Odessa

Odessa

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O Dossiê Odessa Frederick Forsyth OBRAS DO AUTOR

A ALTERNATIVA DO DIABO CÃES DE GUERRA O DIA DO CHACAL O DOSSIE ODESSA A HISTÓRIA DE BIAFRA O PASTOR SEM PERDÃO Tradução de: Pinheiro de Lemos 128 EDIÇÃO EDITORA RECORD Título original inglês: THE ODESSA FILE Copyright (C) 1972 by Danesbrook Productions Limited Publicado originalmente na Inglaterra por Hutchinson & Co. (Publishers) Ltda.

O contrato celebrado com o autor proíbe a exportação desta edição para Portugal Continental e Ultramarino

Direitos exclusivos de publicação no Brasil adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S. A.

A todos os repórteres que não se conformam com a sugestão de desistir de um caso

O Odessa do título não se refere nem à cidade desse nome no Sul da Rússia, nem à pequena cidade homônima dos Estados Unidos. É uma sigla formada pelas iniciais de seis palavras que querem dizer em alemão "Organisation Der Ehemaligen S-Angehorigen". Traduzido, isso significa "Organização dos Ex-Elementos das S". As S, como o deve saber a maioria dos leitores, foram o exército dentro do exército, o estado dentro do estado, que Adolf Hitler criou, Heinrich Himmler comandou e que foi incumbido de tarefas especiais pelos nazistas, que dominaram a Alemanha de 1933 a 1945. Essas tarefas se relacionavam em teoria com a segurança do Terceiro Reich; na prática, abrangeram o cumprimento da ambição de Hitler de livrar a Alemanha e a Europa de todos os elementos que ele considerava "indignos da vida", de escravizar perpetuamente as "raças subumanas das terras eslavas" e de exterminar da face do continente todos os judeus, homens, mulheres e crianças. Na realização dessas tarefas, as S organizaram e executaram o assassinato de cerca de quatorze milhões de seres humanos, compreendendo aproximadamente seis milhões de judeus, cinco milhões de russos, dois milhões de poloneses, meio milhão de ciganos e meio milhão de elementos diversos, inclusive, embora isso raramente seja mencionado, perto de duzentos mil alemães e austríacos que não eram judeus. Estes eram infelizes portadores de deficiências mentais ou físicas ou os chamados inimigos do Reich, como os comunistas, os social-democratas, os liberais, 7 jornalistas, repórteres e sacerdotes que falavam de maneira inconveniente, homens de consciência e coragem e, posteriormente, oficiais do exército sobre os quais recaíam suspeitas de falta de lealdade a Hitler. Antes de sua destruição, as S tinham feito das duas iniciais de seu nome e do símbolo de um duplo raio do seu estandarte sinônimos de desumanidade a um ponto jamais igualado antes ou depois por qualquer outra organização. Antes do fim da guerra, os seus elementos mais categorizados, absolutamente certos de que a guerra estava perdida e sem quaisquer ilusões sobre a opinião que os homens civilizados teriam de suas ações quando chegasse o ajuste de contas, tomaram providências diversas para desaparecer numa vida nova, deixando para todo o povo alemão o ônus de assumir e dividir a culpa pelos criminosos desaparecidos. Para esse fim, vastas quantidades do ouro das S foram levadas clandestinamente para fora do país e depositadas em contas bancárias numeradas, falsificaram-se documentos de identidade e abriram-se rotas de fuga. Quando os Aliados conquistaram afinal a Alemanha, o grosso dos assassinos em massa tinha fugido. A organização que formaram para efetuar a sua fuga foi a Odessa: Depois de cumprida a primeira tarefa de assegurar a fuga dos assassinos para climas mais hospitaleiros, as ambições desses homens cresceram. Muitos nunca chegaram a sair da Alemanha, preferindo continuar sob a proteção de nomes e documentos falsos enquanto os Aliados governavam; outros voltaram, convenientemente protegidos por uma nova identidade. Foram bem poucos os homens da alta direção que continuaram no exterior para manobrar a organização da segurança de um exílio confortável. Os objetivos da Odessa eram e continuam a ser cinco: reabilitar homens que pertenciam às S nas profissões liberais da nova República Federal criada em 1949 pelos Aliados, infiltrar-se ao menos nos escalões inferiores da atividade político-partidária, pagar os melhores advogados para qualquer assassino das S levado à barra dos tribunais e invalidar de todas as maneiras possíveis a ação da justiça na Alemanha Ocidental contra algum antigo Kamerad, assegurar a ex-homens das S o estabelecimento no comércio e na indústria a tempo de aproveitar-se do milagre econômico que reconstruiu opaís depois de 1945 e, por fim, realizar propaganda junto ao povo alemão no sentido de que os assassinos das S nada mais eram na realidade senão soldados patrióticos comuns que cumpriam o seu dever para com a Pátria e não mereciam absolutamente a perseguição a que a justiça e a consciência ineficazmente os submetiam. Em todas essas tarefas, com o apoio de seus consideráveis fundos, têm sido assinaladamente bem sucedidos, especialmente quanto a reduzir a uma pilhéria a punição oficial pelos tribunais da Alemanha Ocidental. Mudando de nome diversas vezes, a Odessa tem procurado negar a sua própria existência como uma organização, em conseqüência do que muitos alemães são levados a dizer que a Odessa não existe. A resposta sucinta é a seguinte: existe e os Kameraden da insígnia da Caveira ainda estão ligados dentro dela. Apesar dos êxitos alcançados em quase todos os seus objetivos, a Odessa sofre de vez em quando uma derrota. A pior que já sofreu se verificou no começo da primavera de 1964, quando um maço de documentos chegou inesperada e anonimamente ao Ministério da Justiça em Bonn. Esse maço ficou sendo conhecido para os poucos funcionários que chegaram a ver a lista de nomes constante de suas folhas como o "Dossiê Odessa". 9 I.

Parece que não há quem não se lembre com muita clareza do que estava fazendo no dia 2 de novembro de 1963, no exato momento em que soube da morte do Presidente Kennedy. Kennedy foi ferido àS 12:2, hora de Dallas, e a notícia de sua morte foi dada às 13:30 no mesmo fuso horário. Eram 14:30 em Nova York, 19:30 em Londres e 20:30 de uma noite fria e chuvosa em Hamburgo. Peter Miller voltava de carro para o centro da cidade depois de uma visita a sua mãe, na casa dela em Osdorf, um dos subúrbios da cidade. Visitava sempre a mãe às sextas-feiras, não só para ver se ela tinha tudo aquilo de que precisava para o fim de-semana, mas também porque achava de seu dever ir la uma vez por semana. Preferiria telefonar-lhe se ela tivesse telefone, mas, desde que não tinha, tomava o carro e ia vê-la. Era por isso que ela se negava a ter um telefone. Como de costume, Miller tinha o rádio ligado e estava escutando um programa musical transmitido pela Rádio do Norte da Alemanha Ocidental. Às oito e meia, ele ia pela estrada de Osdorf, a dez minutos do apartamento de sua mãe, quando a música parou de repente no meio de um compasso e a voz do locutor fez-se ouvir, cheia de emoção: "Achtung, Achtung! Vamos dar uma notícia. Morreu o Presidente Kennedy. Vamos repetir. Morreu o Presidente Kennedy". Miller tirou os olhos da estrada e olhou para a faixa de freqüências fracamente iluminada na parte superior do rádio, como se seus olhos pudessem desmentir o que os seus ouvidos tinham escutado e assegurar-lhe que ele estava sintonizado com a estação errada, capaz de transmitir semelhantes disparates.

- Meu Deus! - exclamou ele em voz baixa, pisou no freio e virou á direção para a direita da estrada. Alongou a vista. Pela estrada longa, larga e reta que atravessava Altona rumo ao centro de Hamburgo, outros motoristas tinham ouvido o mesmo programa e estavam levando os carros para o lado da estrada como se dirigir e escutar o rádio se tivessem tornado coisas incompatíveis, o que de certo modo tinha acontecido. Podia ver no seu lado as luzes dos freios acesas enquanto os motoristas paravam no meio-fio a fim de escutar as informações suplementares que vinham dos rádios. À esquerda, os faróis dos carros que vinham da cidade dançavam desvairadamente enquanto eles viravam também para a beira da estrada. Dois carros o alcançaram. O primeiro buzinou nervosamente e Miller viu de relance o motorista que batia na cabeça olhando para ele no habitual gesto rude que indica falta de juízo e que um motorista alemão sempre faz para outro que o atrapalhou. "Ele não tarda a saber", pensou Miller. A música leve no rádio tinha parado, sendo substituída pela Marcha Fúnebre, que era evidentemente a única coisa que o disc jockey tinha à mão. De vez em quando, lia pequenos trechos de novas informações chegadas pelo teletipo e que lhe eram levadas da sala de redação. Os detalhes começaram a chegar: o desfile em carro aberto na cidade de Dallas, o homem armado de fuzil na janela do Depósito de Livros Escolares. Não se falava de prisão. O motorista do carro à frente de Miller saltou e se aproximou dele. Chegou pela janela do lado esquerdo, viu então que a direção estava inexplicavelmente à direita e deu a volta. Usava uma ja pona de nylon com gola de peles. Miller baixou a vidraça do carro. – Ouviu? - perguntou o homem, debruçando-se na janela. – Ouvi - disse Miller. - É uma coisa fantástica, - disse o homem. Por toda a Hamburgo, pela Europa, pelo mundo, as pessoas se estavam aproximando de gente completamente desconhecida para comentar o acontecimento. - Teriam sido os comunistas? - perguntou o homem. - Não sei.

- Se foram eles, isso pode dar guerra, sabe disso?

- É possível, - disse Miller, desejando que o homem se fosse embora. Como repórter, podia imaginar a agitação que havia através dos jornais do país, quando todo o pessoal era requisitado para ajudar a preparar uma edição extra. Seria preciso escrever o necrológio, obter e relacionar centenas de declarações e atender os telefones, bloqueados por gente nervosa que queria saber de mais detalhes, tudo porque um homem estava estendido com o pescoço dilacerado numa mesa de mármore, numa cidade do Texas.

Desejou estar de novo, como em outros tempos, na redação de um jornal diário, mas desde que se tornara três anos antes um freelance, especializara-se em reportagens especiais no interior da Alemanha, relacionadas principalmente com crimes, polícia e criminosos. A mãe dele detestava aquele serviço, dizendo que ele o fazia conviver com gente muito "desagradável" e os argumentos dele de que se estava tornando um dos mais solicitados repórteres-investigadores do país não conseguiam demovê-la da convicção de que aquele serviço de repórter não era digno de seu filho único. Depois de ouvir o noticiário do rádio, seu espírito trabalhava febrilmente, tentando pensar em outro "ângulo" que pudesse ser seguido dentro da Alemanha e pudesse fazer uma boa seqüela para o assunto central. A reação do governo de Bonn poderia ser coberta de Bonn pelo pessoal das redações e as recordações da visita de Kennedy a Berlim em junho daquele ano seriam cobertas também de lá. Não parecia haver uma boa reportagem gráfica que ele pudesse arrumar para vender a qualquer das várias revistas alemãs que eram a melhor clientela para essa espécie de jornalismo. O homem debruçado na janela do carro sentiu que a atenção de Miller estava em outro lugar e presumiu que fosse de pesar pelo presidente morto. Deixou prontamente de falar numa guerra mundial e assumiu o mesmo ar de gravidade do outro. - Ja, ja, ja, - murmurou ele com convicção, como se tivesse certeza de tudo.

- Gente violenta esses americanos, veja bem o que estou dizendo, gente violenta. Há neles uma tendência à violência que nós aqui nunca poderemos compreender. - Claro, - disse Miller, com o pensamento ainda a quilômetros de distância. O homem percebeu afinal a insinuação. - Bem, tenho de ir chegando para casa, - disse ele, aprumando o corpo. - Gruss Gou. Começou a caminhar em direção ao seu carro e Miller tomou conhecimento de que ele se estava afastando. - Ja, gute Nacht, - disse ele pela janela aberta. Levantou então a vidraça para proteger-se do vento frio que soprava do rio Elba. A música do rádio tinha sido substituída por uma marcha lenta e o locutor disse que naquela noite não haveria mais música leve, mas apenas boletins de notícias entremeados de música apropriada à situação. Miller recostou-se no confortável estofamento de couro do seu Jagnar e acendeu um Roth-Handl, um cigarro de fumo preto sem filtro e com um cheiro horrível, outro dos motivos de queixa da mãe dele contra o filho decepcionante.

É sempre tentador pensar no que poderia ter acontecido se... Em geral, é um exercício frívolo porque o que poderia ter sido é o maior dos mistérios. Mas é talvez exato dizer que, se Miller não estivesse com o rádio ligado naquela noite, não teria encostado o carro ao lado da estrada pelo espaço de meia hora. Não teria ouvido a ambulância, não teria sabido de Salomon Tauber ou Eduard Roschmann e, provavelmente, quarenta meses depois, a república de Israel teria deixado de existir. Acabou de fumar o cigarro ainda escutando o rádio, abaixou a vidraça e jogou a ponta fora. Ao toque de um botão, o motor de 3,8 litros sob o longo capô inclinado do Jaguar XK 150 S roncou forte e acomodou-se ao seu rugido habitual e reconfortante como um animal zangado que tenta sair de uma jaula. Miller ligou os dois faróis, olhou para trás e entrou no trânsito cada vez mais intenso da Estrada de Osdorf. Tinha chegado ao sinal da Stresemann Strasse e estava parado diante do sinal vermelho quando ouviu o barulho da ambulância atrás dele. Esta passou por ele à esquerda, com o gemido da sirene subindo e descendo, diminuiu um pouco a marcha antes de entrar no cruzamento avançando o sinal vermelho, atravessar à frente de Miller e descer para a direita, entrando em Daimler Strasse. Miller teve uma reação exclusivamente reflexa. Embreou o carro e o Jaguar arrancou atrás da ambulância com vinte metros de diferença. Logo depois de fazer isso, achou que talvez tivesse sido melhor ir diretamente para casa. Não devia ser nada, mas nunca se sabia. Ambulâncias significam problemas e os problemas poderiam significar uma boa reportagem, principalmente quando se era o primeiro a chegar ao local e tudo poderia estar resolvido antes que os repórteres dos jornais chegassem. Podia ser um grande desastre de carros, um grande incêndio no porto ou uma casa de cômodos em chamas com crianças presas lá dentro. Podia ser qualquer coisa. Miller levava sempre uma pequena Yashica com apêndice de flash no porta-luvas do carro porque nunca se sabia o que ia acontecer bem debaixo dos olhos. Conhecia um homem que estava esperando um avião no aeroporto de Munique no dia 6 de fevereiro de 1958 quando o avião que levava a equipe de futebol inglesa do Manchester Uníted caiu a al gumas centenas de metros do lugar onde ele estava. O homem não era sequer um fotógrafo profissional, mas tirou do ombro a máquina que estava levando para as suas férias de esquiagem e bateu as primeiras fotos exclusivas do avião em chamas. As revistas ilustradas tinham-lhe pago 5.0 libras por elas. A ambulância entrou pelo labirinto de ruas pequenas e miseráveis de Altona, deixando a estação de estrada de ferro de Altona à esquerda e tomando o rumo do rio.

Quem estava dirigindo aquela ambulância Mercedes de nariz chato e carroçaria alta conhecia Hamburgo muito bem e sabia guiar. Mesmo com a sua maior aceleração e a sua suspensão ajustada, Miller sentia as rodas traseiras do Jaguar derraparem nas pedras da calçada, molhadas pela chuva. Miller viu passar por ele o depósito de peças de carros de Menck e, duas ruas depois, a sua pergunta original teve uma resposta. A ambulância entrou por uma rua pobre, mal iluminada e triste sob a chuva oblíqua, marginada de velhos pardieiros e casas de cômodos. Parou diante de uma delas, onde já estava uma viatura da polícia, com a luz azul do alto a girar lançando a sua claridade lívida através dos rostos dos curiosos agrupados em torno da porta. Um corpulento sargento de polícia Vestido de capa fez o grupo recuar e abrir espaço para a ambulância diante da porta. Aí a Mercedes parou. O motorista e o ajudante saltaram imediatamente e correram para a traseira e tiraram de lá uma padiola vazia. Depois de trocar breves palavras com o sargento, os dois subiram às pressas. Miller parou o Jaguar junto ao meio-fio do outro lado a cerca de vinte metros de distância e franziu as sobrancelhas. Nem desastre, nem incêndio, nem crianças presas. Talvez um ataque cardíaco apenas. Saiu do carro e se aproximou do grupo que o sargento estava mantendo a distância num semicírculo em torno da porta da casa de cômodos a fim de dar um espaço livre até à traseira da ambulância. - Posso subir? - perguntou Miller. - Claro que não. Não tem nada que fazer lá em cima.

- Imprensa, - disse Miller, exibindo sua carteira de jornalista da Prefeitura de Hamburgo. - Que tem isso? - exclamou o sargento. - Ninguém sobe. A escada é muito estreita e não lá muito segura. O pessoal da ambulância já vai descer e isso poderia atrapalhar. Era um homem enorme, como tinha de ser um sargento de polícia nos distritos de má fama de Hamburgo. Devia ter um metro e noventa e, metido na capa com os braços abertos para afastar os curiosos, parecia tão intransponível quanto uma porta sólida bem trancada. - Que é que há? - perguntou Miller.

- Não posso fazer declarações. Passe pela delegacia para se informar. Um homem em trajes civis desceu da casa e apareceu na calçada. A luz que girava no alto do Volkswagen de patrulha bateu-lhe no rosto e Miller reconheceu-o. Tinham feito o curso juntos na Escola Secundária Central de Hamburgo. Era agora detetive da polícia de Hamburgo, estacionado na Chefatura de Altona. - Alô, Karl. O jovem detetive se voltou ao ouvir seu nome e correu os olhos pelo grupo atrás do sargento.

Na passagem seguinte do farol giratório do carro da polícia, avistou Miller e levantou em saudação a mão direita. O rosto se abriu num sorriso em que havia tanto prazer quanto exasperação. Disse então ao sargento: - Está certo. Ele é mais ou menos inofensivo. O sargento baixou o braço e Miller se apressou em passar. Apertou a mão de Karl Brandt. - Que é que está fazendo aqui? - Segui a ambulância.

- O velho instinto do abutre. Que é que está fazendo agora? - O mesmo de sempre. Jornalismo avulso. - E vai indo muito bem, ao que tudo indica. Vejo sempre seu nome nas revistas.

- Já. Que coisa, hem? Devem estar virando Dallas pelo avesso esta noite. Felizmente não é no meu distrito. Miller apontou com um gesto de interrogação para as escadas mal iluminadas da casa de cômodos onde uma lâmpada fraca e sem abajur lançava uma claridade amarela sobre o papel de parede meio despregado. - Suicídio. Gás. Os vizinhos sentiram o cheiro e chamaram a polícia. Foi uma felicidade ninguém se ter lembrado de riscar um fósforo. - Não foi uma estrela de cinema, foi?

- Claro, elas sempre vivem em lugares assim. Não, foi um velho. Parecia já estar morto desde muitos anos. Há um caso destes quase todas as noites. - Bem, o lugar para onde ele foi não pode ser pior do que este em que vivia. O detetive teve um breve sorriso e se voltou ao ver os dois homens da ambulância que desciam os sete últimos degraus da escada rangedora e chegavam à entrada com a sua carga. Brandt virou-se para o sargento. - Abra um pouco de espaço para eles passarem. O sargento obedeceu próntamente e fez o grupo de curiosos recuar ainda mais. Os dois homens da ambulância saíram para a calçada e deram a volta para as portas abertas da Mercedes. Brandt se guiu-os, acompanhado de Miller. O repórter não queria de modo algum ver o morto. Estava apenas seguindo Brandt.

Quando os homens da ambulância chegaram às portas do veículo, um deles encaixou as duas pontas da padiola nos trilhos que havia lá dentro e o segundo se preparou para empurrá-la. - Esperem, - disse Brandt, levantando a ponta da manta que cobria o rosto do morto. Disse por cima do ombro. - É apenas uma formalidade. Tenho que dizer no meu relatório que acompanhei o corpo até à ambulância e, depois, até ao necrotério.

As luzes do interior da ambulância eram fortes e Miller conseguiu ver pelo espaço de dois segundos o rosto do suicida. A impressão que teve foi de que nunca vira nada mais velho e horrível. Ainda que se levassem em conta os efeitos do gás, as manchas da pele e o tom azulado dos lábios, o homem não devia ter sido uma beleza quando estava vivo. Alguns fios de cabelo estavam colados à cabeça quase calva. Os olhos estavam fechados. O rosto se mostrava encovado até à emaciação e, devido à falta da dentadura, as faces estavam chupadas para dentro como se quase se tocassem lá dentro, dando-lhe o aspecto de um duende num filme de horror. Os lábios azulados quase não existiam e estavam ambos sulcados de fendas verticais, fazendo Miller lembrar-se de uma caveira encolhida da bacia do Amazonas que vira certa vez, com os lábios cosidos pelos índios. Para completar o efeito, o homem parecia ter duas cicatrizes brancas e irregulares que lhe desciam pelo rosto, partindo ambas da têmpora ou do alto da orelha até ao canto da boca. Depois de um breve olhar, Brandt tornou a cobrir o rosto com a manta e fez um sinal para o servente da ambulância que estava atrás dele. Recuou enquanto o homem empurrava a padiola, trancava as portas e voltava para a frente a fim de sentar-se ao lado do companheiro. A ambulância partiu e a multidão começou a dispersar-se, acompanhada pelas exclamações do sargento: - Pronto, acabou tudo. Não têm mais nada para ver. Por que não vão para casa? Miller olhou para Brandt e arqueou as sobrancelhas. - Encantador. - É verdade. Pobre coitado. Para você, não há nada, não é mesmo? Miller parecia decepcionado. - Claro. Como você diz, há um caso assim todas as noites. Muita gente está morrendo no mundo esta noite e ninguém está-se importando na mesma ocasião em que Kennedy está morto. O detetive Brandt riu zombeteiramente. - Vocês, jornalistas, são incorrigíveis. - A verdade é que todo o mundo quer saber é de Kennedy e é por isso que compra os jornais. - Está bem. Tenho de voltar para a delegacia. Adeus, Peter. Apertaram-se as mãos de novo e despediram-se. Miller voltou de carro até à estação de Altona, tomou a estrada principal para o centro da cidade e, vinte minutos depois, deixava o Jaguar na garagem subterrânea perto da Praça Hansa, a duzentos metros do edifício onde ficava o seu apartamento de cobertura. Era caro guardar o carro numa garagem subterrânea durante todo o inverno, mas era uma das extravagâncias que ele se permitia.

Gostava do seu apartamento caro porque ficava bem alto e de lá ele podia olhar para o movimentado bulevar de Steindamm. Não ligava muito a roupas e a comida e, de qualquer maneira, tendo vinte e nove anos, boa altura, cabelos castanhos crespos e os olhos castanhos que as mulheres apreciam, não tinha muita necessidade de roupas caras. Um amigo invejoso tinha-lhe dito uma vez: "Você é capaz de fazer freiras fugirem do convento". Ele tinha rido, mas ficara satisfeito porque sabia que era verdade.

A verdadeira paixão de sua vida eram carros esporte, a reportagem e Sigrid, embora ele às vezes reconhecesse, intimamente envergonhado, que se tivesse de decidir entre Sigi e o Jaguar, Sigi teria de ir procurar o seu amor em outro lugar. Depois de estacionar o Jaguar, saltoú e olhou para ele à luz da garagem. Não se cansava de olhar para o carro. Ainda quando se aproximava dele no meio da rua, parava a fim de admirá-lo, de vez em quando em companhia de alguém que passava e que, sem saber que ele era de Miller, lhe dizia: "Belo carro, hem?" Normalmente, um jovem repórter avulso não pode dirigir um Jaguar XK 150 S. Era quase impossível conseguir peças em Hamburgo, tanto mais que a produção da série XK, da qual o modelo S fora o último feito, tinha cessado em 1960. Fazia pessoalmente a manutenção, passando horas aos domingos deitado de macacão embaixo do chassi ou curvado sobre o motor. A gasolina especial que o motor usava lhe pesava no bolso, mais ainda porque os preços da gasolina eram muito altos na Alemanha, mas ele pagava sem reclamar. A recompensa era ouvir o ronco furioso das descargas quando ele pisava no acelerador na autohalin desimpedida e sentir o arranco do carro quando ele saía de uma curva numa estrada de montanha. Tinha mesmo apertado a suspensão nas duas rodas dianteiras e, como o carro tinha suspensão independente atrás, dobrava as esquinas firme como uma rocha, deixando os outros motoristas a rolar nas molas de seus bancos quando tentavam acompanhá-lo. Logo depois de comprá-lo, tinha mandado pintá-lo de preto com um longo filete amarelo embaixo de cada lado. Desde que fora feito em Coventry, na Inglaterra, e não era um carro de exportação, a direção era do lado direito, o que lhe causava de vez em quando um problema nas ultrapassagens, mas lhe permitia mudar de marcha com a mão esquerda enquanto segurava a direção com a direita, o que tinha vindo a preferir. Ainda quando pensava na maneira pela qual o comprara, admirava-se de sua sorte. No começo daquele verão, folheava sem muito interesse numa barbearia uma revista de música pop enquanto esperava a sua vez de cortar o cabelo. Não tinha hábito de coisas sobre cantores ou músicas pop, mas não havia outra disponível. A página central falava da ascensão meteórica ao estrelato e à fama internacional de quatro jovens cabeludos ingleses.

O rosto no canto direito da página, o do camarada com o nariz grande, nada significava para ele, mas os outros três lhe despertaram um eco na memória. Os nomes dos dois discos que tinham levado o quarteto às culminâncias, Please Please Me e Love Me Do nada significavam também para ele, mas aqueles três rostos o intrigaram durante dois dias: Lembrou-se então deles, cantando dois anos antes, no começo de 1961, no show de um pequeno clube da Reeperbahn. Levou mais um dia para lembrar-se do nome do clube, pois só passara por ali daquela vez para conversar com um elemento do mundo do crime de quem ele precisava de informações a respeito da quadrilha Sankt Pauli. Era o Star Club. Foi até lá, verificou a escrita e descobriu-os. Eram cinco então, os três que ele reconhecera e mais dois, Pete Best e Stuart Sutcliffe. Saindo dali, foi procurar o fotógrafo que fizera as fotos de publicidade para o empresário Bert Kaempfért e comprara os direitos de todas as fotos que ele tinha. A sua reportagem intitulada "Como Hamburgo Descobriu os Beatles" tinha sido publicada em todas as revistas de música pop da Alemanha e em muitas do estrangeiro. Com o dinheiro que ela lhe rendera, havia comprado o Jaguar que vira num vendedor de carros, o qual o comprara de um oficial do exército inglês, cuja mulher estava grávida a um ponto que não podia mais entrar nele. Comprara ainda em sinal de gratidão alguns discos dos Beatles, mas só quem os tocava era Sigi. Deixou o carro na, garagem subterrânea, subiu a rampa até à rua e foi para o seu apartamento. Era quase meia-noite e, embora a mãe lhe tivesse dado às seis horas a refeição copiosa que preparava sempre quando ele ia visitá-la, estava com fome. Preparou um prato de ovos mexidos e escutou o último boletim de notícias. Só falava de Kennedy e era fortemente inclinado para o lado alemão, desde que não havia muitas notícias mais vindas de Dallas. A polícia ainda estava procurando o assassino. O speaker se estendeu muito nos comentários a respeito da amizade de Kennedy à Alemanha, de sua visita a Berlim no verão anterior e de sua afirmação em alemão: "Ich bin ein Berliner". Havia uma declaração gravada do Prefeito de Berlim Ocidental, Willy Brandt, cuja voz estava trêmula de emoção, e do ex-Chanceler Konrad Adenauer, que se havia afastado do cargo a 15 de outúbro último. Peter Miller desligou e foi para a cama. Desejou que Sigi estivesse em casa porque ele sempre gostava de se aconchegar a ela quando se sentia deprimido e, depois, ele ficava com vontade e os dois se amavam, depois do que ele caía num pesado sono sem sonhos, coisa que muito afligia Sigi, pois era sempre depois que fazia amor que ela mais gostava de conversar sobre casamento e sobre filhos.

Mas o clube em que ela dançava só se fechava quase às quatro da madrugada, podendo até fechar-se mais tarde nas noites de sexta-feira, quando provincianos e turistas enchiam a Reeperbahn e estavam sempre dispostos a pagar um champanha dez vezes mais caro a qualquer mulher que tivesse seios grandes e decote baixo. E Sigi era quem tinha seios maiores e decotes mais baixos. Assim, fumou mais um cigarro e adormeceu sozinho a um quarto para as duas, sonhando então com o rosto horrendo do velho que se suicidara com gás nos pardieiros de Altona. Enquanto Peter Miller estava comendo os seus ovos mexidos à meia-noite em Hamburgo, cinco homens estavam sentados bebendo na confortável sala-de-estar de uma casa anexa a uma escola de equitação perto das Pirâmides, nos arredores do Cairo. A hora ali era uma da madrugada. Os cinco homens tinham jantado bem e tinham uma disposição jovial, causada pela notícia de Dallas que tinham ouvido quatro horas antes. Três dos homens eram alemães e os outros dois, egípcios. A mulher do dono da casa e proprietário da escola de equitação, que era um ponto de encontro favorito da melhor sociedade do Cairo e da colónia alemã de vários milhares de pessoas, tinha ido dormir, deixando os cinco homens empenhados em conversa até à madrugada. O homem que estava sentado na poltrona de couro ao lado da janela com as persianas descidas era Peter Bodden, que tinha sido perito em assuntos judaicos no Ministério da Propaganda Nazista do Dr. Joseph Goebbels. Vivendo no Egito desde pouco depois de terminada a guerra e com a sua fuga providenciada pela Odessa, Bodden tinha adotado o nome egípcio de El Gumrd e trabalhava como perito sobre judeus no Ministério da Orientação do Egito. Tinha na mão um copo de uísque. À sua esquerda, estava outro ex-perito do estado-maior de Goebbels, Max Bachmann, que também trabalhava no Ministério da Orientação. Tinha-se convertido à fé muçulmana, fizera uma viagem a Meca e era chamado El Hadj. Em deferência à sua nova religião, tinha na mão um copo de suco de laranja. Os dois homens tinham sido e ainda eram nazistas fanáticos. Os dois egípcios eram o Coronel Chams Edine Badrane, ajudante-de-ordens do Marechal Abedel Hakim Amer, que seria depois Ministro da Defesa do Egito antes de ser condenado à morte por traição depois da Guerra dos Seis Dias em 1967. O Coronel Badran estava destinado a perder o prestígio com ele. O outro era o Coronel Ali Samir, chefe do Moukhabarat, o serviço secreto egípcio.

Tinha havido outra pessoa presente ao jantar, o convidado de honra, que tinha voltado às pressas para o Cairo, quando chegou a notícia às nove e meia, hora do Cairo, de que o Presidente Kennedy fora morto. Era o presidente da Assembléia Nacional do Egito, Amuar Al Sadat, colaborador muito próximo do Presidente Nascer e que depois seria seu sucessor. Peter Bodden levantou o copo. - Kennedy, amigo dos judeus, está morto. Bebamos à saúde disso.

- Mas nossos copos estão vazios, - protestou o Coronel Samir. O dono da casa se apressou em dar um jeito nisso, enchendo os copos vazios com uma garrafa de scotch no bufê ao lado. A referência a Kennedy como amigo dos judeus não causou estranheza a nenhum dos homens presentes na sala. No dia 14 de março de 1960, quando Dwight Eisenhower ainda era Presidente dos Estados Unidos, o Primeiro-Ministro de Israel, David BenGurion, e o Chanceler da Alemanha, Konrad Adenauer, tinham-se encontrado secretamente no Hotel Waldorf-Astoria, em Nova York, uma reunião que dez anos antes seria considerada impossível. O que se considerava impossível mesmo em 1960 foi o que aconteceu nessa reunião e foi esse o motivo pelo qual os detalhes da mesma levaram anos para transpirar e pelo qual, mesmo em fins de 1963, o Presidente Nascer não quis levar a sério a informação que a Odessa e o Moukhabarat puseram em sua mesa. Os dois estadistas haviam assinado um acordo pelo qual a Alemanha Ocidental concordou em abrir a Israel um crédito de cinqüenta milhões de dólares por ano livres de quaisquer condições. Ben-Gurion logo descobriu, porém, que ter dinheiro era uma coisa e ter uma fonte de armas segura e certa era outra. Seis meses depois, o acordo do Waldorf foi completado por outro, assinado entre os ministros da Defesa da Alemanha e de Israel, Franz-Josef Strauss e Shimon Peres. Segundo as suas condições, Israel poderia usar o dinheiro alemão para comprar armas na Alemanha. Adenauer, ciente da natureza muito mais discutível do segundo acordo, adiou a decisão durante meses até que, em novembro de 1961, chegou a Nova York a fim de conferenciar com o novo presidente, John Fitzgerald Kennedy. Este fez pressão. Não queria uma entrega direta de armas dos Estados Unidos a Israel, mas desejava que as mesmas chegassem de qualquer maneira lá. Israel precisava de aviões de caça e de transporte, obuses, peças de artilharia de 105 m, carros blindados, viaturas blindadas de transporte de pessoas e tanques, principalmente tanques.

A Alemanha tinha tudo isso, principalmente de fabricação americana, ou comprado aos Estados Unidos para contrabalançar as despesas de manutenção de tropas americanas na Alemanha dentro do acordo da OTAN ou fabricado na Alemanha sob regime de licenciamento. Sob a pressão de Kennedy, o acordo Strauss-Peres foi fechado. Os primeiros tanques alemães começaram a chegar a Haifa em fins de junho de 1963. Era difícil manter a notícia secreta por muito tempo; havia gente demais envolvida. A Odessa descobriu tudo em fins de 1962 e informou prontamente os egípcios com os quais seus agentes no Cairo tinham contato muito estreito. Em fins de 1963, as coisas começaram a mudar. No dia 15 de outubro, Konrad Adenauer, a Raposa de Bonn, o Chanceler de Granito, renunciou e afastou-se da política. O lugar de Adenauer foi tomado por Ludwig Erhard, muito simpático aos eleitores como o pai do milagre econômico alemão, mas fraco e vacilante em matéria de política externa. Ainda quando Adenauer estava no poder, havia um grupo dentro do gabinete da Alemanha Ocidental explicitamente favorável ao arquivamento da transação de armas com Israel e à suspensão das remessas antes mesmo que começassem. O velho Chanceler reduzira-os ao silêncio com algumas palavras enérgicas e o grupo ficara calado. Erhard era um homem bem diferente e por isso mesmo ganhara o apelido de Leão de Borracha. Logo que ele assumiu o cargo, o grupo contrário à transação das armas, concentrado no Ministério do Exterior sempre empenhado em manter excelentes relações com o mundo árabe e em melhorá-las, entrou de novo em ação. Erhard vacilou. Mas por trás de tudo estava a determinação de John Kennedy de que Israel devia conseguir suas armas por intermédio da Alemanha. E então ele fora assassinado. A grande questão na madrugada de 23 de novembro era simplesmente essa: iria o Presidente Lyndon Johnson atenuar a pressão americana sobre a Alemanha e deixar o indeciso chanceler de Bonn cancelar a transação? Na realidade, ele não fez isso, mas foram grandes as esperanças no Cairo de que o fizesse. O dono da casa na reunião amistosa nos arredores do Cairo naquela noite, depois de encher o copo de seus hóspedes, voltou-se para o bufê a fim de encher o seu. Era ele Wolfgang Lutz, nascido em Mannheim em 1921, ex-major do exército alemão e inimigo fanático dos judeus, que emigrara para o Cairo em 1961 e ali fundara a sua academia de equitação. Louro, de olhos azuis e perfil aquilino, gozava de muito prestígio não só nos círculos políticos do Cairo mas também na comunidade de exilados alemães, principalmente nazistas, às margens do Nilo.

Virou-se para a sala e deu a todos um amplo sorriso. Se havia alguma coisa falsa naquele sorriso, nenhum deles notou. Mas o sorriso era falso. Ele nascera em Mannheim, mas emigrara para Israel em 1933, aos doze anos de idade. O nome dele era Zeev e ele tinha o posto de RavSeren (major) no exército israelense. Era também naquela época o mais alto agente do serviço secreto israelense no Egito. No dia 28 de fevereiro de 1965, depois de uma batida em sua casa, durante a qual um transmissor de rádio foi descoberto na balança do banheiro, foi preso. Julgado a 26 de junho de 1965, foi condenado à prisão perpétua com trabalhos forçados. Libertado depois da guerra de 1967 como parte de uma troca contra milhares de egípcios prisioneiros de guerra, ele e sua mulher pisaram de novo o solo da pátria no aeroporto de Lod a 4 de fevereiro de 1968. Mas, na noite em que Kennedy morreu, tudo isso ainda pertencia ao futuro, a prisão, as torturas, o estupro múltiplo de sua mulher. Ergueu o copo para os quatro rostos sorridentes à sua frente. Na realidade, estava ansioso para que os convidados saíssem, porque uma coisa que um deles tinha dito durante o jantar era de importância vital para seu país e ele queria, desesperadamente ficar sozinho, ir para o banheiro, tirar o transmissor da balança do banheiro e mandar uma mensagem para Tel Aviv. Mas se forçou a continuar sorrindo. - Morram os amigos dos judeus! - disse ele num brinde. - Sieg Heil. Peter Miller acordou pouco antes das nove na manhã seguinte e virou o corpo voluptuosamente sob o enorme edredom que cobria a cama de casal. Ainda meio sonolento, sentiu o calor do corpo de Sigi estendido na cama e, por puro reflexo, aproximou-se, de modo que as nádegas dela se lhe acomodaram na base do estômago. Começou a ter automaticamente uma erecção. Sigi, ainda ferrada no sono depois de apenas quatro horas na cama, resmungou aborrecida e se deslocou mais para a beira da cama. - Chegue para lá, - murmurou ela, sem acordar. Miller deu um suspiro, virou o corpo e levantou o relógio para vê-lo na penumbra do quarto. Saiu então da cama pelo outro lado, enrolou uma toalha de banho pelo meio do corpo e foi descalço até à sala a fim de levantar as persianas. A luz metálica de novembro invadiu a sala, fazendo-o piscar os olhos. Concentrou a vista e olhou para o Steindamm.

Era uma manhã de sábado e o tráfego era leve pelo asfalto escuro e molhado. Bocejou e foi até à cozinha a fim de preparar a primeira de inúmeras xícaras de café.

Tanto a mãe quanto Sigi censuravam que ele se sustentasse quase exclusivamente de cigarros e café. Enquanto tomava o café e fumava o primeiro cigarro do dia na cozinha, ficou pensando se havia alguma coisa especial que ele tivesse de fazer naquele dia e chegou à conclusão de que não havia. Em primeiro lugar, todos os jornais e as próximas edições das revistas tratariam quase exclusivamente do Presidente Kennedy durante dias ou talvez semanas. Depois, não havia qualquer reportagem especial de que ele estivesse cuidando na ocasião. Além disso, o sábado e o domingo são dias em que só dificilmente se poderia pegar alguém no escritório e não havia quem gostasse de ser incomodado em casa. Concluíra pouco antes uma série de boa repercussão sobre a constante infiltração de gangsters austríacos, parisienses e italianos na verdadeira mina de ouro que era a Reeperbahn, uma extensão de um quilômetro em Hamburgo de clubes noturnos, bordéis e vício, e ainda não recebera um tostão de pagamento. Pensou em cobrar da revista que havia comprado a série, mas desistiu. Pagariam no devido tempo e ele não estava precisando de dinheiro no momento. De fato, o demonstrativo de sua conta bancária que chegara três dias antes mostrava que ele tinha um saldo de 5.0 marcos, o que lhe daria para viver durante algum tempo. - O problema que há com você hoje, camarada, - disse ele para o seu reflexo nas panelas bem areadas de Sigi enquanto lavava a xícara de café na pia, - é simplesmente preguiça. Uma vez, um oficial lhe perguntara ao fim de seu serviço militar, dez anos antes, o que ele pretendia ser na vida. "Um rico ocioso", tinha respondido e, aos vinte e nove anos, embora não tivesse conseguido isso e não visse muita probabilidade de conseguilo, continuava a julgar a sua ambição perfeitamente legítima. Levou o rádio de pilha para o banheiro, fechou a porta para não incomodar Sigi e escutou onoticiário enquanto tomava um banho de chuveiro e fazia a barba. O ponto mais importante era que um homem fora preso pelo assassinato do Presidente Kennedy. Como ele esperava, não havia outras notícias além das relacionadas com a morte de Kennedy. Depois de se enxugar, voltou à cozinha e fez mais café, dessa vez duas xícaras. Levou-as para o quarto, colocou-as na mesinha de cabeceira, tirou o robe e tornou a se deitar sob o edredom ao lado de Sigi, cuja cabeça loura emergia pousada no travesseiro. Sigi tinha vinte e dois anos e na escola secundária se distinguira como campeã de ginástica, podendo facilmente chegar a ter categoria olímpica se os seios não se tivessem desenvolvido tanto que, por fim, não houve mais jeito de contê-los dentro de um maiô. Quando deixou a escola, foi ser professora de educação física numa escola de moças.

Um ano depois, deixara o cargo para ser dançarina de striptease pela mais simples e melhor das razões econômicas. O salário era cinco vezes melhor do que o de professora. Apesar de sua ausência de constrangimento em tirar as roupas até ficar nua em pêlo num clube noturno, sentia-se terrivelmente envergonhada quando ouvia algum comentário obsceno sobre o seu corpo feito por alguém a quem ela pudesse ver. - O que acontece, - dissera ela um dia muito séria ao atônito Peter Miller,

- é que quando eu estou no palco, não vejo ninguém além das luzes e, por isso, não fico envergonhada. Se eu pudesse ver o público, sairia do palco às carreiras. Isso não a impedia de tomar mais tarde o seu lugar numa das mesas quando estava novamente vestida e esperar que um dos fregueses a convidasse para beber alguma coisa. A única bebida permitida era champanha em meias-garrafas ou, de preferência, garrafas inteiras. Recebia por elas uma comissão de 15%. Embora quase sem exceção os fregueses que a convidavam para tomar champanha esperassem conseguir muito mais do que contemplar durante uma hora em atônita admiração o desfiladeiro profundo entre os seus seios, jamais o conseguiam. Era bondosa e compreensiva e sua atitude para com as atenções inequívocas dos fregueses era de delicada compaixão e não de desprezo e de ódio como a que as outras escondiam sob os seus sorrisos de néon. - Tenho tanta pena desses pobres homens! - dissera ela uma vez a Miller. - Deviam ter uma boa mulher em casa. Pobres homens coisa nenhuma, - protestava Miller. - São um punhado de devassos que não sabem o que fazer com o dinheiro que têm nos bolsos. - Bem, não estariam nessa situação se tivessem uma boa mulher para tomar conta deles, - replicara Sigrid e isso, dentro de sua lógica feminina, era irrespondível. Miller a conhecera por acaso numa visita ao bar de Madame Kokett, logo abaixo do Café Keese na Reeperbahn, quando tinha ido ter uma conversa e tomar um gole com o proprietário, que era velho amigo e contato seu. Era uma pequena muito alta e com uma corpulência correspondente à altura e que seria desproporcionada numa mulher mais baixa. Ela tirou as peças de roupa com os habituais gestos supostamente sensuais e ao compasso da música, com o ar levemente surpreso de todas as dançarinas de strip. Miller já estava farto de ver tudo isso e continuou a bebericar sem demonstrar maior interesse. Mas quando ela tirou o soutien, teve de parar e olhar com o copo a meio caminho da boca. O proprietário olhou-o ironicamente. - Um pedaço, hem?

Miller teve de reconhecer que ela realmente fazia as pequenas escolhidas por Playboy como o Corpo-do-Mês parecerem casos perdidos de subnutrição. E ela tinha músculos tão firmes que o busto se estendia para fora e para cima sem um só vestígio de apoio. Ao fim do número, quando os aplausos começaram, a moça deixou a sua pose meio entediada de dançarina profissional, fez uma reverência ao público e deixou o rosto abrir-se num sorriso satisfeito como o de alguém que, contra toda a expectativa, conseguiu uma coisa difícil. Foi o sorriso que encantou Miller, não a dança, nem o corpo. Perguntou se ela poderia tomar um drinque com ele e o proprietário mandou chamá-la. Desde que Miller estava em cómpanhia do patrão, ela evitou uma garrafa de champanha e pediu um gin fizz. Com surpresa, Miller descobriu que ela era uma pessoa de convívio muito agradável e perguntou se podia levá-la para casa depois do show. Ela aceitou com evidentes reservas. Fazendo o seu jogo friamente, Miller não teve um só gesto equívoco para com ela naquela noite. Era no começo da primavera e ela saiu do cabaré quando este se fechou com um casaco de lã que nada tinha de elegante, fazendo-o presumir que aquilo era intencional. Tomaram um café juntos e conversaram. Ela abandonou toda a sua tensão anterior e se mostrou muito alegre e divertida. Miller ficou sabendo que ela gostava de música pop, de pintura, de passeios pelas margens do Alster, do trabalho de casa e de crianças. Depois disso, começaram a sair juntos na única noite de folga que ela tinha por semana. Ele a levava para jantar ou para algum espetáculo, mas sem levá-la para a cama. Ao fim de três meses, dormiram juntos e Miller sugeriu depois que ela se mudasse para o apartamento dele. Com sua atitude de firmeza em relação às coisas importantes da vida, Sigi havia chegado à decisão de que queria casar-se com Peter Miller e o único problema era saber se podia chegar a esse fim dormindo na cama dele ou não. Notando a capacidade que ele tinha de colocar outras pequenas na outra metade da cama quando houvesse necessidade, ela decidiu mudar-se para o apartamento e tornar a vida dele tão confortável que ele quisesse casar-se com ela. Naquele fim de novembro, fazia seis meses que moravam juntos. O próprio Miller, que não estava muito habituado aos confortos do lar, teve de reconhecer que ela sabia tomar conta de uma casa e fazia amor com um prazer sadio e enérgico. Nunca falava diretamente em casamento, mas tentava transmitir a sua mensagem de outras maneiras. Miller fingia não perceber. Quando passeavam ao sol pelo lago do Alster, ela fazia às vezes amizade com um garotinho, sob os olhos benévolos dos pais.

- Não é um anjo, Peter? - É, sim, maravilhoso, - resmungava Peter. Depois disso, ela lhe dava um gelo durante uma hora por não haver querido aceitar a insinuação. Mas eram felizes juntos, especialmente Peter Miller, para quem a situação tinha todos os confortos do casamento e os deleites do amor regular sem os laços conjugais. Bebendo metade de seu café, Miller se meteu na cama e pôs os braços em torno dela por trás, acariciando-a delicadamente entre as pernas, o que ele sabia que iria acordá-la. Ao fim de alguns minutos, ela começou a dar murmúrios de prazer e rolou o corpo para ficar deitada de costas. Ainda massageando-a, ele se curvou e começou a beijar-lhe os seios. Como se ainda estivesse dormindo, Sigi emitiu uma série de longos gemidos e começou a mover languidamente as mãos pelas costas e pelas nádegas de Miller. Dez minutos depois, faziam amor, gritando e tremendo de prazer. - É uma maneira infernal de acordar alguém, - murmurou ela depois.

- Há maneiras piores, - disse Miller. - Que horas são?

- Quase meio-dia, - disse Miller mentindo, sabendo que ela jogaria alguma coisa nele se soubesse que eram apenas dez e meia e ela não tivera mais de cinco horas de sono. - Não tem importância. Durma mais um pouco, se ainda estiver com sono. - Humm. Muito obrigada, querido, você é tão bonzinho comigo, - disse Sigi e pegou no sono outra vez. Miller estava a caminho do banheiro depois de ter bebido o resto de seu café e o de Sigi também, quando o telefone tocou. Foi até à sala e atendeu. - Peter?

- Sim, quem é?

- Karl. A cabeça ainda estava meio confusa e ele não reconheceu a voz. - Karl? A pessoa estava impaciente. - Karl Brandt. Que é que há? Está dormindo ainda? Miller se recobrou.

- Claro, Karl. Desculpe. É que me levantei agora. Alguma novidade?

- Escute, é a respeito daquele judeu que morreu. Preciso falar com você. Miller não entendia nada. - Que judeu?

- O que se suicidou com gás ontem à noite em Altóna. Não se lembra mais? - Claro que me lembro da noite passada. Não sabia é que era judeu. Que é que há com ele? - Quero conversar com você, - disse o detetive da polícia. - Mas não pelo telefone. Não nos podemos encontrar? O espírito de repórter de Miller engrenou imediatamente. Qualquer pessoa que tivesse alguma coisa para dizer mas não quisesse falar pelo telefone devia julgar a coisa da maior importância. No caso de Brandt, era difícil imaginar que um homem da polícia fosse mostrar tantas precauções em torno de alguma insignificância. - Claro, - disse ele pelo telefone. - Pode almoçar comigo? - É possível, - disse Brandt.

- O homem da noite passada

- Ótimo. Pago o almoço se você acha que é alguma coisa que valha a pena. Marcou encontro num pequeno restaurante no Mercado do Ganso, à uma hora da tarde, e desligou. Ainda estava meio desconcertado, pois não podia perceber interesse algum no suicídio de um velho, judeu ou não, num pardieiro de Altona. Durante o almoço, o jovem detetive pareceu evitar o assunto que servira de motivo para o encontro, mas na hora do café disse simplesmente: - Sim, - disse Miller. - Que é que há com ele?

- Você deve ter ouvido, como todos nós, o que os nazistas fizeram com os judeus durante a guerra e antes dela? - É claro. Meteram-nos essas coisas pela cabeça adentro na escola, não foi? Miller estava confuso e embaraçado. Como muitos jovens alemães, haviám-lhe ensinado na escola quando ele tinha nove ou dez anos que ele e o. resto de seus compatriotas tinham sido culpados de imensos crimes de guerra. Naquela época, aceitara tudo, sem ao menos saber de que se tratava. Mais tarde, tinha sido difícil apurar o que os professores tinham querido dizer no período imediatamente posterior à guerra. Não havia ninguém a quem se pudesse perguntar, ninguém que quisesse falar, nem os professores, nem os pais. Só ao chegar à idade adulta, pudera ler um pouco a esse respeito e, embora o que lesse o enchesse de desgosto, não podia achar que aquilo realmente lhe interessasse. Tinha sido outra época, outro lugar, tudo muito distante. Não estava presente quando aquelas coisas tinham acontecido, seu pai não estava presente, sua mãe não estava presente. Alguma coisa dentro dele lhe dizia que nada daquilo tinha qualquer relação com Peter Miller e ele não tinha querido saber de nomes, datas ou detalhes. Não sabia por que Brandt estava tocando no assunto.

Brandt mexia o café, sem saber como prosseguir. - O velho da noite passada era um judeu alemão, - disse ele afinal. - Esteve num campo de concentração. Miller pensou no cadáver que vira na padiola na noite anterior. Era assim que eles acabavam? Era ridículo. O homem devia ter sido libertado pelos Aliados dezoito anos antes e tinha vivido até morrer velho. Mas o rosto não lhe saía da lembrança. Nunca vira antes alguém que tivesse estado num campo, pelo menos tendo consciência disso. Do mesmo modo, nunca chegara a conhecer nenhum dos assassinos em massa das S, tinha certeza disso. Afinal de contas, tinha-se de perceber alguma coisa. O homem não podia deixar de ser diferente. Pensou então na publicidade que cercara o julgamento de Eichmann em Jerusalém dois anos antes. Os jornais tinham estado cheios disso durante muitas semanas. Lembrou-se do rosto do acusado dentro da sua cabina de vidro e de que a sua impressão na época tinha sido a de um rosto bem comum, acabrunhadoramente comum. Fora ao ler a cobertura jornalística do julgamento que ele tivera pela primeira vez a idéia de como as S tinham feito aquilo, sem que nada lhes acontecesse. Mas só se falava de coisas acontecidas na Polônia, na Rússia, na Hungria, na Checoslováquia, muito longe e havia muito tempo. Não era possível sentir que havia alguma coisa de pessoal. Voltou com os seus pensamentos ao presente e percebeu a nota de inquietação que havia nas palavras de Brandt. - Está muito bem. Que é que há? - perguntou ao detetive. Em resposta, Brandt tirou da pasta um embrulho e colocou-o em cima da mesa. - O velho deixou um diário. Na realidade, não era tão velho assim. Cinqüenta e seis anos. Parece que tomou notas na época e guardou-as nos panos que lhe envolviam os pés. Depois da guerra, reproduziu as notas. São elas que constituem o diário. Miller olhou com pouco interesse para o embrulho. - Onde foi que achou isso? - Estava ao lado do corpo. Peguei-o e levei-o para casa. Li-o ontem à noite. Miller olhou para o ex-colega. - Que tal? - Horrível. Eu não fazia idéia de que as coisas tivessem sido tão ruins, o que fizeram com eles. - Por que foi que me trouxe isso? Brandt pareceu embaraçado e encolheu os ombros. - Pensei que isso lhe poderia dar uma reportagem. - A quem pertence isso agora?

- Tecnicamente, aos herdeiros de Tauber. Mas nós nunca os encontraremos. Assim, creio que pertence ao Departamento de Polícia. Mas lá se limitariam a guardá-lo num arquivo. Pode ficar com ele, se quiser. Basta que não diga a ninguém quem foi que lhe deu o diário. Não quero problemas comigo na repartição. Miller pagou a conta e os dois saíram do restaurante. - Está bem. Vou ler a coisa. De qualquer maneira, não lhe prometo ficar entusiasmado. Pode ser que, ao fim de tudo, não dê mais que um artigo para uma revista. Brandt olhou-o com o esboço de um sorriso. - Você é um sujeito frio, hem? - Nada disso. O que acontece é que, como quase todo o mundo, o que me interessa é o que sucede aqui e agora. E você? Depois de dez anos na polícia, era de esperar que você fosse um tira duro e empedernido. Isto o arrasou, não foi mesmo? Brandt ficou sério. Olhou para o embrulho que Miller sobraçava e assentiu lentamente. - Foi, sim. Nunca pensei que tivesse sido tão ruim. E há mais uma coisa, nem tudo é história antiga. Esse caso terminou aqui em Hamburgo ontem à noite. Adeus, Peter. O detetive virou-se -e afastou-se, sem saber até que ponto estava errado.

29 I.

Peter Miller levou o embrulho para casa, e ali chegou pouco depois das três horas da tarde. Jogou o embrulho na mesa da sala e foi fazer um grande bule de café antes de sentar-se para ler. Abriu o embrulho sentado na sua poltrona favorita com uma xícara de café ao lado e um cigarro aceso. O diário era escrito em folhas soltas dentro de uma pasta de cartolina revestida de um plástico preto e presa na lombada por uma série de ganchos que permitiam extrair as folhas do livro ou inserir novas, caso fosse necessário. O conteúdo consistia em cento e cinqüenta páginas datilografadas, certamente batidas numa máquina muito velha, pois algumas letras estavam fora do alinhamento, ao pàsso que outras ou estavam defeituosas ou apagadas. A maioria das páginas pareciam ter sido escritas anos antes ou pelo espaço de alguns anos, desde que as páginas, embora cuidadas e limpas, tinham o amarelado inconfundível do papel velho. Mas no começo e no fim havia várias folhas novas, evidentemente escritas alguns dias antes. Havia um prefácio de algumas folhas novas no início e uma espécie de epílogo no fim. Uma verificação das datas do prefácio e do epílogo mostrava que ambos tinham sido escritos a 21 de novembro, dois dias antes. Miller supôs que o morto os escrevera depois de ter tomado a decisão de pôr termo à vida. Um rápido olhar a alguns dos parágrafos na primeira página surpreendeu-o, porque a linguagem era um alemão claro e preciso, indicando um homem com boa instrução e cultura. Do lado de fora, na capa, fora colado um quadrado de papel branco sob um quadrado maior de celofane a fim de conservá-lo limpo.

(Parte 1 de 4)

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