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Universidade Federal Rural da Amazônia - UFRA

Instituto de Saúde e Produção Animal - ISPA

Disciplina: Zoologia Geral

Profª: Andréa Bezerra de Castro

Subfilo Crustácea

Características Gerais de um Crustáceo

Os crustáceos diferem de outros artrópodes em vários caracteres, mas o único verdadeiramente distintivo é a presença de dois pares de antenas nos crustáceos. Apresentam na cabeça, além dos dois pares de antenas, um par de mandíbulas e dois pares de maxilas, seguindo-se um par de apêndices em cada segmento do corpo ou somito. Em alguns crustáceos nem todos os somitos apresentam apêndices. Todos eles, exceto talvez a primeira antena, são primitivamente birremes (dois ramos) e pelo menos alguns apêndices dos adultos atuais mostram esta condição. Se presentes, órgãos respiratórios especializados funcionam como brânquias.

A maioria dos crustáceos tem entre 16 e 20 somitos, mas algumas formas apresentam 60 ou mais segmentos. Um número maior de somitos é uma característica primitiva. A condição mais derivada é possuir um número relativamente menor de somitos e grau elevado de tagmose. Os principais tagmas são cabeça, tórax e abdômen, mas eles não são homólogos na classe (ou mesmo entre algumas subclasses) por causa do grau variado de fusão de somitos, como, por exemplo, no cefalotórax.

O maior grupo de crustáceos é, de longe, a classe Malacostraca, que reúne lagostas, caranguejos, camarões saltões-de-praia, tatuzinhos-de-quintal e muitos outros. Eles mostram uma constância surpreendente na organização dos segmentos do corpo e tagmas, considerada o plano ancestral da classe. Este plano corporal típico tem uma cabeça com cinco (seis no embrião) segmentos fundidos, um tórax com oito somitos e um abdômen com seis (sete em poucas espécies). Na extremidade anterior há um rostro não-segmentado e na posterior um télson não-segmentado, o qual constitui um leque caudal de vários formatos, com o último segmento abdominal e seus urópodes.

Em muitos crustáceos a cutícula dorsal da cabeça pode estender-se posteriormente e ao redor das laterais do animal para cobrir ou fundir-se com alguns ou todos os somitos torácicos e abdominais. Esta cobertura é denominada carapaça; em alguns grupos a carapaça forma valvas similares às dos moluscos bivalves, recobrindo a maior parte ou todo o corpo. Nos decápodes (que congregam lagostas, camarões, caranguejos e outros) a carapaça cobre totalmente o cefalotórax, mas não o abdômen.

Morfologia Externa

O corpo dos crustáceos é coberto por uma cutícula secretada, composta de quitina, proteína e material calcário. As placas resistentes e mais duras dos crustáceos de grande porte são particularmente ricas em depósitos calcários. A dura cobertura calcária torna-se mole e fina nas articulações entre os somitos, proporcionando flexibilidade aos movimentos. A carapaça, se presente, cobre a maior parte ou todo o cefalotórax; nos decápodes como os lagostins, todos os segmentos cefálicos e torácicos estão encobertos dorsalmente pela carapaça. Cada somito não coberto pela carapaça apresenta uma placa dorsal cuticular, ou tergito, e uma placa ventral transversal, o esternito, localizada entre os apêndices em cada segmento.

O abdômen termina em um télson, que não é considerado um somito, onde se localiza o ânus (o télson pode ser homólogo ao pigídio dos anelídeos).

A posição dos gonóporos varia de acordo com o sexo e o grupo de crustáceos. Eles podem estar sobre ou no basipodito de um par de apêndices, na extremidade terminal do corpo ou em somitos sem apêndices. Nos lagostins as aberturas dos vasos deferentes estão na porção mediana dos basipoditos do quinto par de apêndices ambulatórios, eas dos ovidutos, nos basipoditos do terceiro par de pereiópodes. A abertura do receptáculo seminal das fêmeas está localizada na linha mediana ventral entre o quarto e o quinto pares de apêndices ambulatórios.

Apêndices Os membros das classes Malacostraca (incluindo os lagostins) apresentam um par de apêndices articulados em cada somito, embora os somitos abdominais nas outras classes não apresentem apêndices. Os apêndices de crustáceos derivados, como os lagostins, evidenciam especialização considerável. Entretanto, todos são variações do plano birreme, básico, ilustrado pelo apêndice de um lagostim, como um maxilípede. A porção basal, ou protopodito, apresenta um exopodito lateral e um endopodito medial. O protopodito é constituído por um ou dois artículos (basipodito e coxopodito), enquanto o exopodito e o endopodito ostentam de um a vários artículos cada um. Alguns apêndices, como os apêndices ambulatórios dos lagostins, tornaram-se unirremes secundariamente. Processos mediais ou laterais, enditos e êxitos, respectivamente, ocorrem algumas vezes nos apêndices dos crustáceos e um êxito sobre o protopodito é denominado epipodito. Frequentemente os epipoditos estão modificados como brânquias.

A terminologia aplicada por vários pesquisadores aos apêndices dos crustáceos não foi abençoada com uniformidade. Pelo menos dois sistemas são de uso amplo. Termos alternativos aos que estamos usando, por exemplo, são: protópode, endópode, exópode, base, coxa e epípode. O primeiro e segundo pares de antenas podem ser denominados antênulas e antena, e o primeiro e segundo pares de maxilas são frequentemente chamados maxílulas e maxilas. Uma rosa por qualquer outro nome

Estruturas com um plano básico similar e descendentes de uma forma comum são ditas homólogas, tenham ou não a mesma função. Desde que os apêndices ambulatórios especializados, as peças bucais, os quelípodes e os pleópodes desenvolveram-se de um tipo birreme comum, mas modificaram-se para realizar funções diferentes, são considerados homólogos entre si, condição conhecida como homologia seriada. Primitivamente todos os apêndices eram muito similares, mas durante a evolução, por modificações estruturais, alguns ramos foram sendo reduzidos, outros perdidos, alguns grandemente alterados e novas partes foram adicionadas a outros. Os lagostins e seus aliados apresentam a homologia seriada mais elaborada no reino animal, possuindo 17 tipos distintos de apêndices em homologia seriada.

Morfologia Interna

O sistema muscular, o nervoso e a segmentação no tórax e abdômen mostram metameria claramente herdada de ancestrais semelhantes a anelídeos, mas há modificações notáveis em outros sistemas. A maioria das mudanças envolve concentração de partes em uma região particular, redução, ou ainda perda completa de partes, como os septos intersegmentares.

Hemocele O principal espaço corporal nos artrópodes não é o celoma, mas uma hemocele preenchida pelo sangue. Durante o desenvolvimento embrionário da maioria dos artrópodes, cavidades celomáticas vestigiais abrem-se no interior do mesoderma de pelo menos alguns somitos. São obliterados muito cedo ou tornam-se contínuos ao espaço entre as estruturas mesodérmicas e ectodérmicas em desenvolvimento e o vitelo. Este espaço torna-se a hemocele e assim não é revestido por um peritônio mesodérmico. Os únicos compartimentos celomáticos restantes nos crustáceos são as bolsas terminais dos órgãos excretores e o espaço ao redor das gônadas.

Sistema Muscular Músculos estriados perfazem uma parte considerável do corpo da maioria dos Crustácea. Os músculos são arranjados usualmente em grupos antagônicos: flexores, que trazem uma porção em direção ao corpo, e extensores, os quais a movem para a direção oposta. O abdômen de um lagostim tem flexores poderosos, usados quando o animal nada para trás, sua melhor maneira de escapar. Músculos fortes de cada lado do estômago controlam as mandíbulas.

Sistema Respiratório A troca de gases respiratórios nos crustáceos pequenos ocorre nas áreas mais finas da cutícula (por exemplo, nos apêndices) ou em toda a superfície do corpo, e estruturas especializadas podem estar ausentes. Crustáceos de grande porte apresentam brânquias, projeções delicadas, similares a plumas, com cutícula muito fina. As laterais da carapaça dos decápodes envolvem uma cavidade branquial, aberta anterior e ventralmente. As brânquias podem projetar-se da parede pleural para a cavidade branquial, da articulação dos apêndices torácicos com o corpo ou dos coxopoditos torácicos. As duas últimas posições são típicas dos lagostins. Uma parte da segunda maxila bombeia água para o interior da câmara branquial sobre os filamentos branquiais à altura dos basipoditos das patas e para fora, na porção anterior da câmara branquial.

Sistema Circulatório Os crustáceos e outros artrópodes possuem um sistema circulatório "aberto" ou lacunar. Isto significa que não há veias, nem separação do sangue do fluido intersticial, tal como nos animais com sistemas circulatórios fechados. A hemolinfa (sangue) deixa o coração através de artérias, circula através da hemocele e retorna aos seios venosos, ou espaços, em lugar das veias, antes de entrar novamente no coração. Os anelídeos possuem um sistema fechado, como o dos vertebrados.

Um coração dorsal é o órgão propulsor principal. É um saco de músculo estriado com apenas uma câmara. A hemolinfa entra no coração oriunda do seio pericárdico ao redor, através de óstios pares, com válvulas impedindo o refluxo para o seio. Sai do coração por uma ou mais artérias. Válvulas nas artérias impedem o refluxo da hemolinfa. Pequenas artérias esvaziam nos seios teciduais, os quais frequentemente descarregam a hemolinfa em um grande seio esternal.

Dali, canais aferentes dos seios conduzem a hemolinfa até as brânquias, se presentes, para trocas de oxigênio e dióxido de carbono. A hemolinfa retorna então ao seio pericárdico por canais eferentes. A hemolinfa nos artrópodes é pouco colorida. Inclui células amebóides de pelo menos dois tipos. Pigmentos respiratórios contendo cobre, como a hemocianina, e ferro, como a hemoglobina, podem estar na solução. A hemolinfa tem propriedade de coagulação, o que previne perdas em feridas pouco importantes. Algumas células amebóides liberam um coagulante semelhante à trombina, substância precipitadora da coagulação.

Sistema Excretor Os órgãos excretores dos crustáceos adultos são um par de estruturas tubulares localizadas na porção ventral da cabeça, anterior ao esôfago. São denominadas glândulas antenais ou glândulas maxilares, conforme a localização da abertura no basipodito da antena ou da segunda maxila, respectivamente. Poucos crustáceos adultos apresentam as duas. Os órgãos excretores dos decápodes são glândulas antenais, também chamadas glândulas verdes neste grupo. Os crustáceos não possuem túbulos de Malpighi, os órgãos excretores das aranhas e insetos.

A porção terminal da glândula antenal, derivada de um compartimento celomático embrionário, consiste em uma pequena vesícula (saco terminal) e uma massa esponjosa denominada labirinto. O labirinto conecta-se através de um túbulo renal a uma bexiga dorsal, a qual se abre ao exterior por um poro na superfície ventral do basipodito antenal. A força para a filtração do fluido para dentro do saco terminal é fornecida por pressão hidrostática da hemocele. O filtrado é modificado por reabsorção de sais, aminoácidos, glicose e alguma quantidade de água durante a passagem pelo túbulo renal e bexiga, finalmente sendo excretado como urina.

A excreção de resíduos nitrogenados (principalmente amônia) ocorre por difusão através de áreas pouco espessas da cutícula, especialmente as brânquias, que, agindo como órgãos excretores, funcionam principalmente na regulação da composição iônica e osmótica dos fluidos do corpo. Os crustáceos de água doce, como os lagostins, são constantemente ameaçados por diluição excessiva do seu sangue por ação da água difundida através das brânquias e outras superfícies permeáveis. As glândulas verdes, formando uma urina diluída e pouco salina, atuam como um aparelho "controlador de fluxos" efetivo. Alguma quantidade de Na e Cl é perdida na urina, mas é compensada pela absorção ativa de sais dissolvidos através das brânquias. Em crustáceos marinhos, tais como lagostas e caranguejos, o fígado funciona no ajuste da composição de sais da hemolinfa, por modificação seletiva do conteúdo salino da urina no túbulo renal. Nessas formas a urina permanece isosmótica ao sangue.

Sistema Nervoso e Sensorial O sistema nervoso dos crustáceos e anelídeos têm muito em comum, embora o dos crustáceos apresente um grau mais alto de fusão ganglionar. O cérebro é um par de gânglios supra-esofágicos que enviam nervos aos olhos e dois pares de antenas. Une-se por conectivos ao gânglio subesofágico, uma fusão de pelo menos cinco pares de gânglios de onde partem nervos para a boca, apêndices, esôfago e glândulas antenais. O cordão nervoso ventral duplo tem um par de gânglios em cada somito, de onde partem nervos para os apêndices, músculos e outras partes. Além deste sistema nervoso central, pode haver um sistema nervoso simpático associado ao sistema digestivo.

Os órgãos sensoriais são mais desenvolvidos nos crustáceos do que nos anelídeos. Os maiores são os olhos e os estatocistos. Cerdas táteis, projeções delicadas da cutícula, especialmente abundantes nas quelas, peças bucais e télson, são amplamente distribuídas pela superfície do corpo. Sensores químicos olfativos e gustativos são encontrados em cerdas das antenas, peças bucais e outras estruturas.

Um estatocisto em formato similar a uma bolsa, abrindo-se para a superfície por um poro dorsal, é encontrado no basipodito de cada primeira antena dos lagostins. O estatocisto contém uma quilha com cerdas sensoriais formadas a partir do revestimento quitinoso e grãos de areia que servem como estatólitos. Sempre que o animal modifica sua posição, mudanças correspondentes na posição dos grãos, sobre as cerdas sensoriais, são transformadas em estímulos ao cérebro, permitindo ao animal ajustar a posição do corpo. Cada muda (ecdise) do exoesqueleto resulta na perda do revestimento cuticular do estatocisto e dos grãos de areia. Novos grãos são obtidos através do poro dorsal após a ecdise.

Muitos crustáceos apresentam olhos compostos, constituídos por muitas unidades fotorreceptoras denominadas omatídios. Cobrindo a superfície arredondada de cada olho encontra-se a córnea, uma área transparente da cutícula dividida em inúmeros pequenos hexágonos ou quadrados conhecidos como facetas. Estas são as extremidades externas dos omatídios. Cada omatídio comporta-se como um pequeno olho e contém vários tipos de células arranjadas em coluna. Células com pigmento escuro são encontradas entre omatídios adjacentes.

O movimento dos pigmentos permite o ajuste a quantidades diferentes de luz em um olho composto de artrópode. Há três conjuntos de células pigmentares em cada omatídio: distais, proximais e de reflexão; elas estão arranjadas de tal maneira que podem formar um colarinho ou manga de camisa mais ou menos completo, ao redor de cada omatídio. Para adaptação a luz diurna ou luz forte, os pigmentos das células pigmentares distais movem-se para dentro e encontram os pigmentos das células pigmentares proximais que se movem concomitantemente para fora, de maneira que uma manga de pigmentos completa torma-se ao redor do omatídio. Nesta condição somente os raios que atingem a córnea diretamente chegarão às células fotorreceptoras (retinulares), pois cada omatídio está isolado dos outros. Dessa maneira cada omatídio verá apenas uma área limitada do campo de visão (imagem em mosaico ou por justaposição). Sob luz fraca, os pigmentos das células pigmentares distais e proximais separam-se, de maneira que os raios de luz, com o auxílio das células pigmentares de reflexão, têm a chance de atingir omatídios adjacentes e formar uma imagem contínua ou de superposição. A acuidade deste segundo tipo de visão é baixa, mas tira a máxima vantagem da quantidade limitada de luz recebida.

Reprodução, Ciclos de Vida e Função Endócrina

A maioria dos crustáceos tem sexos separados e há várias especializações para cópula entre os diferentes grupos. Cracas são monóicas, mas praticam fertilização cruzada como regra geral. Os machos são raros em alguns ostrácodes e a reprodução é usualmente partenogenética. Os crustáceos, na sua maioria, incubam os seus ovos de alguma maneira: os branquiópodes e cracas apresentam câmaras incubadoras especiais; os copépodes têm sacos ovígeros unidos nos lados do abdêmen, e muitos malacostracos carregam os ovos e os jovens unidos aos seus apêndices abdominais.

O desenvolvimento dos lagostins é direto: não há formas larvais. Um frágil jovem com a mesma forma do adulto e um conjunto completo de apêndices e somitos eclode do ovo. Entretanto, o desenvolvimento é indireto na maioria dos crustáceos e eclode do ovo uma larva muito diferente do adulto em estrutura e aparência. A metamorfose é o fenômeno das mudanças da larva até a forma final do adulto. A larva mais primitiva e de ocorrência mais ampla em Crustácea é a larva náuplio. Os náuplios apresentam apenas três pares de apêndices: primeira antena unirreme, antenas birremes e mandíbulas birremes. Todos funcionam como apêndices natatórios neste estádio. O desenvolvimento subsequente pode envolver uma mudança gradual para a forma adulta do corpo e apêndices e somitos são adicionados através de séries de mudas, ou a aquisição da forma adulta pode envolver mudanças mais abruptas. Por exemplo, a metamorfose de uma craca ocorre de um náuplio livre-natante para uma larva com uma carapaça bivalve, chamada cipris, e finalmente para um adulto séssil com placas calcárias.

Ecdise

A ecdise (Gr. ekdyein, despir-se), ou muda, é necessária para o crescimento do corpo, pois o exoesqueleto não está vivo e não acompanha o crescimento do animal. Muito do funcionamento dos crustáceos, incluindo sua reprodução, comportamento e vários processos metabólicos, é diretamente afetado pela fisiologia do ciclo de muda.

A cutícula, secretada pela epiderme subjacente, tem várias camadas:

Epicutícula é a mais externa, uma camada proteica muito fina impregnada de lipídios.

Procutícula: é o corpo da cutículacom suas múltiplas camadas:

(1) Exocutícula: logo abaixo da epicutícula, contendo proteína, sais de cálcio e quitina;

(2) Endocutícula: composta por

camada calcária:que contém mais quitina, menos proteína e é bastante calcificada;

camada membranosa: camada relativamente fina de quitina e proteína, não-calcificada.

Algum tempo antes da efetiva ecdise, as células epidérmicas aumentam de tamanho consideravelmente. Separam-se da camada membranosa, secretam uma nova epicutícula e começam a secretar uma nova exo-cutícula. Há liberação de enzimas na área acima da nova epicutícula. Estas enzimas começam a dissolver a velha endocutícula, e os produtos solúveis são reabsorvidos e armazenados no interior do corpo do crustáceo. Alguns sais de cálcio são estocados como gastrólitos (acreções minerais) nas paredes do estômago. Finalmente, apenas a exocutícula e a epicutícula da velha cutícula permanecem, e, subjacente a elas, as novas epicutícula e exocutícula. O animal absorve água através do intestino anterior e há um aumento considerável no seu volume sanguíneo. A cutícula rompe-se por ação da pressão interna e o animal livra-se do velho exoesqueleto. Então, após o estiramento da nova cutícula ainda mole, ocorre a deposição da nova endocutícula, reposição dos sais inorgânicos armazenados e outros constituintes e o seu endurecimento. O animal fica sem defesa durante o período da muda e esconde-se.

Quando um crustáceo é jovem, a ecdise precisa acontecer frequentemente para permitir o crescimento, e o ciclo de muda é relativamente curto. Conforme o animal aproxima-se da maturidade, o período intermuda torna-se progressivamente mais longo, e em algumas espécies a muda cessa completamente. Durante os períodos intermuda a massa tecidual aumenta conforme a água é substituída por tecido vivo.

Controle Hormonal do Ciclo de Muda

O ciclo é frequentemente iniciado por estímulo ambiental percebido pelo sistema nervoso central, embora a muda seja controlada por hormônios. Os estímulos podem incluir temperatura, comprimento do dia e umidade (no caso de caranguejos terrestres). O sinal do sistema nervoso central produz um decréscimo na produção de um hormônio inibidor de muda pelo órgão X. Este é um grupo de células neurossecretoras da medulla terminalis ao cérebro. Nos lagostins e outros decápodes a medulla terminalis é encontrada no pedúnculo ocular. O hormônio é transportado em axônios do órgão X até a glândula do seio (que provavelmente não possui função glandular), também no pedúnculo ocular, de onde é liberada para a hemolinfa.

Uma queda mínima no nível de hormônio inibidor de muda promove a liberação de um hormônio de muda pêlos órgãos Y. Estes se localizam sob a epiderme em região próxima aos músculos adutores das mandíbulas, são homólogos às glândulas protorácicas dos insetos e produtoras do hormônio ecdisona. A ação do hormônio de muda inicia o processo que culmina na ecdise (proecdise). Uma vez iniciado, o ciclo progride automaticamente, prescindindo da ação de hormônios dos órgãos X ou Y.

Outras Funções Endócrinas

A remoção dos pedúnculos oculares não apenas acelera a muda; descobriu-se também que, há cerca de 100 anos, crustáceos, cujos pedúnculos oculares foram removidos, não conseguiam ajustar a coloração do corpo às condições do fundo. Há 50 anos descobriu-se que o problema não era causado pela perda da visão, mas pela perda dos hormônios dos pedúnculos oculares. A cor do corpo dos crustáceos resulta em grande parte da presença de pigmentos em células epidérmicas ramificadas especiais (cromatóforos). A concentração de grânulos de pigmento no centro da célula causa um efeito clareador e sua dispersão, um efeito escurecedor. O comportamento dos pigmentos é controlado por hormônios das células neurossecretoras do pedúnculo ocular, tal como a migração de pigmento das células retinulares para a adaptação dos olhos à claridade ou escuridão.

Glândulas androgênicas

Primeiramente encontradas em um anfípode (Orcbestia, um saltão-de-praia comum), ocorrem em machos dos malacóstracos. Não são órgãos neurossecretores, diferentemente da maior parte dos outros órgãos endócrinos em crustáceos. Sua secreção estimula a expressão dos caracteres sexuais masculinos. Jovens malacóstracos têm glândulas androgênicas rudimentares, mas não se desenvolvem em fêmeas. Se elas são implantadas artificialmente em uma fêmea, os ovários transformam-se em testículos, começando a produzir espermatozóides, e seus apêndices passam a assumir características masculinas na próxima muda. As glândulas androgênicas dos isópodes são encontradas nos testículos; em todos os outros malacóstracos elas estão entre os músculos dos coxopoditos do último par de patas torácicas e parcialmente associadas às extremidades distais dos vasos deferentes. Embora as fêmeas não possuam órgãos similares às glândulas androgênicas, seus ovários produzem um ou dois hormônios que exercem influência sobre caracteres sexuais secundários.

Hormônios que influenciam outros processos corporais em Crustácea podem ocorrer e há evidências sugerindo que uma substância neurossecretora produzida nos pedúnculos oculares regule o nível de açúcar no sangue.

Hábitos Alimentares

Os hábitos alimentares e adaptações para alimentação variam grandemente entre os crustáceos. Muitas formas podem mudar de um tipo de alimentação para outro dependendo do ambiente e da disponibilidade de alimento, mas todos usam o mesmo conjunto fundamental de peças bucais. A mandíbula e as maxilas funcionam para ingerir alimento; os maxilípedes apanham e trituram os alimentos. Nos predadores, as patas ambulatórias, particularmente os quelípodes, servem para capturar alimento.

Muitos crustáceos, grandes e pequenos, são predadores e alguns apresentam adaptações interessantes para matarem presas. Uma forma semelhante a camarão, Lygiosquilla, tem em uma de suas patas ambulatórias um artículo especializado que, alojado em um sulco, pode ser liberado abruptamente e fisgar uma presa de passagem. O camarão-de-estalo (Alpheus spp.) tem uma quela muito grande que pode estalar como o cão de um revólver, com intensidade capaz de atordoar uma presa.

O alimento dos comedores de partículas em suspensão vai de plâncton e detritos a bactérias. Os predadores consomem larvas, vermes, crustáceos, moluscos e peixes. Detritívoros comem animais e vegetais mortos. Os comedores de partículas em suspensão, como as artêmias, pulgas-d'água e cracas, usam seus apêndices com espessas fileiras de cerdas para criar correntes de água retentoras de partículas alimentares entre as cerdas. Upogebia sp. usa as cerdas longas dos dois primeiros pares de apêndices torácicos para extrair o material alimentar da água, mantida em circulação na sua toca pelo batimento dos seus pleópodes.

Os lagostins têm um estômago com duas câmaras. A primeira parte contém o moinho gástrico, no qual o alimento já triturado pelas mandíbulas pode ser novamente triturado por três ossículos calcários, resultando em partículas suficientemente finas para ultrapassar o filtro que conduz à segunda câmara; as partículas de alimento então passam ao intestino para digestão química.

Breve Revisão Sobre os Crustáceos

Os crustáceos são um grupo extenso com muitas subdivisões. Exibem grande variedade em estruturas, ocupação de hábitats e modos de vida. Alguns são maiores do que os lagostins, outros, menores, e alguns são microscópicos. Há grupos altamente desenvolvidos e especializados, enquanto outros apresentam organização simples.

Você poderá pensar que o sumário sobre os crustáceos, apresentado a seguir, bem como a classificação, mais adiante, induz erroneamente à impressão de um grupo reduzido. Uma apresentação dos táxons das hierarquias abaixo do nível da classe (todas as classes serão mencionadas) exigiria uma abordagem além do propósito deste livro.

Classe Remipedia

Os Remipedia são uma classe de Crustácea muito pequena e recentemente descrita. As 10 espécies descritas até o momento são provenientes de cavernas em conexão com o mar. Os Remipedia apresentam algumas características muito primitivas. Há de 25 a 38 segmentos no tronco (tórax e abdômen), todos com apêndices natatórios pares, birremes, essencialmente iguais. As antênulas são birremes. Os dois pares de maxilas e um par de maxilípedes, entretanto, são preênseis, aparentemente uma adaptação à função de alimentação. A forma dos apêndices natatórios é similar à encontrada em Copepoda, mas orientados lateralmente, diversamente dos copépodes e cefalocáridos, nos quais a orientação é ventral.

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