13297147 - Tecnicas - de - Redação

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(Parte 4 de 10)

Tais marcas indicam a presença da emoção do sujeito enquanto descreve. Repare que ele faz uma evocação afetiva, por meio da percepção sensorial (os sentidos da visão e da w.centralexpert.net visite w.centralexpert.net visite audição, o segundo com existência imaginária), das mesmas placas descritas no primeiro parágrafo.

c) Objetividade e subjetividade: descrição e funcionalidade

As placas, que no primeiro parágrafo foram caracterizadas como os exemplos mais antigos de escrita que conhecemos, passam a partir do segundo a representar mais do que isso: elas se transformam em imagem do prolongamento e da preservação da memória dos primórdios do nosso tempo, o que permite ao leitor sentir-se parte do processo de decifrá-las.

Assim, enquanto o parágrafo de descrição objetiva nos faz perceber impessoalmente o objeto descrito, o de descrição subjetiva pessoalizao contato que temos com ele, trazendo para o presente de nossa leitura o passado longínquo do surgimento do ato de ler.

Este procedimento no qual objetividade e subjetividade se mesclam, aumentando o poder intelectivo e ao mesmo tempo sugestivo do texto, é reforçado, no terceiro parágrafo, pela imagem do próprio sujeito lendo.

Neste parágrafo ele se transforma ao mesmo tempo em sujeito e objeto do texto e, de maneira concreta, realiza a descrição do seu ato de ler (com abundância de detalhes descritivos).

Desta forma, quer dizer, através de um parágrafo predominantemente objetivo ao qual se seguem outros dois, predominantemente subjetivos, o autor realiza o objetivo não apenas de transmitir intelectualmente, mas de mostrar sensorialmente ao leitor a permanência da leitura ao longo da história humana. Graças a seu ponto de vista de proximidade em relação ao objeto, fica registrada, com intensa expressividade, a relevância da leitura para a humanidade, através dos tempos e dos espaços.

Exemplo:

Tal como meu nebuloso ancestral sumério lendo as duas pequenas placas naquela tarde inconcebivelmente remota, eu também estou lendo, aqui na minha sala, através de séculos e mares. Sentado à minha escrivaninha, cotovelos sobre a página, queixo nas mãos abstraído por um momento da mudança de luz lá fora e dos sons que se elevam da rua, estou vendo, ouvindo, seguindo (...) uma história, uma descrição, um argumento...

Conclusões importantes

A leitura detalhada e comentada desta descrição permite-nos perceber que a presença da objetividade e da subjetividade em nossos textos descritivos pode ser mesclada, predominando o ponto de vista exigido por nossos objetivos e também pelos contextos de produção textual. Atentos a tais critérios, precisamos saber conciliar informação objetiva e impessoal com marcas de pessoalidade, de expressividade. Precisamos, enfim, trabalhar o rigor, a exatidão e a fidelidade ao real, isto é, a necessidade de esclarecer, convencendo, em sintonia com a de impressionar, agradando.

4 - Elementos constitutivos do texto descritivo

A visão, a audição, o olfato, o tato e o paladar - nossos cinco sentidos - constituem os alicerces da descrição. A eles acrescentamos nossa imaginação criadora.

Na medida em que se ancora na percepção sensorial, o texto descritivo explora os cinco sentidos, seja isoladamente, seja confundindo-os, isto é, utilizando-se de sinestesias.

"Não se esqueça de que percebemos ou observamos com todos os sentidos e não apenas com os olhos. Haverá sons, ruídos, cheiros, sensações de calor, vultos que passam, mil acidentes, enfim, que evitarão se torne a descrição uma fotografia pálida daquela riqueza de impressões que os sentidos atentos podem colher".

Othon M. Garcia - Comunicação em Prosa Moderna - Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996) w.centralexpert.net visite w.centralexpert.net visite

Leitura Comentada

Para exemplificar a exploração dos sentidos no texto descritivo, leia as várias versões de um parágrafo em que uma personagem se recorda de cenas de seu casamento, explorando cada um deles, primeiro isoladamente e depois por meio de sinestesia:

exploração da visão

JOANA lembrou-se de repente, sem aviso prévio, dela mesma em pé no topo da escadaria. Não sabia se alguma vez estivera no alto de uma escada, olhando para baixo, para muita gente ocupada, vestida de cetim,com grandes leques. Muito provável mesmo que nunca tivesse vivido aquilo. Os leques, por exemplo, não tinham consistência na sua memória. Se queria pensar neles não via na realidade leques, porém manchas brilhantes nadando de um lado para outro...

(Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem - Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986 - texto adaptado)

Comentários

A cena é construída predominantemente por meio da visão, conjugada com a memória.

Repare que a personagem se recorda de si mesma, numa perspectiva de cima em relação a um cenário que se esfumaça, transitando da objetividade para a subjetividade e assim fundamentando a imprecisão da lembrança, tematizada no texto.

exploração da audição

JOANA lembrou-se de repente, sem aviso prévio, dela mesma em pé no topo da escadaria. (...)

Muito provável mesmo que nunca tivesse vivido aquilo. Se queria pensar nos leques não os via na realidade, porém manchas brilhantes pareciam farfalhar de um lado para outro entre palavras em francês, susurradas com cuidado por lábios juntos...

(Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem - Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986 - texto adaptado)

Comentários

Nesta versão do mesmo parágrafo descritivo, a audição se acrescenta à visão para marcar a já comentada imprecisão da memória; ao mesmo tempo, aumentam os detalhes, que vão caracterizando mais expressivamente a evocação do passado.

exploração do tato

JOANA lembrou-se de repente, sem aviso prévio, dela mesma em pé no topo da escadaria. (...)

Muito provável mesmo que nunca tivesse vivido aquilo. (...) Mas apesar de tudo a impressão continuava querendo ir para frente, como se o principal estivesse além da escadaria e dos leques. Sentia na planta dos pés aquele medo frio de escorregar, nas mãos um suor cálido, na cintura uma fita apertando, puxando-a como um leve guindaste para cima.

(Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem - Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986 - texto adaptado)

Comentários

Aqui a cena se torna mais rica e complexa, uma vez que os elementos da percepção tátil desviam o foco da descrição, que se afasta do cenário para focalizar a personagem, aumentando o conteúdo de subjetividade do texto e desta forma concentrando-o na realidade interior, nas sensações íntimas daquela que lembra.

exploração do olfato

JOANA lembrou-se de repente, sem aviso prévio, dela mesma em pé no topo da escadaria.

Muito provável mesmo que nunca tivesse vivido aquilo. (...) O cheiro das fazendas novas vestidas pelo homem que seria dela a atravessava, procurando distanciá-la do botão de rosa que insistentemente lhe w.centralexpert.net visite w.centralexpert.net visite comprimia as narinas, indecisas entre velhos e novos aromas, entre o que fora e o que passaria a ser, terminada a cerimônia. (Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem - Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986 - texto adaptado)

Por meio do contraste de elementos olfativos (o cheiro das fazendas novasversus
o botão de rosa), a cena reitera o seu caráter de predomínio de impressões subjetivas,

Comentários com acréscimo de personagem (o marido) e clara referência ao significado afetivo da lembrança.

exploração do paladar

JOANA lembrou-se de repente, sem aviso prévio, dela mesma em pé no topo da escadaria. Não sabia se alguma vez estivera no alto de uma escada, experimentando o bolo de noiva, cujo sabor não tinha consistência na sua memória. Se queria pensar nele não percebia na realidade gostos, porém uma massa insossa e volumosa, nadando de um lado para outro em sua boca, que naquele momento ansiava por sal, ou ao menos por um copo com água.

(Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem - Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986 - texto adaptado)

Comentários

Agora, a presença do paladar se conjuga com o tato, para novamente enfatizar as sensações e os sentimentos de Joana, ao lembrar o que Ihe aconteceu interiormente, no dia de seu casamento.

exploração de sinestesia

JOANA lembrou-se de repente, sem aviso prévio, dela mesma em pé no topo da escadaria. Não sabia se alguma vez estivera no alto de uma escada. Os reflexos úmidos das lâmpadas sobre os espelhos, os broches das damas e as fivelas dos cintos dos homens comunicavam-se a intervalos com o lustre, por delgados raios de luz.Ora quente, ora fria, essa luz a percorrida por seus longos músculos inteiros. (...) Ela estava sentada, numa espera distraída e vaga. Respirava opressa o perfume roxo e frio das imagens.

(Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem - Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986 - texto adaptado)

Comentários

Iâmpadas; ora quente, ora fria, essa luz a percorriavisão e tato;Respirava opressa o
perfume roxo e frio das imagensolfato, visão e tato).

Observe que os sentidos se embaralham, se confundem (reflexos úmidos das

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