comportamento e bem estar - Barbosa Filho, 200

comportamento e bem estar - Barbosa Filho, 200

(Parte 5 de 6)

Com base nas normas e conceitos de bem-estar animal para aves de postura, a

União Européia pretende, por meio de suas diretivas, banir o uso de gaiolas convencionais para a criação de aves de postura até o ano de 2012. (Comissão Européia, 1999), sendo que, após este período, só poderão ser utilizados sistemas de criação que favoreçam o bem-estar dos animais, tais como o uso de gaiolas modificadas ou enriquecidas ou o sistema de semiconfinamento.

São também exigências da norma Européia que cada ave deverá dispor de pelo menos 550cm2 de superfície de área de gaiola, além de uma área com poleiro, cama para ciscar e ninho.

As figuras abaixo mostram as dimensões do sistema de gaiolas e dos ninhos no sistema com cama adotados nesta pesquisa.

Figura 3 – Dimensões das gaiolas (cm), planta baixa e corte transversal

Figura 4 – Dimensões dos ninhos (cm), planta baixa e corte transversal

A gaiola utilizada na pesquisa foi uma gaiola comum (tipo comercial), sem nenhum enriquecimento, ou seja, sem a presença de área com cama, de poleiro ou de ninho. Já o sistema de criação em cama, além da presença desta, possuía ainda ninho e poleiro para as aves, constituindo um ambiente considerado como ideal para a criação das aves com vistas às exigências de bem-estar animal da União Européia.

Na tabela 01 abaixo são apresentas as características dos dois sistemas de criação:

2 Tabela 1. Caracterização dos sistemas de criação em cama e em gaiola

3.6 Parâmetros avaliados

3.6.1 Parâmetros climáticos

Os valores de temperatura de bulbo seco (Tbs), umidade relativa (UR) e temperatura de ponto de orvalho (Tpo) foram coletados no interior da câmara climática por meio de miniestações meteorológicas e data logger HOBO®. As miniestações meteorológicas foram instaladas respectivamente a 1,70, 1,50 e a 0,50 m de altura com relação ao piso da câmara, e as leituras foram realizadas a cada 15 min ao longo das 24 h, o que possibilitou traçar um perfil de temperatura dentro da câmara climática, levando-se em consideração a posição do sistema de circulação do ar e a localização dos tratamentos (cama e gaiola), bem como o calculo dos índices de conforto térmico.

Figura 5 – Detalhe de duas miniestações meteorológicas instaladas respectivamente a 1,70m (a) e 0,5m (b) de altura com relação ao piso da câmara climática a b

N° aves p/ Box ou Gaiola

Dimens. Gaiola (comp. x largua x altura) - cm Dimens. Box c/ Cama - cm

Área de Gaiola p/ ave (cm2)

Área de Cama p/ ave (cm2) Poleiro (cm/ave) - somente nos boxes N° bebedouros tipo Nipple p/ Gaiola e Box

Nota-se pela Figura 5 que a miniestação meteorológica instalada a 0,5m do chão encontra-se bem à altura das aves criadas no sistema de gaiolas. Isto permitiu uma melhor avaliação das condições de temperatura e umidade relativa a que estas aves estavam sendo submetidas, uma vez que, como se sabe, aves criadas neste sistema de confinamento são mais susceptíveis às condições de estresse.

Com os valores dos parâmetros climáticos, puderam então ser calculados os índices de conforto térmico.

3.6.2 Índices de conforto térmico

Foram desenvolvidos, para caracterizar ou quantificar as zonas de conforto térmico adequadas às diferentes espécies animais, apresentando em uma única variável, tanto os fatores que caracterizam o ambiente térmico que circunda o animal, como o estresse que tal ambiente possa estar causando no mesmo.

3.6.2.1 Índice de Temperatura e Umidade (THI) (Thom, 1959)

Desenvolvido inicialmente para humanos, e utilizado para outros animais, é um índice que engloba os efeitos combinados de temperatura de bulbo seco e úmido. De acordo com Buffington et al. (1981), este índice de conforto é o mais comum existente e mais utilizado. A equação para o cálculo deste índice é dada por:

THI = Tbs + 0,36 Tpo + 41,7 em que:

Tbs - temperatura de bulbo seco, °C; Tpo - temperatura de ponto de orvalho, °C.

Entalpia, por definição, é a energia do ar úmido por unidade de massa de ar seco (kJ/kg de ar seco), ou seja, é uma variável física que indica a quantidade de energia contida em uma mistura de vapor d’água. Portanto, nos casos de alteração na umidade relativa, para uma mesma temperatura, a energia envolvida nesse processo se altera, e como conseqüência, as trocas térmicas no ambiente serão alteradas.

A equação para o cálculo da entalpia foi descrita por Villa Nova (1999), citado por Furlan (2001), como:

H = entalpia (kcal/kg ar seco); tbs = temperatura ambiente (bulbo seco) (ºC); UR = umidade relativa do ar (%).

3.6.3 Parâmetros fisiológicos

Os dados fisiológicos foram analisados para todas as aves. Registrou-se :

TEMPERATURA RETAL (TR) - termômetro inserido no reto por, no mínimo, 2 minutos, medida uma vez por semana para cada condição ambiental às 14:00h;

FREQÜÊNCIA RESPIRATÓRIA (FR) - contagem dos movimentos de ofegação durante 15 segundos, realizada uma vez por semana para cada condição ambiental às 14:00h, de acordo com a metodologia utilizada por harrison e biellier, (1968).

3.6.4 Parâmetros comportamentais

Para a análise do comportamento, todas as aves foram identificadas através de um sistema de marcação individual (pintura do dorso com tinta não tóxica), Rudkin & Stewart (2003), o que possibilitou o acompanhamento e análise dos comportamentos de cada ave.

Figura 6 – Sistema de marcação individual para a análise de imagens por meio da pintura do dorso das aves

As imagens foram registradas por câmeras de vídeo instaladas no teto da câmara climática que, por sua vez, eram ligadas a um microcomputador equipado com placa de captura de imagens e software para a análise, (Figuras 7 a e b).

Figura 7 – Câmeras de vídeo instaladas no teto da câmara climática (a) e tela do computador equipado com placa de captura e software para imagens (b)

As imagens foram registradas a cada segundo por um período de 1 hora na parte da manhã (das 10:0 às 1:0h) e 2 horas na parte da tarde (das 13:0 às 14:0h e das 16:0 às 17:0h), durante dois dias consecutivos, para cada condição de ambiente e sistema de criação proposto. As imagens, gravadas a cada segundo, foram a b gerenciadas pelo software “VIDEOCAP 5.1”, sendo armazenadas em um banco de dados. Durante o período da noite, não foram registrados dados de comportamento.

Após o período de coleta de imagens, estas foram então analisadas pelo método visual, ou seja, sem o auxilio de softwares de interpretação ou de análise de imagens. Sendo então, as imagens, analisadas para cada ave, cada comportamento e para cada período do dia, sempre pela mesma pessoa.

duração de cada comportamento

Após as analises, foram então calculados as porcentagens de tempo de expressão de cada comportamento, bem como o período em minutos e segundos de

Os padrões comportamentais foram avaliados de acordo com Rudkin & Stewart (2003), levando-se em consideração as atividades desenvolvidas por cada ave. Foram avaliados os seguintes padrões comportamentais:

a) Comendo – Quando a ave está se alimentando, comportamento caracterizado
de movimentos rápidos de chacoalhar as penas

geralmente quando a ave se encontra com a cabeça no comedouro. b) Bebendo – Quando a ave está bebendo água, geralmente caracterizado quando a ave está bicando o bebedouro tipo Nipple. c) Investigando penas – Comportamento não agressivo, caracterizado quando a ave investiga suas próprias penas com o bico ou investiga as penas de outras aves. d) Banho de areia – Comportamento característico das aves, envolve em sua caracterização uma seqüência de ciscar e jogar “areia” sobre seu corpo, além e) Movimentos de conforto – São considerados comportamentos apresentados pelas aves, quando estas se encontram em condição de conforto e bem-estar. São considerados como movimentos de conforto comportamentos como: bater e esticas as asas e chacoalhar as penas. f) Ciscando – Outro comportamento considerado como característico das aves, caracterizado quando a ave explora seu território com seus pés e bico. g) Empoleirar – Comportamento muito associado ao bem-estar das aves, por ser um comportamento natural. É caracterizado, quando a ave sobe em algum aparato que se encontra acima do nível do solo.

h) Agressividade – Comportamento relacionado à condição de estabelecer dominância no grupo ou a condições de estresse, sendo geralmente caracterizado por bicadas rápidas e fortes em locais como a crista e outras partes da cabeça. i) Sentada – Comportamento caracterizado quando a ave senta na cama ou substrato em que se encontra. j) Procurando ninho – Comportamento considerado como de pré-postura, é facilmente detectável e caracterizado como entradas rápidas e freqüentes ao ninho, como numa tentativa de avaliar o local antes de botar os ovos. k) Postura – Caracterizado como a presença da ave sentada no ninho e com a comprovação da presença do ovo. l) Parada – Comportamento caracterizado quando a ave não apresenta nenhum movimento, ou aparentemente não se enquadra em nenhum dos comportamentos anteriores.

3.6.5 Sistema de marcação das aves

O sistema de marcação através da pintura do dorso das aves com tinta não tóxica se mostrou como a melhor maneira de se identificar individualmente cada ave durante a análise de imagens. Este sistema de marcação, foi escolhido pois em comparação com outros tipos de marcação, tais como, cordões coloridos nos pés, pintura da crista ou ainda números tatuados no dorso, não foram eficientes em identificar os animais em testes preliminares executados antes do início do experimento.

Por serem animais muito curiosos, as aves tinham uma tendência de perder ou arrancar os marcadores, no caso de cordões coloridos nos pés, ou ainda, de apresentarem um comportamento agressivo diante de outras aves com a crista pintada, isso seria explicado, talvez, pelo importante papel que a crista tem na identificação dos animais. Rudikin & Stewart, (2003).

Outro ponto que foi analisado na escolha do sistema de marcação das aves, foi quanto a eficiência relacionada à visibilidade da marcação na imagem que era capturada pelas câmeras de vídeo no teto da câmara climática, uma vez que, devido ao posicionamento das câmeras, marcações como as feitas pelos pés, não apareciam nas imagens capturadas, ou o sistema de marcação com números ou letras pintadas no dorso, com o passar do tempo, começavam a desaparecer, principalmente pela ação do comportamento de investigar penas.

Sendo assim, foi então adotado o sistema de pintura do dorso das aves com tinta não tóxica e de diferentes cores (claras para aves marrons e escuras para aves brancas), aparentemente não foi verificado nenhum problema quanto a este tipo de marcação nas aves, tanto do ponto de vista comportamental (agressividade), quanto do ponto de vista sanitário.

As aves eram pintadas assim que iniciavam seu período de adaptação em câmara climática e foi constatada também a importância deste período para que as aves se habituassem a este sistema de marcação.

3.6.6 Consumo de água e ração

(Parte 5 de 6)

Comentários