13297147 - Tecnicas - de - Redação

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(Parte 5 de 10)

Ao permitir tal construção descritiva, a sinestesia dá pluralidade semântica ao texto, que no caso deste exemplo ao mesmo tempo está caracterizando ambiente exterior e mundo interior, o primeiro em função do segundo, o que enriquece de conotações simultaneamente sensoriais e emotivas o momento lembrado

5 - A descrição no texto narrativo

A descrição costuma ser utilizada como um importante recurso do texto narrativo, na medida em que a caracterização física e/ou psicológica de personagens, do espaço, do tempo etc, pode enriquecê-lo por meio de detalhes expressivos, que prendem o leitor à história que está sendo contada.

Assim, os elementos descritivos auxiliam na montagem de um conflito, seja através de personagens cujas características são contrastantes, seja através de ambientes reveladores de seus traços determiinantes para a construção da trama narrativa.

Tais elementos podem estar no início de uma história – para a criação do "clima", da "atmosfera" - , no seu momento mais importante - o clímax, o ponto culminante -, ou mesmo no w.centralexpert.net visite w.centralexpert.net visite desfecho. Sua colocação depende da intenção do narrador, dos efeitos que quer causar com o que narra.

Leitura Comentada Revelação no espelho

O vento soprava forte. Era quase um tufão. Ou talvez um tornado, pois suas rajadas concentradas agiam com mais violência num raio de poucos metros. Apavorada, ela buscou abrigo, colando-se à reentrância de uma porta de garagem. Tremia. Tinha a sensação de que aquele vento era uma manifestação do Mal. E pior: que contra ela se dirigia. Enquanto o vento lhe chicoteava as pemas, tirou da bolsa um pequeno espelho para, através dele, espiar a rua sem sair , de trás da coluna. E teve a confirmação. A imagem, no espelho, era de calmaria. O vento era mesmo assombrado.

(Heloísa Seixas - Contos Mínimos, Folha de São Paulo - 19/03/98)

Comentários

Repare que o narrador desta micro-história cria um enredo de suspense, utilizando-se de elementos descritivos para fazê-lo.

A protagonista se apavora diante de um vento, um tornado ou um tufão que, de tão

que ela acertadamente o julgara assombradoo que é mostrado ao leitor pelo contraste entre

violento, lhe chega a parecer uma manifestação do Mal. Entretanto, no desfecho percebemos elementos táteis, descrevendo as sensações imaginárias (Enquanto o vento Ihe chicoteava as pernas...), e elementos visuais, descrevendo as sensações reais (E teve a confirmação.A imagem, no espelho, era de calmaria.)

Assim, a presença da descritividade na montagem desta história dá-lhe grande força expressiva.

Sugestão de atividade prática: Descritivização da Narração

A técnica de descritivizar a narração, isto é, de acrescentar às frases narrativas as descrições de personagens, tempo, lugar etc, pode exemplificar a funcionalidade da descrição no processo de elaboração desse tipo de texto.

Exemplo:

Dada uma frase narrativa -Um homem atravessou a rua- vamos sugerir algumas possibilidades de descritivização, em função de alguns tipos de enredo:

Possibilidades de descritivização: a) Para criar uma narrativa de suspense:

Um estranho homem de palavras rudes e barba por fazer, tremendo de frio ou de medo, atravessou aquela rua deserta, onde há muitos anos atrás houvera um crime nunca desvendado...

b) para criar uma narrativa lírico-amorosa:

Um belo homem vestido de terno preto e sapatos de verniz, com o olhar enfim apaziguado de procurá-la por toda a parte, atravessou como se dançasse aquela rua movimentada em frente à catedral, onde uma nuvem ou sonho ou aparição o esperava...

c) para criar uma narrativa fantástica:

Um homem de cabeça desproporcionalmente avantajada em relação ao resto do corpo e de pés virados para trás atravessou com tal rapidez aquela rua larga, esfumaçada, como que aérea, que não se sabe se é ilusão de ótica ou de se fato algo aconteceu...

w.centralexpert.net visite w.centralexpert.net visite d) Para criar um relato objetivo:

O cliente esteve no escritório no dia 01 de abril, às 15:15 hs. Era um homem idoso, devia ter entre 65 e 70 anos. Após esperar por mais de duas horas a sua vez de ser atendido, sem qualquer reclamação saiu de lá e atravessou rapidamente a rua Teodoro Sampaio, caminhando em direção à loja de nosso conhecido concorrente, que fica a apenas cem metros de distância...

Comentários

Repare na adequação da escolha dos elementos descritivos, tendo em vista o tipo de enredo em questão. Perceba que no último exemplo, a preocupação com a exatidão e com a fidelidade ao real, isto é, com os dados objetivos, não suprime a expressividade do parágrafo.

Para realizar esta proposta, que facilita a criação de bons textos, enriquecendo-os com elementos descritivos, crie uma frase narrativa e pergunte-se, a partir da modalidade de narração que lhe interessa desenvolver, e também do objetivo e do ponto de vista com que o fará: como é o homem? Como é a rua? Como ele a atravessa? Etc...

6 - A descrição no texto dissertativo

A descrição também pode ser utilizada como um recurso constitutivo da dissertação e da argumentação. Por exemplo, quando nos utilizamos de fatos e/ou de dados concretos sobre a realidade para fundamentar argumentativamente nossas opiniões, nossos pontos de vista, estamos lançando mão de elementos descritivos em textos dissertativos-argumentativos. Neste caso, devemos atentar para a necessidade de que se trate de caracterizações objetivas, impessoais, fiéis à realidade a que se referem.

Leitura Comentada

"Vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes", reflete Guimarães Rosa em "O Espelho". Na caverna high-tech do alheamento, sob o bombardeio de estímulos da grande metrópole, a sombra do efêmero ofusca a luz do mistério. É o que sinto quando retomo a mim mesmo, é o que vejo quando contemplo a vida ao meu redor. (...)

De tempos em tempos, porém, surgem fatos e ameaças que pinicam a bolha da nossa indiferença e nos despertam, ainda que por breves momentos, para questões perenes e cruciais da condição humana.

Que tipo de universo é este em que estamos metidos e do que podemos ser expelidos, sem deixar rastro ou memória, por um simples peteleco cósmico? Foi assim que me senti e foi nisso que pensei enquanto acompanhava o noticiário recente sobre a descoberta e as possíveis trajetórias do XF11, um asteróide de 1,6 km de diâmetro que deverá passar incomodamente perto da Terra em 2028.

O XF11, ao que parece, não passou de um falso alarme. Mas a ameaça de colisão, por tudo o que se pode saber, é real. As crateras da Lua, é bom lembrar, não estão lá à toa: são as marcas visíveis das caneladas, topadas e pisões que ela levou na dança do universo. Vivemos sob o olhar irônico da Lua.

(Eduardo Gianetti - Folha de São Paulo - 26/03/98)

Comentários

O texto faz uma crítica a uma inversão de valores típica da sociedade contemporânea:

o supérfluo está no lugar do essencial e vice-versa. Para isso, utiliza-se de uma linguagem rica em imagens e em elementos descritivos, como por exemplo o contraste entre sombra e luz. Enquanto a primeira alude ao efêmero - para o autor nosso foco real de preocupação - a segunda representa o mistério (questões perenes e cruciais da condição humana), que relegamos.

Feita esta consideração, o autor coloca a ressalva de que tal inversão de valores às vezes é suspensa por fatos e ameaças que pinicam nossa indiferença. Em seguida, passa a exemplificar o que defende, descrevendo não apenas o asteróide XF11, mas, ainda, os sentimentos e pensamentos que lhe provocou noticiário a respeito dele.

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E, finalmente, menciona a lua, cujas crateras - descritas como marcas visíveis das caneladas, topadas e pisões que ela levou na dança do universo- comprovariam a realidade da ameaça de colisão em que vivemos. Diante disso, o texto conclui implicitamente, deveríamos mudar de atitude, isto é, deveríamos repensar em que consiste o essencial, em que consiste o supértluo...

Este exemplo mostra a possibilidade de dissertar com utilização enriquecedora tanto de linguagem coloquial e metafórica, quanto de elementos descritivos. Por tratar-se de um texto produzido para um contexto jornalístico, de caráter opinativo, podemos, por meio dele, perceber concretamente como o impressionar agradando é, com grande salto de qualidade, um aliado imprescindível do esclarecer convencendo...

7 - Procedimentos anti-descritivos (que devem ser evitados num texto descritivo) em vez de: a) excesso e/ou falta de elementos caracterizadores do objeto descrito; é preciso:

assinalar os traços distintivos, típicos, de tal modo que o leitor possa distinguir o objeto da descrição de outros semelhantes; em vez de: b) apresentação caótica e desordenada dos detalhes do objeto descrito; é preciso: equilíbrar o principal e o secundário; em vez de: c) supervalorização de um sentido (em geral a visão), em detrimento dos outros; é preciso: perceber sons, ruídos, cheiros, sensações de calor e/ou frio etc; em vez de: d) eleição do esclarecer convencendocomo único critério a ser seguido; é preciso: também colocar em prática os recursos do impressionar agradando; em vez de: e) opção pela impessoalidade do texto "neutro"; é preciso:

conseguir ser pessoal, colocar-se enquanto sujeito, no ato de recriar qualquer objeto.

2 NÚCLEO - NARRAÇÃO

1 - Definição: o que é narrar

Fundamentalmente, narrar é contar uma história, que pode ser real, imaginária ou ambas as coisas ao mesmo tempo. Em qualquer um dos casos, nossa capacidade de fabular, isto é, de relacionar personagens e ações, considerando circunstâncias de tempo e de espaço, constitui a essência do texto narrativo.

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