13297147 - Tecnicas - de - Redação

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(Parte 3 de 10)

Os olhos tinham o brilho baço dos místicos. Pareciam perscrutar todos os mistérios da vida: profundos, serenos, fixavam-se nas pessoas como se fossem os olhos da consciência...

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2 - Tipos de descrição: objetiva e subjetiva

A descrição costuma ser classificada como objetiva ou subjetiva. Na descrição objetiva, o sujeito procura criar uma imagem do objeto que se aproxime, o máximo possível, de sua cópia fenomênica, isto é, descreve centrado naquilo que efetivamente vê. Para tanto, utiliza como critérios básicos a exatidão e a fidelidade ao real .

Já na descrição subjetiva, a imagem descrita enfatiza a transfiguração do objeto pelo sujeito, que atribui a ele elementos próprios e o incorpora a sua pessoalidade, centrando-se naquilo que quer, pensa ou sente ver.

Leitura Comentada: Uma Descrlção Objetiva

O motor está montado na traseira do carro, fixado por quatro parafusos à caixa de câmbio, a qual, por sua vez, está fixada por coxins de borracha na extremidade bifurcada do chassi. Os cilindros estão dispostos horizontalmente e opostos dois a dois. Cada par de cilindros tem um cabeçote comum de metal leve. As válvulas, situadas nos cabeçotes, são comandadas por meio de tuchos e balancins. O virabrequim, livre de vibrações, de comprimento reduzido, com têmpera especial nos colos, gira em quatro pontos de apoio e aciona o eixo excêntrico por meio de engrenagens oblíquas. As bielas contam com mancais de chumbo-bronze e os pistões são fundidos de uma liga de metal leve.

(Manual de Instruções- Volkswagen)

Comentários

Observe que este texto tem o objetivo de descrever o motor de um carro do ponto de vista de seu fabricante, a Volkswagen, que portanto constitui o locutor, o emissor do texto. Seu receptor ou destinatárlo é o usuário do produto, o leigo, o que explica a redução de termos técnicos ao mínimo necessário e também o detalhamento de características, típico de um

Manual de Instruções.

Observe também a postura de distanciamento do locutor em relação ao objeto descrito:

ele se abstém de comentários, opiniões, centrando-se nas características fenomênicas daquilo que descreve. Trata-se, portanto, de uma descrição impessoal e objetiva.

Leitura Comentada: Uma Descrição Subjetiva

O que mais me chateia na raiva é que sei, por experiência, que ela passa. A raiva, sim, é um pássaro selvagem: você tenta amansar ele, ganhar confiança, mas quando menos se espera ele bate as asas e foge. A gente fica então com uma fraqueza no peito, no corpo todo, como depois de uma febre. Querendo colo. Mas o pior é o período antes dessa fraqueza, todo mundo com os nervos inflamados, à flor da pele. As caras que por acaso rompiam a barreira do meu quarto eram todas de tragédia. (...)

Embora fosse antigamente uma princesa (...) eu me sentia um sapo (...). Eu estava muito cheia de raiva (no fundo, vergonha) e, embora tivesse gritado "perdão" à vista de todos, eu não queria me arrepender. Por isso estava ainda naquele inferno. No inferno, isso eu sei, é proibido o arrependimento.

Continuamos fiéis aos nossos erros.

(Vilma Arêas - Aos trancos e relâmpagos - São Paulo, Scipione, 1993)

Comentários

Aqui, a locutora está descrevendo um sentimento: a raiva. Percebemos que o faz

descreve:O que mais me chateiaAlém disso, utiliza-se de metáforas e de linguagem

subjetivamente desde a primeira linha, quando explicita a postura do "eu" em relação ao que coloquial, com recursos de oralidade, pessoalizando a vísão que o sujeito tem do objeto. O fragmento pertence a um texto literário destinado ao público infantil, o que explica seu tom de naturalidade e de proximidade com o intertocutor, também explicitado logo no início:A raiva, sim, é um pássaro selvagem: vocé tenta amansar ele, ganhar confiança, mas quando menos se espera ele bate as asas e foge. A gente fica então com uma fraqueza no peito, no corpo todo,como depois de uma febre.

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3 - Descrição objetiva e descrição subjetiva: visão comparativa e conceito de predominância

Enquanto a descrição objetiva pressupõe uma postura de distanciamento emocional do sujeito em relação ao objeto, o que lhe possibilita apreendê-lo através de um tipo de percepção mais exata, dimensional, a descrição subjetiva pressupõe uma postura de proximidade. Essa postura, por sua vez, implica que o sujeito descreve o objeto através de um tipo de percepção menos precisa e mais contaminada por suas emoções e opiniões.

É necessário colocar aqui uma observação fundamental para que se compreenda bem em que consistem ambos os tipos de descrição e, mais do que isso, qual a funcionalidade da distinção tendo em vista a produção desse tipo de texto.

Na verdade, não existem textos totalmente objetivos ou totalmente subjetivos, já que as noções de sujeito e objeto são interdependentes: é impossível imaginar tanto um objeto que independe do sujeito quanto um sujeito que independe do objeto; no limite, o primeiro caso corresponderia a pensar o mundo (objeto) sem o homem, e o segundo a pensar o homem

(sujeito) sem o mundo.

Portanto, todo texto objetivo pressupõe uma presença, ainda que imperceptível, de subjetividade, e reciprocamente todo texto subjetivo pressupõe um mínimo de objetividade.

Podemos então usar o conceito de predominância para distingui-los, colocando de um lado, o lado da predominância da objetividade, os textos técnicos e científicos, e de outro, o lado da predominância da subjetividade, os textos literários.

Vejamos duas opiniões interessantes sobre o assunto:

"A descrição técnica apresenta, é claro, muitas das características gerais da literária, porém, nela se sublinha mais a precisão do vocabulário, a exatidão dos pormenores e a sobriedade da linguagem do que a elegância e os requisitos da expressividade lingüística. A descrição técnica deve esclarecer, convencendo; a literária deve impressionar, agradando. Uma traduz-se em objetividade; a outra sobrecarrega-se de tons afetivos. Uma é predominantemente denotativa; a outra, predominantemente conotativa".

(Othon M. Garcia - Cormunicação em Prosa Moderna - Rio de Janeiro. Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996)

"A redação técnica é necessariamente objetiva quanto ao seu ponto de vista, mas uma objetividade completamente desapaixonada torna o trabalho de leitura penoso e enfadonho por levar o autor a apresentar os fatos em linguagem descolorida, sem a marca da sua personalidade. Opiniões pessoais, experiência pessoal, crenças, filosofias de vida e deduções são necessariamente subjetivas, não obstante constituem parte integrante de qualquer redação técnica meritória".

(Margaret Norgaard - citada por Othon M. Garcia - Comunicação em Prosa Moderna - Rio de Janeiro. Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996)

Visualizando ambas as opiniões e acrescentando-lhes outros elementos, podemos criar o seguinte esquema:

ênfase na impressão despertada pelo objeto como tal principais características: precisão do vocabulário, exatidão dos pormenores

Descrição objetiva

Descrição subbjetiva e sobriedade da linguagem, predominantemente denotativa objetivo: deve esclarecer, convencendo ponto de vista: predominantemente objetivo Exemplo: descrição técnica ênfase na expressão que a alma empresta ao objeto principais características: elegância e presença dos requisitos da expressividade lingüística - tons afetivos, polissemia, linguagem predominantemente conotatìva w.centralexpert.net visite w.centralexpert.net visite

Leitura Comentada Leitura das Sombras objetivo: deve impressionar, agradando ponto de vista: predominantemente subjetivo Exemplo: descrição literária

Em 1984, duas pequenas placas de argila de formato vagamente retangular foram encontradas em Tell Brak, Síria, datando do quarto milênio antes de Cristo. Eu as vi, um ano antes da guerra do Golfo, numa vitrine discreta do Museu Arqueológico de Bagdá. São objetos simples, ambos com algumas marcas leves: um pequeno entalhe em cima e uma espécie de animal puxado por uma vara no centro. Um dos animais pode ser uma cabra, e nesse caso o outro é provavelmente uma ovelha. O entalhe, dizem os arqueólogos, representa o número dez. Toda a nossa história começa com essas duas modestas placas.

Eles estão - se a guerra os poupou - entre os exemplos mais antigos de escrita que conhecemos.

Há algo intensamente comovente nessas placas. Quando olhamos essas peças de argila levadas por um rio que não existe mais, observando as incisões delicadas que retratam animais transformados em pó há milhares e milhares de anos, talvez uma voz seja evocada, um pensamento, uma mensagem que nos diz: "Aqui estiveram dez cabras", "Aqui estiveram dez ovelhas", palavras pronunciadas por um fazendeiro cuidadoso no tempo em que os desertos eram verdes. Pelo simples fato de olhar essas placas, prolongamos a memória dos primórdios do nosso tempo, preservamos um pensamento muito tempo depois que o pensador parou de pensar e nos tornamos participantes de um ato de criação que permanece aberto enquanto as imagens entalhadas forem vistas, decifradas, lidas.

Tal como meu nebuloso ancestral sumério lendo as duas pequenas placas naquela tarde inconcebivelmente remota, eu também estou lendo, aqui na minha sala, através de séculos e mares. Sentado à minha escrivaninha, cotovelos sobre a página, queixo nas mãos, abstraído por um momento da mudança de luz lá fora e dos sons que se elevam da rua, estou vendo, ouvindo, seguindo (mas essas palavras não fazem justiça ao que está acontecendo dentro de mim) uma história, uma descrição, um argumento. Nada se move, exceto meus olhos e a mão que vira ocasionalmente a página, e contudo algo não exatamente definido pela palavra texto desdobra-se, progri~ cresce e deita raízes enquanto leio.

(Alberto Manguel - Uma História da Leitura - São Paulo, Companhia das Letras, 1997)

Comentários a) 1° parágrafo: predomínio de objetividade

Repare que no primeiro parágrafo do texto, embora apareça a figura do sujeito (locutor ou emissor) da descrição -Eu as vi, um ano antes da guerra do Golfo, numa vitrine discreta do Museu Arqueológico de Bagdá- o objeto é descrito com objetividade, quer dizer, enfatizando mais as características do que foi visto(inclusive com indicações precisas de tempo e lugar)

do que o ato de verduas pequenas placas de argila de formato vagamente retangular

foram encontradas em Tell Brak, Síria, datando do quarto milênio antes de Cristo (...) São objetos simples, ambos com algumas marcas leves: um pequeno entalhe em cima e uma espécie de animal puxado por uma vara no centro. Um dos animais pode ser uma cabra, e nesse caso o outro é provavelmente uma ovelha. O entalhe, dizem as arqueólogos, representa o número dez...

b) 2 parágrafo: predomínio de subjetividade

Do segundo parágrafo em diante, a mesma descrição adquirindo fortes marcas de

evocadapalavras pronunciadas por um, fazendeiro cuidadoso no tempo em que os desertos

subjetividade:Há algointensamente comoventenessas placas. Quando olhamos essas peças de argila levadas por um rio que não existe mais, observando as incisõesdelicadas que retratam animais transformados em pó há milhares e milhares de anos, talvez uma voz seja eram verdes...

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