Métodos Qualitativos de Pesquisa

Métodos Qualitativos de Pesquisa

(Parte 1 de 8)

Organizador Carlos Alberto Gonçalves

Palavras-chave: (a) História Oral, Historia de vida; Etnografia; Pesquisa-ação; Pesquisa-participante; Estudo de caso; Grounded Theory; Laddering; Incidental Critical Method; Análise de Protocolo; Kelly Method; Roda Viva; Júri Verdadeiro ou Simulado; Simbolismo Análises quali quanti Comparativas

(b) Grupo de foco; Painel de Especialistas; Técnica Delphi; Júri Verdadeiro ou "Simulado"; Coleta direta e indireta; Painel de especialistas; Registros diretos indiretos; Filmagens, Fotos; Atividades sócio – técnicas; Recortes - Bricolagens Combinação de métodos

(c)Hermenêutica; Maiêutica; Análise de conteúdo; Análise de discurso; Análise de signos; Categorizações

Apresentação

Dez anos depois, o discípulo encontrou o mestre e indagou, por que não me ensinou soluções para essas situações tão complexas em que vivo. Na época, você não ouvia e nem via e, menos ainda, queria.

Há algum tempo pensamos em desenvolver um trabalho escrito que apresentasse vários métodos e técnicas qualitativas abordados na literatura e acrescentasse outros “considerados” inovativos. Eram de fato três grandes desafios ensinar o contexto epistêmico para a escolha do meta – método, os conceitos dos métodos e os processos de como fazer e aplicar. O texto deveria, na medida do possível, se mais que um manual, deveria ter a tríade de contexto, conceito e processos para que o leitor possa ver o método de forma sistêmica, em sentido, sua aplicação e desenvolvimento. Vimos que em alguns textos alcançamos essa idéia e no geral os textos mostram conceitos e roteiros que orientam na elaboração de trabalhos de pesquisa em Ciências Sociais Aplicadas - CSA.

A área de metodologia de pesquisa em CSA tem as fronteiras abertas para contribuição em métodos vindos de várias áreas do conhecimento. Administrar deve ter surgido deste que o homem começou a adotar e sistematizar recursos para obtenção de melhores resultados nos seus afazeres. No caso de administração, por exemplo, dentro de CSA vista como ciência começa há pouco mais de cem anos. Mais que as outras áreas da ciência, os métodos de pesquisa qualitativa em CSA tem origem e influências de autores nos domínios de conhecimento de sociologia, psicologia, antropologia, educação, filosofia, lingüística, comunicação, história, dentre outros. Como nessas áreas o conhecimento de metodologias também evolui, mesmo que de forma, gradual e considerando as variações sociais implica em um grande esforço do metodólogo de CSA em buscar conhecimentos novos nessas áreas. Buscar leituras adicionais em várias áreas e autores para identificar diferentes olhares e formas de abordagem dos fenômenos sociais com implicações nos de natureza organizacional.

À medida que os problemas se tornam mais complexos, novas exigências de métodos e combinações se tornam necessárias. Observa-se uma evolução de métodos anteriores, propostas de novos e uso de TI - Tecnologia de Informação, com softwares amigáveis e complexos para apoio ao pesquisador. Por exemplo, os métodos como Grounded Theory, uso de Redes Neurais, ampliação de aplicações de Sistemas de Equações Estruturais, ampliação de aplicativos como o SPSS e SAS, etc. Isso está tão evidente que os cientistas sociais devem não somente acompanhar sua área afim de pesquisa como também os novos processos de tratamento dos dados.

A indagação desafiadora que às vezes é apontada nos muros da academia é a seguinte: será que o pesquisador deve conhecer bem apenas um método e suas formas de análise em detalhes e canalizar todos os problemas de pesquisa para essa sua meta-método? Cumprese o ditado “para quem tem somente um martelo, tudo lhe parece um prego”. Outro desafio à ciência que pode ser debatido é se métodos diferentes podem solucionar ou explicar a mesma questão de pesquisa. Nas rodas acadêmicas volta e meia vê-se os pesquisadores discutindo não o problema de pesquisa, mas se os métodos qualitativos são melhores que os quantitativos e vice-versa.

Atendendo ao critério do mais simples, como aconselhou o monge Guilhermo de Occan, na escolha do método prevalece aquele mais ajustado e mais econômico. Entendemos que o que dirige a escolha do método é a questão de pesquisa. Algumas questões podem ser mais bem resolvidas ou explicadas por um método ou outro. Fica evidente que, ao longo da carreira de pesquisa – seja de um professor ou de um profissional de pesquisa que colecione vários métodos e tenha experiência nos mesmos – a introdução de um novo método significa aprendizagem e risco e, portanto, encontra também resistência de aplicação, demandando tempo para sua absorção pela academia.

A escolha do método ou a combinação de métodos e técnicas requer habilidade “laboratorial” do pesquisador. A decisão inicial passa que abordagem da escolha epistemológica numa posição dicotômica que compreende abordagem mais fenomelógica e interpretativista ou um direcionamento positivista. A partir dessa escolha ele ainda se encontra diante de outros desafios. Se sua questão pesquisa é estruturada ou não, a parcimônia e validade dos métodos, o Rigor e Relevância - R que alcançara nas sua análises e resultados. Para problemas estruturados há métodos mais estruturados e para os não estruturados os métodos, provavelmente, serão mais exploratórios, por exemplo, tentativa e erro, pesquisa sócio técnica e pesquisa ação dentre outras.

Algumas pesquisas evocam métodos combinados quali x quali ou quali quanti em qualquer ordem e combinadas várias vezes. Também, um pesquisador criativo e inovador pode combinar e organizar métodos a semelhança de um técnico em laboratório. Ele pode alcançar bons resultados de análise e concluir coisas interessantes ao se sentir mais livre para combinar métodos. No caso por exemplo de Administração, bastante multidisciplinar e transdisciplinar, há uma interligação metodológica pois o conhecimento transita e tem domínios conexos, informações, processos e relações entre várias áreas do saber.

As metodologias enquanto conceito e processo não devem ser vistas como elementos estáticos e podem evoluir, melhorar adotar novos formatos, se combinar, usar de apoio tecnológico, se especializar. Somos incentivadores de que pesquisadores de parte a parte busquem também desenvolver novas metodologias e aplicá-las de forma combinada, estruturada ou não, linear ou paralela, com parcimônia e, proceder sua validação.

Esse trabalho foi resultado de esforços de alguns anos na disciplina de Metodologia de Pesquisa e foi possível pelo empenho dos nossos autores e colaboradores nos vários capítulos dessa obra. Esse time constituiu realmente a equipe solidária e motivada para o trabalho.

Carlos Alberto Gonçalves

FALANDO DE MÉTODOS DE PESQUISA6
PESQUISA CAUSAL: EXPERIMENTOS14
KELLY MÉTODO: PERSONAL CONSTRUCT THEORY43
O MÉTODO LADDERING: TEORIA E APLICAÇÕES54
ANÁLISE DE PROTOCOLO79
MÉTODO DELPHI82
ANÁLISE DE CONTEÚDO E ANÁLISE DE DISCURSO EM CIÊNCIAS SOCIAIS102
CONCEPÇÃO DA PESQUISA EXPLORATÓRIA121
CONCEPÇÃO DA PESQUISA EXPLORATÓRIA122
GROUNDED THEORY131
O PROCESSO DIALÉTICO NA PESQUISA137
O MÉTODO DIALÉTICO147
TÉCNICAS PROJETIVAS151
RECURSOS VISUAIS COMO TÉCNICA DE PESQUISA158
SURS: SUPORTE REFERENCIAL DE SUPERAÇÃO - DESAFIO DA PESQUISA184
NO MARKETING195
RECURSOS VISUAIS COMO TÉCNICA DE PESQUISA210
FATORES CRÍTICOS DE SUCESSO221
EXPERIMENTOS E QUASE-EXPERIMENTOS: ANÁLISE QUALITATIVA225

FALANDO DE MÉTODOS DE PESQUISA Carlos Alberto Gonçalves

Ut queant laxis / Resonare fibris / Mira gestorum / Famuli tuorum / Solve poluti Labii reatum / Sancte Iohanne. Escala de Guido D’Arezzo. Séc XVIII.

1- Introdução

Inicialmente o pesquisador profissional deve formular uma questão semente para instigálo ao processo de averiguações. A questão passa pela sua crítica de relevância, valor, fatores motivacionais, recursos tangíveis e intangíveis. Suponhamos que ao identificar essa tal questão que o motiva para investigação, nesse momento, pense na necessidade de viabilizar um método que a possa verificar, explicar, descrever ou resolver. Nos métodos ou processos combinados repousam a responsabilidade de solução da questão. Se há brilhantismo na formulação da questão, no método de solução recai a segunda responsabilidade, a de comprovação e demonstração e explicação.

As questões de pesquisa, nas suas diferentes naturezas podem ser de natureza estruturada e não estruturada. A estruturada, pode-se dizer que, possuem um enunciado claro por meio de variáveis e que se conhecem os processos de mensuração e análise. As não estruturadas não se manifestam claramente e também não se conhece claramente e sequencialmente os métodos de análise. No tocante a sua apresentação as questões podem ser expressas por: (a) variáveis de difícil mensuração ou ainda não conhecidas e definidas; (b) variáveis manifestas ou construtos, bem conceituadas que podem ser apropriadas em base empírica na forma de mensuração direta ou indireta; (c) variáveis para um processo dedutivo. Às vezes a questão não está clara no seu enunciado, nas relações entre as variáveis e o pesquisador necessita tentar vários enunciados, passar por fases de exploração e novas reflexões.

Normalmente a natureza das questões dirige a escolha epistemológica do pesquisador. Por exemplo, se o pesquisar está diante de um fenômeno que interessa analisar e esse ocorre com uma ou até cinco atores ou unidades de observação, a pesquisa é transversal, o número de medições é pequena, a métrica é qualitativa, fica sem sentido aplicações estatísticas. Outro caso advém de questões primárias onde não existem teorias diretamente ligadas ao fenômeno. Nesse caso estamos diante de uma questão que não possui teoria de apoio e requer uma abordagem menos estruturada. Quer dizer que há fenômenos e questões deles derivados em que o pesquisador estará criando teorias novas. Vale ressaltar que são as questões que dirigem e antecedem as concepções dos métodos possíveis de abordagem para sua descrição, explicação ou prescrição e, se for o caso, identificação de relações de causa e efeito.

A escolha do método de pesquisa pelo pesquisador se apóia em suas habilidades, conhecimentos predominantes de processos, medições, capacidade de dedução, intuição, ética na pesquisa e risco de pensar e agir diferente. Felizmente há cientistas de vários perfis e, essa diferenciação produz, em vários momentos, soluções diferenciadas que enriquecem o conhecimento científico.

Há os que pensam que cada objeto, relação ou fenômeno deve ser visto e interpretado de maneira diferente por cada pessoa com elevada carga subjetiva. Nessa categoria dissemos que se figuram, predominantemente, os interpretativistas que vêm a natureza subjetivista das relações sociais que compõem os fenômenos. As formas de ver, descrever, explicar e interpretar o fenômeno se pauta pela relações e visão individualizada, particular, dos atores ou de suas relações no coletivo. Assim a realidade objetiva inexiste absolutamente, cada qual vê o mundo e suas manifestações à sua maneira subjetiva. Acreditam que essa é a forma de fazer ciência no campo de ciências sociais aplicadas.

Há outra categoria de pensadores que advogam que as coisas e fenômenos para ser ciência devem ser percebidos e avaliados da mesma maneira e, todos estão "vendo" e interpretando os objetos e fenômenos da mesma forma. Pensam que há mensurações objetivas que, naturalmente, são interpretadas da mesma maneira. Nessa categoria estão os positivistas. Essas duas formas de pensar e adotar métodos científicos ocupa regiões opostas de um mundo dialético da solução dos problemas.

De outro lado apesar desse campo dialético criado entre esse pólos de pensar e agir em nome da ciência, entendemos que pesquisador, a sua conveniência, pode se deixar “contaminar” por um paradigma epistemológico, qual seja, pode se tentado a se “auto chavear” para o lado interpretativista ou para o lado positivista. Diz-se que isso é uma escolha pois, nada impede, o pesquisador pode, diante certo fenômeno, vê-lo segunda uma ou outra abordagem para fazer sua escolha.

Assim no mundo dos positivistas o seu cientista ao medir e apresentar resultados está convencido que todos acreditam em sua forma única de ver o fenômeno. Que consegue explicá-lo de forma não ambígua e que todos que o medirem da mesma forma e em outras ocasiões (Ceteris Paribus) constatarão as mesmas coisas. Acreditam que os fenômenos sociais podem ser abordados da mesma forma como são tratados os das ciências naturais. Que o cientista consegue se independente do fenômeno e vê-lo de forma completamente isento.

Outro ponto que chama a atenção é a abordagem qualitativa e a quantitativa na metodologia e suas combinações para se alcançar um maior riqueza explicativa para o fenômeno. As duas abordagens têm sido ricamente combinadas por cientistas que as apreciam, sem preconceitos e adotam ambas em solução de problemas.

De um lado, as abordagens qualitativas são bastante úteis em estudos de profundidade no sentido de aflorar indicadores ou variáveis manifestas para estudos quantitativos posteriores. Os métodos qualitativos são úteis no aprofundamento das relações das variáveis e para apontar elementos de exceção nesses relacionamentos. Por outro os métodos quantitativos, de forma mais objetiva, conseguem mensurar e mostrar o grau de intensidade de relações entre variáveis, algo difícil de explicitar com os recursos semânticos da abordagem qualitativa.

Filogênese (filogenia): Ontogênese (ontologias): Uma sequenciação de escolha de pesquisa (processo top-down design):

(1) Determinação da questão objetiva; (2) Identificação do objeto da pesquisa e unidades de análise componentes; (3) Estratégia de abordagem do fenômeno ou escolha epstemológica: fenomenologia ou positivismo; (4) Abordagem mais qualitativa ou quantitativa (ou combinação de ambas); (5) Escolha de métodos de pesquisa, das técnicas de coleta de dados e das técnicas de análise e operações (quadros 1, 2, 3).

Características Subjetivismo Características Positivismo

O QUADRO 1 mostra uma relação de metodologias qualitativas para escolha do pesquisador em conformidade com a sua questão de pesquisa. Essa classificação já foi uma tentativa arriscada em razão de que os métodos de forma recorrente, interativa, iterativa podem se intercalar quebrando essa visão de unicidade que às vezes desejamos ver para nosso conforto de entendimento. Ressalto que esse livro aborda várias dos métodos e técnicas propostas mas algumas deverão ser estudadas em referências adicionais.

QUADRO 1 – Métodos e técnicas qualitativas para escolha do pesquisador Estratégia de Abordagem do Fenômeno: Interpretativista ou Positivista

Métodos de pesquisa (ou Macro Métodos) – A Técnicas de coleta de dados - B

Técnicas de tratamento dos dados - C

História Oral, Historia de vida Grupo de foco Hermenêutica Etnologia e etnografia Painel de Especialistas Maiêutica Pesquisa-ação Técnica Delphi Análise de conteúdo Pesquisa-participante Júri Verdadeiro ou "Simulado" Análise de discurso Estudo de caso Entrevista direta, indiretas, narrativas Análise de signos Grounded Theory Coleta e observação direta e indireta Categorizações Incidental Critical Method Painel de especialistas Figuras de Linguagem Análise de Protocolo Registros diretos e indiretos Kelly Method Filmagens, Fotos Laddering Atividades sócio – técnica Roda Viva Recortes – Bricolagens Júri Verdadeiro ou Simulado Mensurações por equipamentos Simbolismo Tentativa e erro Modelos de Neurociência Combinação de métodos

Análises Comparativas (ex. anatomia comparada) Dialética

Neurométrica Fatoração - categorizações

A ciência nos exemplifica, em vários momentos, que a fuga do senso comum ou da aparente lógica dominante, a ruptura de paradigmas já estabelecidos leva a descobertas interessantes. Várias descobertas foram atribuídas a acidentalidade com conhecimento – (em Inglês: Serendipity – o fato de achar coisas úteis ou agradáveis por casualidade).

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