Vigilância global prevenção e controlo das doenças respiratórias crónicas uma abordagem integradora

Vigilância global prevenção e controlo das doenças respiratórias crónicas uma...

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I: GraveFEV1/FVC < 70% 30% ≤ FEV1 < 50% previsto

IV: Muito grave FEV1/FVC < 70%

FEV1 < 30% previsto

Or FEV1 < 50% previsto, mais insufi ciência respiratória crónica

FEV (Forced Expiratory Volume), volume expiratório forçado no primeiro segundo; FVC (Forced Vital Capacity), capacidade vital forçada.

A insufi ciência respiratória consiste na pressão arterial parcial do oxigénio (PaO) inferior a 8,0 kPa (60 mmHg) com ou sem pressão arterial parcial do CO (PaCO) superior a 6,7 kPa (50 mmHg) ao respirar ar ao nível do mar.

Fonte: referência 107.

Tabela 8 Classifi cação da gravidade da doença pulmonar obstrutiva crónica, com base no FEV1 após broncodilatador

A DPOC constitui um problema de saúde pública grave nos indivíduos com mais de 40 anos de idade e, futuramente, permanecerá um desafi o. É uma das principais causas de mortalidade e morbilidade crónica (107), prevendo-se que, em 2030, atinja o sétimo lugar em termos de peso de doença a nível mundial (104). Nas próximas duas décadas, a subida da morbilidade e mortalidade devido à DPOC será mais dramática nos países asiáticos e africanos, sobretudo devido ao aumento progressivo da prevalência do consumo de tabaco (115). Mesmo que os factores de risco fossem evitados neste momento, as consequências da DPOC manter-se-iam durante várias décadas, devido ao desenvolvimento lento da doença. No entanto, uma análise crítica recente dos métodos de cálculo para a estimativa do fardo de doenças, através da extrapolação ou da utilização de factores de risco, tem chamado a atenção para as difi culdades na obtenção de uma defi nição precisa das tendências globais do peso da DPOC (116).

Prevalência

Até há pouco tempo, a maioria das informações disponíveis sobre a prevalência da DPOC provinha de países de altos rendimentos. Mesmo nestes países, os dados subestimam grandemente o peso total da DPOC, pois a doença não costuma ser diagnosticada senão quando já é clinicamente aparente e está moderadamente avançada (117), e a defi nição de DPOC varia entre os diversos estudos. É preferível uma abordagem que utilize o termo DPOC (e não os códigos individuais para bronquite crónica, enfi sema e obstrução crónica das vias aéreas) (114), apesar de serem relatadas diferenças nas taxas de prevalência quando são utilizadas diferentes defi nições de DPOC (118).

Fazendo os cálculos utilizando métodos epidemiológicos apropriados, a prevalência de DPOC costuma ser superior à sua avaliação por parte das autoridades de saúde e de bases de dados administrativos (119). Calcula-se que varie entre os 4% e os 20% nos adultos com mais de 40 anos de idade (120-125), com um aumento considerável por idade, sobretudo entre os fumadores. No entanto, a DPOC ocorre em pessoas entre os 20 e os 4 anos (126) (Tabela 9, Figura 9). Existem grandes diferenças entre os países. Essas diferenças são atribuíveis a vários factores, incluindo diferenças nos métodos de diagnóstico, ano de estudo, idade da população e prevalência dos principais factores de risco, sobretudo o fumo do tabaco. No seu todo, as estimativas de prevalência apresentadas na Figura 9 e na Tabela 9 são mais elevadas do que as indicadas pelos registos nacionais, mas podem, apesar disso, subestimar a prevalência real da DPOC.

Nos Estados Unidos, em 2002, calculava-se que 25 milhões de adultos sofressem de DPOC (127).

Foi utilizado um modelo de prevalência da DPOC para calcular a sua prevalência em doze países asiáticos. O número total de casos moderados a graves de DPOC nos doze países da região, tal como projectado pelo modelo, é de 56,6 milhões, com uma taxa de prevalência global de 6,3%. As taxas de prevalência da DPOC para os países individuais variam entre os 3,5% (China, Região Administrativa Especial de Hong Kong, Singapura) e os 6,7% (Vietname) (158).

Na China, as doenças respiratórias crónicas são a segunda principal causa de morte (32). Calcula-se que mais de 50% dos homens chineses fumem, enquanto que as taxas de fumadoras são mais baixas (159). Na China, a prevalência de DPOC em homens e mulheres não é muito diferente (160), o que aponta para o facto de outros factores de risco importantes, que não o fumo, provocarem DPOC às mulheres chinesas. Um estudo recente verifi cou a prevalência de DPOC diagnosticada por um médico em 5,9% da população adulta (160).

Na Índia, um estudo que recolheu dados sem avaliação por espirometria sugeriu que doze milhões de pessoas sofriam de DPOC (161). Estudos recentes dos mesmos autores (162, 163) indicam uma prevalência dos sintomas respiratórios em 6%-7% dos não-fumadores e até 14% no caso dos fumadores. Num estudo recente efectuado no sul da Índia, a taxa de prevalência da DPOC nos adultos era de 7%.

Figura 9 Taxa de prevalência (/100 0) da doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) na Europa

>10 0 5 001–10 0 2 001–5 0

<2 0 Não existem dados

Fonte: referência 125.

País Referência Ano Critérios de diagnóstico Idade (anos)

Prevalência de DPOC (%)

Global Homens Mulheres Diagnóstico com base em espirometria

Dinamarca(128) 1989FEV1/FVC<70%, FEV1<60% previsto

Inglaterra(129)1999FEV1<5th percentil + reversibilidade 60-75 9.9

Finlândia(130) 1994Observação clínica +espirometria ≥ 6512.53.0

(131)2000Observação clínica + espirometria

FEV1/FVC<70%, FEV1<60% previsto

FEV1/FVC<70%, FEV1<80% previsto

Espanha (134) 1998 FEV1/FVC<70%, FEV1<80% previsto 40-60 6.8

(137) 2000 FEV1/FVC<70%, FEV1<80% previsto

Área abrangendo o estado do Zimbabué

Múltiplos(147)19973 critérios baseados nos

Tabela 9 Estimativas de prevalência da doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) pelo diagnóstico

País Referência Ano Critérios de diagnóstico Idade (anos)

Prevalência de DPOC (%)

Global Homens Mulheres

Doença relatada pelo doente

Inglaterra(141)Doença relatada pelo doente (bronquite crónica) 40-74 3.9 2.1

EUA(156)1975Relatado pelo doente (bron-quite crónica) Todas asidades

(157)1996Relatado pelo doente (bron-quite crónica) Todas asidades

5.4 MRC, Medical Research Council; ATS, American Thoracic Society (Sociedade Torácica Americana); ECSC, European Commission for Steel and Coal (Comissão Europeia do Aço e do Carvão). Fonte: referência 121.

TABELA 9 (CONTINUAÇÃO)

O estudo Burden of Obstructive Lung Disease (BOLD) – Peso de Doença Pulmonar Obstrutiva, está a ser efectuado actualmente em diversas partes do mundo, incluindo em países de baixos e médios rendimentos (164). Este estudo fundamental compara a prevalência e peso da DPOC em todo o mundo, utilizando o mesmo protocolo, incluindo o questionário BOLD e a espirometria. Alguns resultados encontram-se já disponíveis e revelam que a prevalência de DPOC é bastante mais elevada do que indicam os registos. Em Guangdong, na China (165), a prevalência de DPOC é 9,4%, sendo mais elevada na zona rural do que na zona urbana, o que sugere um efeito sinergético do fumo e da queima de biomassa. Na América Latina (166), o Proyecto Latinoamericano de Investigación en Obstrucción Pulmonar (Projecto PLATINO) (167, 168) revelou que a prevalência de DPOC era superior a 10% nos indivíduos com mais de 40 anos de idade (Tabela 10). Os resultados apresentados na Tabela 10 foram obtidos através do método BOLD (164). Estes resultados indicam que a prevalência de DPOC é mais elevada do que fora previamente relatado e que as mulheres que não fumam podem ser afectadas pela DPOC. Na sua maioria, os doentes sofrem de DPOC ligeira. No entanto, o diagnóstico concomitante de asma, bronquite crónica ou enfi sema é vulgar nos doentes com DPOC entre a população em geral, sobretudo no caso dos adultos com mais de 50 anos (123, 169). É importante distinguir a asma da DPOC, mesmo nos doentes mais velhos, pois a optimização do tratamento deverá basear-se em abordagens nitidamente diferentes (27, 50, 106).

O fumo do tabaco é um dos principais factores de risco nos homens (170). Inesperadamente, a prevalência de DPOC nas não-fumadoras também é elevada nos países de altos rendimentos, tal como nos países de baixos e médios rendimentos. Nos países de baixos e médios rendimentos, a DPOC nas mulheres poderá estar associada à combustão de biomassa.

Mortalidade

É raro existirem dados sobre mortalidade. Quando estão disponíveis, costumam subestimar em 50% a DPOC como causa de morte (171, 172). Além disso, poderá haver uma má utilização dos dados de mortalidade, nomeadamente a atribuição do óbito a cor pulmonale, tendo a causa sido a DPOC (173). A proporção de mortes devidas às várias doenças, tal como são indicadas pelos Estados Unidos, está patente na Figura 10 (174). Na Europa, existem grandes diferenças que se podem atribuir a variações nos relatórios e nos factores de risco (Figura 1).

São PauloBrasilSantiagoChileCidade do México

México

MontevidéuUruguai Caracas Venezuela

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