o capital humano como

o capital humano como

(Parte 1 de 3)

Rev. FAE, Curitiba, v.5, n.1, p.29-42, jan./abr. 2002|29

Revista da FAE

Osmar Ponchirolli*

Resumo

Este artigo tem por objetivo verificar a importância da teoria do agir comunicativo de Habermas na era do capital humano, analisado como um elemento estratégico fundamental no mundo organizacional. Os dados foram obtidos mediante entrevistas semi-estruturadas com dez gerentes da Volvo do Brasil e um questionário aplicado em um dos setores da empresa. A análise dos dados revela que o impacto da nova economia sobre os esquemas interpretativos de seus gestores necessita de uma racionalidade não somente cognitivo-instrumental mas também de um modelo de racionalidade comunicativa, onde as manifestações simbólicas dos homens encarnam saberes (convicções) intersubjetivamente partilhados. Tanto as ações de caráter cognitivo-instrumental como as ações orientadas ao entendimento são comuns e indispensáveis no planejamento estratégico de uma organização. O agir estratégico não pode ser concebido simplesmente como uma manipulação instrumental.

Palavras-chave: capital humano; elemento estratégico; racionalidade comunicativa; aprendizado flexível.

*Filósofo, Bacharel em Teologia,

Mestre e Doutorando em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor da FAEBusiness School. E-mail: osmarp@bomjesus.br

O capital humano como elemento estratégico na economia da sociedade do conhecimento sob a perspectiva da teoria do agir comunicativo

Abstract

The purpose of this research was to verify the importance of Habermas’ communicative acting theory in the human capital era. The human capital was analyzed as a fundamental strategic element in the organizational world. The method that characterizes this research is the case study with the use of multiple evidence data. The data was acquired through semi structured interviews with ten managers of Volvo do Brasil, in the metropolitan region of Curitiba - CIC and through a questionnaire applied in one of the company’s sectors. The data reveals that the impact of the new economy on the interpretative outline of its administration are in need of not only a cognitive-instrumental rationality, but of a model of communicative rationality, where the symbolic manifestations of men embodies understandings (convictions) inter-subjunctively shared. Both the actions with a cognitive-instrumental character and the actions oriented to the understanding are common and essential in the strategic planning of an organization. The strategic acting is not conceived only as instrumental manipulation.

Key words: human force; strategic element; communicative ration; flexible learning.

Introdução

A economia mundial está passando por uma grande transformação, que se manifesta tanto na base produtiva quanto nos âmbitos financeiro e político. Essas mudanças têm se refletido sobre os diversos mercados e estão associadas à emergência da denominada Terceira Revolução Industrial, à formação de blocos econômicos, ao grande aumento do volume de recursos transacionados no sistema financeiro internacional e ao fortalecimento do liberalismo como expressão política desse novo processo.

O fenômeno da globalização está presente e parece irreversível. No aspecto organizacional, ele se manifesta na internacionalização das empresas, o que provoca mudanças internas em diversos níveis. Parece necessário fazê-las avançar, com o estudo das mudanças organizacionais ocorridas a partir da adoção de estratégias internacionais referentes à importância do capital humano.

Desde Max Weber (1946), a teoria das organizações vem concentrando esforços na compreensão do fenômeno organizacional. O estudo das estruturas foi destaque durante as décadas de 60 e 70. A partir daí, enfatizaram-se as considerações sobre o ambiente organizacional. As organizações passam a ser percebidas como sistemas abertos que realizam trocas com o ambiente externo, sendo, portanto, suscetíveis de mudanças.

Após a Segunda Guerra Mundial, a nova ordem econômica internacional diminuiu barreiras comerciais, favoreceu a cooperação entre países e o estabelecimento de acordos de comércio. Essa nova disposição incrementou sobremaneira as trocas internacionais, ampliando as atividades organizacionais. A expansão do comércio mundial levou à internacionalização das empresas não só em termos de expansão de mercados, mas também da “exportação” de modelos de gestão, tecnologia e estruturas organizacionais.

O ambiente das organizações se ampliou e, na literatura especializada, passou-se a analisar esse fenômeno incorporado à noção de sistemas abertos com ênfase em processos de mudanças. Com os estudos ambientais, os pesquisadores organizacionais preocuparam-se em entender o trinômio ambiente-estratégia-estrutura, incluindo aí os modelos produtivos.

Considerando este contexto, tem-se o novo paradigma produtivo, conhecido como “aprendizado flexível”, que apresenta algumas características, conforme mostra o quadro 1.

Nesse sentido, exige-se do capital humano aptidão para trabalhar em equipe, para adaptarse a mudanças no tipo de atividade que irá desempenhar, para exercer liderança.

O presente artigo pretende contribuir para os estudos que visam à determinação das possíveis razões do fazer do gerente de Recursos Humanos, o que significa desvendar sua racionalidade intrínseca. Um modelo de racionalidade configura um certo “paradigma” filosófico predominante numa época. A expressão paradigma não é usada

QUADRO 1 - MUDANÇAS NO PARADIGMA TECNOLÓGICO

Intensivo em energia. Intensivo em informações e conhecimento.

Grandes unidades de produção e número de trabalhadores.

Redução no tamanho da produção e no número de trabalhadores.

Produto homogêneo de uma unidade da produção. Diversidade de produtos.

Padronização. Customised (dirigida ao cliente). Mix estável de produtos. Mudanças rápidas no mix de produtos.

Plantas e equipamentos Especializados. Sistemas de produção flexível.

Automação. Sistematização. Habilidades especializadas. Multi-habilidades interdisciplinares.

FONTE: NAKANO (1994, p.1)

Rev. FAE, Curitiba, v.5, n.1, p.31-42, jan./abr. 2002|31

Revista da FAE aqui em seu sentido estrito, como modelo de ciência historicamente situado numa determinada área do conhecimento, mas em seu sentido mais amplo, como conjunto de pressupostos que estruturam e condicionam o pensamento de toda uma época.

Sendo a globalização um novo elemento ambiental, é necessário observar como as estratégias na área de Recursos Humanos estão gerando mudanças na estrutura organizacional, principalmente em relação ao capital humano.

É fundamental, como tem enfatizado SENGE (1990, p.150), que as organizações promovam o aprendizado. As empresas com larga atuação internacional, que conseguem administrar as fronteiras organizacionais em diferentes países e manter inter-relações entre os aspectos globais e locais, parecem colher melhores resultados.

Compreender as atuais transformações é condição sine qua non para permanecer como ator no palco econômico da história mundial. Saber ler os novos paradigmas e responder com eficiência e eficácia aos seus desafios é essencial.

Este artigo tem por objetivo verificar a importância da teoria do agir comunicativo de Habermas na era do capital humano, analisado como um elemento estratégico fundamental no mundo organizacional.

O método que caracteriza esta pesquisa é o estudo de caso, com utilização de fontes múltiplas de evidências. Os dados foram obtidos mediante entrevistas semi-estruturadas com dez gerentes da Volvo do Brasil e um questionário aplicado em um dos setores da empresa. A análise dos dados foi efetuada de forma descritivo-interpretativa, abordagem predominantemente qualitativa, utilizando-se, para tanto, a análise de conteúdo e a análise documental.

1 A sociedade do conhecimento

Hoje é consenso, entre muitos teóricos, que a era industrial se esgotou e que a sociedade do conhecimento emergiu como uma nova modalidade econômico-social.

Investimentos para desenvolver recursos essenciais já não podem ser considerados despesas; constituem aquilo que será necessário para assegurar vantagem a médio e longo prazos. O aprender a conhecer, a fazer, a conviver e o aprender a ser são as habilidades e competências principais no mercado competitivo.

Essas habilidades e competências nos orientam à compreensão do escopo da transformação que está ocorrendo no mundo e nos ajudará a prosperar no próximo século. Tais competências abrangem métodos para envolver e inspirar as pessoas, fazer evoluir as equipes e as alianças.

Essas competências parecem transcender as formas tradicionais e atingir a essência do que é preciso para ser um líder de mercado em constante evolução. Da estratégia de mercado e da tecnologia da informação às alianças globais e estratégicas, a arte da previsão tem sido bem mais complicada e incerta hoje.

O mundo, segundo economistas e historiadores, experimentou duas profundas mudanças na base da economia e da estrutura social. Na primeira grande etapa do desenvolvimento econômico os homens passaram de uma economia tribal de caça e coleta para uma economia agrícola. Essa transição começou há aproximadamente 8.0 anos e hoje está quase totalmente completa em todo o mundo, exceto em algumas poucas sociedades primitivas, em áreas como a Bacia Amazônica e Nova Guiné.

Na segunda grande etapa, os homens passaram da economia agrícola para a economia industrial. Essa etapa teve início na Grã-Bretanha há aproximadamente 250 anos e espalhou-se pela Europa Ocidental, América do Norte e Japão no século XIX. Desde a Segunda Guerra Mundial, a industrialização tem se difundido de maneira extensiva pela Ásia e parte da América Latina.

A terceira etapa da história social dos homens é o desenvolvimento da economia e da sociedade baseadas no conhecimento. Este processo começou nos Estados Unidos há cerca de 25 anos e, atualmente, está se disseminando rapidamente tanto nos Estados Unidos como no restante dos países industrializados desenvolvidos do mundo – Canadá, Europa Ocidental e Japão. Suas variáveis críticas e fundamentais são informação e conhecimento. Analisaremos a forma dominante de economia e a direção para a qual esta economia está se movendo. Aproximar-se da teoria do agir comunicativo é fundamental para a compreensão deste novo contexto.

1.1Aproximação com a teoria do agir comunicativo

O capital humano é o ponto central na transformação global. Como afirma CRAWFORD (1994, p.17), as mudanças que vêm ocorrendo são tensas e turbulentas para muitas pessoas, mas transformar o mundo numa economia baseada em conhecimento é, provavelmente, o passo com maior probabilidade de sucesso já dado na história do desenvolvimento econômico do mundo. Para a maior parte da população mundial este desenvolvimento irá melhorar sensivelmente a condição de vida, libertando-a do excessivo trabalho e esforço físico de sobrevivência, permitindo que desenvolvam seu potencial humano de maneira plena.

Embora possa parecer muito frio e desumano referir-se a pessoas como capital, trata-se de uma associação que é realidade. Na sociedade do conhecimento a educação é universal e os níveis crescem para as novas áreas de conhecimento, que requerem mais treinamento e educação atualizada para sua aplicação. Profissionais universitários e especializados tornam-se o maior grupo empregado.

A “depreciação” do capital humano está ligada à rapidez com que o conhecimento e a tecnologia se tornam obsoletos. A educação contínua constitui um grande desafio para o capital humano.

O único caminho para os trabalhadores da sociedade do conhecimento manterem suas habilidades e conhecimentos e atuarem efetivamente como capital humano é se comprometendo com um aprendizado contínuo e vitalício, o que afetará todos os trabalhadores, tanto como indivíduos quanto como empregados ou empregadores. Numa sociedade em que as pessoas retornam à escola ou são treinadas para novas carreiras na meia idade, seminários ocasionais de dois dias serão inadequados. (CRAWFORD, 1994, p.4).

O estudo do conhecimento humano é tão antigo quanto a própria história do homem e tem sido o tema central da Filosofia e epistemologia desde o período grego. O conhecimento também começa a ganhar redobrada atenção recentemente. Não só teóricos socioeconômicos, como Peter Drucker e Alvin Toffler, chamaram a atenção para a importância do conhecimento como recurso e poder gerencial, como também um número crescente de estudiosos nas áreas de organização industrial, gerenciamento da tecnologia, estratégias gerenciais e teoria organizacional passou a teorizar sobre a administração do conhecimento.

Atualmente é consenso que a criação do conhecimento é a principal fonte de competiti-

Rev. FAE, Curitiba, v.5, n.1, p.3-42, jan./abr. 2002|3

Revista da FAE vidade internacional. DRUCKER (1994, p.69) argumenta que, na nova economia, o conhecimento não é apenas mais um recurso, ao lado dos tradicionais fatores de produção, trabalho, capital e terra, mas sim o único recurso significativo.

TOFFLER (1990) corrobora essa afirmação, proclamando que o conhecimento é a fonte de poder da mais alta qualidade e a chave para a futura mudança de poder. O conhecimento passou de auxiliar do poder monetário e da força física à sua própria essência, e é por isso que a batalha pelo controle do conhecimento e pelos meios de comunicação está se acirrando no mundo inteiro. O conhecimento é o substituto definitivo de outros recursos.

Busca-se inspiração e referência na reflexão filosófica de Jürgen Habermas, especialmente nos estudos que fundamentam a sua teoria da ação comunicativa. Filósofo alemão contem-porâneo, herdeiro da Escola de Frankfurt, Habermas desenvolve uma teoria crítica da sociedade contemporânea a partir de uma crítica dos modos de racionalidade nela encarnados.

A mudança de paradigma que Habermas propõe é a de que o parâmetro da racionalidade de crítica deixa de ser o sujeito cognoscente que se relaciona com os objetos para conhecê-los e manipulá-los, passando a ser a relação intersubjetiva que os sujeitos estabelecem entre si a fim de se entenderem sobre algo (HABERMAS, 1992, Tomo I, p.499).

O interesse de Habermas é elaborar uma teoria da racionalidade que contemple, além do elemento cognitivo-instrumental, o elemento prático-moral e o elemento estético-expressivo (HABERMAS, 1990, p.291).

Nossa intuição quanto à possível fecun-didade da reflexão habermasiana para a economia se deve à constatação de que os objetivos gerais da economia se colocam na perspectiva de transformar os recursos em bens e serviços para suprir as necessidades das pessoas.

Nesse sentido, queremos propor o espaço do capital humano como espaço privilegiado do agir comunicativo. Este é um trabalho que busca explicar o que se expressa como conteúdo normativo da teoria da ação comunicativa, esclarecendo quais conseqüências podem resultar desse conteúdo normativo para a práxis na área produtiva.

1.2A teoria da ação comunicativa

Não podemos negar que, neste final de século, a filosofia registra o fato auspicioso da extraordinária ascensão da Ética. O debate ético, hoje, está ao alcance de todos os interessados na discussão de problemas morais. A ética ao alcance de todos renasce. Seu desafio é encontrar um ponto de partida novo, abrangente e capaz de interpretar o homem, a terra e o universo nas suas novas circunstâncias.

(Parte 1 de 3)

Comentários