Guia Pratico sobre Uso e Dependencia de Drogas

Guia Pratico sobre Uso e Dependencia de Drogas

(Parte 3 de 6)

TIPOS DE PREVENÇÃO Estratégias preventivas podem ser elaboradas em todos os campos: escolas, empresas, presídios, na comunidade ou ainda como estratégia de divulgação em massa. Por exemplo, uma empresa de transportes pode fazer prevenção universal(distribuição de folhetos sobre dependência para todos os caminhoneiros), seletiva (palestras sobre o uso de ‘bolinhas’e ‘rebites’para os caminhoneiros do turno da noite) ou dirigida (grupos de sensibilização para os caminhoneiros que referem uso prévio de ‘rebites’).

27GUIA PRÁTICO •

20518001 miolo 01.06.06 08:39 Page 27

28 • GUIA PRÁTICO

Seja qual for o ambiente e o tipo de intervenção escolhido, alguns princípios regem as estratégias preventivas e devem ser sempre observados2: 1 - As estratégias devem estar centradas no fortalecimento dos fatores de proteção e redução dos fatores de risco. 2 - Programas de prevenção devem abarcar todas as substâncias, incluindo o tabaco. 3 - Estratégias preventivas devem incluir treinamento de habilidades sociais para lidar com a oferta, aumentar as convicções pessoais e melhorar as competências sociais (comunicação, relacionamento, auto-eficácia e assertividade). 4 - Programas para adolescentes devem privilegiar métodos interativos (grupos, jogos, excursões, exercícios dramáticos,...) e contar com a participação dos mesmos na elaboração das ações preventivas, ao invés de palestras e aulas expositivas. 5 - Programas de prevenção devem incluir os familiares sempre que possível, pois são mais eficazes. 6 - Toda a intervenção deve ser permanente, continuada e atualizada constantemente, a partir da formação de multiplicadores locais. 7 - Programas baseados na comunidade, que incluem campanhas na mídia e políticas de restrição do acesso ao álcool e tabaco, são mais efetivos se acompanhados por intervenções na escola e na família. 8 - Escolas oferecem a oportunidade de atingir toda a população, inclusive subgrupos de adolescentes expostos a maiores riscos, além de incluir mais facilmente os familiares. 9 - Os programas de prevenção devem ser adaptados à realidade sócio-cultural de cada comunidade. 10 - Quanto maior o risco da população-alvo, mais intensivo e precoce deve ser o esforço preventivo. 1 - Programas de prevenção devem ser específicos para a idade, apropriado para a fase do desenvolvimento e sensível à linguagem e cultura locais. 12 - Arelação custo-benefício deve ser sempre considerada.

PREVENÇÃO AO CONSUMO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS UTILIZANDO OS FATORES DE RISCO E PROTEÇÃO COMO ESTRATÉGIA PREVENTIVA Os principais domínios para intervenções preventivas são1-2: Relacionamento familiar - Fortalecer os fatores de proteção entre crianças pequenas, ensinando aos pais habilidades para melhorar a comunicação dentro da família e instituir regras familiares consistentes. Os pais precisam ter participação na vida dos filhos (falar com eles sobre drogas, participar de suas atividades, conhecer seus amigos, compreender seus problemas e preocupações).

20518001 miolo 01.06.06 08:39 Page 28

29GUIA PRÁTICO •

Relacionamento entre colegas- Focalizar o relacionamento de cada um com os colegas, desenvolvendo habilidades e competência social, que envolvam melhora da capacidade de comunicação, melhora de relacionamentos positivos entre colegas, comportamentos sociais e habilidades para lidar com a oferta de drogas. O ambiente escolar- Estimular e apoiar desempenho acadêmico, e o estreitamento dos laços entre a escola e o aluno, oferecendo a eles maior identidade e capacidade de realização e reduzindo a probabilidade de abandono escolar. O ambiente comunitário - Trabalhar no nível comunitário com organizações civis, religiosas, de execução de leis e políticas públicas governamentais buscando mudanças na regulamentação política, esforços de mídia de massa e programas comunitários amplos. Os programas comunitários devem incluir novas leis e melhoria das anteriores, restrições à propaganda e zonas escolares sem droga - todas desenhadas para oferecer um ambiente seguro e voltado para interações comunitárias.

PREVENÇÃO NAS ESCOLAS Aprevenção dos problemas relacionados ao consumo de álcool, tabaco e outras drogas psicotrópicas nas escolas é regida pelas mesmas estratégias e princípios discutidos anteriormente. Este ambiente receberá maior destaque neste manual por diversos motivos. Aescola, em tese, abriga a maior parte das crianças e adolescentes de uma comunidade ou município, faixa etária onde se dá a experimentação e a escalada de alguns para o abuso e, ou dependência. Problemas psicológicos e comportamentais também aparecem neste período. Apartir dos estudantes, é possível atingir sua família e grupos de convívio. Além disso, a escola é o ambiente onde os indivíduos aprendem as regras dos relacionamentos sociais fora da célula familiar. Torna-se, por isso, um ambiente propício para a aceitação das diferenças e para a consolidação de comportamentos marcados pela cooperação e convívio harmonioso entre os pares. Para isso, a escola necessita desenvolver políticas que conduzam seus membros para estes resultados. Se a questão das drogas for inserida neste contexto, o efeito final pode ser bem diferente.

OBJETIVOS DOS PROGRAMAS DE PREVENÇÃO Um programa de prevenção de drogas nas escolas não deve ter como meta “uma sociedade sem drogas”, pois a existência delas data dos primórdios da Humanidade. Os programas de prevenção devem enfatizar a redução dos fatores de risco e ampliação dos fatores de proteção, com o intuito de minimizar a incidência de problemas psicológicos e comportamentais, entre eles o uso, abuso e dependência de substâncias psicotrópicas. Não se trata de aceitar o consumo, mas de apresentar à comunidade escolar estratégias sintonizadas com a realidade3-4.

20518001 miolo 01.06.06 08:39 Page 29

30 • GUIA PRÁTICO

Além disso, vale lembrar que a maioria dos adolescentes se envolve com o consumo episódico e disfuncional situacional, abandonando ou reduzindo o mesmo na idade adulta (figura 7). Mais uma vez, não se trata de condescendência, nem tão pouco encarar a questão com desespero e atitudes impensadas ou repressivas. Entender a gravidade da situação, com a finalidade de tomar a melhor decisão possível, preferencialmente com a participação conjunta de toda a comunidade escolar é o caminho. O objetivo maior dos programas de prevenção nas escolas deve ser a construção de um pensamento coletivo sobre o tema, sua política de bem estar individual e coletivo.

Quadro 1: Modelos de Prevenção para os Problemas de Álcool e Drogas.

Abordagem centrada na informação dos efeitos negativos do consumo.

Baseado em aulas sobre a ação e conseqüência das drogas, por meio de informação técnica e imparcial.

Educação sobre o tema e desenvolvimento de atitudes para resistir às pressões de grupo ou da mídia.

Pretende melhorar as competências sociais, tornando o jovem mais apto para enfrentar dificuldades.

Formação de líderes capazes de influenciar seus pares para a evitação ou abandono do consumo.

Educar de forma afetiva crianças e jovens, diminuindo os riscos relacionados ao uso.

Pretende oferecer alternativas interessantes e saudáveis ao consumo de substâncias psicoativas e psicotrópicas.

Aescola como aglutinador da comunidade, família e alunos, favorecendo práticas saudáveis e protetoras.

Privilegia o auto-cuidado (alimentação, esporte, vida sexual, manejo do estresse) segundo o modelo biopsicossocial do ser humano.

20518001 miolo 01.06.06 08:39 Page 30

31GUIA PRÁTICO •

ESTRATÉGIAS DE AÇÃO Há diversas estratégias de prevenção de drogas nas escolas desenvolvidas (quadro 1), que podem ser aplicadas de maneira combinada. O modelo do amedrontamento, baseado na informação centrada nos malefícios, com exposição de slides de pulmões cancerosos, órgãos deformados e dependentes depressivos, tem se mostrado ineficaz e deve ser desencorajado. Aeducação voltada para a saúde e a qualidade de vida enseja os preceitos do modelo moderno de saúde pública, sendo por isso o mais indicado. Este pode ser combinado a outros modelos (quadro 1).

É preciso ser flexível na escolha das estratégias, considerando a opinião dos membros da comunidade escolar e ouvindo especialistas. Além disso, toda a estratégia instituída deve ser reavaliada constantemente acerca da sua eficácia.

PLANEJAMENTOS DAS AÇÕES Aprimeira etapa é a formação de uma equipe permanente, responsável pelo diagnóstico do problema na escola, planejamento das ações e monitoramento, avaliando sempre as ações instituídas. A equipe deve contar com membros do corpo docente e administrativo. Os alunos geralmente não participam desta etapa. Em uma fase posterior, aqueles que se destacarem poderão ser ouvidos pela equipe com regularidade5.

Aequipe de prevenção deve ser capacitada, a fim de desempenhar melhor sua função e lidar com situações difíceis que possam desestimular o andamento do projeto, tais como desinteresse por parte dos alunos ou mesmo da instituição, problemas com traficantes, entre outros.

Diagnóstico

O diagnóstico tem por função apresentar à equipe as dimensões atuais do problema. Ele pode ser feito a partir de levantamentos epidemiológicos, por meio de questionários anônimos e/ou grupos de discussão com os alunos, reuniões com pais e líderes comunitários, além de outras ações. Ao final desta etapa a equipe deve formular um perfil detalhado sobre as principais substâncias consumidas; a opinião dos alunos e suas famílias sobre o tema; como a escola trata as questões de saúde, a visão dos professores e como abordam o tema em sala de aula, assim como o mapeamento da região (número de bares e bocadas), os recursos humanos e financeiros disponíveis5. Igualmente importante é o levantamento sobre o sentimento dos membros da equipe em relação á disponibilidade individual para tratar desse tema com os alunos.

20518001 miolo 01.06.06 08:39 Page 31

32 • GUIA PRÁTICO

Planejamento das ações

Feito o diagnóstico, o próximo passo é planejar as ações. A experiência de outras escolas, o resultado de pesquisas e o talento e habilidade de cada membro da equipe são ingredientes que devem ser aproveitados. Moldadas as ações (grupos de teatro, palestras, discussões temáticas, etc), a implementação das mesmas deve contar com a participação ativa dos alunos, opinando e avaliando o que está sendo proposto e realizado. Modelos bem-sucedidos são adaptados pela criatividade à cultura de todos os membros interessados da escola6.

Monitoramento e avaliação

Nenhum projeto tem valor se seus resultados não puderem ser mensurados, visando à observação de falhas, sucessos ou necessidade de melhorias. Desse modo, a equipe deve escolher alguns parâmetros, critérios de sucesso, tais como redução do consumo, dos incidentes com drogas nas escolas; maior proximidade dos alunos com os professores, melhoria na disciplina ou aproveitamento escolar, etc. Ao final, ações permanentes, tais como programas curriculares, grupos de discussão, debates ou formação de multiplicadores, são medidas que podem ser instituídas, com o respaldo de toda comunidade escolar7-8.

Bukoski WJ. Handbook of drug abuse prevention – theory, science and practice
drug use: implications for prevention programs. In: Sloboda Z & Bukoski WJ

1 - Bukoski WJ. The emerging science of drug abuse prevention. In: Sloboda Z & New York: Kluwer / Plenum; 2002. 2 - Brook JS, Brook DW, Richter L, Whiteman M. Risk and protective factors of adolescent Handbook of drug abuse prevention – theory, science and practice. New York: Kluwer / Plenum; 2002. 3- Ringwalt C, Ennett ST, Vincus A, Simons-Rudolph A. Students’special needs and problems as reasons for the adaptation of substance abuse prevention curricula in the nation’s middle schools. Prev Sci. 2004 Sep;5(3):197-206. 4 - Botvin GJ & Griffin KW. Drug abuse prevention curricula in schools. In: Sloboda Z &

Bukoski WJ. Handbook of drug abuse prevention – theory, science and practice. New York: Kluwer / Plenum; 2002. 5 - Patton GC, McMorris BJ, Toumbourou JW, Hemphill SA, Donath S, Catalano RF.

Puberty and the onset of substance use and abuse. Pediatrics. 2004 Sep;114(3):e300-6. 6 - Oetting ER & Lynch RS. Peers and the prevention of adolescent drug use. In:

Sloboda Z & Bukoski WJ. Handbook of drug abuse prevention – theory, science and practice. New York: Kluwer / Plenum; 2002. 7 - Berkowitz MW & Begun AL. Design prevention programs: the developmental per spective. In: Sloboda Z & Bukoski WJ. Handbook of drug abuse prevention – theory, science and practice. New York: Kluwer / Plenum; 2002. 8 - SAMSHA. Science-based prevention program and principles. Rockville: DHHS; 2002.

20518001 miolo 01.06.06 08:39 Page 32

33GUIA PRÁTICO •

PARTE 2: TRATAMENTO

[1] PRINCÍPIOS GERAIS

O consumo de álcool, tabaco e outras substâncias psicotrópicas está presente em todos os países do mundo. Mais da metade da população das Américas e da Europa já experimentou álcool alguma vez na vida1,2e cerca de um quarto são fumantes3. O consumo de drogas ilícitas atinge 4,2% da população mundial4. Amaconha é a mais consumida (144 milhões de pessoas), seguida pelas anfetaminas (29 milhões), cocaína (14 milhões) e os opiáceos (13,5 milhões, sendo 9 milhões usuários de heroína)4.

As complicações clínicas e sociais causadas pelo consumo de tais substâncias são hoje bem conhecidas e consideradas um problema grave de saúde pública. O tabaco foi o maior fator responsável pelas mortes nos Estados Unidos em 1990, contribuindo substancialmente para as mortes relacionadas a neoplasias, doenças cardiovasculares, doenças pulmonares, baixo peso ao nascimento e queimaduras5. O aumento do consumo de álcool está diretamente relacionado à ocorrência de cirrose hepática, transtornos mentais, síndrome alcoólica fetal, neoplasias e doenças cardiovasculares6. Cerca de 3% dos indivíduos que procuram atendimento de emergência com queixa de angina pectoris no Canadá relataram consumo prévio de cocaína7.

AVALIAÇÃO INICIAL Aavaliação inicial do consumo de substâncias de abuso deve contemplar os princípios apresentados nos capítulos anteriores: [1] há diferentes padrões de consumo e riscos relacionados à dosagem, tempo de uso e via de administração escolhida; [2] há critérios específicos para o diagnóstico de abuso e dependência; [3] todo o critério diagnóstico possui níveis de gravidade distintos; [4] todo o dependente passa por estágios de motivação. Qualquer avaliação tem como objetivo coletar dados do indivíduo para o planejamento do seu cuidado (quadro 1). Além das queixas ou alterações do estado de saúde do indivíduo, a avaliação inicial investiga também sua condição social e econômica, oprotocolo de identificação geral do usuário13.

Quadro 1 – Objetivos da avaliação inicial25

•elaboração de um diagnóstico precoce •avaliação das complicações clínicas

•investigação de comorbidades psiquiátricas

•motivação do indivíduo para a mudança

•estabelecimento de um vínculo empático com o paciente

20518001 miolo 01.06.06 08:39 Page 3

Aentrevista inicial deve ser ampla na sua primeira fase e a seguir, diretiva, acolhedora, empática, clara, simples, breve e flexível, pesquisando ao final, sobre o uso de substâncias. Intervenções desse tipo auxiliam a motivação do paciente e melhoram o planejamento do tratamento24.Evitar confrontose só estimular mudanças compatíveis com o estado motivacional do paciente, utilizando o bom senso é uma prioridade (quadro 2).

(Parte 3 de 6)

Comentários