A normalidade do Ser Humano nas atividades industriais e de construção

A normalidade do Ser Humano nas atividades industriais e de construção

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A normalidade do Ser Humano nas atividades industriais e de construção

Antonio Fernando Navarro1

Apresentação:

O conceito de normalidade chega a ser abstrato, pois que depende de uma série de questões, como por exemplo: uso e costumes, civilizações, culturas dos povos, regiões de onde nasceram entre tantas outras.

A normalidade também pode ser mudada, em seus conceitos diante de situações graves, como catástrofes e guerras. Por exemplo. Entrar em uma loja e roubar ou furtar um galão de água não é uma atitude normal para um povo civilizado. Entretanto, em uma situação calamitosa onde não há água para ninguém e só existe aquele galão no fundo de uma loja e o cidadão está com seus filhos com sede, passa a ser até tolerável ou atenuante. Em uma série novelesca recente, o homem poderia tirar a vida da esposa e do amante se descobrisse que sua “honra” estava sendo maculada (em uma história adaptada de Jorge Amado). Isso não era o normal, mas sim o costume da época. Assim, costumes e normalidades muitas vezes terminam por se confundir.

Nas atividades envolvendo obras e indústrias, o normal, requerido e exigido, é que os trabalhadores assumam posturas seguras, já que o empregador, por precaução, não irá querer se responsabilizar por lesões causadas aos seus empregados por acidentes provocados pelo não uso de algum dispositivo de segurança. O empregador tem a seu lado uma Lei, que determina uma série de coisas, inclusive que o trabalhador esteja protegido. Contudo, a mesma Lei determina que o empregador, antes, porém, elimine os riscos. Em sendo isso impossível ou inviável, deve fornecer aos trabalhadores as proteções mais adequadas.

A adequação não tem nada a ver com a similaridade. Por exemplo, quando se menciona capacetes de segurança verifica-se que existem dezenas à venda. Alguns são apropriados para aqueles que escalam montanhas, outros para os que trabalham em ambientes energizados, enfim, há

1 Antonio Fernando Navarro é Físico, Matemático, Engenheiro Civil, Engenheiro de Segurança do Trabalho, Especialista em Proteção de Sistemas Elétricos, Especialista em Gerenciamento de Riscos, com experiência na coordenação das atividades de qualidade, segurança, meio ambiente e saúde, em obras da Petrobras, na ENGENHARIA/IETEG/IEABAST e ENGENHARIA/IETR/IEABAST, nos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, Mestre em Saúde e Meio Ambiente e professor da Universidade Federal Fluminense.

modelos para cada uso. Mesmo assim, a qualidade dos materiais e da fabricação depende, resultando em custos menores ou maiores de aquisição. Na outra extremidade do processo há os que estão expostos aos riscos e que precisam ser protegidos. Quando a proteção é a adequada certamente poderá, além da proteção necessária, oferecer o conforto requerido. Quando isso não se dá o trabalhador evita utilizá-lo. E por que isso ocorre?. Outra questão que surge é a da natural intransigência ao emprego dos dispositivos de proteção porque acreditam que o “seu saber” já é suficiente para protegê-los. Assim, cabe a questão: trabalhar sem as proteções requeridas será algo normal?

Introdução:

A ideia de se escrever sobre o tema surgiu ao acompanhar-se a evolução de uma obra destinada para fins educacionais, caracterizada por prédio de cinco andares, com salas de aulas e outros ambientes, durante a qual se teve a oportunidade de avaliar ou presumirem-se os comportamentos de riscos, assumidos pelos trabalhadores durante várias fases do empreendimento e, em momentos distintos, onde se percebia que eles, os atores principais da peça, os empregados (encarregados, pedreiros, carpinteiros, armadores, eletricistas) não demonstravam quaisquer preocupações para com suas vidas.

Idêntico a um filme, a sequência dessas avaliações passou a conduzir o pensamento para o lado comportamental do trabalhador. Como a observação era à distância, “sentados em uma poltrona” passamos a observar e fotografar os cenários, daqui para frente denominados de “momentos” (onde os trabalhadores assumiam posturas totalmente opostas ao bom senso ou ao instinto básico de preservação da vida, e mesmo à tão esperada normalidade).

O interessante disso tudo é que a mesma pessoa avaliada (clicada pela lente da máquina fotográfica) assumia comportamentos que passavam do normal ao anormal ou bizarro ao longo do dia ou dos dias. Assim, porque não se questionar esses momentos?

O mais difícil, contudo, foi um engenheiro começar a verificar que seus conhecimentos tão necessários em uma obra passavam a ser limitados quando olhava para o trabalhador, que em última análise era o responsável pelo andamento ou continuidade do projeto, pois que, além da distância e da falta de vínculos com a obra, somente lhe restava incomodar constantemente o encarregado e os engenheiros da empresa construtora relatando os episódios e apresentando as fotografias tiradas. O interessante disso tudo é que eles reconheciam que haviam erros a serem corrigidos, mas não implementavam quaisquer medidas para mitigar ou solucionar a questão. Em um determinado momento chegaram a informar que se tratava de empregados de empresas contratadas que não tinham qualquer vínculo com a construtora (SIC). Quando a empresa construtora terceiriza um serviço não terceiriza suas obrigações. Todo o que ocorrer com um funcionário de uma empresa terceirizada passa a ser legalmente responsabilidade da empresa contratante, isso é previsto na responsabilidade civil in elegendo e in vigilando, ou seja, responsabiliza-se por haver escolhido mal e por não “vigiar” adequadamente as atividades. Se confiamos a uma empresa de estacionamento nosso veículo e um guardador colide nosso carro com outro naquele ambiente responde a empresa em que confiamos a guarda do veículo, independentemente se a responsabilidade foi de um funcionário seu ou de um funcionário contratado ou folguista.

Lembramo-nos de situações onde os responsáveis pela área de segurança do trabalho da empresa contratante foram chamados “às barras dos tribunais” para prestar esclarecimentos de omissão e as contratantes eram punidas por não ter em seus instrumentos contratuais cláusulas severas que previssem, minimamente, o cumprimento das legislações trabalhistas e de segurança do trabalho. Em muitos desses casos a contratante era responsabilizada por diligenciar mal e contratar mal.

Análise da questão:

Quando a mão de obra disponível já é escassa, criar-se mais um “filtro” na contratação dos trabalhadores, através da avaliação dos níveis de normalidade de cada um, não passa a ser algo estranho? O que é mais importante? A rápida entrega da obra ou outros detalhes mais que passam a levar em consideração a saúde, segurança, controle, qualidade do serviço executado, harmonia no ambiente de trabalho, dentre outros temas?

Realmente, o empresário tem sua visão de negócios voltada para os aspectos relacionados a custos e oportunidades do negócio. As questões relativas a acidentes no trabalho nem sempre são o ponto central de discussões gerenciais. Talvez, muito menos as verdadeiras causas dos acidentes. Tem-se conhecimento de subnotificações de acidentes aos órgãos públicos. Certamente os acidentes graves ou fatais não relatados. Mas aqueles onde o trabalhador não perde a sua capacidade laboral não. Por isso percebe-se nas obras trabalhadores “mancando” ou com ataduras nas mãos, braços e pernas.

Nos tijolinhos postos lado a lado para a avaliação das causas das ocorrências de acidentes, em sua grande maioria das vezes pressupõem-se: o acidente decorreu de um ato inseguro.

Será? Por trás desse rótulo de ato inseguro, não podem estar escondidas questões relacionadas a comportamentos, atitudes e ações provocadas ou causadas pelo próprio ambiente do trabalho?

Um trabalhador que tem medo de altura pode ficar montando formas ou realizando pinturas externas no décimo quinto andar de um prédio? Talvez não seja o recomendado. Mas, e se ele for um excelente profissional?

Durante um período de aproximadamente dez anos, entre os anos de 2000 a 2010, tivemos a oportunidade de avaliar alguns relatos de investigação de acidentes, a maioria em ambientes em que trabalhávamos e outros, do recebimento de documentos encaminhados por outras áreas. Podemos afirmar que, de mais de 200 relatórios lidos somente três iam além do simples ATO INSEGURO. Este artigo pretende repassar algumas das conclusões que tivemos e o que pudemos avaliar até então, e a partir de então.

Formulação da situação problema

Os critérios para definir-se se uma pessoa é normal ou não são imprecisos e não conduzem a resultados práticos, já que a normalidade pode ser um estado de espírito, uma situação auto controlada pelo trabalhador, o resultado de um ambiente harmonioso, enfim, de inúmeros fatores.

Em um artigo bastante interessante redigido pelo Dr. Dirceu Zorzetto Filho, sob o título

“O normal e o patológico em Psiquiatria”, publicado pela Revista Psiquiatria em 2000, obtido no site: http://www.oocities.org/medpucpr97/psiqui/psiqui.htm. Pela adequação e pertinência do conceito, para continuarmos nossos comentários é importante citar o comentário do douto professor em sua íntegra, como:

[...] Existe uma longa e desgastante discussão quanto a natureza do psiquismo/mente. Uma corrente da psicologia, psicanálise e filosofia entende os fenômenos psíquicos como algo que extrapola os limites do físico e orgânico; postula que a atividade psíquica não teria uma sede, um "órgão" biológico a que estivesse vinculada. Um outro grupo (constituídos por psiquiatras de orientação biológica e neurocientistas) acredita que as funções psíquicas são expressões extremamente sofisticadas e elaboradas da atividade cerebral. Defendem a tese de que as funções psíquicas são um reflexo da função cerebral e que os circuitos neurais e os processos neuroquímicos que os mantém em permanente atividade constituem a base física das emoções e da percepção.

Normalidade Psíquica:

O conceito de normalidade psíquica é questão de grande controvérsia. Obviamente quando se trata de casos extremos, cujas alterações comportamentais e mentais são de intensidade acentuada e de longa duração, o delineamento das fronteiras entre o normal e patológico não é tão problemático. No entanto, existem situações limítrofes em que a diferença entre os comportamentos e formas de sentir normais e patológicas é muito tênue. CRITÉRIOS DE NORMALIDADE Há vários critérios de normalidade em medicina e em psicopatologia. A adoção de um ou outro depende, entre outras coisas, de opções filosóficas, ideológicas e pragmáticas do profissional. Apresentam-se em seguida os principais critérios de normalidade utilizados em psicopatologia:

1. Normalidade como ausência de doença: O primeiro critério que geralmente se utiliza é o de saúde como “ausência de sintomas, de somais ou de doenças”. Lembremos aqui do velho aforismo médico que diz: “A saúde é o silêncio dos órgãos”. Normal, do ponto de vista psicopatológico, seria, então, aquele indivíduo que simplesmente não é portador de transtorno mental definido. Tal critério é bastante falho e precário, pois, além de redundante, baseia-se em uma “definição negativa”, ou seja, definir-se a normalidade não por aquilo que ela supostamente é, mas, sim, por aquilo que ela não é, pelo que lhe falta.

2. Normalidade ideal: A normalidade aqui é tomada como certa “utopia”. Estabelece-se arbitrariamente uma norma ideal, o que é supostamente “sadio”, mais “evoluído”. Tal norma depende, portanto, de critérios socioculturais e ideológicos, e, no mais das vezes, dogmáticos e doutrinários. Exemplos de tais conceitos de normalidade são aqueles baseados na adaptação do indivíduo às normas morais e políticas de determinada sociedade.

3. Normalidade estatística: A normalidade estatística identifica norma e frequência. É um conceito de normalidade que se aplica especialmente a fenômenos quantitativos, com determinada distribuição estatística na população geral (como peso, altura, tensão arterial, horas de sono, quantidade de sintomas ansiosos, etc.). O normal passa a ser aquilo que se observa com mais frequência. Os indivíduos que se situam, estatisticamente, fora (ou no extremo) de uma curva de distribuição normal, passam, por exemplo, a ser considerados anormais ou doentes. É um critério muitas vezes falho em saúde geral e mental, pois nem tudo o que é frequente é necessariamente “saudável”, assim como nem tudo que é raro ou infrequente é patológico. Tome-se como exemplo fenômenos como as cáries dentárias, a presbiopia, os sintomas ansiosos e depressivos leves, o uso pesado de álcool, fenômenos esses que podem ser muitos frequentes, mas que evidentemente não podem, a priori, ser considerados normais ou saudáveis.

4. Normalidade como bem estar: A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu, em 1958, a saúde como o completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente como ausência de doença. É um conceito criticável por ser muito vasto e impreciso, pois bem-estar físico, mental e social é tão utópico que poucas pessoas se encaixariam na categoria “saudáveis”.

5. Normalidade funcional: Tal conceito irá assentar-se sobre aspectos funcionais e não necessariamente quantitativos. O fenômeno é considerado patológico a partir do momento em que é disfuncional, provoca sofrimento para o próprio indivíduo ou para seu grupo social.

6. Normalidade como processo: Neste caso, mais do que uma visão estática, consideram-se os aspectos dinâmicos do desenvolvimento psicossocial, das desestruturações e reestruturações ao longo do tempo, de crises, de mudanças próprias a certos períodos etários. Este conceito é particularmente útil em psiquiatria infantil e de adolescentes, assim como em psiquiatria geriátrica.

7. Normalidade subjetiva: Aqui é dada maior ênfase à percepção subjetiva do próprio indivíduo em relação ao seu estado de saúde, às suas vivências subjetivas. O ponto falho deste critério é que muitos indivíduos que se sentem bem, “muito saudáveis e felizes”, como no caso de pessoas em fase maníaca, apresentam de fato um transtorno mental grave.

8. Normalidade como liberdade: Alguns autores de orientação fenomenológica e existencial propõem conceituar a doença mental como perda da liberdade existencial. Desta forma, a saúde de liberdade sobre o mundo e sobre o próprio destino. A doença mental é constrangimento do ser, é fechamento, fossilização das possibilidades existenciais. Portanto, de modo geral, pode-se concluir que os critérios de normalidade e de doença em psicopatologia variam consideravelmente em função dos fenômenos específicos com os quais trabalhamos e, também, de acordo com as opções filosóficas do profissional. De forma, essa é uma área da psicopatologia que exige uma postura permanentemente crítica e reflexiva dos profissionais. Por exemplo, todos nós concordamos que o suicídio é uma atitude que exprime algum grau de anormalidade do funcionamento psíquico. Entretanto, no final da I Guerra Mundial, o piloto japonês kamikaze que jogava seu avião carregado de bombas contra navios norte-americanos era considerado um herói, um homem de extrema coragem pelos seus compatriotas. Podemos então constatar o quanto o conceito de (3) normalidade psíquica é circunstancial e não-universal: Naquela época, diante daquela situação e perante os padrões culturais japoneses, o suicídio do piloto kamikaze não era considerado um gesto de loucura! Ao contrário: sua atitude era julgada como um exemplo de devoção ao Imperados e abnegação pela sua pátria. Constituía um ideal ser seguido e não um distúrbio psíquico que necessitasse de tratamento psiquiátrico. Atualmente assistimos a uma mudança de posição em relação ao homossexualismo. Anteriormente definido como uma espécie de perversão (desvio) sexual, desde 1980 não faz mais parte da lista de distúrbios mentais elaborada pela Associação Americana de Psiquiatria, demonstrando o quanto determinadas opiniões a respeito dos comportamentos modificam-se durante a História. Vale lembrar que na Grécia Antiga o comportamento homossexual era bastante frequente e não causava estranheza. Comportamentos considerados "patológicos" ou "anormais" em determinadas épocas, não o são em outras, evidenciando que normalidade psíquica é também um conceito transitório e não permanente. Dentro de uma mesma época e de uma mesma cultura, existem divergências quanto ao que pode ser considerado anormal. Por exemplo, qual o limite entre o fazer uso social de bebidas alcoólicas e se tornar um alcoolista ou um bebedor-problema? Qual a tolerância, em relação ao consumo de drogas, na Jamaica e no Irã? Se formos examinar os critérios e limites que separam uma condição da outra veremos o quanto eles podem ser tênues e causar discordância entre os próprios especialistas no problema. Estamos diante de outra característica do conceito de normalidade psíquica: ele é relativo e não-absoluto. Resumindo, podemos dizer que Normalidade Psíquica é um conceito de valor (ideal), circunstancial, transitório e relativo. Reconhecer sua subjetividade e relatividade não significa que na prática todo tipo de conduta deva ser considerada como normal; nem tampouco apregoar que não existe distúrbio mental! Em épocas diversas da história da humanidade e em culturas completamente diferentes são encontrados relatos sobre pessoas que tinham comportamentos e ideias "estranhas" ou padeciam de intenso sofrimento emocional. Estes relatos quase sempre trazem associado uma ideia que explicava o que ocorria com essas pessoas e qual a melhor maneira de "tratá-las". Atualmente, a despeito de uma série de discordâncias, o conhecimento científico aponta o cérebro como o órgão diretamente relacionado ao nosso funcionamento psíquico. Reconhece-se a importância das condições e contradições sociais que eclodem com intensidade insuportável para o indivíduo (principalmente em nosso país). Além disso, concorda-se que as primeiras vivências do bebê e sua interação com a mãe, seu desenvolvimento psicossexual e os acontecimentos significativos na sua história de vida possam contribuir para a formação de problemas de ordem psíquica. Entretanto, é o cérebro quem vai intermediar as relações de todos esses fatores com o nosso corpo.

Conceito de Saúde Mental

Embora a expressão "Saúde Mental' possa ter significados diferentes para diferentes pessoas, a autoestima e a capacidade de estabelecer relações afetivas com outras pessoas são componentes importantes da saúde mental universalmente aceitos. Pessoas mentalmente saudáveis compreendem que não são perfeitas nem podem ser tudo para todos. Elas vivenciam uma vasta gama de emoções que incluem tristeza, raiva e frustração, assim como alegria, amor e satisfação. São capazes de enfrentar os desafios e as mudanças da vida cotidiana, mas também sabem procurar ajuda quando têm dificuldades em lidar com traumas e períodos de transição importantes: perda de pessoas queridas, dificuldades conjugais, problemas escolares e profissionais ou a perspectiva da aposentadoria. Karl Menninger, um eminente psiquiatra norteamericano, diz que "saúde mental é a adaptação do homem ao mundo e aos demais homens com um máximo de eficácia e felicidade". O conceito de Saúde Mental implica na existência de:

1) capacidade funcional e produtiva preservada; 2) estado de equilíbrio do indivíduo consigo mesmo e com outras pessoas com quem se relaciona; 3) adaptação criativa (não uma aceitação passiva) ao meio em que vive.

O que é um "distúrbio mental"? Em 1980, um grupo composto por vários pesquisadores e psiquiatras clínicos, apresentou seu relatório final de um grande projeto para a elaboração de um novo manual para o diagnóstico de distúrbios mentais, conhecido como DSM-I (sigla que significa a terceira versão do Manual de Estatística e Diagnóstico dos Distúrbios Mentais, promovido pela Associação Americana de Psiquiatria). Segundo este manual, atualmente na sua 4ª edição (DSM-IV), Distúrbio Mental é definido como "uma síndrome ou padrão comportamental ou psicológico clinicamente significativo que ocorre numa pessoa e está associado com a presença de mal-estar e incapacidade; com um aumento significativo do risco de vida, dor, incapacidade ou uma importante perda de liberdade. Esta síndrome ou padrão não deve ser meramente uma resposta esperável para um evento particular (por exemplo: morte de um ser querido). Nenhum comportamento desviante, isto é, político, religioso ou social, nem conflitos entre o indivíduo e a sociedade são distúrbios mentais, a não ser que o conflito ou o desvio seja um sintoma de uma disfunção da pessoa". Brendan Maher assinala três critérios que permitem considerar uma conduta como patológica e necessitada de ajuda terapêutica. Esses critérios implicariam na existência de:

1) Angústia pessoal intensa: a pessoa sofre um intenso e desagradável desconforto emocional, insatisfação com sua vida e sofrimento emocional subjetivo que a leva a solicitar ajuda especializada; 2) Condutas incapacitantes: atitudes que prejudicam o desenvolvimento das potencialidades do indivíduo e comprometem seu desempenho pessoal, profissional e social, tais como o comportamento dependente, passivo, agressivo e fóbico. Estes comportamentos acabam levando a uma maior ou menor incapacitação no desempenho de uma tarefa ou obrigação; 3) Contato deficiente com a realidade: caracteriza-se pela compreensão distorcida da realidade socialmente compartilhada, levando a procedimentos inadequados e às vezes perigosos para o indivíduo ou para outras pessoas. Alguns desses comportamentos são motivados por crenças falsas, delírios, alucinações auditivas e visuais e por interpretações errôneas dos acontecimentos.

Tendências futuras

O fato de uma determinada condição comportamental ser vista ou não como doença ocorre em função de muitos fatores: econômicos, sociais, biológicos, etc. À medida que uma sociedade aprimora sua educação, torna-se mais informada e mais estável, as incapacidades (mecanismos adaptativos perturbados) deixam de ser considerados como problemas morais, teológicos ou sociais e se tornam problemas médicos. Muitas condições que hoje consideramos doença passaram por essa transição: epilepsia, mania e várias psicoses. Mudanças similares podem, atualmente, estar tendo lugar em relação ao alcoolismo, dependência às drogas, delinquência, comportamentos violentos, impulsividade e criminalidade. [...]

Há que se cobrar normalidade de um trabalhador que esteja prestes a inspecionar uma fundação a 15 metros de profundidade sem que ele próprio se dê conta dos riscos a que estará exposto ou tenha sido adequadamente notificado e se encontre protegido para o exercício da atividade? Ainda pode se cobrar um comportamento normal de uma pessoa que nunca andou de avião e irá ser lançada de um parapente, acompanhada por um instrutor? Talvez os exemplos sejam absurdos e talvez estejamos confundindo normalidade com ansiedade, medo, angustia, ou mais. Especialmente nas atividades laborais mister de faz destacar para o trabalhador todos os riscos a que ele estará exposto e fornecer os equipamentos ou dispositivos de segurança, ensinando-o a empregalos. Se olharmos ao nosso redor, nas cidades em que residimos, iremos perceber “muitas coisas erradas”, como por exemplo: a patroa que pede à sua empregada para limpar as janelas do apartamento no 18º andar. Um dos casos bizarros que tivemos conhecimento foi o de uma empregada doméstica que estava concluindo um curso de técnica de segurança do trabalho e que propôs à sua patroa limpar os vidros da janela de um apartamento no 14º andar. A patroa relutou e a empregada disse que estava habilitada e que tinha um cinto de segurança e o prenderia no “varal” da cortina da janela. Felizmente a patroa não concordou com tamanha insanidade. Mas, não há tantas patroas assim com essa percepção.

Os exemplos de guerreiros indo à guerra em condições normais não existem, ou talvez somente em revista de quadrinhos, o velho e antigo Gibi, quando então os super-heróis não tinham medo de nada. O medo, palavra tão temida, é importante para nós e nos faz refletir, ousar menos, compreender mais, arriscar menos, perceber mais claramente. O medo nos chama a atenção para o perigo. Assim, dizer que uma pessoa não é normal só porque não tem medo passa a ser uma falácia.

Nos filmes que tratam da guerra no Vietnam, com o exército americano, via-se que muitos dos soldados recorriam às drogas para não se abaterem nas frentes de batalha. Infelizmente, o ambiente somado ao uso contínuo de drogas deixou para trás uma legião de pessoas doentes.

Em um dos relatos de investigação de acidentes no trabalho apontados entre os três, dentro de um universo de 200, como mencionado anteriormente, chamou-nos a atenção aquele onde o trabalhador, preocupado com sua própria segurança na execução de um serviço ousou ter medo dos resultados ou das consequências de sua exposição. Pressionado pelo Encarregado, também dito Feitor, em muitas obras, ou Capataz, ou Mestre de Obra, realizou a tarefa e sofreu o acidente tão temido. Nas análises não se pôs em cheque a palavra do Capataz, antigo na empresa, mas sim na do empregado recém-admitido. Ou seja, alguém tinha de ser o culpado e para isso apontaram o dedo para o empregado. Fácil, não?

Em outro relato um eletricista sofreu um acidente ao executar uma solda em emendas de cabos de cobre de aterramento. A pólvora estava úmida, o trabalhador portava luvas de couro também úmidas e acendeu o dispositivo de solda com um isqueiro comum. O resultado foi que a pólvora inflamou-se na luva do trabalhador e provocou queimaduras de segundo grau no polegar da mão direita. O trabalhador com medo de represálias não comunicou o fato a seu encarregado. Com a cumplicidade de seus colegas conseguiu ficar por um tempo no almoxarifado, até que a ferida cicatrizou, retornando a suas atividades então. O trabalhador sabia que a pólvora estava úmida. Sabia que suas luvas estavam úmidas, pois o tempo estava chuvoso havia dois dias. Também sabia que não podia utilizar o isqueiro de acender cigarros. Aliás, naquele local era proibido portarem-se isqueiros. Será isso tudo fruto de coincidências? O empregado lesionado, com mais de 15 anos de experiência agiu como uma pessoa normal? Será que para a empresa era normal o descuido com a pólvora a ponto de essa ficar úmida pela umidade do ar?

Em um terceiro caso um trabalhador, a pedido de seu encarregado, foi concluir o fechamento de uma forma para a concretagem que iria ocorrer de tarde. Sozinho, pois estava em horário de almoço, e com a promessa de que ele poderia ir embora de tarde, subiu na terceira laje e iniciou suas atividades, às pressas. Quando se aproximou da forma, na primeira martelada essa saiu de sua posição, pois não havia sido fixada ao piso ou escorada, tombou sobre o trabalhador e o derrubou dois andares abaixo.

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