Guia Pratico sobre Uso e Dependencia de Drogas

Guia Pratico sobre Uso e Dependencia de Drogas

(Parte 2 de 6)

Homens

Atitude sexual precoce

Abusado sexualmente e, ou moralmente Subsceptibilidade herdada: biológicos

Sociais

Psicológicos relacionais:grupo usa; grupo rejeita se não usa; grupo desviante

Família:mãe com “attach” pobre; rejeita; não monitora o desenvolvimento; com dificuldades de estabelecer normas e manejar os problemas, falta ética e sinceridade; comunicação ruim; sem modelos positivos e falta um dos pais; com problemas psicológicos ou mentais graves; com conflitos, disfuncionais, status sócio-econômico muito baixo; sem opções de lazer; sem informação; não cultiva a espititualidade; estresse grave decorrente de “catástrofe” familiar (prisão, morte, doença, separação conflituosa); permissiva; tem atitudes favoráveisao uso; usa.

Escola:não e continente de problemas de adaptação intelectual e afetiva; não reforça o valor da própria escola; exclui e estigmatiza, rejeita, reforça negativamente; não têm regras, é pemissiva; sem informação; professores preconceituosos e desinformados; alta prevalência de uso.

Social:sem líderes positivos; sem modalidade; muito densa saúde populacional ruim; privação social e econômica; vizinhança violenta (crimes) e desorganizada (sem regras); sem informação atualizada, com mitos e crenças moralistas; leis favoráveis ao uso; atitudes sociais permissivas; acesso fácil; mídia incentivando

Biológicos

Transtornos de ansiedade; transtornos depressivos e bipolares; transtornos de impulso; transtornos de conduta; doenças orgânicas herdadas diabetes.

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PADRÃO DE CONSUMO: CONCEITO DE USO NOCIVO E DEPENDÊNCIA Ficou claro então que a partir de fatores ligados ao indivíduo (biológicos e psicológicos), à natureza da substância e ao ambiente sócio-cultural, cada um desenvolve um padrão de consumo de substâncias. Nenhum padrão de consumo de substâncias de abuso está isento de riscos (figura 2)1. Desse modo, o consumo de álcool em baixas doses e cercado das precauções necessárias para a prevenção de acidentes é considerado um consumo de baixo risco. O consumo eventual em doses maiores, quase sempre estará acompanhado de complicações (acidentes, brigas, perda de compromissos) é denominado uso nocivoou abuso. Por fim, quando o consumo é freqüente, compulsivo, destinado à evitação de sintomas de abstinência e acompanhado por problemas físicos, psicológicos e sociais, fala-se em dependência (figura 3).

Problemas relacionados ao consumo de substâncias psicotrópicas.

Figura 2: Não é necessário ser dependente para apresentar problemas relacionados ao consumo (IOM, 1990).

Portanto, a partir dos padrões de consumo e suas complicações é possível determinar a diferença entre uso nocivo e dependência. O primeiro é caracterizado pela presença de danos físicos e mentais decorrentes do uso. Geralmente, tal padrão é criticado por outras pessoas e acarreta conseqüências sociais para o usuário. No entanto, não há presença de complicações crônicas relacionadas ao consumo, como a síndrome de abstinência, a cirrose hepática, desnutrição, entre

20518001 miolo 01.06.06 08:39 Page 20 outras. AOMS3define uso nocivocomo “um padrão de uso de substâncias de abuso que causem danos à saúde”, físico ou mental. Apresença da síndrome de abstinência ou de transtornos mentais relacionados ao consumo (demência alcoólica) exclui esse diagnóstico. Os critérios diagnósticos estão relacionados no quadro 2.

Quadro 2 - Critérios do CID-10 para uso nocivo (abuso) de substância

O diagnóstico requer que um dano real deva ter sido causado à saúde física e mental do usuário. Padrões nocivos de uso são freqüentemente criticados por outras pessoas e estão associados a conseqüências sociais diversas de vários tipos. O fato de um padrão de uso ou uma substância em particular não seja aprovado por outra pessoa, pela cultura ou possa ter levado a conseqüências socialmente negativas, tais como prisão ou brigas conjugais, não é por si mesmo evidência de uso nocivo. Aintoxicação aguda ou a “ressaca” não é por si mesma evidência suficiente do dano à saúde requerido para codificar uso nocivo. O uso nocivo não deve ser diagnosticado se a síndrome de dependência, um transtorno psicótico ou outra forma específica de transtorno relacionado ao uso de drogas ou álcool está presente.

Já a dependência é identificada a partir de um padrão de consumo constante e descontrolado, uma relação disfuncional entre um indivíduo e seu modo de consumir uma determinada substância psicotrópica, visando principalmente a aliviar sintomas de mal-estar e desconforto físico e mental, conhecidos por síndrome de abstinência. Freqüentemente, há complicações clínicas, mentais e sociais concomitantes (quadro 2)1,3. Aavaliação inicial começa pela identificação dos sinais e sintomas que caracterizam tal situação (quadro 3).

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Quadro 3 - Critérios diagnósticos da dependência de substâncias

Compulsão para o consumo

Aumento da tolerância

Síndrome de abstinência

Alívio ou evitação da abstinência pelo aumento do consumo

Relevância do consumo

Estreitamento ou empobrecimento do repertório

Reinstalação da síndrome de dependência

Aexperiência de um desejo incontrolável de consumir uma substância. O indivíduo imaginase incapaz de colocar barreiras a tal desejo e sempre acaba consumindo.

Anecessidade de doses crescentes de uma determinada substância para alcançar efeitos originalmente obtidos com doses mais baixas.

O surgimento de sinais e sintomas de intensidade variável quando o consumo de substância cessou ou foi reduzido.

O consumo de substâncias visando ao alívio dos sintomas de abstinência. Como o indivíduo aprende a detectar os intervalos que separam a manifestação de tais sintomas, passa a consumir a substância preventivamente, a fim de evitá-los.

Oconsumo de uma substância torna-se prioridade, mais importante do que coisas que outrora eram valorizadas pelo indivíduo.

Aperda das referências internas e externas que norteiam o consumo. À medida que a dependência avança, as referências voltam-se exclusivamente para o alívio dos sintomas de abstinência, em detrimento do consumo ligado a eventos sociais. Além disso passa a ocorrer em locais onde sua presença é incompatível, como por exemplo o local de trabalho.

O ressurgimento dos comportamentos relacionados ao consumo e dos sintomas de abstinência após um período de abstinência. Uma síndrome que levou anos para se desenvolver pode se reinstalar em poucos dias, mesmo o indivíduo tendo atravessado um longo período de abstinência.

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AOrganização Mundial da Saúde (OMS) utilizou esses critérios para elaborar suas diretrizes diagnósticas para a síndrome de dependência de substâncias3(quadro 4)

Quadro 4 - Critérios do CID-10 para dependência de substâncias

Um diagnóstico definitivo de dependência deve usualmente ser feito somente se três ou mais dos seguintes requisitos tenham sido experienciados ou exibidos em algum momento do ano anterior: •forte desejo ou senso de compulsão para consumir a substância;

•dificuldades em controlar o comportamento de consumir a substânciaem termos de seu início, término e níveis de consumo; •estado de abstinência fisiológico quando o uso da substância cessou ou foi reduzido, como evidenciado por: síndrome de abstinência para a substância ou o uso da mesma substância (ou de uma intimamente relacionada) com a intenção de aliviar ou evitar sintomas de abstinência; •evidência de tolerância, de tal forma que doses crescentes da substância psicotrópica são requeridas para alcançar efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas; •abandono progressivo de prazeres e interesses alternativos em favor do uso da substância psicotrópica, aumento da quantidade de tempo necessária para se recuperar de seus efeitos; •persistência no uso da substância, a despeito de evidência clara de conseqüências manifestamente nocivas. Deve-se fazer esforços claros para determinar se o usuário estava realmente consciente da natureza e extensão do dano.

GRAVIDADE DA DEPENDÊNCIA Todas as substâncias psicoativas e psicotrópicas podem levar ao uso nocivo ou à dependência. Os critérios diagnósticos são claros e objetivos, mas não basta detectá-los. É preciso também investigar a gravidade dos mesmos. Além disso, o uso problemático pode estar acompanhado por transtornos psiquiátricos, tais como depressão, ansiedade, sintomas psicóticos e transtornos de personalidade. Por isso, quando sintomas de dependência são detectados é sempre aconselhável o encaminhamento para profissionais especializados. Atualmente, o tratamento instituído baseia-se em grande parte na avaliação da gravidade do quadro. Muitos dependentes, porém, recusam qualquer tipo de ajuda. Nessa hora é importante buscar sensibilizá-lo conversando e se interessando por outras áreas de sua vida (como as listadas na figura 1).

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Outro importante critério de gravidade é o suporte social. Muitos indivíduos não possuem uma família estruturada e participante do seu cotidiano, ou outros grupos de convívio capazes de oferecer ajuda. Devido ao consumo, perderam emprego, estão mal na escola ou foram despejados. Desse modo, considerar o suporte social é importante tanto para o tratamento, quanto para a prevenção.

1 - Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH. The treatment of drinking problems – a guide for the helping professions. London: Cambridge; 2004.

adolescent drug use: implications for prevention programs. In: Sloboda Z & Bukoski

2 - Brook JS, Brook DW, Richter L, Whiteman M. Risk and protective factors of WJ. Handbook of drug abuse prevention – theory, science and practice. New York: Kluwer / Plenum; 2002.

3 - Organização Mundial da Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Porto Alegre: Artmed; 1993.

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[2] O PAPEL DE CADA UM

Todo cidadão, independentemente da escolaridade, formação profissional e campo de atuação pode desenvolver ações relacionadas à questão das drogas, respeitando alguns limites. Há uma ampla rede social que engloba a todos (figura 1). No entanto, é importante que esteja claro o papel que se pretende desempenhar e como conectá-lo

Figura 1:As ações de prevenção, tratamento e reabilitação podem ser realizadas em diversos ambientes. Todos podem participar de alguma maneira. É essencial saber, no entanto, qual o planejamento das mesmas, seu objetivo e inserção e como interligá-lo às outras atividades em andamento no local.

Não existe um local de tratamento, método preventivo ou linha terapêutica única para a abordagem do problema em questão. Existem, sim, indivíduos inseridos em determinadas situações que necessitam de diferentes intervenções3. Um dependente de álcool com depressão deve receber preferencialmente farmacoterapia e abordagem psicossocial, pois esta “terapêutica mista” tem se mostrado mais efetiva. Esse ‘sectarismo preventivo-terapêutico’, ao qual muitos se submetem sem notar, distância profissionais, impede o surgimento de redes de apoio efetivas e acima de tudo, prejudica aqueles que buscam informação ou necessitam tratamento.

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Por isso, o papel de cada um na prevenção, tratamento e reabilitação, no que se refere à dependência química, começa pela cooperação. Não adianta pensar em uma ação sem entender o que já está sendo feito naquela comunidade, quais os potenciais apoiadores do projeto e com quem é possível se associar nesta empreitada. Há quatro tipos de ações que podem ser desenvolvidas dentro das comunidades: prevenção, tratamento, reabilitação e políticas públicas, categorias que devem ser articuladas entre si. Por exemplo, não faz sentido pensar um projeto de prevenção de drogas nas escolas sem pensar em uma política de tabagismo dentro da instituição. Não é possível pensar em prevenção sem falar de políticas públicas para o álcool, que inclui, também, o acesso a tratamentos de qualidade, garantidos pelo Estado4-6. Isso reforça ainda mais a necessidade de articulação e formação de redes de apoio entre todas as instituições que atuam nesta área. Mas é claro, cada um tem suas habilidades, talentos e inclinações pessoais para uma ou outra área. Desse modo, os princípios que regem as ações no campo do consumo de drogas serão apresentados a seguir, visando a direcionar o leitor para aprofundamentos futuros.

1 - Ribeiro M. Organização de serviços para o tratamento da dependência do álcool

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Rev. Brás Psiq 2004; 26 (sup. 1): 59-62.

2 - Department of Health. Drug Misuse and dependence – guidelines on clinical management [online]. Norwich (UK): Department of Health; 1999. Available from: URL: http://www.doh.gov.uk/pub/docs/doh/dmfull.pdf

eclecticism. In: Miller WR. Handbook of alcoholism treatment approaches – effective

3 - Miller WR & Hester RK. Treatment for alcohol problems: toward an informed aternatives. Allyn & Bacon; 1995.

4 - Scottish Executive Effective Interventions Unit (SEEIU). Needs Assessment: a practical guide to assessing local needs for services for drug users [online]. Edingburg: SEEIU; 2004. Available from: URL: http://scotland.gov.uk/library5/health/nadu.pdf

5 - Tancredi FB, Barrios SRL, Ferreira JHG. Planejamento em Saúde. São Paulo:

IDS-USP-Itaú; 1998. Disponível on-line: URL:http://ids-saude.uol.com.br/SaudeCidadania/ed_02/index.html

6 - Formigoni MLOS. Organização e avaliação de serviços de tratamento a usuários de drogas. In: Seibel SD, Toscano-Júnior A. Dependência de drogas. São Paulo: Atheneu; 2001.

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[3] PREVENÇÃO

Prevenção consiste em redução da demandado consumo de drogas. Desse modo os programas e projetos instituídos visam ao fornecimento de informações capazes de estimularem nas pessoas a adoção de outros hábitos, resultando na evitação, redução ou interrupção do consumo de drogas.

Durante muitos anos, as estratégias preventivas estiveram centradas na educação para a abstinência. Informações sobre as principais substâncias, seus riscos e complicações por meio de palestras foram bastante difundidas. Tal ação isolada, porém, mostrou-se ineficaz. Crianças e adolescentes possuíam um bom conhecimento sobre o tema, mas os índices de consumo permaneciam os mesmos. Isso fez com que pesquisadores concluíssem que estratégias de prevenção precisam ser combinadas, para alcançarem as metas pretendidas1.

Atualmente, não se fala em prevenção específica para o consumo de drogas, mas em estratégias visando ao cuidado de si, ou seja, qualidade de vida, na qual o consumo de drogas é apenas um dos aspectos. Nesse sentido, merecem atenção especial aqueles que possuem fatores de risco para o consumo. Atualmente, há consenso acerca de alguns fatores que aumentam sensivelmente o risco de uso nocivo e dependência de álcool, tabaco e outras drogas de abuso. Desse modo, intervenções que diminuam a ação de tais fatores ou fortaleçam fatores de proteção têm sido propostas pelos estudiosos como o modelo mais adequado de prevenção.

Os problemas com o consumo de substâncias de abuso se originam a partir da interação de fatores de risco (ou ausência de fatores de proteção) agrupados nos vérticesindivíduo - substância - ambiente. Desse modo, ações bem sucedidas devem ser elaboradas considerando estes aspectos.

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