Guia Pratico sobre Uso e Dependencia de Drogas

Guia Pratico sobre Uso e Dependencia de Drogas

(Parte 4 de 6)

Quadro 2 – Questões essenciais para a investigação do consumo22

•o último episódio de consumo (tempo de abstinência) •a quantidade de substância consumida

•a via de administração escolhida

•o ambiente do consumo (festas, na rua, no trabalho, com amigos, com desconhecidos, sozinho...) •a freqüência do consumo nos últimos meses.

Alguns sinais e sintomas, se investigados, podem indicar a presença de complicações do consumo (quadro 3). Auxiliam, assim, na determinação da gravidade do consumo26.

Quadro 3 - Sinalizadores de problemas decorrentes do uso

•Faltas freqüentes no trabalho e na escola •História de trauma e acidente freqüentes

• Depressão

• Ansiedade

• Hipertensão arterial

• Sintomas gastrointestinais

•Disfunção sexual

•Distúrbio do sono

Após a anamnese processa-se o exame físico, observando-se alguns sinais mais comuns do uso de álcool e outras drogas26(Quadro 4).

Quadro 4 - Sinais físicos sugestivos do uso

•Aumento do fígado

•Irritação nasal (sugestivo de inalação de cocaína)

•Irritação das conjuntivas (sugestivo de uso de maconha)

•Pressão Arterial lábil (sugestivo de síndrome de abstinência de álcool)

•“Síndrome da higiene bucal” (mascarando o odor de álcool)

•Odor de maconha nas roupas

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Um formulário amplo e contextualizado pode ser utilizado 27 (quadro 5): Não há análises bioquímicas específicas, patognomônicas para o uso de álcool e drogas. No entanto, a dosagem das enzimas hepáticas pode contribuir com o diagnóstico dos transtornos relacionados ao consumo de álcool ou de estimulantes, assim como dosagens de substâncias na urina. Em resumo, o diagnóstico de dependência consiste na obtenção de três perfis básicos: [1] o padrão de consumo e a presença de critérios de dependência; [2] a gravidade do padrão de consumo (como ele complica outras áreas da vida) e [3] a motivação para a mudança. A importância de se obter esses três critérios está relacionada ao planejamento da abordagem terapêutica. Assim, para a pesquisa do padrão de consumo, deve-se incluir na anamnese ampla os seguintes itens 13,28(quadro 6):

Data: Nome: Idade: Por que você está aqui hoje?

O que está errado com você ?

Outros problemas: Desde seus 18anos Sim Não

Teve fratura ? Teve um acidente no trânsito? Teve traumatismo na cabeça? Teve problemas decorrentes de brigas? Teve problemas após beber álcool

Exercícios físicos Você se exercita regularmente? Sim / Não?

Estresse Você se sente estressado? Constantemente / freqüentemente / eventualmente?

Com quem vive ? (Só, com o cônjuge, outros parentes, amigos)

Quadro 5 - Formulário de avaliação do risco para uso de álcool e drogas

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TabacoSim Não Você fuma? Quantos cigarros por dia ?

Dieta

Você cuida de sua dieta para : Colesterol? Sal? Calorias totais /dia ou gorduras?

Uso de Álcool

Você tem observado algum problema com seu consumo de bebida alcoólica?

Alguém de sua família tem problemas com a bebida? Você já sentiu que deveria diminuir a bebida?

As pessoas que convivem com você se incomodam com sua bebida? Você já se sentiu mal por ter bebido?

Você tem bebido logo pela manhã para poder iniciar seu dia ou para melhorar da ressaca ?

Quantas doses você consome em um dia típico de beber?

(1 dose = 1 lata de cerveja = 1 copo de vinho = 1 medidor de destilado)

Quantos dias por semana você bebe?

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Quadro 6 - Etapas de Triagem, Diagnóstico e Intervenção Psicossocial Breve

ETAPA 1:Perguntar sobre o uso de substâncias: a) Consumo; b) Aplicar escalas ou questionários para triagem.

ETAPA 2:Avaliar os problemas relacionados com o uso: a) Problemas clínicos; b) Problemas comportamentais; c) Dependência.

ETAPA 3:Aconselhe uma estratégia adequada: a) Se existe suspeita de dependência: 1 - Aconselhe a abstinência; 2 - Encaminhe para o especialista. b) Se o uso é nocivo ou de risco: 1- Aconselhe a cessar o uso; 2 - Proponha a moderação

ETAPA 4:Monitorização dos progressos do paciente.

Para cada indivíduo, cabem orientações específicas e atitudes médicas compatíveis com o grau de problema26 (figura 2).

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Figura 2: Algoritmo para a avaliação inicial.

As dificuldades que os educadores e outros profissionais não especializados encontram ao lidarem com indivíduos que consomem substâncias de abuso não se restringem a avaliação do padrão de consumo, dos fatores de risco e proteção e da gravidade do quadro. Muitos se sentem incapacitados para dar uma boa orientação, pois não foram formados para desenvolver o tema, assim como têm tabus e preconceitos pessoais. Aidéia de que ‘palavras mágicas’e ‘colocações maravilhosas’devam ser proferidas para ‘libertar’os indivíduos das drogas, permeiam o imaginário das pessoas e acabam por impedi-las de atuar. Boa parte dos profissionais acabam optando por discursos distanciados, frios e polarizados, excessivamente moralistas e autoritários ou demasiado omissos e permissivos.

Esquece-se nessa hora de que existem vínculos de amizade, de parentesco ou institucionais que permitem diálogos mais francos, personalizados e objetivos. Na maior parte das vezes, a conversa com

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39GUIA PRÁTICO • um aluno, funcionário ou colega sobre consumo de drogas não deve ser pautada pela oferta de respostas e conclusões. Deve, sim, ser um momento para a reflexão, visando a busca conjunta de soluções objetivas para o problema.

O aconselhamento é uma estratégia que serve bem para tais situações. Além de fornecer aos profissionais uma ação estruturada, também pode ser útil para a avaliação inicial do usuário, além de já se constituir em uma atitude terapêutica. Aconselhar não é dizer o que deve ser feito e sim acolher o indivíduo diante do problema compartilhando a responsabilidade de tentar resolver juntos aquela situação.

Um aconselhamento mais elaborado pode ser feito utilizando como abordagem a Entrevista Motivacional (EM), que tem como premissa a idéia de que dentro de todo o usuário existe sempre uma prontidão para a mudança, que deve ser eliciada. Apesar de ter sido desenvolvida para o tratamento das dependências, o conceito de motivação para a mudança pode ser aplicado também situações de prevenção e reabilitação psicossocial. Avaliar o estágio motivacional do indivíduo faz parte de qualquer abordagem e é essencial para o planejamento das intervenções futuras.

Antes de introduzir as idéias da teoria da motivação, é preciso entender que qualquer indivíduo ao longo da vida passa por estágios de mudança diante de diferentes situações (quadro 7). Esse conceito também se aplica aos usuários de substâncias psicoativas e psicotrópicas. Os estágios de mudança se distribuem ao longo de um espiral. Em primeiro, aparece aquele que não cogita a mudança (précontemplação), estágio conhecido por negação. Em algum momento, porém, o usuário pode reconhecer que de fato tem ou poderá vir a ter problemas com seu consumo, mas ainda valoriza demais os benefícios que obtém usando, a contemplação. Trata-se de uma fase de ambivalência, cujos prós e contras sobre o uso e da abstinência vêm a tona o tempo todo. Mais adiante, sentindo o problema e não sabendo como resolvê-lo, o indivíduo poderá pedir ajuda (preparação). Esse estágio pode ter duração de poucas horas ou dias e por isso requer ação imediata dos profissionais. Apartir desta ajuda, o usuário interrompe o consumo (ação) e passa a se programar para se manter abstinente (manutenção). Aambivalência, porém, sempre o acompanha e somada aos fatores de risco aos quais está exposto, pode culminar no retorno ao consumo (recaída).

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Mais de 70% dos usuários recaem nos primeiros noventa dias de abstinência. Trata-se de uma etapa fundamental e a partir deste momento, o usuário pode retornar a qualquer uma das fases anteriores. Por exemplo, após a recaída, o usuário pode reagir dizendo: “eu bebo, gosto e não me faz mal coisa nenhuma: as pessoas é que estão botando minhoca na minha cabeça” (pré-contemplação). Ou então: “voltei a fumar, sei que me faz mal, mas por enquanto continuarei fumando” (contemplação). Ou ainda: “não resisti e bebi, vou ligar para o meu médico agora” (preparação / ação). Desse modo, a recaída requer grande atenção por parte dos profissionais envolvidos, pois uma intervenção imediata poderá ser um importante diferencial para a evolução do caso. Além disso, recair não é voltar à

Quadro 7: Estágios Motivacionais PRÉ-CONTEMPLAÇÃO o indivíduo não cogita a mudança, está resistente a qualquer orientação.

o indivíduo reconhece o problema (atual ou futuro) relacionado ao consumo, cogita a mudança, mas ainda valoriza os efeitos positivos da substância, está ambivalente.

o indivíduo reconhece o problema, sente-se incapaz de resolvê-lo sozinho e pede ajuda. Essa fase pode ser muito passageira, por isso é indispensável uma pronta aborda ação.

o indivíduo interrompe o consumo e começa o tratamento, mas a ambivalência, o acompanhará durante todo o trajeto, o que justifica um acompanhamento contínuo.

Amanutenção da abstinência será sempre colocada em xeque pela ambivalência e pelos fatores de risco que o acompanham e portanto deve ser aplicada a prevenção da recaída.

Refere-se ao retorno ao consumo, após um período considerável de abstinência. O lapso, quando o retorno ao consumo dentro de uma situação de abstinência é pontual. Recair não é voltar à estaca zero, ao contrário neste momento, ambos aprendem com o fato.

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41GUIA PRÁTICO • estaca zero. Ao contrário, é um momento de aprendizado e reflexão, acerca de como ela se deu, quais as conseqüências que trouxe ao indivíduo (responsabilidade pelo ocorrido) e que atitudes podem ser tomadas para sanar os problema causados e evitar recaídas futuras.

O profissional pode utilizar algumas estratégias para motivar a mudança nas pessoas, entre elas: OFERECER ORIENTAÇÃOclara, oportuna e moderada, respeitando o estágio de motivação do indivíduo, sem confronto ou compaixão estimula a mudança. Conselhos por si só não estimulam a mudança, mas sua influência não pode ser desprezada: estudos demonstram que uma conversa de quinze minutos aumenta as chances do indivíduo buscar ajuda ou mudar seus hábitos de consumo. Uma boa orientação deve seguir três preceitos: [1] identificar claramente o problema ou situação de risco, sem exagerar ou minimizar; [2] explicar porque a mudança é importante; [3] propor mudanças específicas, ajudando o indivíduo a escolher o melhor caminho. REMOVER BARREIRASque impedem a chegada ou a permanência no tratamento, pois ponderando a mudança podem desanimar frente a impedimentos práticos, tais como locomoção, horário, lugar para deixar os filhos e a timidez. PROPORCIONAR ESCOLHASa partir da discussão das opções de escolha que o indivíduo possui para efetivá-la, a fim de resolver seus problemas. As pessoas devem sentir sua liberdade e por conseguinte a responsabilidade de suas escolhas. Dizer o que deve ser feito pode ser entendido pelos outros como cerceamento, provocando resistência e inviabilizando o diálogo. DIMINUIR O ASPECTO “DESEJÁVEL” DO COMPORTAMENTO, identificando expectativas positivas dos usuários com relação ao consumo de substâncias, não apenas identificando fatores incentivadores do consumo, como também aumentando a percepção acerca das conseqüências negativas deste comportamento. Atuar sobre as contingências sociais pode auxiliar: família, escola, emprego, amigos. Há uma grande diferença ouvir do patrão, “pare de beber ou vai prá rua” e da escola, “seu jeito não se encaixa aqui”, do que “você tem méritos reconhecidos e por isso estamos preocupados com seu futuro e queremos ajudá-lo, mas se as coisas não mudarem teremos que dispensá-lo do emprego (ou transferi-lo de escola)”. PRATICAR EMPATIA, pois esta estratégia é a essência do aconselhamento, mas não deve ser confundida com compaixão. A escuta empática notabiliza-se principalmente pela compreensão das idéias trazidas pela pessoa e procura refletir com ela todas as hipóteses envolvidas na questão. O profissional não se identifica com o indivíduo, perdoando ou minimizando o ocorrido.

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PROPORCIONAR RETORNO DAS AVALIÇÕES REALIZADAS, pois muitas vezes o indivíduo não percebe o quanto tem estado ansioso, irritado, sua vida desorganizada e seu tempo mal aproveitado. Por exemplo, mostrar ao aluno que nos últimos três meses já foi chamado na diretoria em seis ocasiões (e isso não acontecia antes), pode deixá-lo mais à vontade para refletir e mais atento para o curso do seu processo de mudança.

Quadro 8: PRATIQUE! DEVOLUÇÃO (FEEDBACK)

Aponte para o indivíduo como ele está naquele momento e como você, profissional que o acompanha, tem percebido a evoluçãode sua vida. Por exemplo, quando o aluno entra na classe nervoso, é melhor apontar como ele está irritado hoje e o que está acontecendo.

Amudança é do indivíduo, ele é responsável por ela, mas há problemas para resolver e o profissional poderá a ajudá-lo se desejar.

Há muitas maneiras de resolver um mesmo problema. Encontre com o indivíduo a melhor forma de fazê-lo (opções de escolha).

Compreender o ponto de vista da pessoa é fundamental para a criação de um ambiente de mudança. Mesmo quando os indivíduos são “confrontados” com conselhos diretos, o clima empático, lhes permite recebê-los com mais tranqüilidade.

Todos podem desenvolver capacidades pessoais para resolver com êxito um problema. Por exemplo, o aluno bebeu e foi pego. ‘Dar uma bronca e comunicar aos pais’é tão errado quanto ‘guardar o segredo’. Refletir sobre o assunto, propor que ele conte aos pais e em seguida marcar uma reunião familiar, o torna parte integrante da solução do problema e não um vilão ou vítima do ocorrido.

Não basta perceber o que está ocorrendo se não tiver os parâmetros de mudança. Assim, o feedback bem definido deve ser acompanhado por metas realistas e viáveis. Por exemplo: o aluno foi pego bebendo no bar da esquina da escola. Após a conversa, entre as hipóteses e dificuldades levantadas, estava a sensação do aluno de que os pais nunca entenderiam se fossem comunicados do ocorrido. Talvez o melhor a fazer aqui seja combinar que ele dirá aos pais e a seguir a orientadora pode ajudar na etapa seguinte.

Amotivação também passa pelo interesse do profissional no caso. Desse modo, ajudar o indivíduo nos encaminhamentos e marcar reuniões periódicas para saber como o tratamento ou o relacionamento em casa vai indo são importantes diferenciais para o sucesso das intervenções.

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Quadro 9: EVITE!

Geram apenas mais resistência. AEntrevista Motivacional objetiva justamente o oposto: encontrar pontos de atuação conjunta. A resistência é vista como um sinal para uma mudança. Ele não precisa ‘ouvir verdades’ou ‘ser convencido’, mas sim refletir sobre o problema.

É contraproducente. Apergunta “eu sou um drogado?”, “sou um viciado?” parte do próprio entrevistado. Responder só aumenta a resistência, pois você não está lá para dizer a ele o que ele é, mas para ajudá-lo a resolver uma situação.

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