comportamento e bem estar - Barbosa Filho, 200

comportamento e bem estar - Barbosa Filho, 200

(Parte 3 de 6)

Atualmente, vários são os estudos realizados no sentido de se reduzir o estresse calórico. Porém, há uma necessidade de se associar o ambiente, o potencial genético das poedeiras e também a eficiência energética da ração, Silva (2001).

Quanto a baixas temperaturas, o maior inconveniente é o aumento do consumo de ração, como uma reação natural para incrementar a ingestão da energia necessária à manutenção de todas as atividades vitais. O consumo mais alto é encontrado entre 5 e 10°C, Fabrello (1979).

Quanto à umidade do ar ideal para aves de postura, não há valores concretos como no caso da temperatura. O que se pode afirmar com certeza é que, com valores muito altos de umidade relativa, as aves ficam mais sensíveis ao estresse calórico. Por isso, é importante se manter uma baixa umidade relativa no aviário, principalmente no verão. Outro problema sério causado pela alta umidade relativa nos aviários que utilizam cama, ao invés de gaiolas, é seu umedecimento, o que além de trazer problemas de saúde as aves, ainda poderá comprometer a qualidade dos ovos ali postos.

Segundo Payne (1967), quando a umidade relativa noturna é constante e superior a 80% e a diurna superior a 72%, o nível de umidade da cama passará de 32% e ficará totalmente úmida.

Borbas & Minvelle (1997) avaliaram os efeitos da temperatura ambiental em aves poedeiras de diferentes linhagens e, ao submeter as aves a ambientes com temperatura de 21°C e 35°C, observaram que houve uma redução na ingestão de alimentos (16%), no número de ovos (13%), no peso corporal (8%), e no peso dos ovos (4%), e que não houve diferença no desempenho entre as diferentes linhagens.

Atenção especial deve ser dada às instalações que devem proporcionar as melhores condições possíveis de conforto térmico aos animais. Isso alerta os avicultores para a importância fundamental de um sistema funcional de ventilação nos aviários, os quais devem sempre ser orientados no sentido de que o ar quente possa ser facilmente renovado, e permitindo também a entrada de ar fresco para que as aves se sintam confortáveis e sua produção não seja comprometida, Nakano (1979).

2.2 Respostas Fisiológicas

As aves são animais homeotermos, apresentando a capacidade de manter sua temperatura interna constante, mas de maneira geral, não se ajustam muito bem a extremos de temperatura, o que, por sua vez, poderá causar alterações fisiológicas que comprometerão a qualidade e a produção dos ovos.

A temperatura corporal de uma ave oscila em torno de uma faixa de 41°C, e o controle desta temperatura se faz através das trocas de calor com o meio. Se uma ave se encontra em condições de temperatura e umidade elevadas, terá sérias dificuldades de perder ou trocar calor com o ambiente, ocasionado, assim, um aumento da temperatura corporal.

Para acompanhar as mudanças na temperatura corporal das aves, utiliza-se como variável resposta a temperatura retal, que dará uma idéia de como o organismo em questão está reagindo às condições ambientais a que está exposto.

Payne (1967) demonstrou em seus trabalhos que quedas na produção de ovos em aves submetidas ao estresse térmico não são necessariamente provocadas pelas altas temperaturas, mas que são também resultados da diminuição na ingestão de alimentos e nutrientes essenciais às aves, ocasionada principalmente pela perda de apetite provocado pelo estresse.

Além de ocorrer aumento da temperatura retal, sob estresse térmico as aves apresentam também aumento da ofegação, que é uma forma de perda de calor latente por meio da evaporação do calor corpóreo na tentativa de evitar a hipertermia. Esse aumento na ofegação das aves é medido pela contagem da freqüência respiratória.

Segundo Lasiewski et al. (1966), citado por Freeman (1988), a ofegação nas aves é um dos meios mais eficientes de se dissipar o calor em condições de estresse térmico, sendo ainda que, se a umidade relativa estiver apropriada, a maioria das aves será capaz de dissipar seu calor metabólico através da ofegação.

Outro fator importante relacionado com os métodos possíveis de troca de calor dos animais é o aumento no consumo de água. Segundo Sturkie (1967), a ave, quando sente calor, pode beber mais água que o usual, sendo, portanto, o consumo de água maior em ambientes mais quentes.

Estudos, como os de Beker & Teeter (1994) e Macari (1995), chamam a atenção também para o aspecto da temperatura da água fornecida às aves, uma vez que esta interfere no seu consumo, que tende a diminuir, quando a temperatura da água aumenta.

Dados citados por Costa (1980), mostram que, com temperaturas ambientais superiores a 30°C, o consumo de água pode atingir até 0,5 l/ave dia, e a principal razão para este consumo seria o aumento da perda de água pelo processo de perda de calor por evaporação.

2.3 Qualidade dos ovos

A qualidade da produção é, sem duvida nenhuma, um dos principais interesses dos produtores e consumidores de ovos, uma vez que está diretamente relacionada a fatores como: higiene, sanidade e principalmente a saúde e bem-estar dos animais.

Muitos estudos têm sido conduzidos a fim de se verificar a influência do estresse térmico na qualidade dos ovos, e estes só reforçam o que foi relatado por Bennion & Warren (1993), em seu trabalho com poedeiras submetidas a altas temperaturas, em que foi verificada uma certa influência das altas temperaturas na qualidade das cascas dos ovos, além de um decréscimo nos valores de peso dos componentes constituintes do ovo.

Segundo Pereira (1991), o pH sangüíneo das aves de postura decresce juntamente com o nível de cálcio, após duas horas de estresse térmico. Isso é prejudicial à formação da casca do ovo, pois há uma diminuição de cálcio no sangue.

Andrade et al. (1976) verificaram que aves expostas a uma temperatura de 32°C apresentaram um decréscimo significativo em sua produção de ovos, além de um decréscimo de aproximadamente 25% no consumo de ração. Quanto à qualidade dos ovos, o estudo revelou um decréscimo significativo no peso dos ovos, nos valores de gravidade especifica e na espessura da casca.

Em seu trabalho, Mashaly et al. (2004) submeteram aves poedeiras de 31 semanas a três tratamentos em câmara climática, com temperaturas cíclicas e sob condição de estresse térmico constante de 35°C e 50% UR. Como resposta, verificaram que o ganho de peso das aves e o consumo de ração foram significativamente reduzidos nas condições de estresse, bem como o peso dos ovos e da casca, a espessura da casca e a gravidade especifica.

Um fator mundialmente conhecido para se avaliar a qualidade dos ovos é a unidade “Haugh”, que, segundo seu criador Haugh (1937), descreve em seu trabalho que esta medida é na verdade um fator de correção para o peso do ovo, uma vez que verificou que a qualidade dos ovos variava com a altura da clara.

Segundo Rodrigues (1975), a unidade “Haugh” é uma expressão matemática que correlaciona o peso do ovo com a altura da clara espessa, sendo que, de modo geral, quanto maior o valor da unidade “Haugh”, melhor a qualidade do ovo.

Sauver, citado por Silversides et al. (1993), pôde concluir em seus estudos que a medida unidades “Haugh” tem pouca relação com parâmetros de qualidade nutricional. Já Fletcher et al. (1983) verificaram que o valor de unidades “Haugh” para ovos frescos diminui com o aumento da idade das aves.

Quanto à importância da integridade da casca dos ovos com relação à incidência e a possibilidade de uma contaminação por bactérias ou ainda pela constatação da presença de coliformes, possivelmente oriundos da cama, se faz necessário estudos como o realizado por Sauter & Peterson (1974), que constataram que ovos com valores baixos de gravidade específica eram mais susceptíveis a penetração por Salmonella.

O que ocorre é que, no momento da postura, a temperatura do ovo é de aproximadamente 38°C e a casca ainda se encontra úmida, esta umidade por sua vez favorece a aderência de microrganismos à superfície externa do ovo. À medida que o ovo vai “esfriando” ao sair da cloaca, ocorre uma ligeira contração das partes internas, o que resulta em uma pressão negativa dentro do ovo. Neste momento, certas bactérias e fungos podem ser transportados para o interior da casca e conseqüentemente, virem a contaminar o ovo, Silva (1994).

2.4 Comportamento avícola

Por que as aves têm a necessidade de ciscar? Por que precisam de ninho para botar? Ou ainda, como e por que o comportamento animal influencia a produtividade?

Para responder a estas e outras perguntas pertinentes às ações e reações dos animais, quando submetidos a diferentes estímulos e à influência destas reações na produção é que se faz necessário o estudo do comportamento animal.

Segundo Kilgour & Dalton (1984), a ave tem flexibilidade limitada, mas boa capacidade de discriminação visual. Embora relute em voar, usa o espaço horizontal (solo) para comer, tomar banho de areia e construir o ninho. E o espaço vertical para dormir e ficar empoleirada. Em todas as épocas do ano, a maior parte do dia está associada à busca de alimento e faz isso principalmente ciscando o solo e folhas, Dawkins (1989).

O grau de confinamento ao qual a ave poedeira está sujeita, hoje em dia, é extremamente alto e impõe severas restrições ao seu comportamento animal.

Normalmente, são usadas gaiolas contendo de 3 a 5 aves, e medem de 30 a 35 cm de largura por 43 cm de comprimento. Sob tais condições, as aves não podem esticar suas asas, nem se mover sem esfregarem-se umas nas outras ou se levantar totalmente no fundo da gaiola (o chão da gaiola é inclinado para que o ovo role em direção à calha coletora), Singer (1991).

Grande parte do padrão de comportamento normal da ave é frustrado pelo engaiolamento. O comportamento de acasalamento, incubação e cuidado com os pintinhos é impedido, e a única compulsão reprodutiva permitida é a de pôr ovos. Elas não podem voar, ciscar, se empoleirar nem andar livremente. É difícil para a ave limpar suas penas e é impossível se "sujar" com terra, Singer (1991).

A comparação de estudos de comportamento de aves selvagens e domesticadas em ambientes controlados pelo homem indica que o repertório comportamental das aves em ambientes não confinados, em geral, é preservado, havendo mudanças na freqüência e na intensidade das características comportamentais, Craig (1992).

A seleção genética de aves em confinamento não muda o seu comportamento quando criadas soltas. Comparando a linhagem comercial ISA com aves caipiras, Sales et al. (2000) verificaram o mesmo padrão geral de comportamento entre as duas linhagens.

Outro importante comportamento que não pode ser modificado é o banho de areia. A seqüência deste comportamento é realizada mesmo quando as aves estão sobre o piso de arame das gaiolas. Appleby et al. (1993) investigaram a motivação para este comportamento em poedeiras e constataram que a experiência prévia poderia ser um fator importante.

Segundo Fraser (1999), as tentativas de se conceituar o bem-estar animal resumem-se em três pontos principais: ¾ os animais devem se sentir bem, não devendo ser submetidos ao medo ou a dor de forma intensa ou prolongada; ¾ os animais devem estar bem, no sentido de saúde, crescimento e funcionamento fisiológico; ¾ os animais devem levar uma vida natural, através do desenvolvimento e do uso de suas adaptações naturais.

Outro ponto muito importante a ser levantado é o do comportamento social das aves domésticas, tendo-se em vista as condições intensivas de criação nos dias de hoje.

Segundo Maudlin (1992), a organização social tem duas funções importantes: reduzir os gastos não adaptativos de energia, e servir de base para relações regulares de dominância e submissão. Essas relações são geralmente estabelecidas através de comportamentos agressivos, representados principalmente pela bicagem de penas, que, segundo Fraser & Broom (1990), é um comportamento anormal resultante da frustração do comportamento exploratório em um ambiente sem diversificação (gaiola). Assim, ao invés de bicarem o solo em busca de alimento, passam a investigar o corpo de outros animais. Isso causa prejuízo aos avicultores e é a principal motivação para o corte da ponta dos bicos das aves (debicagem), feita com uma lâmina aquecida. Essa lâmina é aplicada na ponta do bico das aves, por onde correm vasos sanguíneos, causando dor e sofrimento às aves.

A conseqüência mais séria da bicagem de penas é o sangramento, que pode levar as aves ao canibalismo. Isso foi constatado por Cloutier et al. (2000), que verificaram uma alta correlação entre a bicagem de penas e o canibalismo em poedeiras Leghorn.

Uma forma de amenizar a bicagem de penas seria a preferência pela adoção de substrato (cama) ao invés de gaiolas. O efeito positivo do fornecimento de substrato foi comprovado por Nicol et al. (2000), que verificaram que o fornecimento de maravalha reduziu significantemente o comportamento de bicar penas em poedeiras em comparação às mantidas em gaiolas. Além disso, destacou que, na presença de maravalha, as poedeiras deixavam de bicar penas, e passavam a bicar mais o chão.

2.5 Respostas Comportamentais

Segundo Odén (2003), a maioria dos comportamentos apresentados pelas aves domésticas atuais são baseados nos comportamentos considerados como padrão pelas suas ancestrais (Red Jungle Fowl), tais como a dominância dentro do grupo, o comportamento de ciscar o chão, a agressividade e a construção do ninho.

A comparação de estudos de comportamento de aves selvagens e domesticadas indica que o repertório comportamental destas aves em ambientes não confinados em geral é preservado, havendo, no entanto, mudanças na freqüência e na intensidade das características comportamentais, Craig (1992).

constatar que as aves apresentavam o mesmo padrão geral de comportamentos

De acordo com Sales et al. (2000), o fato de a ave pertencer a uma linhagem voltada para a produção e confinamento não altera seu comportamento padrão quando criada solta, pois comparando a linhagem comercial ISA com aves caipiras, puderam

Já foi comprovado também por estudos, como os realizados Hughes & Duncan (1988) e por Jensen & Toates (1993), que o maior problema de animais criados em confinamento (gaiolas) é a impossibilidade de expressar seus comportamentos naturais, o que leva os animais à frustração e a desenvolver comportamentos anômalos.

Segundo o trabalho realizado por Rudkin & Stewart (2003), que monitoraram, através de câmeras de vídeo, os comportamentos de duas linhagens de poedeiras em diferentes tipos de gaiolas modificadas, foi possível verificar a expressão da maioria dos comportamentos naturais das aves, mesmo em condições de confinamento.

2.6 Postura em Cama e Ninho

A cama nunca foi um objeto de muitos estudos ou um assunto prioritário para as empresas produtoras de ovos. O fato é que agora, com os novos rumos do mercado e exigências dos consumidores, e novos métodos de manejo e instalações, o assunto “cama para aves de postura” volta a figurar no cenário industrial, e pode ser considerado de grande importância, uma vez que a maioria das pesquisas sobre cama são feitas para frangos de corte e existem poucos estudos abordando o comportamento de aves de postura com relação à cama, sem falar também nos aspectos relacionados à qualidade do ovo quando este é posto na cama.

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