Estudos Litoestratigráficos e Mapeamento de Porção Extremo Oeste da Bacia Potiguar, Tabuleiro do Norte – CE.

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Capítulo 2 – Geologia Regional Página 16 dismicrito e gretas de contração. Sendo seu ambiente deposicional descrito como uma planície de maré, laguna rasa, plataforma rasa e mar aberto.

2.3.3 Grupo Agulha O Grupo Agulha tem sua idade compreendida entre o Neocampaniano e o

Holoceno (a partir de 83 Ma.), encontra-se interdigitado com os grupos Apodi e Barreiras. Compreende as formações Ubarana, Guamaré e Tibau, com rochas siliciclásticas e carbonáticas de alta e baixa energia.

A Formação Ubarana caracteriza-se pela espessa camada de folhelhos e argilitos cinzas, intercalado por camadas delgadas de arenitos grossos a finos (turbidíticos) esbranquiçados que foram depositados em ambiente tipo talude continental e bacia ocêanica.

A Formação Guamaré é uma seqüência carbonática, compostas por calcarenito creme-acastanhado, bioclástico, com intercalação de calcilutito, folhelho e arenito, depositados em plataforma e talude carbonático.

A FormaçãoTibau é constituída por sedimentos clásticos (arenitos quartzosos grossos a conglomeráticos) que compõem fácies proximais de um sistema de leques costeiros-plataforma-talude-bacia.

2.3.4 Magmatismos Três episódios vulcânicos estão relacionados à evolução da Bacia Potiguar, compondo as seguintes formações: Formação Rio Ceará-Mirim (120 a 140 Ma), localizada na borda da Bacia, compreendendo diques de diabásio toleítico de orientação E-W; Formação Serra do Cuó (53 Ma), que ocorre na parte sul da Bacia Potiguar, sendo formada por diques e soleiras de diabásio com tendência alcalina; e a Formação Macau (29 a 45 Ma), identificada como basaltos, diabásios e rochas vulcanoclásticas, classificados em fácies de lava, brecha e hialoclatitos. 2.3.5 Sedimentos tercio-quaternários Os sedimentos tercio-quaternários são representados pelo Grupo Barreiras, que compreende as Formações Serra do Martins (composta por fácies arenosa a conglomerática, com sedimentos altamente ferruginosos e silicificados), Guararapes (composta por sedimentos arenosos com fácies argilosas e níveis de seixos de quartzo) e Macaíba (formada por sedimentos arenoargilosos, com seixos na base).

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2.4 Estado da Arte (Evolução dos Conhecimentos sobre as Formações

Açu e Jandaíra)

Em relação aos estudos sobre a Bacia Potiguar, pode-se dizer que o que há de mais novo se encontra publicado no Boletim de Geociências da Petrobrás (2007), que possibilitou novas interpretações sobre a evolução e o modelo deposicional de diversas unidades litoestratigráficas da Bacia Potiguar. Com a proposta e redefinição de alguns membros, como o Membro Porto do Mangue (da Formação Quebradas), Membro Lagoa do Queimado (da Formação Pendencia), Membro Canto do Amaro (da Formação Alagamar) e, por fim, o Membro Cristovão (da Formação Pescada).

A seguir, será feita uma breve discussão sobre os depósitos sedimentares

Neocretáceos da Bacia Potiguar tratando, principalmente, dos sedimentos terrígenos da Formação Açu até os sedimentos carbonáticos pertencentes à Formação Jandaíra.

Na chamada superseqüência Drifte da Bacia Potiguar, houve o desenvolvimento de seqüências marinhas transgressivas. Gradativamente, esse sistema passava em direção ao mar para uma plataforma rasa siliciclástica a mista, com implantação carbonática de borda de plataforma e um sistema de cânions submarinos com associação de sedimentação turbidítica. Esses cânions são conhecidos como os de Pescada e Ubarana, os quais são preenchidos com folhelhos de talude, intercalados com camadas de turbiditos, diamictitos e olistolitos carbonáticos.

No Neocretáceo, uma grande transgressão fez com que esse sistema fosse gradativamente afogado. O resultado foi o desenvolvimento de um empilhamento vertical de sistema fluviais, entrelaçados na base, passando a meandrantes grossos, meandrantes finos e, por fim, estuarinos no topo. Contudo, no Euturoniano, esses sistemas fluviais atingem seu afogamento máximo. Nesse estágio, houve as condições que viabilizaram a implantação de uma extensa rampa carbonática, rampa esta, dominada por processos de maré, formada na transição para as seqüências regressivas.

As seqüências transgressivas (K60 a K90), registradoras desse período, tiveram início com a deposição da seção fluvial a marinha, representadas pela Formação Açu e marinhos distais representados pela Formação Quebradas e, ainda, pelos depósitos carbonáticos marinhos rasos da Formação Ponta do Mel.

Na parte emersa, as discordância limítrofes da seqüências K60, K70 e K84, respectivamente, coincidem com os limites das unidades de correlação, nomeadas, Açu-1, Açu-2 e Açu-3 (Vasconcelos et al. 1990) da Formação Açu. Entretanto, na porção

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Capítulo 2 – Geologia Regional Página 18 submersa, a discordância limítrofe da seqüência K70 coincide com o topo da Formação Ponta do Mel. O máximo transgressivo foi marcado pela deposição de folhelhos contínuos na porção submersa da bacia e pelo afogamento dos sistemas fluviais e estuarinos na porção emersa, ocorrido na passagem do Cenomaniano – Turoniano.

Novamente, segue-se implantação de uma plataforma carbonática dominada por processos de maré. Eis então a Formação Jandaíra, cujos sedimentos mais novos apresentam idade Eocampaniana. As rochas dessa formação afloram praticamente em toda porção emersa da bacia, sua espessura varia de alguns metros na porção oeste da bacia a 600m na porção mais interna da plataforma, passando a zero em direção a águas profundas, talvez por efeito da erosão ou condensação. O pacote carbonático da Formação Jandaíra limita-se com a Formação Açu, sotoposta, concordantemente representando uma superfície de máxima inundação do Cretáceo Superior.

Os depósitos deste trato de sistema deposicionais transgressivos são caracterizados por folhelhos de ambiente nerítico médio a batinal, na porção submersa da bacia, e sucessões de tidal bundles, ambiente estuarino, e folhelhos marinhos na porção emersa. Na porção emersa, o contato exibe-se como uma expressiva cuesta que se estende por todo estado do Rio Grande do Norte e parte do Ceará. Esse relevo em chapada é denominado Chapada do Apodi. O padrão estratal dos sedimentos dessa seqüência indica um ambiente de bacias de margem de rampa, estratos com mergulhos suaves e clinoformas sigmoidais típicas corroboram tais interpretações.

Ainda no Pacote carbonático, é possível individualizar duas seqüências deposicionais, a primeira correspondente ao intervalo Neuturoniano – Eosantoniano, cujo limite basal é marcado por evidente quebra nos perfis de poços e repentinas mudanças ambientais identificada nas associações bioestratigráficas; a segunda correspondente ao intervalo Neo-santoniano – Eocampaniano, cuja sedimentação tem total domínio carbonático, inclusive na porção proximal.

Capítulo I -

Geologia Local

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3.1 Introdução

O termo fácies foi cunhado pela primeira vez em 1838 por Amanz Gressly, tendo sido empregado para designar conjuntos de rochas com determinadas características distintivas, quer paleontológicas (fósseis) quer litológicas, considerando qualquer aspecto composicional, químico ou mineralógico, morfológico, de estrutural ou textura (assim a forma, o tamanho, a disposição dos seus grãos e a sua composição de minerais) que ajudem a conhecer onde e quando se formou a rocha. O termo fácies também é usado para o ambiente onde se formou ou transformou a rocha. As fácies podem ser reunidas em associações ou sucessões de fácies. Conforme Riccomini et al. (2000), uma associação de fácies corresponde a um grupo de fácies geneticamente relacionados entre si e que apresentam significado ambiental. A sucessão de fácies refere-se à mudança vertical progressiva em um ou mais parâmetros, como a graduação e estruturas sedimentares. Uma mesma fácies pode ocorrer em vários ambientes como resultado de um processo. Identificar fácies e associações de fácies é essencial para a interpretação de um ambiente com maior segurança (Della Fávera, 2001).

O termo sistema deposicional, segundo Fischer e Mcgowen (1967, apud Menezes, 1996), é utilizado quando depósitos sedimentares são analisados tridimensionalmente, sendo constituídos por uma mesma associação de fácies, cujos depósitos são gerados por processos sedimentares atuantes nos ambientes de uma mesma província fisiográfica ou geomorfológica. Os modelos de fácies sintetizam um sistema deposicional em particular e envolvem vários exemplos de sedimentos recentes e rochas sedimentares antigas (Riccomini et al., 2000).

3.2 Descrição Litológica em Termos de Fácies e Sistemas Deposicionais

Para a descrição das litofácies, foram realizadas observações em campo (macroscópicas), como aspectos texturais, composicionais, coloração, paleocorrentes, além de estruturas internas características. Foram, ainda, descritas lâminas delgadas, que auxiliaram na caracterização dessas fácies. De acordo com a classificação faciológica foi possível identificar os sistemas deposicionais.

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3.2.1 Formação Açu

As rochas dessa formação foram agrupadas em quatro litofácies. As fácies A e B correspondendo a pacotes de rochas formados a partir da deposição de rios entrelaçados e meandrantes, enquanto as litofácies C e D estão associadas a sistemas deposicionais estuarinos.

Caracterizada por arenitos da segunda fase de um rio (sistema fluvial entrelaçado).

O arenito é do tipo arcosiano devido à grande quantidade de feldspatos observados (Figura 3.1). Os grãos de quartzo e feldspato apresentavam caráter subanguloso.

O relevo mostra-se sinuoso, indicando a presença de rochas mais resistentes que outras. Nas porções mais baixas do terreno encontram-se depósitos aluvionares recentes. É possível perceber também a presença de caulim, proveniente da alteração de feldspato, comprovando a presença deste.

A diferença de granulometria em relação à litofácies B (discutida mais adiante) é a presença de grãos maiores, mais grosseiros. O arenito é, portanto, grosso com seixos de quartzo (Figura 3.2), indicando uma maior energia hidráulica. Pode-se dizer, então, que este é um arenito arcosiano conglomerático (Figura 3.3). Nas estratificações há diferença de granulometria, a mais grosseira, provavelmente, deposita-se no inverno, a mais fina, no verão.

Figura 3. - Fotografia mostrando arenito arcosiano médio a grosso encontrado no afloramento 1

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Destaca-se ainda a presença de fraturas pré-cambrianas cortando o arenito, provenientes de uma tectônica pós-deposicional. As medições de paleocorrentes mostram que estas possuem geralmente direção nordeste (Figura 3.4). Pode-se, assim, deduzir que os paleocanais corriam em direção ao depocentro da Bacia Potiguar.

Figura 3.2 - Fotografia evidenciando seixos de quartzo (tracejado) em arenito arcosiano conglomerático no afloramento 17.

Figura 3.3 – Seção colunar de Arenito Açu encontrado no afloramento17, caracterizando depósito de rio entrelaçado. Na base, argilito; acima, arenito conglomerático;no topo, arenito grosso.a fino.

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Os arenitos representantes desta litofácies são representados por rochas intemperizadas e apresentam-se com granulometria variando de fina à média, além de camadas argilosas (Figura 3.5). É possível perceber a presença de estruturas primárias como estratificação cruzada acanalada e paleocorrentes (Figuras 3.6). Os arenitos desta fácies possuem estratos de coloração avermelhada e algumas vezes coloração esbranquiçada, indicando oscilação deposicional entre ambiente oxidante e redutor, respectivamente. Em alguns afloramentos encontram-se raízes de plantas, típicas de planície de inundação.

Figura 3.4 – Diagrama de roseta com medidas de paleocorrentes encontradas no afloramento 2.

Figura 3.5 – Seção colunar de rocha da Formação Açu encontradas no afloramento 15. Na base, argilito de planície de inundação; no intermédio e topo, arenitos médio a finos que diminuem gradativamente a granulometria para o topo.

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Devido à variação de granulometria de arenito fino a médio com níveis argilosos, pode-se concluir que estes não são bem selecionados, sendo classificados como moderadamente selecionados. Essa granulometria mais fina caracteriza o Arenito Açu como distal (longe da fonte), assim conclui-se um ambiente de pouca energia hidráulica. Fazendo-se uma correlação com as quatro fases de um rio, o paleocanal que depositou esses sedimentos encontrava-se na terceira fase (meandrante). Trata-se, portanto, de arenitos argilosos.

As medições de paleocorrentes indicam um depocentro situado a leste, como pode ser observado na Figura 3.7

Pode-se destacar, ainda, a presença de juntas afetando o arenito com mesma direção das juntas que afetam o Calcário Jandaíra (Figura 3.8).

Figura 3.6 - Fotografia destacando paleocorrentes encontradas no afloramento 2. Foto A: (tracejado) e o sentido da mesma (seta verde). Foto B: planos de estratificação cruzada acanalada, no canto direito da imagem.

Figura 3.7 – Diagrama de roseta com medidas de paleocorrentes com direção preferencial para leste encontradas no afloramento 2.

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Esta litofácies engloba o arenito calcífero, topo da Formação Açu e base da

Formação Jandaíra. As rochas foram depositadas em ambiente de transição, aduzindo contato interdigitado com o Arenito Açu na base e o Calcário Jandaíra no topo (Figura 3.9). A fácies, encontrada em toda escarpa, é composta por quartzo e cimento carbonático, possui granulomentria fina e estruturas sedimentares estão ausentes. O arenito gradativamente torna-se mais calcífero em direção ao topo.

Figura 3.8 - Fotografias evidenciando atuação de sistema de deformação frágil atuando nas rochas encontradas no afloramento15. Em A tem-se um sistema conjugado de juntas afetando o arenito com direções 70 e 120 Az. Em B, diagrama de rosetas evidenciando o sistema conjugado de juntas com direções ENE-WSW e NE-SE.

Figura 3.9 – Fotografia mostrando contato entre o arenito calcífero, topo da Formação Açu, e Arenito Açu, base da Formação Açu, indicando ambiente de transição.

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. Nas Figuras 3.10 e 3.1 é possível observar o contato entre arenito calcífero, siltito avermelhado intercalado com o folhelho esverdeado.

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