comportamento e bem estar - Barbosa Filho, 200

comportamento e bem estar - Barbosa Filho, 200

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Segundo Paganini (2002), pode-se falar que cama é todo material distribuído sobre o piso de galpões para servir de leito às aves. E tem como função absorver a umidade eliminada pelas aves através das fezes, bem como da água de equipamentos (bebedouros).

Esse controle de umidade no piso é muito importante para a qualidade sanitária das aves e dos ovos, uma vez que a postura será diretamente na cama, e este contato poderá contaminar o ovo, pois ficando em contato com a cama, bactérias poderão penetrar em sua casca, Pulici (2001). A cama tem também a função de isolante térmico, característica muito importante nos períodos frios, pois evita a perda de calor para o piso.

Além dessas funções, a cama está intimamente relacionada com o comportamento das poedeiras com relação à produção de ovos, possui a função de proporcionar à ave uma superfície macia para permitir o seu repouso e estimular a postura de ovos pela simulação das condições do ninho.

Os materiais a serem utilizados como cama devem apresentar algumas características, tais como: maciez, serem absorventes, isotérmicos, livres de fungos, e não tóxicos, além de baixo custo e fácil disponibilidade. Vários são os materiais que podem ser utilizados como cama, entre eles fenos de gramíneas, maravalha, palha de feijão ou arroz, casca de café, entre outros. É importante salientar que alguns destes materiais são vulneráveis à formação de placas superficiais compactas, compostas por fibras e fezes. Essa compactação pode dificultar a difusão de umidade da cama, e as aves ficando em contato intenso com as próprias fezes, poderão vir a apresentar lesões e necroses cutâneas, Jorge et al. (1997).

A qualidade e boa conservação da cama e do piso têm grande importância e influência sobre as condições dos ovos. O excesso de umidade da cama faz com que as aves com suas penas ou pés úmidos manchem os ovos, enquanto transitam pelo chão do aviário. Isso decorre em perda na qualidade dos ovos, uma vez que, além de sujos ainda poderão estar contaminados, Elson (1968).

Atenção especial também deve ser dada à densidade de aves sobre a cama. O aumento na densidade resulta em maior compactação da cama, diminuindo, assim, a sua capacidade de absorção de umidade. Quando se aumenta a densidade, deve-se também aumentar a altura da cama, bem como revolvê-la mais freqüentemente.

Como já mencionado anteriormente, os novos moldes de criação exigidos pela

União Européia (EU) constam de novas gaiolas, as chamadas de "enriched cages", que, traduzindo, seriam "gaiolas enriquecidas". Estas constariam de uma área de cama, poleiro e ninho. Como já mencionado também, ovos postos diretamente na cama perdem sua qualidade, pois propiciam a entrada de bactérias, fazendo com que este ovo tenha que ser descartado, resultando em prejuízos para o avicultor, Avisite (2002).

Uma forma de se garantir a boa conservação dos ovos seria fazer com que as aves voltassem as suas origens, ou seja, fazer com que elas botassem no ninho. Isso também tem uma relação muito importante no tocante ao comportamento animal, uma vez que se presume ser da própria natureza da ave a confecção de ninhos no intuito de proteger os ovos.

O problema é que, atualmente, a alta evolução nos setores da avicultura de postura e o grande avanço da genética nas linhagens comerciais de aves cada vez mais produtivas estão fazendo com que as linhagens “percam” um pouco seus princípios normais de comportamento animal, ou seja, devido aos avanços genéticos, as aves se "esqueceram" de que seu comportamento natural "manda" que se deva botar no ninho. Por isso, as aves teriam que passar por uma espécie de ”nova adaptação” para poderem readquirir o comportamento de seus ancestrais.

Esta "nova adaptação" seria a chave para que as linhagens comerciais de hoje voltassem a procurar o ninho para botar. Isso implicaria em ovos com maior qualidade externa e interna, uma vez que estariam longe da contaminação da cama.

2.7 Avicultura de Precisão

A avicultura, hoje em dia, caminha a passos largos para cada vez mais alcançar maiores produções, acompanhada por inovações tecnológicas, como a automação de quase todo o setor de produção e também pelas mudanças marcantes nas áreas de genética e nutrição.

Com todos estes avanços, torna-se necessário o monitoramento das variáveis do ambiente em que se encontram as aves, além do comportamento destas, quando submetidas a diferentes condições ambientais, e suas reações, quando submetidas a mudanças comportamentais, tais como, mudança nas instalações, ou ainda a adaptação a um novo tipo de manejo (retirada das gaiolas).

Surge então a importância de se ter um modo rápido e preciso de monitorar constantemente o comportamento e reações das aves. Segundo Nääs (1994), a precisão está diretamente relacionada com o efetivo monitoramento e com o controle das etapas de produção, pois não é possível imprimir uma melhoria num processo qualquer, se este não for conhecido em todas as suas fases. A precisão é uma ferramenta que utiliza meios eletrônicos e de comunicação no sentido de diminuir perdas em um determinado processo.

Denomina-se avicultura de precisão o emprego de sensores e atuadores para a coleta de informações inerentes ao ambiente e a interferência em processos psicrométricos para a alteração das variáveis de ambiente do galpão. Consiste ainda em utilizar métodos avançados de controle e rastreamento, em que geralmente são utilizados sistemas de automação, visando, principalmente, reduzir ou evitar perdas localizadas, otimizando, assim, o sistema de produção. O conceito fundamental é conseguir um controle preciso sobre a utilização dos recursos envolvidos nos processos que se encontram na cadeia de produção, Nääs (1994).

Segundo Fialho (1999), sistemas de automação são aqueles que permitem monitorar e controlar o funcionamento de um sistema físico de forma segura. O monitoramento tem o objetivo de registrar ocorrências de um determinado evento, bem como alertar o usuário em caso de situações excepcionais.

Sendo assim, os sistemas de automação necessitam de algum tipo de interface que lhes permita avaliar o estado atual do sistema. Daí surgem os sensores, que têm a função de medir as variáveis envolvidas no processo e transformá-las em informações que possam ser interpretadas pelo homem. Para que um sistema de automação funcione perfeitamente, faz-se necessário o controle das informações recebidas pelos sensores, para que possam ser encaminhadas para os atuadores. Isso é feito pelos controladores, cuja principal função seria a de coordenar e harmonizar o sistema.

Uma tecnologia que vem sendo muito utilizada e difundida, nos dias de hoje, é a análise de imagens como ferramenta para se estudar o comportamento animal. Segundo Xin et al. (1998), o sistema consiste em uma microcâmera, uma placa de captura de imagem instalada em um PC e um programa visual que execute a aquisição, processamento e a classificação das imagens dos animais.

Segundo Abrahamsson (1996), o comportamento animal até há pouco tempo era medido através da observação visual dos animais, o que consumia mais tempo, era subjetivo e muito susceptível ao erro humano. A automação deste processo, por meio de câmeras de vídeo e programas de interpretação de imagens, tornou possível uma melhor interpretação dos comportamentos dos animais sem a necessidade de estar perto deles ou de incomodá-los.

Leroy et al. (2003) desenvolveram um sistema de análise de imagens com uma técnica de processamento on-line para quantificar os comportamentos de aves de postura e para posterior comparação com o sistema de observação visual humano. Eles concluíram que ambos os sistemas de análise podem ser utilizados na avaliação dos comportamentos das aves, embora o sistema de observação visual humano tenha propiciado maior número de erros na quantificação total dos comportamentos, quando comparado com o sistema de vídeo automatizado.

Dusenbry (1985) demonstrou a viabilidade de se observar, simultaneamente, 25 aves por meio de uso de microcomputador e de uma câmera de vídeo. Neste trabalho, o autor comenta a possibilidade de se fazer um registro individual e simultâneo dos movimentos efetuados pelos 25 animais, sendo possível obter dados do seu comportamento por meio de um equipamento relativamente barato que proporcionou a coleta de imagens em tempo real, por meio do processamento de imagens.

A avaliação e os controles interativos do conforto térmico dos animais pela análise de imagens supera os problemas inerentes ao método convencional, pois utilizam-se os próprios animais como biosensores em resposta aos reflexos do ambiente por meio de análise comportamental, Xin & Shao, (2002).

aves (Sevegnani et al. 2001)

No Brasil, a técnica de análise de imagens para o estudo do comportamento animal tem sido utilizada para avaliar diferentes tipos de animais de produção, tais como para bovinos (Perissinotto, 2003; Matarazzo, 2004), suínos (Pandorfi, 2002) e

Pandorfi (2002) utilizou o sistema de análise de imagens para verificar o comportamento de leitões, quando submetidos a diferentes sistemas de aquecimento (piso térmico e resistência elétrica), e pôde verificar que entre as ferramentas tecnológicas utilizadas em sua pesquisa, a análise de imagens foi a que se mostrou mais eficiente, pois permitiu correlacionar o perfil de distribuição dos animais e captar um grande número de informações.

3 MATERIAL E MÉTODOS 3.1 Local de desenvolvimento da pesquisa

A pesquisa foi realizada em câmara climática nas dependências do núcleo de pesquisa em ambiência (nupea), junto ao departamento de engenharia rural da esalq/usp, durante o período de 02 de agosto a 10 de setembro de 2004.

BOX 2Gaiolas

BOX 1

Figura 1 – Divisão da câmara climática em dois boxes e uma bateria de gaiolas

De acordo com a Figura 1, a câmara climática utilizada no experimento tinha dimensões de 3,85m de comprimento por 2,35m de largura e 2,90m de altura (pédireito), com área de aproximadamente de 9m2 . No interior da câmara foram montados dois boxes de 1m2 cada, contendo ninho e poleiro. Também foi colocado um sistema convencional de gaiolas para a posterior comparação com o sistema “cama+ninho”.

As respectivas dimensões da câmara climática podem ser observadas na figura abaixo.

Figura 2 – Croqui da vista horizontal e vertical da câmara climática, onde: 1- Sistema de controle do ambiente, 2- Ninhos, 3- Box com cama, 4- Sistema de gaiolas, 5- Reservatórios de água, 6- Porta da câmara, 7- Câmeras de vídeo, 8- Sensores de temperatura e Umidade

3.2 Animais

Foram utilizadas 40 aves de postura, 20 da linhagem Hy-Line W36 (ovos brancos) e 20 da linhagem Hy-Line Brown (ovos vermelhos), com idade de 21 semanas.

Para cada condição de ambiente, conforto e estresse, 10 aves de cada linhagem foram separadas em dois tipos de sistemas de criação, sendo respectivamente, 05 aves colocadas no sistema de criação em gaiola e 05 aves no sistema “cama+ninho”.

Para que todas as aves fossem avaliadas com a mesma idade nos tratamentos de conforto e estresse térmico, foram adquiridas com uma diferença de idade de 21 dias, ou seja, 20 aves foram compradas com 17 semanas e 20 aves com 20 semanas, uma vez que o período experimental era de 3 semanas (1 de adaptação e 2 de coleta de dados), para cada condição ambiental proposta.

3.3 Fotoperíodo

Durante a realização da pesquisa foi adotado um fotoperíodo dentro da câmara climática, de 16 horas de luz e 8 horas de escuro (16L:8E).

3.4 Mortalidade

Foi contabilizado durante todo o período da pesquisa o número de aves que morreram, bem como o local de morte (“cama+ninho” e gaiolas) e a condição ambiental em que ocorreu a morte.

3.5 Tratamentos 3.5.1 Exposição das aves ao ambiente controlado (câmara climática):

As aves de cada linhagem e de cada sistema de criação foram expostas a duas condições ambientais, uma condição de conforto térmico e outra de estresse térmico, conforme os tratamentos abaixo:

Tratamento A1 - Exposição a um ambiente com temperatura de 26°C ± 2°C e 60% ± 2% de umidade relativa. (condição de conforto térmico);

Tratamento A2 - Exposição a um ambiente com temperatura de 35°C ± 2°C e 70% ± 2% de umidade relativa. (condição de estresse térmico).

Todas as aves foram expostas a cada uma das condições ambientais durante 14 dias consecutivos, em ambiente controlado, de acordo com Sevegnani et al. (2001b). Porém, com um período de adaptação gradativa ao ambiente, totalizando 21 dias de exposição ao ambiente controlado para cada tratamento.

3.5.2 Sistemas de criação:

As aves foram submetidas a dois tipos de sistemas de criação, que foram comparados para a avaliação do seu bem-estar e da qualidade de sua produção.

Tratamento C1 – Sistema de criação com cama e ninho;

Tratamento C2 – Sistema de criação em gaiolas.

3.5.3 Caracterização dos sistemas de criação

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