quando apareciam, muitas vezes indicavam o prenúncio de diarréias fatais. Como eram encontrados freqüentemente em múmias, os egípcios acreditavam que estes micróbios seriam legítimos mensageiros da morte.

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A vida e a morte segunda a ciência

Uma visão termodinâmica da vida

Uma análise de alguns conceitos da termodinâmica poderá nos ajudar a entender o que acontece com o corpo após a morte. E para entender a morte, vamos primeiro compreender o que é vida. Para isto, um importante conceito da ciência é o da “entropia”. Por definição, trata-se de uma “medida da desordenação de um sistema”. Uma definição um tanto “amarga”, confesso. Há também a segunda lei da termodinâmica, igualmente “amarga”, que nos diz que, em sistemas fechados, a entropia do sistema aumenta espontaneamente. Vejamos se eu consigo “adoçá-las” um pouco para você.

Consideremos primeiramente um sistema simples - comparado com o ser humano, onde os sistemas internos são mais complexos1: uma árvore. Imagine uma sequóia, um dos maiores seres vivos da Terra. Sua semente tem um tamanho próximo de uma cabeça de alfinete, mas sua altura pode chegar aos incríveis noventa metros! Como ela consegue isto? Basicamente pela incorporação de madeira que é produzida a partir de dióxido de carbono e água, através de um processo chamado fotossíntese. E esta ocorre espontaneamente ou necessita de uma “forcinha extra”? Sem dúvida que sim, e a “forcinha extra” vem do espaço - a energia liberada na fusão nuclear do Sol promove a fase clara da fotossíntese.

O físico Erwin Schrödinger (Figura 4) em seu livro O que é vida, publicado em 1944, fez uma análise sobre o ponto de vista da física e concluiu que os seres vivos são formados e mantidos através da incorporação de elementos distribuídos de modo desorganizado no ambiente. Concluiu que a vida é um processo em que há ordem a partir da desordem. A segunda lei da termodinâmica - ramo da ciência que estuda as relações entre entropia, calor e trabalho - nos diz que a entropia tende a aumentar espontaneamente na direção da linha do tempo. Isto indica que vivemos em um mundo dominado pela desordem. Em uma primeira análise, esta lei parece inviabilizar a existência da vida. Esta é justamente uma das idéias mais disseminadas pelos criacionistas. Tanto que eles fazem uso de argumentos relativos a esta lei para contrapor as idéias de que nós surgimos a partir de ancestrais unicelulares – idéia esta pregada pelos evolucionistas.

Ao ler a explicação que o biólogo Roberto Takata propôs em um artigo publicado na Internet, me lembrei de minha mãe reclamando que meu quarto estava desorganizado. Quando isto acontecia, procurava me munir de considerações científicas para desfazer seus argumentos – o que, freqüentemente, não tinha êxito e eu era obrigado a arrumá-lo. Lembro-me que disse certa vez a ela que não era para se preocupar tanto com a arru-

Não há um consenso na ciência do que seja um sistema complexo. Porém, a idéia mais aceita é que um sistema é tão ou mais complexo quanto mais informações forem necessárias para descrevê-lo. Podemos considerar um exemplo de sistema complexo o nosso cérebro, com cerca de 100 bilhões de neurônios. Isto não significa, porém, que um sistema complexo tenha que, necessariamente, ser constituído por um número grande de partes. Um gás, por exemplo, possui um número muito grande de moléculas, mas para estudá-lo basta apenas observarmos uma fração dele. Já num sistema complexo, este fracionamento não é possível, visto que o todo não é a simples superposição dar partes.

Figura 4 – O físico Erwin Schrödinger.

Química Virtual | Novembro 2006 | p. 7 mação do quarto, pois haveria sempre uma tendência à desordem, uma lei natural com a qual eu não podia competir.

Takata, em seu artigo, nos pede para pensarmos em um quarto, cômodo da casa onde dormirmos. A nossa noção de quarto ordenado se casa com a noção de ordem entrópica na medida em que apenas um conjunto restrito de disposição das partes será considerado um local bem arrumado: as roupas e meias dentro das gavetas fechadas, o colchão sobre a cama e assim por diante. Uma meia fora da gaveta é um elemento de 'desordem' – quer em cima da cama, sobre a escrivaninha, em baixo do armário, etc. Há então mais disposições diferentes que consideraremos “desordem” (quarto desarrumado) do que “ordem” (quarto bem arrumado). Se deixarmos a disposição ao acaso, mais provavelmente ela se dará em uma das que consideraremos desarrumada. Devemos despender energia para que o quarto permaneça na disposição que consideramos – ou que nossas mães consideram - arrumado. E haja energia para isto! Ainda hoje não aprecio arrumar o quarto2.

Será que nós, seres vivos, com nossa complexidade e organização interna contrariamos a segunda lei da termodinâmica? A resposta é não. Isto se deve ao simples fato de que nós, humanos e demais seres vivos, ao contrário de sistemas em equilíbrio, como a passagem da água na fase líquida para a fase vapor, e vice-versa, em um recipiente fechado, somos um sistema que se encontra “afastado do equilíbrio” devido ao ‘gradiente’ energético imposto pelo sol, além de trocarmos energia e matéria como ambiente (sistema aberto3). Além disso, consideramos os seres vivos como sendo exemplos de sistemas auto-organizadores5.

Outra analogia poderá ajudar no entendimento. Imagine que, logo pela manhã, ao colocar leite na xícara com café, ambos os líquidos não se misturem formando um sistema homogênea, mas fiquem separados de tal forma que você consiga ver claramente onde está o café e o leite. Certamente você pensará que não acordou direito e está ainda dormindo, sonhando com tudo isto. E de fato isto só pode ser um sonho, visto que a probabilidade de ocorrer este fenômeno é muitíssimo menor do que, quando devidamente acordado, você ver o leite e o café formarem uma mistura homogênea.

Segundo alguns autores (FERREIRA, 2005; LAMBERT, 1999), o conceito de entropia como sendo o grau de desordem de um sistema pode levar o leitor a interpretações erradas ou incompletas. Exemplificações do conceito de entropia com objetos macroscópicos que não interagem entre si não devem ser feitas. Segundo os autores, é preferível uma abordagem estatística associada à quantidade de microestados. Esta interpretação evita alguns problemas em determinadas situações. Os autores consideram que objetos espalhados em uma sala, por exemplo, não formam um sistema de interesse termodinâmico, pois não estão em interação, ou seja, não trocam energia entre si. Os exemplos aqui mencionados têm um caráter didático, o que, por vezes, pode tornar as explicações um pouco reducionistas. Mas é importante lembrar que analogias são boas para se compreender alguns conceitos, mas por vezes – para não dizer sempre – possuem limites. Não se objetiva aqui fazer uma análise detalhada do conceito de entropia, mas sim dar uma noção básica e, o mais importante, relacionar isto tudo com o tema principal deste capítulo: vida x morte.

Em termodinâmica existem basicamente três sistemas: aberto, fechado e isolado. O sistema aberto se caracteriza por permitir a troca de energia e massa com sua vizinhança. O fechado apenas permite a troca de energia. Já o isolado não permite a troca de energia e de massa.

Não se deseja entrar aqui nos pormenores de determinados conceitos, como o da autoorganização dos seres vivos. No entanto, recomendo a leitura: Prigogine I. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da Natureza. Ed. UNESP, São Paulo, 1996.

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