Processo de envelhecimento e bases da avaliação multidimensional do isoso

Processo de envelhecimento e bases da avaliação multidimensional do isoso

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Processo de envelhecimento e bases da avaliação multidimensional do idoso

Dona Conceição tem 91 anos, Índice de Massa Corporal (IMC) 19, mede cerca de 1,58m e é independente nas Atividades de Vida Diária (AVD) básicas e instrumentais. Mora na rua Sergipe, n. 15, há 10 anos, com sua irmã Ofélia, 85 anos, portadora de doença de Alzheimer. Ambas são viúvas.

Dona Conceição gerencia todo o funcionamento da casa e cuida da irmã. Tem dois filhos, Paulo e Antônio que, apesar de morarem em outra cidade, dão muita assistência. A sobrinha, filha de Ofélia, é bastante presente e está sempre disponível para ajudar nos afazeres da casa ou para resolver problemas em bancos, fazer compras mais pesadas, levar ao médico e a alguns passeios. Tem 5 netos e 2 bisnetos, que a visitam com freqüência. Adora crianças e gosta quando os bisnetos passam a tarde com ela. Nestes dias, ela prepara o lanche, bolo, biscoitos, enfim, faz tudo o que os bisnetos mais gostam. Às vezes a irmã, Ofélia, fica mais irritada com a bagunça das crianças, mas Dona Conceição consegue contornar o problema, brincando com as crianças no quintal da casa, ao qual a irmã tem pouco acesso.

Dona Conceição está sempre de bom humor e se diz satisfeita com a vida. Ninguém nunca a viu reclamar de nada. Sorridente o tempo todo, mesmo quando a irmã insiste em discordar das suas atitudes ou quando afirma que a empregada está roubando o seu dinheiro (“delírio de roubo”). Nestas horas, conversa com tanta tranqüilidade que a irmã Ofélia fica mais calma, conseguindo mudar de assunto.

6. Processo de envelhecimento e bases da avaliação multidimensional do idoso

Edgar Nunes de Moraes

Dona Conceição, há cerca de oito anos, teve diagnóstico de câncer de intestino grosso, graças ao exame de pesquisa de sangue oculto nas fezes. Após a confirmação da doença, foi realizada a hemicolectomia (retirada parcial do intestino) e a evolução foi ótima. Atualmente, nega qualquer alteração do hábito intestinal. É portadora de osteoporose densitométrica não complicada e osteoartrose no joelho direito, que não trazem nenhuma limitação na sua mobilidade. Faz uso regular de paracetamol quando a dor fica mais intensa, com boa resposta.

Qual o conceito de envelhecimento?

Na Unidade de Aprendizagem I, estudamos a diferença entre envelhecimento individual e populacional. O envelhecimento populacional pode ser reversível, caso ocorra o aumento da fecundidade. Já o envelhecimento individual representa a conseqüência ou os efeitos da passagem do tempo. Estes efeitos podem ser positivos ou negativos e são observados nas diversas dimensões do indivíduo: organismo (envelhecimento biológico) e psiquismo (envelhecimento psíquico). Todas as dimensões são igualmente importantes, na medida em que são coadjuvantes para a manutenção da autonomia e independência do indivíduo.

Quais são os tipos de envelhecimento do organismo?

Todos os seres vivos passam por transformações com o passar dos anos. Essas modificações podem ser consideradas uma involução morfológica e funcional que afeta a maioria dos órgãos e leva a um gradual declínio no desempenho funcional dos indivíduos, culminando com a morte. O termo envelhecimento é utilizado para indicar tais transformações.

O envelhecimento biológico é inexorável, dinâmico e irreversível, caracterizado pela maior vulnerabilidade às agressões do meio interno e externo e, portanto, maior suscetibilidade nos níveis celular, tecidual e de órgãos/aparelhos/sistemas. Entretanto, não significa adoecer. Senilidade não é diagnóstico. Em condições basais, o idoso funciona tão bem quanto o jovem. A diferença se manifesta nas situações em que se torna necessária a utilização das reservas homeostáticas (de equilíbrio) que, no idoso, são mais frágeis. Além disso, cada órgão ou sistema envelhece de forma diferenciada. A variabilidade é, portanto, cada vez maior à medida em que envelhecemos.

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Envelhecimento = vulnerabilidade + variabilidade + irreversibilidade

O Gráfico 1 mostra a relação entre a funcionalidade global do organismo e os ciclos de vida (infância, adolescência, adultez e velhice). O ser humano atinge o máximo das suas funções orgânicas por volta dos 30 a 40 anos. Entre os 40 e 50 anos há uma estabilização e, a partir daí, um declínio funcional progressivo, com a perda funcional global de 1% ao ano. Portanto, quanto maior a reserva funcional, menor será a repercussão do declínio considerado fisiológico (envelhecimento fisiológico).

Gráfico 1 – Funcionalidade global x idade

Fonte: Moraes (2008).

O envelhecimento biológico pode ser fisiológico (senescência) ou patológico (senilidade). O envelhecimento fisiológico pode ser subdividido em dois tipos: bem-sucedido e usual. No envelhecimento bem-sucedido, o organismo mantém todas as funções fisiológicas de forma robusta, semelhante à idade adulta. No envelhecimento usual, observa-se uma perda funcional lentamente progressiva, que não provoca incapacidade, mas que traz alguma limitação à pessoa. Ainda dentro do envelhecimento fisiológico, podemos encontrar idosos com alterações fisiológicas mais expressivas, o que caracteriza a síndrome da fragilidade ou frailty. Este tipo de envelhecimento é difícil de ser diferenciado do envelhecimento patológico. Há forte sobreposição entre eles. Todavia, não há doenças aparentes capazes de justificar o grau de fragilidade apresentado pelo idoso. Provavelmente, deve-se a alterações fisiológicas mais acentuadas, de causa desconhecida ou não diagnosticada. Os principais fatores de risco para a síndrome de fragilidade são hereditariedade, sexo feminino, baixo nível socioeconômico, má nutrição, sedentarismo, senescência, sarcopenia (perda muscular), anorexia e, obviamente, a presença de múltiplas comorbidades ou doenças incapacitantes, como acidente vascular cerebral (AVC), doença de Alzheimer, doença de Parkinson e depressão.

Fonte: Moraes (2008). Gráfico 2 – Formas de envelhecimento

A hereditariedade, os hábitos de vida e as doenças são os principais determinantes das alterações moleculares causadoras da desregulação dos sistemas homeostáticos, capazes de comprometer o funcionamento harmonioso do organismo, gerando perda da autonomia e independência, hospitalização, institucionalização e óbito.

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AtividAdE 1

Qual o tipo de envelhecimento apresentado por dona Conceição e dona Ofélia? Faça a distinção entre os dois.

Envie para o tutor.

Qual a relação entre saúde e envelhecimento?

O envelhecimento é o principal fator de risco para determinadas doenças e incapacidades. A passagem do tempo expõe o indivíduo a uma série de injúrias, cujas conseqüências são percebidas na velhice, após décadas de exposição. As injúrias ambientais (hábitos de vida) interagem continuamente com a “bagagem genética” e as conseqüências biológicas são extremamente variáveis de indivíduo a indivíduo. Além disso, não há marcadores específicos capazes de diferenciar as alterações da senescência e da senilidade. Daí a associação entre velhice e doença. Não quer dizer que todas as doenças aumentam em função da idade. Basicamente, podemos afirmar que existem dois grupos de doenças:

Doenças que se relacionam com a idade, as quais se associam com mais freqüência ao envelhecimento. São chamadas doenças crônico-degenerativas, que podem ser agrupadas em neurodegenerativas (doença de Alzheimer e doença de Parkinson), cardiodegenerativas (doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral), osteodegenerativas (osteoporose, osteoartrose), entre outras;

Doenças que dependem da idade, as quais aumentam sua inci- dência de forma exponencial à medida que a idade aumenta: polimialgia reumática, arterite temporal, entre outras.

Infelizmente, a maioria dos idosos apresenta o envelhecimento considerado patológico, ou seja, associado às doenças e incapacidades. A prevalência de incapacidades em idosos com idade igual ou superior a 70 anos varia de 25% a 50%, dependendo do sexo e do nível socioeconômico. Ramos (2002), em São Paulo, verificou que 61% dos idosos entrevistados precisavam de algum tipo de ajuda para realizar, pelo menos, uma das atividades de vida diária (andar, comer, vestir-se, ir ao banheiro) e que 10% apresentavam uma dependência total, impossibilitando o indivíduo de viver sozinho. A hereditariedade, os fatores ambientais (estilo de vida) e as próprias alterações fisiológicas do envelhecimento (maior vulnerabilidade) são as variáveis que interagem para determinar o risco de doenças, deficiências ou incapacidades na velhice. Portanto, se o indivíduo traz consigo uma carga hereditária desfavorável, o estilo de vida será o principal determinante modificável do estado de saúde durante a sua velhice. Maior esforço deverá ser feito na implementação de estratégias de prevenção de doenças e promoção da saúde, desde a vida intra-uterina. Por outro lado, aqueles indivíduos com história familiar favorável, terão muito mais chance de atingir o potencial máximo de longevidade e funcionalidade, caso tenham um estilo de vida apropriado.

Há certas desordens associadas com mudanças específicas que acompanham o processo de envelhecimento normal, como os transtornos motores do esôfago e a catarata. Algumas complicações de doenças ocorrem somente décadas após o início de determinadas patologias e, portanto, são mais observadas no idoso, como as lesões de órgãos-alvo na hipertensão arterial e no diabetes mellitus. Portanto, o envelhecimento aumenta a vulnerabilidade do organismo às agressões do meio interno e externo, predispondo às doenças. Praticamente todo idoso apresenta uma ou mais doenças/disfunções. O paciente pode conviver bem com suas doenças, sem que elas afetem substancialmente sua qualidade de vida. Daí o conceito de saúde como algo mais amplo do que simplesmente a ausência de doenças.

Para a Organização Mundial de Saúde, saúde representa o mais completo estado de bem-estar físico, psíquico e social e não meramente ausência de doença ou enfermidade.

Bem-estar e funcionalidade são equivalentes. Representam a presença de autonomia (capacidade individual de decisão e comando sobre as ações, estabelecendo e seguindo as próprias regras) e independência (refere-se à capacidade de realizar algo com os próprios meios), permitindo que o indivíduo cuide de si (AVD básicas) e de sua vida (AVD instrumentais).

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Figura 1 – Funcionalidade e seus componentes

Fonte: Moraes (2008).

Autonomia é a capacidade de decisão diretamente relacionada à cognição e ao humor (motivação), enquanto a independência é a capacidade de execução daquilo que foi decidido e está diretamente relacionada à mobilidade e à comunicação. Funcionalidade é, então, o produto da preservação da cognição, do humor, da mobilidade e da comunicação. A perda da funcionalidade resulta nas grandes síndromes geriátricas (incapacidade cognitiva, instabilidade postural, incontinência esfincteriana, imobilidade e incapacidade comunicativa), cujo pano de fundo é a iatrogenia, que, por sua vez, é a síndrome geriátrica mais comum e de mais fácil resolução. A incapacidade comunicativa não é reconhecidamente uma das grandes síndromes geriátricas clássicas (Figura 2).

Ainda nesta unidade, Módulo 8, você vai conhecer um pouco mais sobre as síndromes geriátricas.

Figura 2 – Funcionalidade

Fonte: Moraes (2008).

AtividAdE 2 identifique, na vila Brasil, os idosos portadores das grandes síndromes geriátricas e faça uma tabela com o nome do idoso e a síndrome correspondente.

Envie para o tutor.

O envelhecimento normal não afeta a capacidade de decisão (autonomia) ou de execução (independência) do indivíduo, como pôde ser observado com a Dona Conceição. Percebe-se uma lentificação global no seu funcionamento, capaz de trazer algumas limitações, mas não a restrição da participação social. A maior vulnerabilidade do idoso exige determinados cuidados nas tarefas do cotidiano e maior utilização de facilitadores ambientais. Tais limitações devem ser percebidas pelo idoso, familiares e equipe de saúde da família.

A maior vulnerabilidade do idoso, frente às agressões do meio interno e externo, resulta do envelhecimento dos sistemas fisiológicos principais.

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Vamos, agora, apresentar as principais alterações orgânicas associadas ao envelhecimento.

Composição corporal

A água é o principal componente da composição corporal na criança, correspondendo a 70% do seu peso. Com o envelhecimento, há redução de 20% a 30% da água corporal total e 8% a 10% do volume plasmático. A redução é maior no conteúdo intracelular. Esta “desidratação crônica” é agravada pela menor sensação de sede, tornando o idoso mais vulnerável à desidratação aguda e às reações adversas das drogas, pela alteração do volume de distribuição das drogas hidrossolúveis. Além da redução da água corporal, o envelhecimento provoca redução de 20% a 30% da massa muscular (sarcopenia) e da massa óssea (osteopenia/ osteoporose), causada pelas alterações neuroendócrinas – menor responsividade renal ao hormônio antidiurético, redução dos níveis basais de aldosterona, redução do hormônio de crescimento e dos hormônios sexuais, aumento do paratormônio, redução da função renal, vitamina D – e inatividade física. A sarcopenia contribui para as seguintes alterações presentes no idoso:

maior tendência à redução do peso corporal da maioria dos órgãos; redução na força muscular, na mobilidade, no equilíbrio e na tolerância ao exercício, predispondo a quedas e imobilidade; redução dos tecidos metabolicamente ativos, levando a uma diminuição do metabolismo basal (100 kcal/década) que, por sua vez, causa anorexia e conseqüente redução da ingestão alimentar, agravando ainda mais o quadro, podendo causar subnutrição proteico-calórica e deficiência de micronutrientes, como vitamina D, magnésio, cálcio e zinco;

Ocorre aumento de 20% a 30% na gordura corporal total (2% a 5% por década, após os 40 anos) e modificação da sua distribuição, tendendo à localização mais central, abdominal e visceral. No sexo feminino, a gordura deposita-se mais na região das nádegas e coxas (aparência de “pêra”) e nos homens localiza-se mais na região abdominal (aparência de “maçã”). A principal complicação é o aumento da meia-vida das drogas lipossolúveis como os benzodiazepínicos (diazepam), aumentando o risco de toxicidade.

Nutrição e antropometria

As alterações fisiológicas do envelhecimento que comprometem as necessidades nutricionais ou ingestão alimentar são:

redução de olfato e do paladar: redução nos botões e papilas gustativas sobre a língua, diminuição nas terminações nervosas gustativas e olfatórias, ambos comprometendo a palatabilidade dos alimentos. Alterações nas papilas gustativas e na condução neurossensorial ocorrem progressivamente com a idade, com tendência à elevação do limiar de percepção dos sabores doce e salgado, levando à sensação de que os alimentos estão amargos e azedos; aumento da necessidade protéica: diminuição da síntese e inges- tão; redução da biodisponibilidade da vitamina D, levando à redução da absorção intestinal de cálcio; redução da acidez gástrica, levando a menor absorção de vita- mina B12, ferro, cálcio, ácido fólico e zinco; insuficiência dos mecanismos reguladores de sede, fome e sacie- dade; aumento da toxicidade de vitaminas lipossolúveis (vitaminas A, D, E, K); maior dificuldade na obtenção, preparo e ingestão de alimentos; xerostomia (boca seca).

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