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PROPRIEDADES FUNCIONAIS DO ALHO ( Allium sativum L. ) Dra.Vanderli Fátima Marchiori1

Resumo: Bulbo comestível largamente utilizado em diferentes culturas culinárias, o alho tem sido usado como medicamento desde antes do nascimento de Cristo. Há registros de seu uso como medicamento desde a época dos faraós. Mais recentemente, pesquisas têm demonstrado alguns desses efeitos, principalmente em relação à sua atividade imuno estimulante, antiaterosclerótica, anticancerígena e antimicrobinana. Embora alguns dos resultados ainda sejam conflitantes devido à falhas metodológicas, as evidências sugerem resultado positivo contra várias enfermidades.

Introdução

Até Pasteur reconheceu que o alho era o agente bactericida em sua Placa de Petri. Ao longo da história da ciência o alho teve várias aplicações. Atualmente seu poder terapêutico é reconhecido pelo Ministério da Saúde bem como pelo FDA . Além de seu uso culinário nas mais variadas culturas, desde a Antiguidade é usado como medicamento para as mais variadas moléstias. Os estudos científicos identificaram a presença de vários compostos que agem terapeuticamente no tratamento de parasitoses , desconfortos gastrintestinais , dislipidemias , verminoses

1 Nutricionista funcional e fitoterapeuta intestinais ,na doença hipertensiva, cardiovascular, câncer, além das atividades antiinflamatória, antimicrobiana, e antiasmática.É conhecido por vários nomes diferentes , dependendo da região em que é produzido e consumido. Os nomes mais comuns são: alho-serpente , alho-bravo, alho-hortense, alho-manso,alho-ordinário e alho-do-reino. Esta erva bulbosa , cujo nome científico é Allium sativum , é pequena perene e com odor forte e característico de alimentos ricos em compostos sulfurados. Suas folhas são lineares e longas e suas flores são brancas ou avermelhadas. O alho-da –terra , a cebolinha-de-cheiro e o alho-poró são espécies deste mesmo gênero liliáceo. A maior concentração de fitoquímicos terapêuticos encontra-se nos bulbos, popularmente conhecidos como dentes de alho. Seu cultivo é adaptado às regiões mais frias com período de dormência de dois meses. Quanto mais fria é a temperatura maior é a concentração de fitoquímicos, pois a sua concentração depende do quanto à planta responde às agressões ambientais.

Composição e biodisponibilidade

Apesar do uso freqüente em todos os tipos de preparações culinárias, principalmente nos países europeus, sua importância nutritiva na dieta é reduzida por seu emprego ocorrer principalmente como condimento, em pequenas quantidades.

Componentes Nutritivos do alho Calorias (kcal) 138,92 Proteínas (g) 6,05 Lipídeos (g) 0,12 Carboidratos (g) 28,41 Cálcio (mg) 38,0 Ferro (mg) 1,40 Fósforo (mg) 134,0 Selênio (µg) 5,69 Alfa-tocoferol (µg) 10,0

Vitamina C 14,0 Fonte:modificado de Souci e col (1994)

Em contrapartida foram identificadas centenas de fitoquímicos bioativos, sendo os de maior destaque os compostos sulfurados, presentes no alho em quantidades três vezes maiores do que em outros vegetais também ricos nestes compostos, como a cebola e os brócolis.

Compostos sulfurados do alho

Composto Possível atividade biológica

Aliina Hipotensor, hipoglicemiante

Ajoeno

(ajocisteína) Prevenção de coágulos, antiinflamatório, vasodilatador, hipotensor, antibiótico

Alicina e tiosulfinatos

Antibiótica,antifúngica, antiviral

Alil maercaptano hipocolesterolemiante

S-alil-cisteína e compostos γglutâmico

Hipocolesterolemiante, antioxidante, quimioprotetor frente ao câncer

Sulfeto dialil Hipocolesterolemiante

Compostos não sulfurados do alho

Composto Possível atividade biológica

Adenosina Vasodilatadora, hipotensora, miorelaxante

Fructanos (Escorodosa) Cardioprotetora

Fração protéica F-4 Imunoestimulante

Quercetina Antialergênica

Saponinas (gitonina F, eurobósido B)

Hipotensora, antimicrobiana

Escordinina Hipotensora, aumenta a utilização de B1, antibacteriana

Selênio Antioxidante

Ácidos fenólicosAntiviral e antibacteriana

Saponinas Anticancerígena*

Fonte: García-Gómez & Sánchez- Muniz (2000) e Matsuura (2001)

Fonte: García-Gómez & Sánchez-Muniz (2000)

A forma de utilização é fundamental para que haja a disponibilidade de fitoquímicos em concentrações suficientes para sua ação terapêutica. Seu maior complicador é o sabor característico intenso que é dificulta o seu consumo e é exalado inclusive pelo suor, em até 72 horas após o consumo.Até o presente momento foram identificados cerca de 30

concentrações dos fitoquímicos sulfurados em questão

ingredientes do alho com efeito terapêutico para a saúde. O tipo e a concentração dos compostos extraídos do alho dependem do seu grau de maturação, práticas de produção de cultivo, localização na planta, condições de processamento, armazenamento e manipulação. A maioria dos componentes sulfurados não está presente nas células intactas. Quando o alho é amassado, partido, cortado ou mastigado, vários de seus componentes sulfurados são liberados no interior da célula vegetal. A interação entre os vários compostos desencadeia reações em cadeia, gerando um conjunto de componentes. Isso justifica a necessidade de consumo imediatamente após o preparo, e sem que haja ação de calor ou qualquer outro tipo de tratamento térmico , o que diminui muito as

A biodisponibilidade também é um fator crítico já que algumas substâncias ativas são extremamente voláteis (ex: ajoene). Estudos investigando a ação do aquecimento sobre substâncias anticarcinogênicas do alho mostraram que o aquecimento por microondas por período de 60 segundos ou 45 minutos de forno pode bloquear a capacidade de ligação de metabólitos carcinogênicos mamários às células DNA epiteliais mamárias de ratos, in vivo. Os autores sugerem permitir que o alho amassado repouse por 10 minutos antes do aquecimento diminui as perdas.

Recomendação

Ainda não há consenso quanto à recomendação de alho que deve ser consumida , mesmo porque sua recomendação depende da utilização terapêutica em questão. Apesar disso tanto o Ministério da Saúde do Canadá bem como a Comissão E da Agência Federal Alemã de Saúde (correspondente a FDA americana) sugerem que a ingestão de 4 g de alho cru ou 8 mg de óleos essenciais são suficientes para a prevenção de fatores de risco cardiovascular e a American Dietetic Association indica o consumo de 600-900 mg de alho/dia. Essas quantidades equivalem ao peso médio aproximado de 1 dente de alho cru.

Efeitos sobre a saúde

Vários estudos utilizando o alho in natura ou diferentes preparações foram realizados desde a década de 80, principalmente em relação aos seus efeitos na prevenção de doenças cardiovasculares: redução das concentrações séricas de LDL, triglicerídeos, redução da pressão arterial, aumento da atividade fibrinolítica e inibição da agregação plaquetária. Porém, devido ao uso de diferentes preparações, dosagens e diferentes protocolos, os resultados são muitas vezes conflitantes. O quadro abaixo resume o resultado de alguns desses estudos:

Autores /ano Objetivo Tipo de alho Características Resultados

Lau et al. (1987)

Colesterol e triglicérides Extrato de alho envelhecido

(Kyolic), cápsulas contendo 250g/L peso seco do componente ativo

Pacientes hiperlipidêmicos, randomizado

Efetivo

Warsha waky et al (1993)

Colesterol e pressão arterial

- Meta-análise de 5 estudos ½ -1 dente de alho/dia redução de 9-12% do colesterol e 9% da PA

Silagy & Neil (1994)

Pressão arterial

- Meta-análise de 8 estudos, 415 indivíduos

3 estudos c/redução da Pressão sistólica e 4 da pressão diastólica

Silagy & Neil (1994)

Colesterol - Meta-análise de 16 estudos, 952 indivíduos, alho em pó (600- 900mg/dia) ou alho fresco (10- 20g/dia), de 1-10 meses

Redução de 12% do colesterol, a partir da 4a. semana

Morris et al (1995)

Agregação plaquetária

Extrato de alho Duplo-cego, randomizado, placebocontrolado

Sem efeito

Simons et al. (1995)

Lipídeos plasmáticos e lipoproteína s

Alho em pó (Kwai) 300 mg 3x/dia Duplo-cego, randomizado, cross-over

Sem efeito

Neil et Colesterol 900 mg de alho Duplo-cego, Sem efeito al (1996) em pó com alicina padronizada

(1,3%) randomizado, 6 meses

Steiner et al. (1996)

Colesterol, Lipoproteína s e pressão arterial

Extrato de alho envelhecido (7,2 g), 6 meses

Duplo-cego, cross-over, homens moderadamente hipercolesterolêm icos

Redução de 6% no colesterol total, 4% na LDL e 5,5% na pressão sistólica

Morcos et al. (1997)

Modulação do perfil lipídico

Alho e óleo de peixe, 1 mês 40 indivíduos, cross-over, simples-cego, randomizado

Redução em 1% do colesterol, 34% dos triglicérides, 10% das LDL e 19% na razão colesterol/HDL

Berthold et al (1998)

Lipoproteína s, absorção e síntese do colesterole

Óleo de alho destilado a vapor (5 mg, 2x/dia)

Duplo-cego, randomizado, Sem efeito

Isaacsoh n et al (1998)

Colesterol 900 mg/dia de alho em pó (Kwai), 12 semanas

Randomizado, placebocontrolado, pacientes hipercolesterolêm icos

Sem efeito

McCridl e et al. (1998)

Colesterol, lipoproteína s, triglicérides, apolipoprot eína B-100 e A-I, liproteína

300 mg de extrato de alho, 3x/dia, 8 semanas

30 pacientes (8- 18 anos), hiperlipidêmicos (tipo familiar)

Sem efeito. Efeito apenas sobre os níveis de apolipoproteína A-I

(a), fibrinogênio , homocisteín a e pressão sanguínea

A ação antioxidante da aliina , alicina e do ajoeno justificam o efeito do alho sobre as LDL pois inibem a peroxidação lipídica por meio da inibição da enzima xantina-oxidase e de eicosanóides. O alho também eleva a capacidade total antioxidante do organismo devido à ação dos bioflavonóides quercetina e campferol, por meio de um mecanismo mediado pelo óxido nítrico e in vitro, age diretamente como varredor dos radicais livres. A alicina mostra analogia estrutural com o dimetilsulfeto, o qual possui uma boa capacidade varredora de radicais livres. A presença de selênio em sua composição também contribui com este efeito. Isto quer dizer que os compostos sulfurados aliados aos bioflavonóides incrementam a ação medicamentosa do alho.

Estudos epidemiológicos e experimentais evidenciam a ação anticarcinogênica do alho, principalmente devido à presença de seus componentes sulfurados. Abdullah et. al comprovou a atividade dos leucócitos de pessoas alimentadas com alho 139% superior do que os leucócitos do grupo de pessoas que não incluíram o alho em sua alimentação. Esta proteção parece ser resultado de vários mecanismos incluindo: bloqueio da formação de compostos nitrosaminas, hepatoproteção seletiva contra substancias carcinogênicas , supressão da bioativação de vários carcinogênicos, aumento do reparo do DNA, redução da proliferação celular e/ou indução da apoptose. Possivelmente vários desses eventos ocorrem simultaneamente e a ação dos componentes sulfurados parece ser influenciada por diversos componentes da dieta. Por exemplo, a presença de selênio, seja como parte da dieta, seja como componente do suplemento de alho, contribui para aumentar a proteção contra a carcinogênese mamária induzida pelo 7,2 dimetilbenza(a)antraceno (DMBA).

Composto sulfurado com propriedade antineoplásica Tipo de célula onde atua

Ajoene Linfócitos, células colônicas, leucemia

Alicina Linfóide Dialil sufeto Próstata, leucócitos

Dialil disulfeto Pulmão, cel. colônicas, pele, próstata, mama

Dialil trisulfeto Pulmão S-alil cisteína Neuroblastoma, melanoma S-alilmercaptocisteína Próstata, mama

Fonte: MILNER, 2001

O alho ainda possui importante ação antimicrobiana, inicialmente descrita por Pasteur. Em 1944 Cavallito e Bailey testaram a ação bactericida da alicina, com efeitos positivos na inibição do crescimento de várias bactérias, tanto gram positivas quanto gram negativas. Porém, com o desenvolvimento dos antibióticos durante a segunda guerra mundial, os estudos com este enfoque foram abandonados até recentemente, quando se renovou o interesse devido ao aparecimento de microorganismos resistentes aos antibióticos. Os estudo in vitro mostram que o alho age contra vírus, bactérias e fungo. Atualmente muitas pesquisas têm enfocado sua ação sobre o Helicobacter pylori. Embora os estudos in vitro tenham demonstrado a inibição do crescimento desta bactéria, a ingestão de alho cru não teve o mesmo resultado in vivo. O consumo de alho em quantidades superiores a um dente por dia pode inclusive causar sintomas de má digestão , contraditoriamente ao seu uso até a quantidade mencionada.

Conclusão

As evidências comprovam a eficácia terapêutica alho na prevenção das mais diversas patologias. Mais pesquisas, com rigor metodológico só corroborarão para determinar qual a melhor forma e dosagem necessárias de alho para a obtenção desses efeitos. Como seu espectro de uso é bastante amplo, a utilização de suplementos com concentração de alicina , aliina e ajoeno pré-determinadas deve ser analisada e somente validada com recomendação de profissional de saúde capacitado.

Vale ainda ressaltar que há a interação com drogas sintéticas e conseqüentemente potencialização de ação de algumas drogas. Além disso foram descritos alguns casos de dermatite de contato e asma alérgica após a ingestão do alho in natura e que se sugere a suspensão do uso de suplementos de alho para gestantes , nutrizes , crianças abaixo de quatro anos e nos períodos pré e pós-cirúrgicos devido ao seu efeito antiplaquetário.

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