diamante

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Os gemólogos relacionam pureza à freqüência de inclusões estranhas e/ou microfraturas no interior do mineral hospedeiro. Conseqüentemente, quanto mais impuro for um mineral, maior será sua tendência à pulverização em um meio de transporte ativo como o fluvial ou marinho. Não é por acaso que 9% da areia de praia se constituem de quartzo, uma estrutura rígida formada por tetraedros de SiO2 (dióxido de silício). O caso do diamante é particularíssimo. Além de sua estabilidade química, sua resistência ao desgaste físico e a fortes variações de temperatura e pressão faz com que, após desprender-se de sua rocha-matriz original, ele tenda a permanecer no registro geológico. Uma população de diamantes ou outro mineral com características físicas ‘perfeitas’ deve, portanto, indicar, em termos estatísticos, uma longa e complexa história, na qual o material mais resistente ficou preservado.

rochas-fonte daquela província estªo relativamente próximas umas das outras, podendo os trabalhos de prospecçªo que vŒm sendo feitos levar à descoberta de aparelhos vulcânicos mineralizados.

A fonte dos diamantes da Serra do Espinhaço, porØm, estÆ em local distante, e os minerais encontrados resultam de sucessivos processos de erosªo, transporte e nova deposiçªo. Como a Ærea alimentadora da sedimentaçªo da bacia do Espinhaço ficava a oeste, onde se estende o crÆton do Sªo Francisco, presumese que as desconhecidas rochas primÆrias estariam nessa regiªo. A identificaçªo de tais fontes, no entanto, Ø uma tarefa difícil, pois a Ærea foi recoberta por sedimentos marinhos do chamado Grupo Bambuí em período geológico posterior, hÆ aproximadamente 900-550 milhıes de anos. Durante o transporte do mineral do crÆton atØ os sítios onde se encontra hoje, certas formas foram sendo selecionadas, e a populaçªo

À esquerda, topo da borda norte da Serra do Cabral, na região de Jequitaí (MG), com restos de um conglomerado diamantífero do Cretáceo Inferior. À direita, nas encostas da serra, garimpeiros exploram diamante de cristais de qualidade gemológica se multiplicou.

Como mostra a figura 3A, a intrusªo dos kimberlitos e lamproítos ocorreu antes da formaçªo da bacia do Espinhaço, em profundidades compatíveis com a curva de estabilidade das espØ- cies de carbono, grafita (G) e diamante (D). A erosªo das chaminØs (figura 3B) e o conseqüente assentamento de depósitos aluvionares perifØricos sªo atestados hoje pela presença de seixos de um conglomerado mais antigo dentro do Conglomerado Sopa. Com a implantaçªo da paleobacia do Espinhaço (figura 3C), ocorreu a primeira fase de deposiçªo dos diamantes, posteriormente redistribuídos na própria bacia atØ a formaçªo dos sedimentos fluviais que deram origem àquele conglomerado (figura 3D).

Movimentos tectônicos ocorridos no final do PrØ-Cambriano causaram dobramentos na crosta terrestre. Após um longo período, em que o relevo pouco se alterou em conseqüŒncia da separaçªo continental entre a AmØrica do Sul

Figura 3. História evolutiva do diamante da Serra do Espinhaço durante o Proterozóico, desde a geração das rochas-fonte até a deposição do Conglomerado Sopa

junho de 1999 • CIÊNCIA HOJE • 29

Sugestões para leitura

Chaves, M.L.S.C.

Geologia e mineralogia do diamante da Serra do Espinhaço em Minas Gerais, tese de doutorado, IGUSP, São Paulo, 1997.

Karfunkel, J.,

1032,1994.

Chaves, M.L.S.C., Svisero, D.P. & Meyer, H.O.A. ‘Diamonds from Minas Gerais, Brazil: an update on sources, origin, and production’ in International Geology Review, v. 36, p. 1019-

Sutherland, D. ‘The transport and sorting of diamonds by fluvial and marine processes’ in Economic Geology, v. 7, p. 1613-1620, 1982.

Svisero, D.P.

‘Distribution and origin of diamonds in Brazil: an overview’ in Journal of Geodynamics, v. 20, p. 493-514, 1995.

Figura 4. História evolutiva do diamante do Espinhaço durante os dobramentos ao final do Proterozóico (A) e no soerguimento da serra ocorrido no Mesozóico (B) e a `frica, toda a regiªo interiorana brasileira foi fortemente soerguida na Era Mesozóica. Inclui-se nesses processos a formaçªo da Serra do Espinhaço (figura 4).

Os processos de dobramento e erosªo permitiram a acomodaçªo dos conglomerados diamantíferos soterrados nos níveis próximos à superfície (figura 4A). Com o soerguimento mesozóico, durante o CretÆceo Inferior, as rochas diamantíferas foram expostas e os diamantes mais uma vez transportados, agora em direçªo às novas calhas fluviais às margens da serra (figura 4B): Sªo Francisco, a oeste, e Jequitinhonha, a leste. Essa nova fase de transporte explica os depósitos diamantíferos que ocorrem, por exemplo, nas imediaçıes de Jequitaí, onde quase 100% dos cristais encontrados tŒm qualidade gemológica. AliÆs, o nœmero de diamantes gemológicos do mantes do Espinhaço, por seu padrªo de peso mØdio, demonstram ter sido longamente transportados atØ se fixar em seus atuais sítios de deposiçªo.

Cristais com defeitos internos, fragmentados ou com grandes inclusıes sªo freqüentes nos kimberlitos africanos e na província do Alto Paranaíba, assim como agregados policristalinos do tipo bort e cristais de forma cœbica. Cristais inteiros de diamantes, ao contrÆrio, sªo proporcionalmente raros nessas Æreas. JÆ na regiªo do Espinhaço, mais de 80% dos diamantes encontrados sªo cristais inteiros, predominando os de forma dodecaØdrica, sendo raros tanto os cristais defeituosos ou de forma cœbica quanto os agregados policristalinos.

A gŒnese dos diamantes de Minas Gerais Ø uma discussªo que deve permanecer em pauta ainda por longo tempo. Embora este artigo traga subsídios que tentam elucidar o problema, seu ponto central a exata localizaçªo das rochas-fonte primÆrias permanece sem resposta. Segundo o modelo clÆssico, atestado pelos depósitos diamantíferos africanos e de outras partes do mundo, os kimberlitos e lamproítos concentram-se em Æreas cratônicas. Mas, quanto aos diamantes da Serra do Espinhaço, dificilmente teremos uma prova definitiva de que tenham tido origem no CrÆton do Sªo Francisco, jÆ que sua porçªo no Sudeste brasileiro estÆ, como dissemos, recoberta pela espessa camada de sedimentos do Grupo Bambuí. No Alto Paranaíba, porØm, a situaçªo Ø diferente, podendo vir a ser descobertas chaminØs diamantíferas sob o compacto manto de solo que cobre a regiªo. n

Espinhaço Ø comparÆvel ao de depósitos secundÆrios, como os da GuinØ e da Costa da Namíbia, e muito maior que o existente em depósitos primÆrios.

Ao comparar os dados obtidos no estudo das regiıes diamantíferas da `frica e de Minas Gerais, pode-se concluir, com base na presença de cristais de alta quilatagem, que a província do Alto Paranaíba pode ser correlacionada com as africanas. JÆ os dia-

Lote de diamantes da região de Diamantina com pedras de aproximadamente 1 quilate (A). Diamante de 7 quilates com forma octaédrica e arestas arredondadas (B)

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