Madeiras de violão (tampo)

Madeiras de violão (tampo)

(Parte 1 de 2)

Você já percebeu que instrumentos com dimensões semelhantes, mesmo shape, acabamento parecido e até com o mesmo encordoamento podem soar completamente diferentes?

Existem diversos fatores determinantes das qualidades sonoras de um instrumento musical. No caso dos violões, são importantes características o formato, tamanho e a estrutura interna do corpo, a qualidade e estado de conservação das cordas, o acabamento do corpo, e a habilidade do luthier que construiu o instrumento. Sabendo da importância de todos os fatores citados acima, vamos discutir um pouco sobre uma característica não listada anteriormente, e que determina com igual peso o som de um violão: as madeiras escolhidas para compor cada parte do instrumento. Vamos tratar sobre as madeiras do braço, da escala, e mais especificamente do corpo do violão, que tem maior valor no resultado sonoro final.

Para tanto, separamos o nosso conteúdo sobre madeiras em 3 textos, que discutem sobre estas partes do instrumento: 1. Tampo

2.Laterais e Fundo 3.Braço e Escala

Antes de começarmos, é importante perceber que cada parte do corpo instrumento recebe o estímulo que surge da vibração das cordas e passa pela ponte. É certo que a maioria dos luthiers indica o tampo do violão como a parte que mais influencia o som do instrumento, mas os componentes das laterais e fundo são responsáveis pelo "tempero" do timbre, como veremos com mais calma na parte 2 deste texto.

Para escolher a madeira que será usada na confecção do instrumento, muitos fatores são levados em conta, como a disponibilidade do recurso na natureza, a resistência do material, o preço e as características sonoras que são inerentes à cada espécie.

Muito bem, vamos pesquisar um pouco sobre a escolha de madeiras para montar o corpo do violão, começando pelo tampo.

PARTE 1 - MADEIRAS DO TAMPO

O tampo do violão (geralmente encontrado como "soundboard" na maioria dos textos sobre o assunto) é o grande responsável pelas características iniciais do som do nosso instrumento, como o volume, o ataque, o sustain e o "timbre inicial" (a primeira referência de como será som do instrumento como um todo). É como se esta parte do instrumento indicasse o básico de sua "natureza sonora", que vai ser moldada em seguida com a escolha das outras partes do corpo, e pelos outros fatores citados no início do texto.

Nessa parte do instrumento, a madeira mais comum é o Spruce, gênero que abriga aproximadamente 35 espécies. São coníferas ( "árvores de natal!") encontradas nas regiões de clima temperado/boreal do norte do planeta. É uma madeira resistente e muito escolhida por sua disponibilidade e por ser possível cortá-la de forma a obter pedaços com dimensões suficientemente grandes para compor o tampo. Nos violões de aço, é muito comum o uso do Sitka Spruce, madeira de coloração clara, bastante abundante e que resulta em instrumentos com boa projeção sonora e som bastante "vivo", com muito ataque. O timbre é claro, e é possível manter as notas destacadas mesmo com a dinâmica bem forte.

Outra espécie muito comum é o Engelmann Spruce, geralmente mais claro do que o

Sitka, e que apresenta um timbre mais morno, mais completo em termos das frequências que acompanham a fundamental quando comparado com o primeiro. Por outro lado, instrumentos que tem o tampo feito em Engelmann Spruce não costumam apresentar a mesma clareza nas notas quando comparados aos de Sitka, especialmente quando tocados com muita força, exigindo muito volume.

Ainda existe uma espécie que vale ser citada, o Adirondack Spruce ( ou "Red Spruce"), considerado por muitos a melhor madeira para luteria de violões de cordas de aço. A espécie foi muito usada no período anterior à 2ª Guerra Mundial, e tornou-se uma referência por reunir a clareza e volume do som com as qualidades acústicas refinadas de outras espécies. Geralmente o Adirondack Spruce é a escolha de modelos Top de diversas marcas, e infelizmente não é encontrado com a mesma facilidade das espécies irmãs devido ao intenso desmatamento.

Semelhante ao Spruce encontramos diversas espécies, como o Abeto e os Pinhos, especialmente nos violões com cordas de náilon. Existe ainda uma espécie de Spruce muito comum nos violões clássicos, que é o Silver Spruce ( ou "Spruce Europeu"), semelhante ao Engelmann, mas que apresenta melhor ataque e ambiência. É importante perceber que as madeiras para construção de violões com cordas de aço e náilon podem variar bastante devido à forma com que os instrumentos são tocados e com a resposta sonora esperada para cada tipo, sendo que o violão com cordas de náilon necessita de um tampo geralmente mais fino e de uma madeira que consiga passar bem o ataque das cordas com um menor estímulo.

Ainda no tampo do violão é muito usado o Cedro (Cedro Vermelho, ou "Western Red

Cedar"), reconhecido pelo timbre quente, que perde um pouco na nota fundamental mas apresenta conteúdo bem diverso em outras frequências. Violões com tampo em cedro são uma ótima escolha pra quem procura um instrumento que deixe os acordes cheios, com graves preenchidos e especialmente para combinar com outros timbres de violões diferentes, compondo naturalmente uma bela mixagem. E ainda vale a pena citar que o Cedro é muito usado na construção de violões de cordas de náilon, transportando essas características sonoras para o contexto desse tipo de instrumento.

E agora a última madeira que iremos discutir na seção do tampo, especialmente nos modelos que são equipados com cordas de aço: o Mogno. Embora não muito comum nos modelos que encontramos aqui no Brasil, é interessante citar o mogno devido a confecção de instrumentos com mais clareza nos registros médios e agudos, e um som bem “amadeirado”, muito comum nas canções antigas de blues que servem como inspiração para os jovens que buscam um “timbre ideal” no seu instrumento, e muitas vezes não tem a mínima referência de um violão que consiga reproduzir aquele som. Certamente, o Mogno não é a escolha de quem procura um primeiro violão de aço, ou um instrumento com sonoridade diversa, mas ainda sim vale ressaltar que o uso dessa madeira no tampo pode produzir maravilhosos instrumentos, com sonoridade única.

PARTE 2 - MADEIRAS DAS LATERAIS E FUNDO

Bom pessoal, vamos continuar com a nossa pesquisa sobre as principais madeiras utilizadas na construção de violões. Nesta segunda seção do texto, vamos tratar sobre as madeiras usadas nas laterais e no fundo do instrumento.

Nessa parte do instrumento, as qualidades adquiridas pelo uso de cada tipo de madeira podem diferir daquelas obtidas quando essas mesmas variedades são usadas no tampo (na verdade, em qualquer parte do instrumento). Vale lembrar que as qualidades específicas de cada madeira são mais evidentes quando elas são maciças, ou seja, quando a peça de madeira é feita unicamente daquele material, e sua composição não sofreu nenhuma interferência após o corte (não são chapas finas de madeiras prensadas e/ou coladas...trata-se de apenas 1 peça).

Também é importante comentar que as madeiras não precisam ser as mesmas utilizadas no tampo. Na verdade, elas costumam variar. Tudo depende do objetivo sonoro desejado para aquele instrumento em particular.

Beleza, vamos começar a exploração do conteúdo sobre laterais e fundo do violão! A primeira madeira da nossa lista é o Rosewood.

mas não se comparam nem de perto na sonoridade e nem no preçoUm motivo a mais para

“Rosewood” é um termo que abriga várias espécies que apresentam resultados sonoros semelhantes e possuem características estéticas parecidas. É de enorme importância entender que, dentro das diversas espécies compreendidas no gênero, apenas algumas são considerados “legítimas” e carregam consigo as tão apreciadas características sonoras dos instrumentos “top de linha”. Existem outras tantas espécies que recebem o mesmo nome, ficar atento e não levar gato por lebre. Em nossa coluna, vamos tratar apenas das espécies consideradas parte do “legítimo rosewood”.

Os “rosewoods” mais conhecidos são o Brasileiro e o Indiano. Quando utilizados nessa parte do instrumento, apresentam timbre rico, completo e balanceados nas frequências, e extremamente apreciado por reforçar os graves do violão de maneira única. Violões que possuem rosewood nas laterais e fundo também costumam apresentar um reverb característico, com som bem gordo e ressonante.

Dentre todas espécies, o rosewood Brasileiro (o nosso jacarandá-da-bahia!) é praticamente uma unanimidade na preferência dos luthiers para o uso nas laterais e no fundo quando o objetivo é um som rico, complexo e cheio. Infelizmente essa madeira já não se encontra em disponibilidade suficiente para a indústria devido ao período de intensa exploração, e o pouco que resta do jacarandá chega ao fabricante com preço alto, e retorna ao consumidor com valores ainda maiores.

Semelhante ao rosewood, encontramos várias espécies, como o cocobolo, kingwood e o blackwood africano.

Outra madeira bastante presente nessa parte do instrumento é o Mogno, que apresenta som mais amadeirado, e geralmente com menos graves quando comparado ao rosewood. É uma madeira muito adequada para instrumentos que devem ter sonoridade mais fechada e com adição de médios, com bastante punch. Se usada em todo o corpo do violão, é possível obter uma sonoridade única de um instrumento vintage, como já foi discutido na primeira parte do texto.

O Sapele costuma ser uma alternativa para o mogno nessa parte do instrumento, mas vale lembrar que o gênero também abriga espécies de diferentes qualidades, sendo possível encontrar instrumentos de qualidade utilizando o sapele, assim como modelos mais básicos, que certamente usam a madeira de qualidade inferior.

Uma outra madeira que apresenta algumas características semelhantes ao mogno quando utilizada nas laterais e no fundo é o Koa (bem comum nos ukuleles, especialmente por ser nativa do Havaí). Difere um pouco do mogno por possuir um pouco mais de brilho e resposta nos médios e perder um pouco nos graves e agudos. Também é escolha certa quando um aspecto mais extravagante é desejado, pois tem um visual maravilhoso.

O Maple é uma madeira clara, e que atua com mais transparência no resultado sonoro final quando comparada às outras madeiras citadas. O que quero dizer com o termo “transparência” é que ela preserva em grande parte as características provenientes do tampo, interferindo um pouco nos agudos, e resultando em instrumentos com brilho maravilhoso. Também é escolha certa devido à cor clara e às variações nas fibras e grãos que dão um toque especial no visual, como o flamed e o curly maple.

A última madeira tratada nesta 2ª seção do texto é o Nato. Muitas vezes tratado como mogno autêntico, o nato apresenta algumas características semelhantes na sonoridade e aspecto visual, mas não chega a apresentar a mesma riqueza e balanço do primeiro. No entanto, ele é encontrado com mais facilidade e possui preço bem mais em conta, o que justifica seu uso em instrumentos mais simples.

PARTE 3 - MADEIRAS DO BRAÇO E ESCALA

Muito bem, galera!! Depois de conhecer um pouco sobre as madeiras mais comuns para o tampo, laterais e fundo do violão, vamos encerrar nossa pesquisa dando uma sacada nas madeiras do braço e da escala.

escalas de rosewood e ébano

As madeiras usadas nessa parte do instrumento e o seu impacto no resultado final são assuntos muito comuns no ambiente da guitarra. Muitos dizem, por exemplo, que as escalas de maple contribuem com um timbre brilhante e estalado ( "bright and poppy"), em comparação com

No entanto, é pequena a quantidade de material encontrada em português quando procuramos discussões e estudos sobre essas partes do instrumento. É certo que as outras partes contribuem de forma mais determinante para o timbre final. Mas é claro que vale a pena conhecer um pouco mais sobre essa parte do instrumento...então vamos lá!

Antes de descrever cada madeira separadamente, vale a pena abordar um tópico que vale para todas elas: a quantidade de material usada nessa parte do instrumento. Por geralmente ser composta por material maciço, e despender maior quantidade desse material, essa seção do instrumento implica bastante no sustain do violão. Os instrumentos com braço mais robusto costumam ter som um pouco mais encorpado e firme.

Agora sim, vamos à lista!

Como já dito antes, os braços feitos em maple dão uma característica "estalada" ao timbre final. Reforçam os agudos mais extremos, resultando no som brilhante tão característico, facilmente reconhecido. As escalas feitas com essa madeira também levam ao mesmo resultado, especialmente quando unidas ao braço de mesmo material. Contudo, convém saber que nem toda alteração no timbre significa necessariamente uma adição...muitos discutem sobre o fato das madeiras "das escalas" retirarem um pouco de certas características do som do instrumento, resultando no timbre final...uma espécie de subtração que torna-se inevitável, e de forma alguma constitui um erro no projeto do instrumento ou queda na qualidade sonora: é apenas a natureza do instrumento.

Madeira super comum nessa parte do instrumento, especialmente na escala, o rosewood

("Jacarandá e espécies semelhantes"), apresenta algumas variações significativas que dependem da densidade da madeira: espécies mais densas adicionam brilho (jacarandá-da-bahia), enquanto as menos densas resultam num timbre mais quente e com mais médios.

Madeira super resistente e de bela aparência, o Ébano geralmente "fecha" um pouco o som do instrumento (chamado em muitos textos como "damping material"). O que pode não ser um problema em instrumentos com bastante volume e ressonância, mas pode mudar bastante o som de instrumentos menores.

O Mogno é outra madeira muito presente no braço do violão, e que proporciona um timbre morno e doce. É uma ótima escolha (alguns luthiers fazem os braços exclusivamente com essa madeira) para combinar com ébano ou rosewwod na escala, por completar bem o timbre.

Bom, por ser um assunto mais controverso, a lista de madeiras nessa parte é menos extensa. Vale a pena comentar que muitos luthiers renomados afirmam que a madeira da escala, por exemplo, não afeta no som final do instrumento. Parece que é hora de experimentar bastante e procurar nossas conclusões sinceras a respeito..!!

Muito bem! Espero ter ajudado bastante a galera a conhecer um pouco mais das sonoridades possíveis para nosso instrumento. Não se esqueçam que existem outros diversos fatores que modificam significativamente o som de cada instrumento: habilidade do luthier, métodos de construção, qualidade dos materias, shape do violão...e também a sua própria pegada. Tudo isso torna cada instrumento único. É a mágica do negócio!

Até a próxima!! Obrigado, e um abraço!

BIBLIOGRAFIA Tapping Tonewoods, de Dana Bourgeois - http://www.pantheonguitars.com/tonewoods.htm

Choosing the Right Tonewoods for Your Acoustic Guitar, de Aaron Schulman Parte 1: http://guitarinternational.com/2011/10/24/choosing-the-right-tonewood-for-your-first-ornext-acoustic-guitar-guitar/ Parte 2: http://guitarinternational.com/201/1/14/choosing-the-right-tonewoods-for-your-acoustic-guitarpart-2/

Alternative Tonewoods, de Chris Herrod - http://www.lmii.com/carttwo/alttonewoods.asp

Site Sound Unlimited, seção " Guitar Tonewoods" - http://www.soundunlimited.co.uk/articles/ guitar_tone_woods

Artigo da Guitar Player Online: All About Tonewoods, de Dave Hunter - http:// w.guitarplayer.com/article/all-about-tonewoods/6502

(Parte 1 de 2)

Comentários