13297147 - Tecnicas - de - Redação

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(Parte 9 de 10)

Bebia no gargalo, jogava paciência no quarto, lembrou-se de comprar escova de dente. Antes de vestir o paletó, enxergou a mosca sobre as cartas: "Há que matar essa bichinha". Depois de matá-la, poderia sair. Gentilmente a perseguiu: "mosca pelo nariz, a lágrima correu do olho", repetia com seus botões, "nariz da mosca é olho da lágrima" - e com o jornal dobrado esmagou a mosca.

"Era outra bichinha, não a mesma." Remoendo a dúvida, das dez da noite às duas da manhã, ainda sem paletó, quando passou pelo sono. "Que foi que me aconteceu" - interrogava-se. as mãos na cabeça - "a que ponto me degradei?"

Chegara a sua vez, fora apanhado. Pensava na amada, olho perdido num objeto qualquer, deixava de vê-lo e o coração latia no peito. Não havia perigo: que é o ato gracioso de beijar uma boca, qual a lembrança de uma noite? Sou um homem, com experiência da vida. Depois, encurralado no velho sofá de veludo, sem fugir dos olhos acesos a cada fósforo - e nunca mais beijar o pequeno seio como quem bebe água na concha da mão.

Chovia, ela aninhava-se nos seus braços, a face trêmula das gotas na vidraça. Cada gesto uma

entre as flores desbotadas do sofá: Eu não gastei de outroMentia, bem que ela mentia! Doente de amor.

descoberta: a maneira de erguer o rosto para o beijo e de sorrir, aplacada, depois do beijo. Estendida nua Quero você. Venha por cima de mim. Nunca mais livre do teu peso.

- Tenho de voltar, mãe.

- Não disse que ficava uma semana?

- Pois é, mãezinha. - Por causa do emprego, meu filho?

- Assunto urgente. Um amigo me chama. Caso de vida ou morte. Não sei o que se passa comigo.

Estou em aflição, tremo sem saber por quê. A senhora me ajude, mãe. Um mau-olhado estragou minha vida. Estranho e misterioso, não sei o que é. Sem ânimo para nada. Não durmo, não como, pouco falo.

Quem sofre é a senhora. Sei que ficará preocupada, mas não deve. Que será isso, mãezinha? Desespero tão grande que tenho medo. Bem pode ser alguma muIher. Tantas passaram pela minha vida.

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Comentários (Dalton Trevisan - Desastres do Amor - Rio de Janeiro, Record, 1979)

Observe que neste conto de Dalton Trevisan há uma clara intersecção entre dois

se libertar, mesmo sabendo que ela tem outro homemTrata-se, assim, de um texto narrativo

tempos: o tempo do agora da narração, em que o protagonista se afasta da mulher amada e vai visitar a mãe, e o tempo de que se lembra: os momentos de amor dos quais não consegue que exemplifica o enredo não-linear, por meio de flashbacks.

Nele o passado invade o presente pela força do amor, que inclusive não permite que o protagonista minta à mãe, no último parágrafo, como inicialmente tenta fazer.

Outro elemento interessante presente no texto, que merece atenção, é alinguagem condensada, quase telegráfica, com que o autor, também se utilizando de discurso indireto livre, encena o desespero de um homem violento, que se sente irremediavelmente apaixonado...

4 - Elementos constitutivos do texto narrativo

Além dos personagens e do enredo, que já estudamos, os elementos constitutivos da narrativa são o narrador - a voz que conta a história -, as circunstâncias de tempoe lugar - e, finalmente, a linguagemque, por ser o produto final do texto, a matéria-prima pela qual ele é tecido, engloba todos os demais.

Vamos visualizar tais elementos, a partir das perguntas que os compõem:

O quê? Quem? Como? Quando?

Onde? Porquê? Por isso...

Comentários

Ação (enredo) Personagens (protagonistas, antagonistas, personagens-ajudantes) O modo pelo qual a ação ocorreu Tempo; o momento ou a época em que a ação ocorreu

Espaço; o lugar onde a ação ocorreu Causas, razões, motivos pelos quais a ação ocorreu Decorrências, resultados ou conseqüências da ação

Nem todos os elementos apresentados estão explicitados em todas as narrações.

É necessário, porém, que os consideremos, para escrevermos um texto narrativo que seja completo, em função de sua situação de produção.

Por meio de tal roteiro, você pode enumerar e selecionaros fatores que comporão o seu texto narrativo, procurando dar-Ihe coerência, verossimilhança, unidade e expressividade, de forma que desperte a atenção e o interesse do leitor...

5 - Narrador e foco narrativo

Chamamos denarrador a categoria narrativa por meio da qual o autor conta uma história. O narrador, a voz que conta a história, é, então, um elemento imaginário; faz parte do reino da ficção, assim como os personagens e os acontecimentos que a vivenciam, caso se trate de uma narrativa literária.

O estudo dos modos possíveis de contar uma história, isto é, das posições do narrador perante o que conta é conhecido como foco narrativo: trata-se do questionamento, na ficção, de quem narra, de como se narra, dos ângulos de visão através dos quais se narra.

Há, basicamente, dois tipos de foco narrativo: aquele em que o narrador que conta a história também participa dela, como personagem (narração em primeira pessoa: personagem-narrador) e aquele em que o narrador não participa da história que conta.

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Este segundo narrador existe nas narrações em terceira pessoae se subdivide em dois tipos:

Narrador-observador:o narrador conta a história como mero observador dos acontecimentos, dos quais não participa diretamente. Não sabe, a respeito do que acontece, mais do que pode observar. Passa para o leitor os fatos como os teria enxergado.

Narrador-onisciente: o narrador é capaz de revelar tudo sobre o enredo e os personagens da história. Ele conhece e expressa o próprio pensamento, a própria voz interior dos personagens, desvendando seus monólogos e diálogos íntimos. Às vezes, sabe até vivências inconscientes dos personagens, ou seja, sabe mais deles do que eles próprios. Geralmente, este tipo de narrador faz uso do discurso indireto livre, como vimos em Caso de SecretáriaeTantas Mulheres, textos que exemplificam este tipo de narrador.

Leitura Comentada: Uma narrativa com personagem-narrador O andarilho e sua sombra

Sempre que posso, saio a pé pelas ruas da cidade. Onde quer que more, com ou sem trânsito, é assim. Nada para mim substitui o contato direto com a rua, a ótica nua do pedestre e o exercício suave da condição de bípede reflexivo. Adoro quando me acontece de poder caminhar até o local de algum compromisso ou encontro e considero um privilégio inconfessável o luxo de perambular a esmo, sem propósito definido, pelo simples prazer peripatético de espiar, devanear e ruminar.

Não é sempre, porém, que me permito o luxo desse esbanjamento. Só quando sinto que cumpri alguma tarefa e, de certa forma, conquistei o direito de vagabundear um pouco. Na era do politicamente correto e da máxima eficácia em tudo, temo a chegada do dia em que o deleite inocente de se caminhar sem expectativa de ganho e sem propósito definido seja considerado um crime.

Um dia desses, não faz muito tempo, eu estava a poucos quarteirões de casa quando fui abordado na calçada por um homem de aparência humilde e jeito acanhado. Não era um mendigo. Parei e perguntei o que era.

Ele então apontou para uma pequena placa do canteiro de obras e me pediu, assim meio de lado, se eu podia ler para ele o que estava escrito nela. Queria saber, explicou, se estavam oferecendo emprego.

Li a placa em voz alta ("vende-se material usado"), lamentei que não era o caso e sugeri que fosse ao vigia da obra perguntar se estavam precisando de gente. Nunca mais o vi.

O episódio em si não durou mais que um par de minutos, talvez nem isso. Mas a situação daquele homem simples procurando emprego, o dedo furtivo apontando a placa e a interrogação muda estampada em seu rosto expectante têm me acompanhado de forma intermitente desde aquela manhã.

A sensação imediata, enquanto andava de volta para a casa, foi de um mal-estar difuso e uma ponta de remorso. A estranha dignidade daquele gesto difícil mexeu comigo. Como aquele sujeito teria vindo parar ali? Teria família, filhos, dívidas? Ele não parecia desesperado. Mas até que ponto, eu me perguntava, as aparências revelavam o seu estado?

Comecei a pensar nas dificuldades e embaraços inusitados que alguém como ele enfrenta cotidianamente. Como se vira um analfabeto no cipoal urbano de São Paulo? Como faz para encontrar um endereço, apanhar o ônibus certo, contar o troco, não ser trapaceado na quitanda da esquina?

O analfabetismo numa grande cidade chega a ser uma deficiência tão debilitadora quanto a cegueira ou a surdez. É todo um universo de informação que se fecha, que nunca se abriu. Como nós que lemos e escrevemos como quem respira e caminha podemos sequer vislumbrar o que possa ser isso?

E por que diabos não fui mais solidário? O que me custaria, afinal, ser mais solícito e tentar ajudá-lo a se orientar um pouco? Podia, ao menos, ter perguntado se precisava de dinheiro para tomar uma condução. Inverti, na imaginação, os papéis: o que eu, no lugar dele, esperaria de alguém como eu? Vontade (abstrata) de voltar no tempo, ser melhor do que fui. Era tarde. Será diferente da próxima vez?

(Eduardo Giannetti - Folha de São Paulo, 02/04/98)

Comentários Observe que aqui temos uma narrativa em 1 pessoa, com personagem-narrador.

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