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Traduçªo: CELSO NOGUEIRA

Copyright ' 1991 by Patricia D. Cornwell Proibida a venda em Portugal

Título original: Body of evidence

Capa: Joªo Baptista da Costa Aguiar

Preparaçªo: Ricardo Jensen de Oliveira

Revisªo:

Arlete Mano Carmen S. da Costa

Dados Internacionais de Catalogaçªo na Publicaçªo (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Cornwell, Patricia Daniels.

Corpo de delito / Patrícia D. Cornwell ; traduçªo Celso Nogueira.

Sªo Paulo : Companhia das Letras, 1995.

95-3129CDD-813.5

Título original: Body of evidence. ISBN 85-7164-481-0 1. Romance norte-americano I. Título.

índices para catÆlogo sistemÆtico: 1. Romances : SØculo 20 : Literatura norte-americana 813.5 2. SØculo 20 : Romances : Literatura norte-americana 8135

Todos os direitos desta ediçªo reservados à EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Orelhas do Livro

CadÆveres estendidos em macas de metal nªo oferecem um espetÆculo propriamente agradÆvel. Vítimas de assassinato, menos ainda. Para a dra. Kay Scarpetta, porØm, os corpos de Beryl Madison e de Cary Harper podem se transformar em aliados importantíssimos. Ela farÆ tudo para arrancar deles algumas pistas que possam auxiliar na soluçªo do caso. Munida de facas, serras, tubos de ensaio e microscópios, a dra. Scarpetta vai dialogando com a carne sem vida de um grande escritor americano e de sua jovem e bela filha adotiva.

Uma das alunas mais destacadas do curso de medicina em

Cornell, a dra. Kay Scarpetta surpreendeu colegas e professores ao resolver dedicar-se à medicina legal. Para uma jovem brilhante como ela, havia uma sØrie de outras opçıes que a maioria das pessoas julgaria mais convenientes. Nada, porØm, atraía mais a jovem Kay Scarpetta do que a possibilidade de ficar montando e desmontando, dia após dia, os diversos mecanismos da morte.

Cary Harper e sua filha adotiva, porØm, nªo sªo apenas mais dois corpos. O mistØrio em torno do assassinato Ø completo. Torna-se ainda maior quando a irmª de Cary morre subitamente, após haver recebido vÆrias ameaças. Por que alguØm estaria se dedicando com tanto mØtodo e violŒncia ao extermínio de toda uma família?

Uma sØrie de pistas falsas ou incompletas vªo distanciando cada vez mais a polícia do criminoso. Toda a trama, porØm, começa a ser desvendada a partir do momento em que a dra. Scarpetta recebe a visita de um desequilibrado que diz ter acesso à "alma" do assassino. Sem querer, o estranho acaba fornecendo a pista correta para a identidade do criminoso. Ele agora tem um nome e estÆ à solta. Envolvida demais no caso, a jovem legista começa a receber telefonemas ameaçadores. Seria ela a próxima da lista? A cada dia que passa esse encontro terrível parece mais inevitÆvel...

Para Ed, agente e amigo especial

13 de agosto KEY WEST

Para M,

Passaram-se trinta dias, entre matizes de cores ensolaradas e mudanças de vento. Penso demais, e nªo sonho.

Dedico a maioria das tardes a escrever, no terraço do Louie’s, olhando para o mar. A Ægua, estampada de verde-esmeralda nas restingas, azula no fundo. O cØu nªo termina nunca, as nuvens movemse brancas, sempre, como fumaça. Uma brisa constante atenua os ruídos dos banhistas e veleiros que ancoram para lÆ dos recifes. O amplo telhado do terraço permite que eu fique à mesa, no final da tarde, quando costuma cair uma pancada sœbita, sentindo o cheiro da chuva e vendo a Ægua se arrepiar como pŒlo alisado ao contrÆrio. Chega a fazer sol e chuva, ao mesmo tempo.

NinguØm me incomoda. JÆ pertenço à família do restaurante, como Zulu, o labrador preto que corre espalhando Ægua, atrÆs de Frisbees, e os gatos vadios que se aproximam silenciosamente, para aguardar educados que lhes sirvam as sobras. O vigia de quatro patas do Louie’s alimenta-se melhor do que qualquer ser humano. Confortame ver o mundo a tratar suas criaturas com gentileza. Nªo posso reclamar dos dias.

É das noites que tenho medo. Quando meus pensamentos rastejam de volta para os vªos sombrios, e espalham suas teias terríveis, eu me perco nas ruas da Cidade Velha, atraída pelos bares barulhentos como uma mariposa pela luz. Walt e PJ sofisticaram meus hÆbitos noturnos, atØ fazer deles uma arte. Walt volta para a pensªo primeiro, ao anoitecer, pois as vendas das jóias em prata cessam depois que escurece, em Mallory Square. Abrimos as garrafas de cerveja e aguardamos a chegada de PJ. Depois saímos, vamos de bar em bar, em geral terminando a noite no Sloppy Joe’s. Estamos nos tornando inseparÆveis. Espero que os dois permaneçam inseparÆveis, para sempre. Seu amor nªo me espanta mais. Nada me espanta mais, fora a morte que vislumbro.

Homens emaciados e abatidos, olhos qual janelas, pelas quais enxergo almas atormentadas. A AIDS Ø um holocausto, a consumir os atrativos desta pequena ilha. Estranho que eu me sinta em casa, com os excluídos e moribundos. Talvez viva menos que todos. Quando passo a noite em claro, escutando o zumbido da ventoinha da janela, as imagens do modo como tudo acontecerÆ me assombram.

Sempre que ouço o telefone tocar, eu me lembro. Sempre que ouço alguØm conversando atrÆs de mim, eu me viro. De noite, verifico o closet, olho atrÆs da cortina e debaixo da cama. Depois escoro a porta com uma cadeira. Meu Deus do cØu, nªo quero ir para casa.

Beryl

30 de setembro KEY WEST

Para M,

Ontem, no Louie’s, Brent surgiu no terraço, dizendo que o telefonema era para mim. Meu coraçªo disparou quando entrei, mas só havia ruídos de ligaçªo interurbana, e a linha caiu.

Imagina como fiquei! Tento me convencer de que ando paranóica demais. Ele teria dito algo, para se deleitar com meu medo. Impossível que saiba onde estou, impossível ter me localizado aqui. Um dos garçons chama-se Stu. Brigou recentemente com um amigo, no norte, e mudou-se para cÆ. Talvez o amigo tenha telefonado, e a ligaçªo estivesse ruim. Pode ter perguntado por "Stu", e nªo por "Straw", e quando atendi a linha caiu.

Gostaria de nunca ter revelado meu apelido a ninguØm. Sou

Beryl. Sou Straw. Estou com medo.

O livro nªo estÆ pronto. Meu dinheiro praticamente acabou, e o tempo piorou. Venta ferozmente nesta manhª escura. Permaneci no quarto; se tentasse trabalhar no Louie’s, o vento levaria as folhas de papel para o mar. As luzes da rua piscaram. As palmeiras lutam contra o vento, as folhas viradas como guarda-chuvas do avesso. O mundo ruge, para lÆ da minha janela, qual animal ferido, e, quando a chuva bate no vidro, parece que um exØrcito escuro marcha contra Key West, para sitiar a cidade.

Devo partir em breve. Sentirei saudades da ilha. Sentirei saudades de PJ e de Walt. Com eles sinto-me segura, protegida. Nªo sei o que vou fazer quando voltar a Richmond. Talvez seja melhor mudar depressa, embora nªo saiba para onde ir.

Beryl

Depois de recolocar as cartas de Key West em seu envelope pardo apanhei um pacote de luvas cirœrgicas, que guardei na maleta mØdica preta, e tomei o elevador para descer um andar, atØ o necrotØrio.

O piso frio do corredor fora esfregado, estava œmido; a sala de autópsia trancada, inativa no momento. Na diagonal do elevador encontrava-se a geladeira de aço inoxidÆvel, e, ao abrir a porta maciça, fui recebida pelo sopro gelado de ar nauseabundo, tªo familiar. Localizei o cadÆver sem me preocupar com a etiqueta de identificaçªo. Reconheci o pØ miœdo que saía para fora do lençol branco. JÆ conhecia cada centímetro do corpo de Beryl Madison.

Olhos azuis embaçados me contemplavam inertes, pelas pÆlpebras entreabertas. O rosto frouxo exibia cortes pÆlidos, em sua maioria no lado esquerdo. No pescoço, aberto atØ a espinha, viam-se os mœsculos rompidos, que antes o sustentavam. Próximos uns aos outros, do lado esquerdo do peito, contei nove ferimentos a faca, furos similares a botıes vermelhos, quase perfeitamente verticais. Facadas desferidas em rÆpida seqüŒncia, uma após a outra, com tamanha violŒncia que o cabo deixara marcas na pele. Os cortes no antebraço mediam entre um e doze centímetros de comprimento. Contando as duas facadas nas costas, e excluindo as perfuraçıes no peito e a garganta aberta, cheguei a um total de vinte e sete cortes, todos eles infligidos quando a moça tentava desviar de uma lâmina larga, afiada.

Nªo precisaria de fotografias ou diagramas do corpo. Ao fechar os olhos, eu via o rosto de Beryl Madison. Recordava em detalhe a revoltante violŒncia cometida contra seu corpo. O pulmªo esquerdo fora perfurado quatro vezes. As artØrias carótidas, praticamente seccionadas. Aorta, artØria pulmonar e pericÆrdio foram atingidos. Ela jÆ estava morta, para todos os efeitos, quando o maníaco praticamente a decapitou.

Eu procurava algum sentido naquilo. AlguØm a ameaçara de morte. Ela fugira para Key West, aterrorizada atØ a alma. Nªo queria morrer. Na noite de seu retorno a Richmond, fora assassinada.

Por que permitiu que ele entrasse em sua casa? Meu Deus, por quŒ?

Repondo o lençol, empurrei o corpo para o fundo da geladeira, junto com os outros cadÆveres. No dia seguinte, àquela hora, ela jÆ teria sido cremada, e as cinzas enviadas para a Califórnia. Beryl Madison faria trinta e quatro anos no mŒs seguinte. Nªo tinha ninguØm no mundo, nenhum parente vivo, ao que constava. Exceto uma meia-irmª em Fresno. A porta pesada se fechou.

O asfalto do estacionamento, nos fundos do escritório do mØdico-legista titular, estava quente, reconfortante sob meus pØs, e sentia o cheiro dos dormentes creosotados da ferrovia vizinha, sob o sol forte atípico. EstÆvamos no final de outubro, no dia das bruxas.

A porta dupla estava escancarada, um de meus assistentes do necrotØrio molhava o concreto com uma mangueira. Brincalhªo, ele desviou o jato em minha direçªo, o suficiente para que algumas gotas respingassem na canela.

"Ei, doutora Scarpetta, vai matar o serviço, hoje?", gritou. Passava um pouco das quatro. Eu raramente saía antes das seis.

"Quer uma carona para algum lugar?", acrescentou. "Muito obrigada, jÆ tenho transporte", respondi. Nasci em Miami. Conhecia a regiªo onde Beryl se escondera durante o verªo. Quando fechei os olhos, vi as cores intensas de Key West. Verde, azul, crepœsculos magníficos, só Deus mesmo para produzi-los. Beryl Madison nªo deveria ter voltado para casa nunca mais. Um LTD Crown Victoria zero-quilômetro, reluzente como se fosse de vidro preto, entrou lentamente no estacionamento. Esperava o Plymouth capenga de sempre, e levei um susto quando o vidro da janela do Ford novinho deslizou, zumbindo. "EstÆ esperando o ônibus, por acaso?" O espelho escuro refletia minha expressªo de surpresa. O tenente Pete Marino tentou um ar blasØ, quando a porta se abriu com um estalo eletrônico.

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