13297147 - Tecnicas - de - Redação

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(Parte 6 de 10)

Quando nosso compromisso é com a reprodução do que de fato aconteceu, precisamos, como na descrição, atentar para a exatidão e a fidelidade do narrador aquilo de que foi testemunha ou de que participou como personagem.

Quando, ao contrário, tratar-se de um contexto de invenção, há o predomínio da imaginação na elaboração de uma história. Aí a experiência de criar personagens, tramas, enredos, de construir circunstâncias de tempo e de lugar, permite que nos transformemos imaginariamente nos outros, que vivenciemos simbolicamente outras histórias, que assumamos outras vozes.

Leitura Comentada: Um Texto Narrativo Caso de Secretária

Foi trombudo para o escritório. Era dia de seu aniversário, e a esposa nem sequer o abraçara, não fizera a mínima alusão à data. As crianças também tinham se esquecido. Então era assim que a família o tratava? Ele que vivia para os seus, que se arrebentava de trabalhar, não merecer um beijo, uma palavra ao menos!

Mas, no escritório, havia flores à sua espera, sobre a mesa. Havia o sorriso e o abraço da secretária, que poderia muito bem ter ignorado o aniversário, e entretanto o lembrara. Era mais do que uma auxiliar, atenta, experimentada e eficiente, pé-de-boi da firma, como até então a considerara; era um coração amigo.

Passada a surpresa, sentiu-se ainda mais borocochô: o carinho da secretária não curava, abria mais a ferida. Pois então uma estranha se lembrava dele com tais requintes, e a mulher e os filhos, nada? Baixou a cabeça, ficou rodando o lápis entre os dedos, sem gosto para viver.

Durante o dia, a secretária redobrou de atenções. Parecia querer consolá-lo, como se medisse toda a sua solidão moral, o seu abandono. Sorria, tinha palavras amáveis, e o ditado da correspondência foi entremeado de suaves brincadeiras da pane dela.

‘O senhor vai comemorar em casa ou numa boate?'

Engasgado, confessou-lhe que em parte nenhuma. Fazer é uma droga, ninguém gostava dele neste mundo, iria rodar por noite, solitário, como o lobo da estepe.

‘Se o senhor quisesse, podíamos jantar juntos', insinuou ela, discretamente.

E não é que podiam mesmo? Em vez de passar uma noite besta, ressentida - o pessoal lá em casa pouco está me ligando - teria horas amenas, em companhia de uma mulher que - reparava agora - era bem bonita.

Daí por diante o trabalho foi nervoso, nunca mais que se fechava o escritório. Teve vontade de mandar todos embora, para que todos comemorassem o seu aniversário, ele principalmente. Conteve-se, no prazer ansioso da espera.

- Onde você prefere ir? - perguntou, ao saírem.

- Se não se importa, vamos passar primeiro no meu apartamento. Preciso trocar de roupa.

Ótimo, pensou ele; faz-se a inspeção prévia do terreno e, quem sabe?

- Mas antes quero um drinque, para animar - ela retificou. Foram ao drinque, ele recuperou não só a alegria de viver e de fazer anos, como começou a fazê-los pelo avesso, remoçando. Saiu bem mais jovem do bar, e pegou-lhe do braço.

No apartamento, ela apontou-lhe o banheiro e disse-lhe que o usasse sem cerimônia. Dentro de quinze minutos ele poderia entrar no quarto, não precisava bater - e o sorriso dela, dizendo isto, era uma promessa de felicidade.

Ele nem percebeu ao certo se estava se arrumando ou se desarrumando, de tal modo que os quinze minutos se atropelaram, querendo virar quinze segundos, no calor escaldante do banheiro e da situação. Liberto da roupa incômoda, abriu a porta do quarto.

Lá dentro, sua mulher e seus filhos, em coro com a secretária, esperavam-no atacando "Parabéns para você". (Carlos Drummond de Andrade - Cadeira de Balanço - Poesia e Prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1988) w.centralexpert.net visite w.centralexpert.net visite

Comentários a) Narração: Encadeamento de fatos ou ações

O encadeamento de fatos constitui a característica central de uma narração. Ele é estruturado tendo em vista um conflitoem tomo do qual a história se organiza, tradicionalmente numa seqüência do tipo:

ò Situação Inicial: Exposição de uma determinada situação, com elementos geradores de uma complicação (conflito)

Exemplo:

Foi trombudo para o escritório. Era dia de seu aniversário, e a esposa nem sequer o abraçara, não fizera a mínima alusão à data. As crianças também tinham se esquecido.(...)

Mas, no escritório, havia, flores à sua espera, sobre a mesa. Havia o sorriso e o abraço da secretária, que poderia muito bem ter ignorado o aniversário, e entretanto o lembrara.

ò Complicação: Apresentação do conflito Exemplo:

‘Se o senhor quisesse, podíamos jantar juntos’, insinuou ela, discretamente.

E não é que podiam mesmo? Em vez de passar uma noite besta, ressentida - o psssoal lá em casa pouco está me ligando -, teria horas amenas em companhia de uma mulher que - reparava agora - era bem bonita.

ò Clímax: o ponto de maior tensão da história, quando o conflito chega ao ápice. Exemplo:

No apartamento, ela apontou-lhe o banheiro e disse-lhe que o usasse sem cerimônia. Dentro de quinze minutos ele poderia entrar no quarto, não precisava bater - e o sorriso dela, dizendo, era uma promessa de felicidade.

Ele nem percebeu ao certo se estava se arrumando ou se desarrumando, de tal modo que os quinze minutos se atropelaram, querendo virar quinze segundos no calor escaldante do banheiro e da situação. Liberto da roupa incômoda, abriu a porta do quarto.

ò Desfecho: solução do conflito. Exemplo:

Lá dentro, sua mulher e seus filhos em coro com a secretária, esperavam-no atacando “Parabéns para Você".

Conclusão Importante Dois fatores de essencial importância na criação do enredo ò A progressão de ações

A progressão das ações, ao longo do texto narrativo, é o fator que lhe dá ritmo e dinamismo. Por meio dela é que vamos conhecendo as transformações vivenciadas pelos personagens, como ocorre com o protagonista de Caso de Secretária.

Se não houver coerência entre a progressão de ações e as transformações de personagem (ns) e/ou também de outros elementos (como o espaço), não haverá narração propriamente dita.

É preciso, portanto, buscar essa coerência, para se conseguir produzir um texto que seja verdadeiramente narrativo.

ò A Unidade w.centralexpert.net visite w.centralexpert.net visite

Repare que há unidade na seqüência narrativa de Caso de Secretária.

Ao fato central (a carência de afeto familiar sentida pelo aniversariante, cuja família lhe

expectativa do aniversariante de ter uma aventura com elaetc), havendo clara correlação

prepara uma surpresa, em cumplicidade com sua secretária) estão subordinados os fatos secundários (o excesso de atenção que lhe da a secretária, o surgimento e o crescimento da entre eles. A unidade constitui, assim, outro fator indispensável no engendramento de uma trama de qualidade.

b) Narração: Objetivo e Tema

O texto narrativo é elaborado a partir de um determinado objetivo (intenção com que se conta uma história) e de um determinado tema (o tipo de enfoque que o autor pretende dar ao assunto escolhido), que se explicitam fundamentalmente por meio do significado da matéria narrada, tal como é percebido pelo leitor.

No caso da história que você acabou de ler, repare que Carlos Drummond de Andrade não se propõe a tematizar o assunto sobre o qual escreve (um homem faz aniversário), utilizando-se de argumentos, contra-argumentos e apresentação de provas sobre a suposta desatenção da família do aniversariante, o aparente excesso de atenção da secretária etc.

Ao contrário, ele se utiliza de tais elementos para contar uma história, isto é, encadear ações ou acontecimentos que nos vão mostrando, fundamentalmente através da seqüência narrativa, tanto o tema quanto o objetivo de seu texto. Trata-se de uma surpresa de aniversário

(tema) e de explorar economicamente o modo pelo qual esta surpresa se deu (objetivo).

c) Narração versus Mero Relato

Caso de Secretária é uma crônica, uma história breve, que pode fundir ficção e realidade e que muitas vezes aparece num contexto jornalístico. Sua finalidade principal é simultaneamente distrair e envolver o leitor.

Para atingir tal finalidade, que no fundo constitui o que pretende qualquer narração imaginativa, é necessário antes de mais nada que o autor saiba criar e manter a expectativa do leitor, o seu interesse em prosseguir a leitura, em conhecer a continuidade da história.

A Expectativa do Leitor e o Desfecho Inesperado

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