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Para a troca de uma lâmpada queimada podemos utilizar como recurso a cadeira da sala, sempre mais fácil de obtê-la (disponível) e mais próxima de nós do que a escada de mão, algumas vezes escondida atrás da porta do banheiro da empregada. Substituímos a lâmpada queimada e colocamos a cadeira de volta a seu lugar. Quando posicionamos a cadeira nem nos damos conta de avaliar se ela pode ou não suportar nosso peso, se apresenta algum problema estrutural, ou se onde a posicionamos possa existir algum risco “oculto” que não foi percebido por nós, como quando a colocamos mais distante do que o necessário, ou há vários objetos entre a cadeira e a lâmpada, a janela próxima está aberta e não tem grade, entre outras situações ou identificações de problemas não avaliados prematuramente. É interessante observar que muitos dos operários que se acidentam não reconhecem o que causou o acidente5. Isso passa a ser complexo na medida em que pode representar a ausência de uma avaliação consistente.

Tratar do tema Trabalhos em Altura e suas consequências pode ser uma atividade difícil, se não quisermos ser redundantes aos inúmeros artigos existente abordando a questão. Existem artigos que tratam da discussão de normas, outros das medidas preventivas ou aqueles que apresentam estatísticas, somente para ilustração. Nossa proposta, contudo, é a da apresentação para discussão do tema, iniciando-a de maneira provocativa. Sabe-se que muitos de nós temos medo de ficar observando o horizonte através de janelas em prédios altos. Outros nem sequer se aproximam das janelas em andares altos, como no trigésimo andar. Por outro lado, há fotografias de empregadas domésticas em pé sobre o peitoril das janelas limpando os vidros a 15 metros do chão. O que isso pode ter de comum? Será que o trabalhador não tem o conhecimento do risco e das medidas de proteção que deve utilizar ou a empregada doméstica não tem o menor conhecimento do risco ou o menor valor pela vida? Entendemos que deva ter valor pela vida, pois que é importante para a sobrevivência de sua família. Mas então, por que não avalia os riscos de cair? Nós também tínhamos as nossas dúvidas e nunca gostamos de ficar observando a cidade de uma janela no décimo quinto andar de um prédio.

Assim, resolvemos verificar se isso também poderia se dar com trabalhadores de uma empresa de construção civil. Entrevistamos trabalhadores que nos disseram que sua confiança vinha de suas crenças religiosas6. Outros nos disseram que prestavam atenção no que faziam, ou que faziam daquela forma há muito tempo, ou seja, tinham experiência (SIC). Inúmeros são os exemplos de acidentados que, ao serem entrevistados, afirmavam que já trabalhavam “daquela forma” há mais de 20 anos. Para tirarmos nossas dúvidas posicionamos junto a uma parede de um

5 Entre 2001 a 2002 entrevistamos 86 trabalhadores que haviam sofrido algum tipo de acidente ao longo de suas atividades, não necessariamente naquela empresa onde estávamos implantando um sistema da qualidade (PBQP-H). Desses pudemos identificar que menos de 10% sabiam perfeitamente o que tinha provocado seus acidentes ou guardavam alguma lembrança do que tinham feito que tivesse provocado o acidente do trabalho. Negar o acidente é uma atitude do trabalhador para “esconder” uma fraqueza, já que o acidente pode ser associado a isso. Assim, o trabalhador prefere muitas vezes, dizer que não se lembra do acidente, que aceitar o fato que se acidentou e que pode ter contribuído para a ocorrência do acidente.

6 Em uma empresa prestadora de serviços especializada na montagem de esquadrias, com um efetivo na obra em que trabalhávamos de 18 pessoas, em 2002, cujo proprietário seguia uma crença religiosa e somente contratava trabalhadores que frequentavam sua Igreja, os trabalhadores chegaram a nos dizer que nada ocorreria com eles, porque oravam antes de iniciar suas atividades e ao final. Desse grupo, quatro já haviam sofrido acidentes anteriores. Mesmo assim, repetiam que Deus estava com eles e nada lhes ocorreria enquanto acreditassem. Nossa pesquisa não foi motivada pela crença das pessoas, e sim pelo fato de que a atividade era perigosa e as pessoas não demonstravam preocupação com suas seguranças.

galpão industrial uma escada de mão, de madeira, de montante único, que poderia ser utilizada em serviços de manutenção7. A escada não tinha dois dos degraus. Propositalmente não fixamos nenhum aviso proibindo o uso da mesma. Apenas ficamos observando. Durante nossas observações, que foram feitas ao longo de uma semana, 15 pessoas, de um contingente de 140 funcionários, tiraram a escada de junto à parede, levaram-na onde iriam utilizá-la e a posicionaram para a realização de atividades de manutenção. Quando tinham acabado de posicionar a escada nós interrompíamos a atividade para alertar os trabalhadores. Destacamos que três dos trabalhadores disseram que pegaram a escada porque imaginavam que a equipe de manutenção da empresa já tinha providenciado os reparos necessários8, o que era uma norma da empresa. Mas, não existia qualquer tipo de aviso informando estar o equipamento “OK” para o uso, o que também era uma norma da empresa, de fixar as etiquetas do mês informando terem aqueles itens sido verificados e aprovados pela equipe de SMS.

Esse teste serviu não só para a aplicação de várias palestras de segurança, meio ambiente e saúde ocupacional, como também para comprovar que as pessoas não se davam conta que poderiam estar transportando um dispositivo com falhas e que esse dispositivo terminaria sendo o “gatilho” para o acidente. Ao nos lembrar desse episódio resolvemos apresentar o texto com o título: Só cai quem quer?

O que faz com que uma pessoa não perceba o risco a que está exposta? Os profissionais de segurança e os psicólogos têm pela frente um vasto campo de pesquisa. Na realização de nossas atividades identificamos pessoas que gostavam de se exibir para os colegas, como corajosas, pessoas que realmente não tinham condições de identificar os riscos, pessoas que ficavam focadas somente naquilo que iriam fazer. Por exemplo, chegamos a fotografar um operador de guindaste, guiando a lança com um controle manual, que se preocupava tanto com o posicionamento das cargas que nem se lembrava que poderia estar, algumas vezes, sob a própria carga transportada, constituída por ferragens presas por cintas, como na fotografia 3 (acervo pessoal de AFANP 2010).

7 A ideia vem do princípio que o trabalhador busca sempre as ferramentas ou os meios para executar seu trabalho que estejam mais próximos de si. Se o encarregado solicita que o trabalhador deixe temporariamente de executar uma atividade para concluir outra dificilmente ele irá retornar ao almoxarifado para pegar as ferramentas mais apropriadas. Em nossas pesquisas realizadas durante um ano, 2006, em um canteiro de obras, para verificação das razões dos acidentes causados pela improvisação das ferramentas, descobrimos que, de cada 10 trabalhadores quatro continuavam suas atividades e realizavam as demais com as mesmas ferramentas.

8 Em muitas empresas que trabalhavam sob-rigoroso sistema de gestão, é comum que as equipes de SMS inspecionem periodicamente os equipamentos e ferramentas e apliquem etiquetas com a “cor do bimestre” assegurando aos trabalhadores que esses podem empregar os dispositivos com segurança. Nessas empresas é comum os trabalhadores interagirem com o almoxarife, encarregados e profissionais de SMS. Uma ferramenta pode ter sido inspecionada em um instante e, pelo uso inadequado, ter sido danificada no momento seguinte, permanecendo nela a etiqueta que “aprovou” seu uso.

Fotografia 3

Foto de arquivo pessoal de AFANP – 2010, com trabalhador sentado à beira da forma da viga de borda, com o controle da movimentação da lança do guindaste em suas mãos, e a atenção voltada para o posicionamento da carga.

Exemplos de identificação dos riscos

O risco deixa de existir, ou passa a ser mitigado, quando há planejamento da atividade. No planejamento discutem-se as estratégias, logística, procedimentos, proteções e riscos, entre outras questões também importantes. É nessa fase, sem riscos, que se discutem os riscos. Ë bom esclarecer que uma coisa é eliminar um risco – algo bem difícil – outra, de mitigá-lo – quando são empregados meios que atenuam os efeitos dos mesmos, principalmente sobre o ser humano. Mitigam-se riscos quando se fornece o EPI – equipamento de proteção individual correto. Outra maneira de identificação dos riscos é através do reconhecimento dos padrões de comportamento dos trabalhadores. Em algumas obras isso é possível, pois que há um tempo maior de interação entre os trabalhadores e seus encarregados. Em outras atividades isto não é possível. Quando o for, seria importante se aquele se se propõem a executar um trabalho em altura está realmente preparado para tal, em todos os aspectos, inclusive naqueles relacionados às questões relativas à normalidade. Digo isso porque muitas vezes, em nossas atividades de gestão das tarefas relacionadas com SMS alguém dizia que quem se prestava a executar um serviço em altura não era normal. O que é ser uma pessoa normal?

Em um artigo bastante interessante redigido pelo Dr. Dirceu Zorzetto Filho, sob o título

“O normal e o patológico em Psiquiatria”, publicado pela Revista Psiquiatria em 2000, obtido no site: http://www.oocities.org/medpucpr97/psiqui/psiqui.htm. Pela adequação e pertinência do conceito, para continuarmos nossos comentários é importante citar o comentário do douto professor em sua íntegra, como:

sede, um "órgão" biológico a que estivesse vinculada

[...] Existe uma longa e desgastante discussão quanto a natureza do psiquismo/mente. Uma corrente da psicologia, psicanálise e filosofia entende os fenômenos psíquicos como algo que extrapola os limites do físico e orgânico; postula que a atividade psíquica não teria uma Normalidade Psíquica:

comportamentos e formas de sentir normais e patológicas é muito tênueApresentam-se em

O conceito de normalidade psíquica é questão de grande controvérsia. Obviamente quando se trata de casos extremos, cujas alterações comportamentais e mentais são de intensidade acentuada e de longa duração, o delineamento das fronteiras entre o normal e patológico não é tão problemático. No entanto, existem situações limítrofes em que a diferença entre os seguida os principais critérios de normalidade utilizados em psicopatologia:

de saúde como “ausência de sintomas, de somais ou de doenças”Normal, do ponto de
transtorno mental definido
horas de sono, quantidade de sintomas ansiosos, etc.)

1. Normalidade como ausência de doença: O primeiro critério que geralmente se utiliza é o vista psicopatológico, seria, então, aquele indivíduo que simplesmente não é portador de 2. Normalidade ideal: A normalidade aqui é tomada como certa “utopia”. Estabelece-se arbitrariamente uma norma ideal, o que é supostamente “sadio”, mais “evoluído”. Tal norma depende, portanto, de critérios socioculturais e ideológicos, e, no mais das vezes, dogmáticos e doutrinários. Exemplos de tais conceitos de normalidade são aqueles baseados na adaptação do indivíduo às normas morais e políticas de determinada sociedade. 3. Normalidade estatística: A normalidade estatística identifica norma e frequência. É um conceito de normalidade que se aplica especialmente a fenômenos quantitativos, com determinada distribuição estatística na população geral (como peso, altura, tensão arterial, 4. Normalidade como bem estar: A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu, em 1958, a saúde como o completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente como ausência de doença. É um conceito criticável por ser muito vasto e impreciso, pois bem-estar físico, mental e social é tão utópico que poucas pessoas se encaixariam na categoria “saudáveis”. 5. Normalidade funcional: Tal conceito irá assentar-se sobre aspectos funcionais e não necessariamente quantitativos. O fenômeno é considerado patológico a partir do momento em que é disfuncional, provoca sofrimento para o próprio indivíduo ou para seu grupo social. 6. Normalidade como processo: Neste caso, mais do que uma visão estática, consideram-se os aspectos dinâmicos do desenvolvimento psicossocial, das desestruturações e reestruturações ao longo do tempo, de crises, de mudanças próprias a certos períodos etários. Este conceito é particularmente útil em psiquiatria infantil e de adolescentes, assim como em psiquiatria geriátrica. 7. Normalidade subjetiva: Aqui é dada maior ênfase à percepção subjetiva do próprio indivíduo em relação ao seu estado de saúde, às suas vivências subjetivas. O ponto falho deste critério é que muitos indivíduos que se sentem bem, “muito saudáveis e felizes”, como no caso de pessoas em fase maníaca, apresentam de fato um transtorno mental grave. 8. Normalidade como liberdade: Alguns autores de orientação fenomenológica e existencial propõem conceituar a doença mental como perda da liberdade existencial. Desta forma, a saúde de liberdade sobre o mundo e sobre o próprio destino. A doença mental é constrangimento do ser, é fechamento, fossilização das possibilidades existenciais. Portanto,

trabalhamos e, também, de acordo com as opções filosóficas do profissional
O que é um "distúrbio mental"?Brendan Maher assinala três critérios que permitem

de modo geral, pode-se concluir que os critérios de normalidade e de doença em psicopatologia variam consideravelmente em função dos fenômenos específicos com os quais considerar uma conduta como patológica e necessitada de ajuda terapêutica. Esses critérios implicariam na existência de: 1) Angústia pessoal intensa: a pessoa sofre um intenso e desagradável desconforto emocional, insatisfação com sua vida e sofrimento emocional subjetivo que a leva a solicitar ajuda especializada; 2) Condutas incapacitantes: atitudes que prejudicam o desenvolvimento das potencialidades do indivíduo e comprometem seu desempenho pessoal, profissional e social, tais como o comportamento dependente, passivo, agressivo e fóbico; 3) Contato deficiente com a realidade: caracteriza-se pela compreensão distorcida da realidade socialmente compartilhada, levando a procedimentos inadequados e às vezes perigosos para o indivíduo ou para outras pessoas. [...]

Há que se cobrar normalidade de um trabalhador que esteja prestes a inspecionar a fundação de uma estrutura a 15 metros de profundidade, sem que ele próprio se dê conta dos riscos a que estará exposto, ou tenha sido adequadamente notificado e se encontre protegido para o exercício da atividade? Ainda pode se cobrar um comportamento normal de uma pessoa que nunca andou de avião e irá ser lançada de um parapente, acompanhada por um instrutor? Talvez os exemplos sejam absurdos e talvez estejamos confundindo normalidade com ansiedade, medo, angustia, ou mais. Especialmente nas atividades laborais mister se faz destacar para o trabalhador todos os riscos a que ele estará exposto e fornecer os equipamentos ou dispositivos de segurança, ensinando-o a emprega-los. O trabalhador é amparado pela Lei, inclusive em norma da OIT nº 155 aceita pelo Governo Brasileiro, a aceitar ou recusar-se trabalhar em atividades para as quais não se sinta seguro ou preparado. Se olharmos ao nosso redor nas cidades em que residimos, iremos perceber “muitas coisas erradas”, como por exemplo: a patroa que pede à sua empregada para limpar as janelas do apartamento no 18º andar. Um dos casos bizarros que tivemos conhecimento foi o de uma empregada doméstica que estava concluindo um curso de técnica de segurança do trabalho e que propôs à sua patroa limpar os vidros da janela de um apartamento no 14º andar. A patroa relutou e a empregada disse que estava habilitada e que tinha um cinto de segurança e o prenderia no “varal” da cortina da janela. Felizmente a patroa não concordou com tamanha insanidade. Mas, não há tantas patroas assim com essa percepção.

Os exemplos de guerreiros indo à guerra, em condições normais, não existem, ou talvez somente em revista de quadrinhos, o velho e antigo Gibi, quando então os super-heróis não tinham medo de nada. O medo, palavra tão temida, é importante para nós e nos faz refletir, ousar menos, compreender mais, arriscar menos, perceber mais claramente. O medo nos chama a atenção para o perigo. Assim, dizer que uma pessoa não é normal só porque não tem medo passa a ser uma falácia.

Nos filmes que tratam da guerra no Vietnam, com o exército americano, via-se que muitos dos soldados recorriam às drogas para não se abaterem nas frentes de batalha. Infelizmente, o ambiente somado ao uso contínuo de drogas deixou para trás uma legião de pessoas doentes.

Ora, todas essas questões suscitadas anteriormente nos remetem a um cenário que não é o habitual para um técnico ou engenheiro de segurança do trabalho, com formações básicas em ciências exatas. Há que se compreender que tanto o ambiente de trabalho quanto o trabalhador devem ser percebidos como um todo e não como partes de um todo. Esse todo pode ter reações internas ou endógenas e exóginas. Essas reações podem afetar comportamentos, ações, ritmos de trabalho, enfim, podem afetar pequenas partes daquele todo. Por exemplo, se o cronograma de entrega de um serviço estiver comprometido por alguma razão, passa a ser natural que o nível estratégico da organização cobre dos demais níveis celeridade nas ações. Essa reação, sob determinadas circunstâncias, não está contida no planejamento da empresa, como um “plano b”. Desta maneira, alguns trabalhadores passam a ser mais pressionados do que outros, já que as atividades de obras são processos encadeados, onde a continuidade de um depende da conclusão da etapa anterior. Assim, os que estão submetidos a maiores pressões podem ser representados ou estar sendo representados nas fotografias apresentadas neste texto. Desta maneira, algumas das posturas percebidas podem ser fruto de pressões excessivas e não o resultado da “normalidade” de um trabalho ou daquele trabalhador, especificamente.

Em um dos relatos de investigação de acidentes no trabalho apontados entre os três, dentro de um universo de 200, citados anteriormente, chamou-nos a atenção aquele onde o trabalhador, preocupado com sua própria segurança na execução de um serviço ousou ter medo dos resultados ou das consequências de sua exposição. Pressionado pelo Encarregado, também dito Feitor, em muitas obras, ou Capataz, ou Mestre de Obra, realizou a tarefa e sofreu o acidente tão temido. Nas análises não se pôs em cheque a palavra do Capataz, antigo na empresa, mas sim a do empregado recém-admitido. Ou seja, alguém tinha de ser o culpado e para isso apontaram o dedo para o empregado. Fácil, não?

Entre todas as atividades Perigosas existentes em um local de trabalho, os trabalhos em altura são sempre os que apresentam maiores e mais gravosos riscos aos trabalhadores. Pode parecer óbvio a todos que trabalhar em altura não é algo seguro. Aqui se confunde propositalmente o Perigo com a Segurança. O que faz com que passe a existir Segurança em atividades perigosas é o adequado planejamento e o emprego de dispositivos de proteção específicos. O trabalhador pode estar montando uma antena no alto de uma torre a mais de 400 metros de altura, estar realizando uma atividade perigosa, estar sujeito a inúmeros riscos, mas estar realizando a atividade com segurança. Quando se expande o conceito de segurança inserem-se temas como competências, habilidades, atitudes, medidas de prevenção, procedimentos, supervisão, e mais um corolário de medidas importantes. Quando o Homem se aventurou a viajar para fora do Planeta Terra sabia de antemão que isso seria uma atividade Perigosa. Até o quanto o conhecimento técnico da época o permitia, foi-lhes oferecido o que se tinha de melhor em termos de segurança. Quanto mais perigosa for a atividade maiores e melhores serão os níveis de proteção, com o que chamamos de redundâncias, onde a falha de um dos dispositivos aciona, de imediato, outro dispositivo. Essa concepção de redundâncias fez com que nas atividades de construção e montagem se passasse a exigir o duplo talabarte nos cintos de segurança. Isso porque, na transposição de um obstáculo o trabalhador sempre teria pelo menos um dos talabartes presos a alguma estrutura e não cairia.

Para nós, os riscos podem parecer óbvios. Todavia, isso nem sempre é percebido pelo próprio trabalhador. Vejamos alguns exemplos bem simples:

I) Risco: pregar uma tábua, utilizando pregos, martelo e tábua. Consequências previsíveis:

1. Impacto do martelo no dorso da mão ou em dedos; 2. O prego pode se desprender e atingir o trabalhador ou outras pessoas próximas; 3. O prego pode atingir o nó da madeira (parte mais dura) e soltar-se; 4. O prego pode quebrar-se e ferir o trabalhador; 5. O cabo do martelo pode atingir o trabalhador enquanto esse o utilize para remover o prego que tenha sido entortado; 6. Uma lasca da madeira que será pregada pode se soltar e penetrar na pele do trabalhador; 7. O trabalhador pode cair enquanto transporta a tábua; 8. O trabalhador pode ferir a mão por uma farpa que se desprenda do cabo do martelo; 9. O trabalhador pode ferir o rosto, outra parte do corpo a outra pessoa se o martelo soltar-se do cabo. I) Risco: substituição de uma lâmpada de rosca queimada.

Consequências previsíveis:

1. Prensagem dos dedos ao abrir a escada de mão; 2. O bulbo da lâmpada pode se soltar do soquete e ao quebrar-se cortar a mão ou o rosto do trabalhador; 3. O trabalhador pode quebrar a lâmpada ao liberá-la da rosca, lesionando a mão; 4. O trabalhador poderá levar um choque elétrico por não ter desligado o interruptor ou não ter verificado a tensão na linha e na identificação da faze; 5. O trabalhador poderá sofrer uma descarga elétrica pelo fato do condutor elétrico haver se soltado do parafuso que o prende; 6. O trabalhador poderá escorregar do degrau na escada e cair ao chão; 7. Os pés da escada podem escorregar no piso, liso ou sobre tapetes derrubando o trabalhador;

8. A lâmpada trocada pode cair ao chão e os estilhaços do vidro atingirem o próprio trabalhador ou a terceiros; 9. O trabalhador poderá sofrer acidentes ao transportar a escada para o local onde a utilizará; 10. Pode ocorrer a queda de ferramentas de trabalho levadas pelo trabalhador.

Identificando riscos na realização de trabalhos em altura

Qualquer que seja a atividade humana teremos sempre perigos e também riscos associados. Nos trabalhos em altura os riscos passam a ser em maior número e a possibilidade de atingirem a terceiros também.

Para quem realiza um trabalho muitas vezes ao dia, o reconhecimento do risco passa a ser mais difícil do que para quem o realiza somente uma vez. Quem o faz por várias vezes termina não mais identificando os riscos, ou o que é pior, aceitando-os como normais para aquele tipo de trabalho. Até mesmo por essa razão, dos trabalhadores não conseguirem diferenciar o que poderia ser natural daquilo que tem o potencial de causar lesões, os acidentes continuam ocorrendo. Na realização de trabalhos em altura, o que para os estudiosos é claramente identificado como perigo e riscos consequentes, para o trabalhador não passa de algo a que ele já se acostumou e deixou de “ter medo”.

A falta de medo é algo perigoso, quando se trata de questões relacionadas à prevenção dos riscos. Se o medo deixa de existir os níveis de prevenção ou de proteção passam a não ser mais necessários ou são reduzidos e as pessoas deixam de se preocupar com sua própria segurança, passando a se preocupar somente com a execução da atividade.

Em uma abordagem psicológica a falta do medo aproxima o trabalhador do acidente.

Por exemplo, ainda considerando a realização de um trabalho em altura – perigoso - identifica-se um risco que pode ser o da queda do trabalhador. A queda não se dá espontaneamente.

De cada 100 trabalhos realizados em altura, não há 100 acidentes do trabalho. Isso significa que não basta apenas que alguém esteja realizando uma atividade para que, necessariamente, sofra um acidente. O que é motivo de preocupações é o acidente que causa lesão ao trabalhador. Podem ocorrer acidentes que o trabalhador nada sofra. Quando o acidente se manifesta essa manifestação pode ser o resultado de uma ou várias ações, como por exemplo:

Roseta de Riscos (AFANP, 2012)

Para que o exemplo seja mais bem consolidado no processo de aprendizagem, compararemos o modelo acima com uma fotografia obtida em uma obra (AFANP-2011).

Fotografia 4 (AFANP – 2011)

Na foto 4 vê-se o encarregado no alto de uma edificação de seis lajes de piso, circulando por toda a borda do prédio, em sua fachada externa, avaliando a qualidade dos serviços em execução e

9 (1) significa um pequeno risco; (2) representa um risco médio; (3) corresponde a um risco elevado e (4) significa um risco gravíssimo.

Queda do trabalhador

Desatenção

Falha dos dispositivos de proteção

Falta de proteção

Fatores externos

Fatores ambientais

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