Guia Pratico sobre Uso e Dependencia de Drogas

Guia Pratico sobre Uso e Dependencia de Drogas

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Não pode ser deo ‘dono da verdade’por ser especialista ou ‘mais experiente’elimina a possibilidade de cooperação por parte do aluno.

Cada estágio motivacional está pronto para determinados assuntos. Partindo da précontemplação, os assuntos são amplos e pouco relacionados ao consumo, tornando-se mais específicos conforme a motivação aumenta. Por isso, não adianta forçar no assunto drogas para alguém que ainda acha que o problema todo é a família. É por ela que a discussão deve começar.

Não resolve nada descobrir culpados, até porque não há culpados, mas pode haver pessoas dispostas a assumir a responsabilidade de resolver um problema atual.

Deve respeitar o estágio motivacional de cada indivíduo (quadro 12) conduzindo-o rumo ao estágio de ação e manutenção. Não adianta propor soluções para as quais as pessoas não estejam preparadas: alguém contemplando a mudança não aceitará verdadeiramente deixar de fumar maconha só porque você o aconselhou a fazê-lo, mas provavelmente concordará em discutir melhor o assunto em novos encontros. Um bom aconselhamento consiste em utilizar as ferramentas certas e adequadas para o estágio motivacional em questão. Vale lembrar que o aconselhamento não é mostrar o caminho a seguir. Essa escolha é do indivíduo. Cabe ao profissional refletir ativamente qual a melhor forma de fazê-la para chegar ao objetivo desejado.

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O aconselhamento para que o paciente interrompa ou diminua o consumo de qualquer substância deve ser claro e objetivo, baseado em informações personalizadas, obtidas durante a anamnese 29,30. Um aconselhamento rápido feito por um generalista é capaz de induzir uma porcentagem de pacientes a interromper completamente o consumo de substâncias,32O aconselhamento pode ser mínimo, por 3 a 5 minutos; breve, de 5 a 10 e intensivo por mais de 10 minutos. Na primeira consulta serve para avaliação do problema; na segunda para oferecer estratégias de mudança, na terceira para avaliar se deu resultado e na última para avaliar a efetividade. Sua técnica e simples e de fácil aplicação.

Quadro 10: Abordagens de Acordo com o Estágio Motivacional Vigente

É uma fase onde não há espaço para soluções, mas para reflexão, muitas vezes de assuntos que o indivíduo não relaciona com o uso de substâncias. Oferecer para escutar os problemas, remover barreiras, oferecer opções e criar boas expectativas. O confronto é o maior aliado da resistência e por isso não deve acontecer.

É um momento para discutir os prós e contras de permanecer como está ou mudar de atitude. É importante desenvolver discrepância, ou seja, ficando como está, será possível conquistar seus objetivos futuros? Trata-se um período dedicado à análise dos riscos e acentuação das potencialidades inerentes, visando a superar a ambivalência que atravanca o processo.

O compromisso com a mudança não é eterno, tampouco sinal de sucesso por si só. Nessa hora de remover barreiras e ajudar ativamente a busca por ajuda. O interesse e apoio pela iniciativa do indivíduo são fundamentais.

É a hora de se preocupar com a implementação de um plano, analisando-o e incentivando o indivíduo a seguir em frente. É um momento que requer grande dedicação por parte do profissional.

Bem-sucedida culmina na construção de um novo estilo de vida, um jeito de ser mais responsável e autônomo. Isso leva tempo e está sujeito a recaídas. Cabe ao educador se interessar e estimular periodicamente o andamento do processo de tratamento de seus alunos.

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AIntervenção Breve é uma técnica mais estruturada que o aconselhamento, mas não mais complexa. Possui um formato também claro e simples e pode ser utilizada por qualquer profissional33. Qualquer intervenção, mesmo que breve, é melhor que nenhuma34,35. Ela está indicada inclusive para pacientes gravemente comprometidos36. Quando tais intervenções são estruturadas em uma a quatro sessões produzem um impacto igual ou maior que tratamentos mais extensivos para a dependência de álcool37.

Terapias fundamentadas na entrevista motivacional produzem bons resultados no tratamentoe podem ser utilizadas na forma de intervenções breves24. Motivar o paciente melhora suas chances de procurar e aderir ao tratamento especializado24. As intervenções breves utilizam técnicas comportamentais para alcançar a abstinência ou a moderação do consumo. Ela começa pelo estabelecimento de uma meta. Em seguida, desenvolve-se a auto-monitorização, identificação das situações de risco e estratégias para evitar o retorno ao padrão de beber problemático35.

Em função da heterogeneidade e gravidade dos pacientes e seus problemas, a intervenção breve pode ser ampliada para uma terapia breve com até 6 sessões38. O espectro de problemas também determina que se aplique intervenções mais especializadas para pacientes com problemas graves, além de adicionais terapêuticos, como manuais de auto-ajuda, aumentando a efetividade dos tratamentos39.

Quadro 1 - Aconselhamento não é dizer o que deve ser feito. A mudança é do indivíduo.

Chamar à reflexão

Dar responsabilidade Opinar com honestidade Dar opções de escolha Demonstrar interesse Facilitar o acesso Evitar o confronto

“Qual a sua opinião sobre o seu consumo atual de drogas?”

“O que você pretende fazer com relação ao seu consumo?”

“Na minha opinião seu uso de álcool está absolutamente fora de controle.”

“Vamos discutir as alternativas que você tem para não chegar embriagado em seu emprego.”

“Conte mais sobre sua semana, como foram suas tentativas para se manter abstinente.”

“Vamos tentar encontrar um horário que se adapte bem a nós dois.”

“Ao invés de encontrarmos culpados, podemos juntos buscar soluções para o seu problema.”

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[2] TRATAMENTO DA DEPENDÊNCIA DE ÁLCOOL

ÁLCOOL: SEDATIVO, NATURAL E LÍCITO O álcool é uma substância lícita, obtido a partir da fermentação ou destilação da glicose presente em cereais, raízes e frutas. O álcool está presente em quase todas as culturas e participa do cotidiano da Humanidade. É também, a substância que mais causa danos à saúde, causa dependência e possui um quadro de abstinência que pode levar ao óbito, se não tratada. Por outro lado, consumo diário em baixas doses é protetor contra doenças cardiovasculares, mas essa prática não deve ser estimulada como ‘método preventivo’. Estudos apontam que boa parte dos estudantes do ensino fundamental e a maioria dos estudantes do ensino médio experimentam bebidas alcoólicas antes do término destes ciclos. Dessa forma, o álcool (ao lado do tabaco) merece maior atenção por parte dos educadores e outros profissionais.

O álcool ingerido é absorvido rapidamente por qualquer mucosa do trato gastrintestinal (da boca ao intestino). No cérebro, começa atuando como ansiolítico, provocando um quadro de euforia e bem estar, isto é baixando a ansiedade. O aumento da dose, porém, leva à depressão do sistema, causando sonolência. sedação, incoordenação motora e relaxamento muscular. Doses elevadas podem levar ao coma. O início dos efeitos da ingestão do álcool está condicionado a diversos fatores: a presença de alimentos no estômago que diminui a velocidade de absorção; ao tipo de bebida, pois as frisantes e licorosas são absorvidas com maior rapidez, à velocidade da ingestão também interfere, pois quanto mais rápido se bebe, mais prontos e intensos serão os efeitos.

O álcool tem ação tóxica direta sobre diversos órgãos. As complicações mais freqüentes são as gastrites, úlceras [estômago], hepatite, esteatose (fígado gorduroso), cirrose [fígado], pancreatite [pâncreas], demência, anestesia e dor com diminuição da força muscular nas pernas (neurites) [sistema nervoso] e doenças do coração, com risco de infarto, hipertensão e derrame cerebral [sistema circulatório]. O álcool também aumenta o risco de câncer no trato gastrintestinal, na bexiga, na próstata, garganta e outros órgãos.

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