Estudos Litoestratigráficos e Mapeamento de Porção Extremo Oeste da Bacia Potiguar, Tabuleiro do Norte – CE.

Estudos Litoestratigráficos e Mapeamento de Porção Extremo Oeste da Bacia...

(Parte 4 de 5)

Em algumas rochas pode-se encontrar duas gerações de juntas compondo um sistema ortogonal e evidenciando a mudança de eixos de strain atuando sobre a rocha (Figura 3.12).

Figura 3.10 - Fotografia com vista panorâmica da escarpa mostrando os contatos entre as litologias inseridas nas formações Açu e Jandaíra.

Figura 3.1 - Fotografia exibindo contato entre as formações Açu e Jandaíra na escarpa da Chapada do Apodi no afloramento 23

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 27

Os litotipos encontrados são característicos de ambientes transicionais, provavelmente, estuarino. A presença de interdigitações entre as rochas das formações Açu e Jandaíra evidenciam a constante competição entre rio e mar na deposição de sedimentos.

Trata-se de um litotipo com matriz silto-argilosa (frações menores que 0,062). Esta litofácies apresenta-se pobremente litificada, exibindo camadas estratificadas planoparalela, alternando entre folhelhos esverdeados e siltitos avermelhados a esbranquiçados

(Figura 3.13). Esse tipo de depósito está associado a sistemas de transição, tendo sido provavelmente depositados por sistemas estuarinos.

Figura 3.12: Fotografia exibindo sistema ortogonal de juntas no afloramento 23. O tracejado em preto mostra o set de juntas mais antigo, sendo este o mais importante.

Figura 3.13 – Fotografia denotando o contato entre depósito coluvionar e folhelho intercalado com o siltito. É possível destacar as estruturas sedimentares e os blocos de calcário no coluvio (tracejado).

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 28

: 3.2.2 Formação Jandaíra

As rochas encontradas nesta litofácies estão associadas a sistemas deposicionais de planície de maré. Identificou-se apenas uma fácies associadas aos calcários da Formação Jandaíra na área de estudo.

As rochas da Formação Jandaíra, na área de estudo, resumem-se em carbonatos de planície de maré, ou seja, de ambientes de baixa energia. Foram individualizados dois litotipos: calcissiltitos e calcilutios. Estes podendo apresentam as mais variadas estruturas, como sigmóides de maré, gretas de ressecamento e estilólitos (figuras 3.14 e 3.15), além de considerável conteúdo fossilífero com predominância de gastrópodes, foraminíferos entre outros. Pode-se encontrar juntas estilolíticas marcando planos de fina sutura com picos interpenetrados e de tom escuro, sendo provavelmente resultante da acumulação de resíduos insolúveis, como material argiloso ou ferruginoso. Geralmente, os calcários tendem a se dissolverem antes de se deformarem. Pressões exercidas pela pilha de sedimento acima do calcário podem ser responsáveis pela presença das juntas estilolíticas. Tais feições só começam a se desenvolver sob pressão de uma coluna litostática com espessura de no mínimo 100 metros (Figura 3.16).

Os Calcissiltitos (wackestone) possuem matriz lamosa variando de 0,062mm a 0,004mm, podendo exibir estruturas de birdeyes, biomorfos e bioclastos. Apresenta ambiente de mais alta energia em relação ao calcilutito. Apresentam bioclastos como gastrópodes, miliolídios e pelotilhas.

Figura 3.14 - Na foto A, tem-se uma visão parcial do afloramento 12, onde pode-se distinguir ao centro um plano de falha bem definido Na foto B, estão representadas estruturas designadas de sigmóides de maré.

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 29

Já os calcilutitos (Mudstone) ocorrem em abundancia na área. Apresentam textura maciça cor creme a esbranquiçado, com matriz micrítica (< 0,004mm) superior a 90%, podendo exibir estruturas de greta de contração, e sigmóides de maré, indicando tratar-se de calcário de maré.

Estes calcilutitos podem estar constantemente sofrendo processo de dolomitização, tratando-se, nesses casos, de calcários dolomiticos de coloração comumente acinzentada. São bastante coesos e os fósseis são mais raros em relação aos calcários puros. É Freqüente a porosidade vulgular, na forma de pequenos geodos de calcita, precipitados nos espaços vazios (Figura 3.17). Predominantemente ocorre dolomita de origem diagenética (primária), exibindo textura maciça com rara porosidade. Todavia, é possível, também, a

Figura 3.15 - Na foto A é possível observar gretas de contração, indicando calcário de ambiente de maré no afloramento 13. Na foto B destacam-se os estilólitos no Calcário Jandaíra no afloramento 12.

Figura 3.16 – Desenho esquemático do afloramento 12 exibindo a movimentação do plano de falha normal, eixos de Strain e estilótos perpendiculares a δ1.

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 30 ocorrência de dolomitas secundárias, produtos da substituição do Ca2+ por Mg2+ . O resultado desta substituição é um dolomito de porosidade considerável que está relacionada com os espaços vazios criados no processo de substituição, uma vez que o volume do cristal de dolomita é 13% menor do que o da calcita.

Na Figura 3.18, pode-se observar seção colunar evidenciando camadas de rochas carbonáticas encontradas no afloramento 12.

Figura 3.17 - Dolomita com porosidade vulgular, semipreenchida por cristais de calcita.

Figura 3.18 – Seção colunar esquemática ilustrando as camadas de rochas calcárias encontradas no afloramento 12. Na base, calssiltito bioclástico, no intermédio, calcilutito com estilólitos e no topo, calcilutito dolomitizado.

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 31

Caliche são solos calcários formados a partir da dissolução e reprecipitação de carbonato de cálcio, principalmente quando essas rochas carbonáticas ficam expostas no decorrer do tempo em regiões de clima árido e semi-árido, onde os sedimentos sofrem exposição subaérea possibilitando a ação de processo pedológicos. Ocorrem de forma restrita e repousam sobre arenitos calcíferos da Formação Açu, sotoposto a coberturas aluvionares antiga (Figura 3.19). Por vezes, exibem a presença de blocos e matacões de calcários da Formação Jandaíra, indicando que estas são as rochas fontes.

3.2.3 Depósitos Quaternários

Foram encontrados vários tipos litológicos, siliciclásticos ou não, cujos sedimentos têm caráter quaternário, tais como depósitos lacustres recentes, depósitos aluvionares recentes e antigos, bem como depósitos de origem secundária, isto é, originados a partir da interação física e/ou química de outros litotipos. Estes depósitos foram agrupados em uma única fácies F.

3.2.3.1 Depósitos Aluvionares Antigos

São representados por sedimentos paleoaluvionares (quaternários) de caráter siliciclástico. Os sedimentos, cuja granulometria varia de argila a areia média, são compostos mineralogicamente, em sua essência, por quartzo e feldspatos alterados por

Figura 3.19 - Na foto A, visão geral do afloramento exibindo depósito aluvionar antigo e níveis de caliche (pontilhado vermelho) sobrepostos a arenitos calcíferos da Formação Açu. Na foto B pode-se observar com maior detalhe as camadas referidas na foto A.

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 32 meio de processos pedogenéticos. Os sedimentos desse depósito são originados a partir da erosão do arenito pelo paleorio.

Na seção colunar a seguir (Figura 3.20), a camada 1 é composta de sedimentos argilosos com presença de matéria orgânica, provavelmente folhas. Na camada 2, cuja granulometria varia de areia média a argila é possível distinguir granodecrescência ascendente e estratificações plano-paralelas, principalmente quando a granulometria atinge tamanho areia fina a silte.

Os depósitos aluvionares são constituidos de sedimentos clásticos (areia, cascalho e/ou lama) depositados por um sistema fluvial no leito e nas margens da drenagem, incluindo as planícies de inundação e as áreas deltaicas, com material mais fino extravasado dos canais nas cheias.

3.2.3.2 Depósitos lateríticos

É fruto do ciclo da evolução de terrenos cársticos, resultante do intemperismo do calcário, tendo antes passado por estágio de desenvolvimentos de dolinas e úvulas. A evolução do relevo cárstico é dividida em três principais fases: desde a fase juvenil, caracterizada pela preservação de extensas áreas de superfície original, até a fase senil, quando a superfície encontra-se complemente coberta por solo avermelhado, exibindo concreções limoníticas e, até mesmo crostas (canga) lateríticas (Figura 3.21).

Figura 3.20 – Seção colunar das rochas encontradas no afloramento21. Na base, sedimentos argilosos, no topo, sedimentos mais grossos variando de areia média a argila.

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 3

3.2.3.3 Depósitos Aluvionares Recentes

Os depósitos aluvionares recentes (Figura 3.2) encontrados na Área 5 revelam sedimentos incoesos, argilo-arenosos e de composição siliciclástica, principalmente quartzo e feldspatos. Os sedimentos desse depósito estão associados à erosão do Arenito Açu pelos Córregos Lagoinha e Belém. O forte domínio da dinâmica fluvial influencia sobremaneira a morfologia dos terrenos da região, uma vez que os córregos correm modelando o relevo e alterando a paisagem. Uma evidência marcante do poder da ação fluvial durante os parcos períodos chuvosos é a presença dos depósitos aluvionares recentes nas porções topograficamente mais baixas, enquanto os arenitos, preservados, situam-se nas porções topograficamente mais elevadas do terreno, formando um intricado labirinto de pequenos vales escavados.

Figura 3.2 – Fotografia com visão panorâmica de um depósito aluvionar recente, cujo córrego desaparece nos períodos secos do ano.

Figura 3.21 - Fotografia mostrando depósito laterítico (canga) resultante da dissolução de carbonato e conseqüente precipitação de ferro.

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 34

3.2.3.4 Depósitos Lacustres

Os depósitos relacionados à Fácies F tiveram seus sedimentos depositados por sistemas lacustres. Os sedimentos têm origem recente e dentrítica, sendo compostos por sedimentos incoesos, obecendo a distribuição clássica lacustre, cuja granulometria varia de argila, no centro do lago, exibindo uma lama (argila) rica em matéria orgânica, gradando para uma lama silto-arenosa, também rica em matéria orgânica, até areia média e, nas regiões mais afastadas, areia cascalhosa composta por seixos angulosos e areia de média a grossa. Esses sedimentos, essencialmente quartzosos, são provenientes de rochas cristalinas e arenitos que são cortados pelo Córrego Belém, cujos detritos são descarregados na Lagoa do Tapuio (Figura 3.23). Trata-se de um lago estrutural originado pela acumulação de água em uma região de depressão topográfica nitidamente alongada, delimitada entre falhas. Sua a margem é quase retilínea e a estrutura bastente simples. Seus sedimentos são distribuidos em volta de toda a lagoa (Figura 3.24), ficando expostos nos períodos mais secos, em que há o retraimento das águas do corpo d’água devido a grande evaporação. É notável a presença de matéria orgânica, conferindo aos sedimentos próximos às margens do lago coloração escura.

Figura3.23 - Foto panorâmica da Lagoa do Tapuio. Na porção central os sedimentos tendem a ser mais argilosos e mais arenosos nas bordas.

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 35

3.3 Embasamento Cristalino e Contexto Estrutural da Área Estudada

O Córrego Belém surgiu, provavelmente, aproveitando a influência de falhas presentes na região, uma vez que a morfologia do lago, bem como o curso do córrego, possuem a orientação do trend desenvolvido por essas estruturas de deformação. Trata-se do contato da bacia sedimentar com o embasamento cristalino, ou seja, a borda da bacia. Essas zonas de falha obedecem ao padrão de desenvolvimento das bacias do nordeste, formadas durante grandes eventos de afinamento crustal, principalmente no cretáceo, onde os falhamentos se instalaram aproveitando planos de fraqueza de zonas de cisalhamento Brasilianas. Nesta mesma região, foram observados litotipos fruto de metamorfismo dinâmico/cataclástico como milonitos, cataclasitos extremamente brechados e, por vezes, exibindo gounge ou farinha de falha (figuras 3.25 e 3.26). Nas porções mais profundas, dominadas pelo regime de deformação dúctil, surgiram milonitos (Figura 3.27) de provável idade brasiliana, que por denudação foram trazidos à superfície e sofreram uma posterior

Figura 3.24 - Perfil esquemático do sistema deposicional lacustre para a Lagoa do Tapuio e possível interpretação para a formação do lago instalado em uma zona de falha.

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 36 deformação, desenvolvendo rochas e estruturas típicas de regime frágil como cataclasitos, brechas e gounge, frutos de eventos posteriores, talvez, do cretáceo.

Os milonitos encontrados na área mostram planos de falha mergulhando preferencialmente para NE com mergulhos da ordem de 40º, sendo a orientação preferencial desses planos NW-SE (figuras 3.28 e 3.29)

Figura 3.27 - Ortognaisse Milonítico exibindo porfiroclastos de K-feldspato com caudas de recristalização na região de Tapuio I (afloramento 48).

Figura 3.25 - Fotografia mostrando cataclasito cimentado visto no afloramento 48, Lagoa do Tapuio.

Figura 3.26 - Fotografia exibindo típica zona de falha no afloramento 48. Brechas e níveis de gounge, estão destacados pelo tracejado.

Alves, R.S.; Lima, F.G.F.; Macêdo Filho, A.A.; Medeiros, A.C.; Santos, A.V. Geologia de Campo I

Capítulo 3 – Geologia Local Página 37

O arcabouço estrutural da Bacia Potiguar compreende o desenvolvimento de falhas distensivas impostas sobre planos de fraqueza das zonas de cisalhamento brasilianas. Exibe configuração em semi-graben basculados, de orientação aproximadamente NE-SW, na porção central, e mais meridionalmente sistemas de falhas com orientação NW-SE. Os lineamentos analisados mostraram majoritária ocorrência nas direções NE-SW e, secundariamente, direções NW-SE. Deste modo, é possível inferir que os planos de ruptura identificados estão intimamente controlados pelo sistema de falhas do graben da bacia. Esta tectônica regional controlou ainda o sentido das paleocorrentes que, na área de estudo, convergiam todas para direção NE-SW, indo de encontro ao depocentro da Bacia Potiguar.

A partir de fotointerpretação aliado a técnicas de sensoriamento remoto que ressaltam estruturas em imagens de satélite Landsat7 TM+ foram extaídos fotolineamentos estruturais, onde foi observado que os lineamentos da Área V possuem orientação preferencial NE-SW, preferencialmente, e NW-SE, de forma subordinada, conforme diagrama de rosetas apresentado na Figura 3.30 (ver anexo I).

(Parte 4 de 5)

Comentários