Vigilância global prevenção e controlo das doenças respiratórias crónicas uma abordagem integradora

Vigilância global prevenção e controlo das doenças respiratórias crónicas uma...

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No prefácio ao relatório (1), o Dr. LEE Jong-Wook, antigo Director-Geral da OMS, declarou: “Em todo o mundo, demasiadas vidas estão a ser afectadas e ceifadas pelas doenças crónicas, nomeadamente a doença coronária e a doença vascular cerebral, o cancro, as doenças respiratórias crónicas e a diabetes.” É urgente prevenir e controlar as doenças crónicas no contexto da saúde internacional.

Calcula-se que, em 2005, as doenças crónicas sejam responsáveis por 35 milhões (2) de um total previsto de 58 milhões de mortes devidas a várias causas. As doenças crónicas representam o dobro das mortes do total de todas as doenças contagiosas (incluindo VIH/SIDA, tuberculose e malária), doenças maternas e perinatais, e defi ciências nutricionais (Figura 1). Apenas 20% dos casos de doenças crónicas ocorrem em países de altos rendimentos.

Nos próximos 10-20 anos, as doenças contagiosas continuarão a ser o problema de saúde predominante para as populações dos países de baixos

1. O Peso das Doenças Crónicas

MENSAGENS-CHAVE 80% das mortes devidas a doenças crónicas ocorrem em países de baixos e médios rendimentos. A ameaça continua a alastrar – o número de pessoas, famílias e comunidades afectadas está a aumentar.

Esta ameaça crescente é uma causa subvalorizada de pobreza e atrasa o desenvolvimento económico de muitos países.

A ameaça das doenças crónicas pode ser ultrapassada através do saber actual. As soluções são efi cazes e altamente proveitosas em termos custo-benefício. Uma acção abrangente e integrada a nível de cada país, liderada pelos governos, é a garantia de êxito.

rendimentos. No entanto, calcula-se que no futuro ocorra uma epidemia de doenças crónicas em todos os países, incluindo nos países de baixos e médios rendimentos (3-5).

A recolha de informação sobre casos não-fatais de lesões e doença tem sido frequentemente negligenciada no planeamento de saúde, devido à complexidade conceptual de aferição da morbilidade e defi ciência das populações, bem como à difi culdade na defi nição dos termos. Com vista a ultrapassar esta difi culdade, foram lançados pelo Banco Mundial, com o apoio da OMS, os anos de vida ajustados à defi ciência (DALYs – Disability-adjusted life years), que conjugam a morbilidade e a mortalidade (ver Caixa 1) e servem para aferir o peso global da doença (6).

Caixa 1 Anos de vida ajustados à defi ciência (DALYs)

Um DALY representa uma perda equivalente a um ano de vida saudável.

Os DALYs para uma doença constituem a soma dos anos de vida perdidos devido a morte prematura na população e dos anos perdidos devido a incapacidade para os casos incidentes de doença.

O DALY é uma medida de saúde que alarga o conceito de potenciais anos de vida perdidos devido a morte prematura, de modo a incluir os anos equivalentes de vida “saudável” em estados de vida menos saudável, genericamente designados por “defi ciência”.

Fonte: referência 7.

Apesar de o método DALY poder ser alvo de certas críticas (8), permite uma informação abrangente, consistente e comparável sobre doenças e lesões. Os DALYs podem ser utilizados como um indicador de saúde, permitindo uma vigilância e avaliação da saúde global. As doenças crónicas representam uma parte importante dos DALYs em todo o mundo (Figura 1).

Doenças contagiosas, doenças maternas e perinatais, deficiências nutritivas Doença cardiovascular Cancro Doenças respiratórias crónicas Diabetes Outras doenças crónicas Lesões

Figura 1 Previsão global de mortes e anos de vida ajustados à deficiência DALYs)

Fonte: referência 1.

Partindo do princípio que não ocorre nenhuma pandemia, prevê-se que o total dos óbitos provocados por doenças infecciosas, doenças maternas e perinatais e defi ciências nutritivas diminua 3% nos próximos dez anos. No mesmo período, calcula-se que as mortes atribuíveis a doenças crónicas aumentem 17%.

As doenças crónicas limitam o crescimento económico e reduzem o potencial de desenvolvimento dos países, especialmente dos mais pobres. No entanto, de um modo geral, as doenças crónicas têm sido negligenciadas no âmbito da saúde e desenvolvimento, a nível mundial (9). Não foram incluídas nas metas globais a alcançar pelos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM).

Doenças crónicas e pobreza

As doenças crónicas e a pobreza estão interligadas num ciclo vicioso (10). Os motivos são evidentes (Figura 3).

Em quase todos os países, as pessoas mais pobres são as que maior risco correm de desenvolver doenças respiratórias crónicas. Além disso, são também o grupo mais atreito a morrer prematuramente devido a estas doenças,

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Figura 2 Estimativa das principais causas de anos de vida ajustados à deficiência (DALYs), por rendimento (todas as idades, 2005)

Rendimento

Baixo Médio-Baixo Médio-Alto Alto

D AL Ys padronizados por idade 100 0

Fonte: referência 1.

Figura 3 Da pobreza à doença crónica

Fonte: referência 1.

Privações materiais

Limitação de escolha e níveis mais elevados de comportamentos de alto risco

Maior risco de doença

Instalação da doença

Acesso reduzido a cuidados de saúde

Oportunidades reduzidas de evitar complicações

Da pobreza à doença crónica

dada a sua maior exposição a riscos e ao facto de terem um acesso mais reduzido a serviços de saúde. No caso das crianças com asma, por exemplo, a pobreza agrava a asma e a asma agrava a pobreza.

As pessoas com asma têm menos possibilidades de trabalhar ou de cuidar da família. As crianças com asma têm mais probabilidades de faltar repetidamente à escola. As despesas com tratamentos, consultas de urgência, internamentos e tratamentos inadequados constituem uma enorme sobrecarga fi nanceira para os sistemas de saúde carenciados.

Por vários motivos, o consumo de tabaco tende a ser mais elevado entre os pobres do que entre os membros mais abastados da sociedade e, assim sendo, os pobres gastam relativamente mais em tabaco. Em países de baixos e médios rendimentos, os pobres estão mais expostos a combustíveis sólidos dentro de casa e a ambientes profi ssionais pouco seguros.

A longo prazo, as doenças crónicas têm também um impacto directo no estatuto económico e nas oportunidades de emprego das populações. (1,1). Os custos indirectos incluem:

Redução de rendimentos, devido à perda de produtividade provocada pela doença ou pela morte.

Ausência de salários por parte de familiares adultos, por cuidarem dos doentes.

Redução nos auferimentos futuros devido à venda de bens, de modo a fazer face a custos directos e a despesas imprevisíveis.

Oportunidades perdidas para os familiares mais jovens, que abandonam a escola para poderem cuidar dos adultos doentes ou para arranjarem emprego e poderem contribuir para a economia doméstica.

Estes custos são signifi cativos em países de altos rendimentos, onde as pessoas se encontram protegidas por sistemas de segurança social. Nem mesmo nesses países todos os doentes conseguem comportar serviços médicos dispendiosos. No entanto, estes custos são ruinosos em países de baixos e médios rendimentos, onde os sistemas de seguros estão subdesenvolvidos ou são inexistentes. No Burkina Faso, por exemplo, as doenças crónicas representam uma das principais causas de despesas catastrófi cas (qualquer despesa de saúde que ameaça a capacidade fi nanceira que uma família tem de satisfazer as suas necessidades de subsistência) (12).

As doenças respiratórias crónicas, muito especialmente, representam um encargo considerável para os países, devido ao efeito considerável das doenças pulmonares ocupacionais. Caso não sejam tomadas medidas, este peso aumentará. As provas são evidentes. É preciso agir urgentemente, de modo a evitar um impacto adverso no desenvolvimento económico nacional.

2. Doenças Respiratórias Crónicas Evitáveis: Um Grave Problema de Saúde Global

As doenças respiratórias crónicas são doenças crónicas das vias respiratórias e de outras estruturas dos pulmões. As principais doenças respiratórias crónicas evitáveis incluem a asma e as alergias respiratórias, a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), doenças pulmonares ocupacionais, síndrome de apneia do sono e hipertensão pulmonar.

Centenas de milhões de pessoas de todas as idades (desde a primeira infância à velhice) sofrem de doenças respiratórias crónicas evitáveis e de alergias respiratórias, em todos os países do mundo.

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