Dicionario de pedagogia

Dicionario de pedagogia

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2ª Edição (Revista e aumentada) Ramiro Marques

Nota Biográfica sobre o autor

Ramiro Marques é licenciado em História pela Faculdade de Letras da

Universidade de Lisboa, Mestre em Ciências da Educação pela Boston University, Doutor em Ciências da Educação, na especialidade de Desenvolvimento Curricular e Agregado em Educação pela Universidade de Aveiro. Foi professor efectivo do ensino secundário durante doze anos e é professor do ensino superior politécnico desde 1985. Actualmente é professor-coordenador com agregação do quadro da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém. É autor de 19 livros sobre educação e tem colaboração dispersa em mais de um dezena de livros e em várias revistas portuguesas, inglesas e americanas. Foi membro do Conselho Nacional da Educação, Presidente da Comissão Instaladora da Escola Superior de Educação de Santarém, Director da Escola Superior de Educação de Santarém, membro da Comissão Instaladora do Instituto Politécnico de Santarém e Presidente do Conselho Científico da Escola Superior de Educação de Santarém. Foi membro fundador da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação. É membro da direcção da Associação da Educação Pluridimensional e da Escola Cultural.

A Obra

O Dicionário Crítico de Pedagogia visa proporcionar informação básica sobre termos e conceitos de Pedagogia a um público alargado, constituído não só por professores e estudantes dos Cursos de Formação de Professores, mas também por outras pessoas directa ou indirectamente interessadas na Educação. Foi dado um destaque particular às teorias da aprendizagem, aos modelos de ensino, à história da pedagogia e aos pedagogos que deram um maior contributo para o desenvolvimento de teorias sobre educação e ensino. Os conceitos sobre planificação, avaliação, currículo, métodos de ensino e técnicas de ensino mereceram, também, uma atenção especial.

Abordagem sistémica - Metodologia que visa o estudo dos sistemas na sua complexidade organizada, tendo em conta a interdependência e interacção dos elementos que os constituem. A abordagem sistémica foi desenvolvida a partir dos estudos de L. von Bertalanffy, nomeadamente, a sua Teoria geral dos Sistemas e na sequência da teoria da comunicação desenvolvida por G. Bateson e P. Watzalawick. Todos os sistemas funcionam em obediência às seguintes características: globalidade, ou seja, todos os elementos estão ligados entre si; retro-alimentação, isto é, os elementos afectam e são afectados pelos outros; homeostasia, ou seja, todo o sistema tende a manter o seu equilíbrio funcional e aumento de entropia, isto é, o sistema tende para a desorganização.

Acomodação - Expressão que significa adaptação e ajustamento. Jean Piaget desenvolveu o conceito de acomodação, dando-lhe o significado de ajustamento do organismo às exigências do meio. O conceito de acomodação em Piaget surge associado ao conceito de assimilação. O sujeito procura conjugar-se com o ambiente tendo em vista o equilíbrio das relações do indivíduo com o meio. Ver Desenvolvimento e Desenvolvimento Moral.

Acto moral - Para que um acto seja moral devem estar reunidas as seguintes condições: que seja consciente, que seja voluntário e que seja livre. Deste modo, o homem passa a ser sujeito e artífice da sua própria conduta, que emana da sua decisão pessoal. O acto imoral ocorre quando a pessoa sacrifica uma valor superior a um valor inferior, elegendo este último. Ver Kohlberg e Modelo da educação do carácter.

Aculturação - É o processo que abre progressivamente a criança ao acesso à cultura, graças às interacções que estabelece com o meio. Este processo pode ser facilitado por meio de metodologias de ensino que respeitem o estádio de desenvolvimento da criança e as suas necessidades e motivações.

Adaptação - Termo que significa mudança de comportamento que permite ao sujeito uma melhor integração no meio. Jean Piaget definiu a adaptação como a propriedade que os organismos possuem para se ajustarem às condições do meio, estabelecendo com o meio um estado de equilíbrio que resulta da acção conjunta da assimilação e da acomodação. Ver Teoria Cognitivo-desenvolvimentista da Aprendizagem

Adler (Mortimer) - Filósofo e pedagogo norte-americano, nascido em 1902, na cidade de Nova Iorque, que concebeu um modelo de ensino essencialista, a que apelidou de “Proposta Paideia”. As suas obras principais foram: How to Read a Book, The Paideia Proposal, Paideia Problems and Possibilities e Reformimg Education. Na “Proposta paideia”, Mortimer Adler defende o reforço do estudo dos autores clássicos no quadro de uma reforma curricular que centre a educação e a escola naquilo que constitui o legado civilizacional. Estudou na Universidade de Columbia, onde foi professor de Psicologia, de 1923 a 1929. Em 1930, muda-se para a Universidade de Chicago, onde permanecerá até 1952, a ensinar Filosofia do Direito e Filosofia da Educação. Em 1953, aceita o lugar de Reitor do Institute for Philosophical Research, em S. Francisco. Alguns anos antes, em 1945, edita com Robert Hutchins os 54 volumes da colecção

Great Books of The Western World. Foi o Editor dos 20 volumes dos Annals of America e o Director da 15ª edição da Enciclopédia Britânica. Escreveu numerosas obras sobre Filosofia e Educação: How to Read a Book; The Differences of Man and the Differences it Makes; Philosopher at Large: An Intelectual Autobiography; The Paideia Proposal; Paideia Problems and Possibilities e Reforming Education.

A teoria pedagógica de Mortimer Adler baseia-se, essencialmente, em três livros publicados na década de 80: The Paideia Proposal: An Educational Manifesto; Paideia Problemas and Possibilities; The Paideia Program.

Mortimer Adler afirma-se profundamente influenciado pelo pensamento educacional de Horace Mann, John Dewey e Robert Hutchins e uma leitura cuidada dos seus livros leva-nos a considerar as propostas de Adler como uma verdadeira síntese e aplicação à realidade actual, por um lado, da utopia educativa de Platão e da maiêutica socrática e, por outro lado, das ideias pedagógicas de Horace Mann e John Dewey. Ver Modelo Paideia.

Adolescência - É o período de desenvolvimento humano que marca a passagem da infância para a idade adulta. A adolescência inicia-se com a puberdade e as transformações biológicas que lhe andam associadas. O seu termo depende de circunstâncias biológicas, sociais e culturais. Nas sociedades ocidentais, o período da adolescência tem vindo a alargar-se, acompanhando o aumento da escolaridade. O adolescente ganha autonomia crescente e constrói uma identidade afectivo-sexual, marcada não só pelas experiências e contactos estabelecidos, mas também pelas características socioculturais da sua comunidade.

Afectividade - Conjunto de factos que fazem parte da vida afectiva caracterizados pela sua associação ao prazer, à dor, à alegria ou à perda. A afectividade desempenha um papel crucial na aprendizagem. É ela que desencadeia e orienta a actividade da criança. Pode ser fonte de perturbações, mas também de satisfação. A afectividade fundamenta a confiança, a identificação e a imitação. Benjamin Bloom compreendeu a importância do domínio afectivo na aprendizagem e dedicou-lhe uma taxonomia a que chamou de Taxonomia dos Objectivos Educacionais - Domínio Afectivo.

Agostinho (Santo) - Aurelius Augustinus nasceu em 345 em Tagusto, hoje denominada Souk-Ahras, situada junto à fronteira da Tunísia, a cerca de 300 quilómetros do Mediterrâneo. Tagusto era um município rural, romanizado há três séculos. O seu pai, de nome Patricius, era pagão e trabalhava para a administração do município. A mãe, de nome Mónica, era uma cristã devota. Em casa do jovem Agostinho só se falava o latim. O pai de Agostinho morre quando ele chega a Cartago para dar continuidade aos seus estudos. Agostinho tinha um irmão, de nome Navigius, e uma irmã, que virá mais tarde a dirigir um mosteiro para mulheres. Agostinho é romano por cultura e africano pela raça. Desde cedo que usa o latim não só como lingua oral mas também como linguagem escrita. O pouco que conhece do grego, não é suficiente para o usar no dia a dia. Aprenderá algumas palavras de púnico, o suficiente para se fazer entender com os camponeses, no cumprimento dos seus deveres de bispo. Antes de ser nomeado bispo, Agostinho passa alguns anos em Cartago e em Roma, a estudar. Vive durante alguns anos em Cartago com uma mulher que lhe dará o seu único filho, de nome Adeodato. Conservará essa mulher durante quinze anos. Por pressão da sua mãe, que queria para ele um verdadeiro casamento cristão, Agostinho abandona a mãe de Adeodato para casar com uma outra mulher. Esse acontecimento será marcante na vida de Agostinho.

Durante toda a sua vida, Agostinho não se conseguirá libertar de problemas de consciência por ter abandonado a mãe do seu único filho. Viverá alguns anos na Itália, acompanhado de Mónica, a sua mãe e do seu filho, Adeodato. Com a morte de Mónica, Agostinho regressa definitivamente a Hipona, onde permanecerá como bispo até à sua morte. Em Hipona, Agostinho dedicar-se-á à escrita, aos deveres de bispo e ao combate às ideias de grupos cristão não aceites por Roma, em particular os donatistas. Agostinho morre em 428, em Hipona, quando a cidade estava prestes a cair em poder dos vândalos.

Santo Agostinho deixou-nos uma obra imensa. As quatro maiores obras são As

Confissões, De Trinitate, De Doutrina Christiana e De Civitate Dei. Outras obras menos conhecidas: De Beata Vita, Silolóquios, Revisões, Contra os Academicos e De Ordine. As suas obras mais conhecidas são As Confissões e A Cidade de Deus. No livro As Confissões, Santo Agostinho dá-nos testemunho das suas conversões, as de índole cultural mas também as de índole religiosa. Em A Cidade de Deus, descreve a epopeia da cultura cristã e apresenta o estatuto filosófico desta.

Agressividade - Termo que designa comportar-se com hostilidade, como resposta à frustração. A agressividade pode ser dirigida contra si próprio ou contra o outro e pode ser aberta, dissimulada ou inibida. No primeiro caso, exerce-se através da ofensa explícita e directa. No segundo, de forma indirecta, por exemplo, através de piadas corrosivas. No terceiro, não se manifesta exteriormente, mas vai-se acumulando até que se transforma em agressividade explícita.

Agrupamento de escolas – Designa uma unidade organizacional, dotada de órgãos próprios de administração e gestão, constituída pelo estabelecimento de educação préescolar e escolas do ensino básico ou secundário, a partir de um projecto pedagógico comum, sem perda da identidade própria de cada estabelecimento.

Alain – De seu nome verdadeiro, Émile Chartier, nasceu, em Mortagne, França, em 1868. Foi aluno do colégio de Mortagne, dirigido por padres católicos, mas a influência religiosa não durou muito tempo. Ainda adolescente, fez estudos no liceu Michelet, em Paris e, logo depois, os estudos superiores na Escola Normnal Superior de Paris, onde se licenciou em Filosofia, no ano de 1892. Foi professor de Filosofia em vários liceus e começou a publicar muito cedo, em jornais e revistas, com o pseudónimo de Alain. Voluntário na Guerra de 14-18, Alain escreveu, pouco depois, Os Elementos de Filosofia, o Sistema das Belas Artes, as Conversações e as Conversações Livres. A sua obra Conversações sobre a Educação contitui, ainda hoje, um clássico incontornável, com enorme influência no pensamento educacional francês. O pensamento educacional de Alain constitui um hino aos clássicos e às grandes obras. Defensor de uma escola centrada na defesa do cânone cultural, exigente e rigorosa, Alain exerceu uma influência preponderante no sistema educativo francês durante toda a primeira metade do século X. Morreu em 1951.

Althusser (Louis) - Nasceu na Argélia, filho de pais franceses, em 1918 e faleceu, em Paris, em 1990, após vários anos de internamento psiquiátrico, na sequência do assassinato da sua mulher, num momento de loucura que iria fazer com que os tribunais franceses o considerassem inimputável e o libertassem da cadeia, após um amplo movimento em defesa de Althusser que reuniu os seus amigos e discípulos em toda a Europa. Louis Althusser era filho de um director bancário destacado na Argélia francesa. Após fazer os seus estudos primários, acompanha a família de regresso ao sul de França, passando a viver, na adolescência, sucessivamente em Marselha e em Lyon, onde termina os estudos secundários e faz os preparatórios para o acesso à Escola Normal Superior. Durante a segunda guerra mundial, adere à resistência francesa e torna-se membro do Partido Comunista Francês, juntamente com aquela que viria a ser a sua mulher, Helène Althusser. Após terminar o doutoramento em Filosofia na Escola Normal Superior de paris, Louis Althusser torna-se professor de Filosofia nessa escola universitária, acabando por exercer uma influência enorme nos meios comunistas e socialistas de esquerda europeus e da América Latina, durante os anos 60 e 70. O estudo da filosofia marxista constituiu o cerne de toda a sua obra. Assumindo-se como um marxista não ortodoxo, Louis Althusser tentou uma renovação e adaptação do marxismo aos novos tempos caracterizados pelo desenvolvimento do capitalismo tecnológico e pela emergência das novas classes médias urbanas, embora nunca tenha deixado de pertencer ao Partido Comunista Francês. A sua influência nos meios educacionais e pedagógicos de esquerda foi enorme, durante a década de 70. A crítica que fez à escola burguesa, considerada por ele como um aparelho ideológico do estado, influenciou um grande número de educadores descontentes com o papel que a escola desempenha nos processos de selecção e de estratificação social. Principais obras: Pour Marx (série de artigos redigidos entre 1960 e 1965); Lire le Capital (obra colectiva publicada em 1965); Montesquieu, a Política e a História (1959); Posições (1976); Lenine e a Filosofia (1969); Elementos de Autocrítica (1974). Pouco meses antes de morrer, escreve uma autobiografia que viria a ser publicada após a sua morte com o título O Futuro é Muito Tempo (Edições Asa, 1992). Embora nunca tenha chegado a renunciar ao marxismo, é possível descortinar uma grande amargura e tristeza nas páginas da sua autobiografia, notando-se nelas um grande desencanto pelo que se passava nos países socialistas.

Altruísmo – Diz-se que uma pessoa é altruísta quando procura beneficiar os outros e se preocupa com o bem estar dos outros. Uma educação para a justiça visa, em grande medida, o desenvolvimento de atitudes altruístas. Ver Kohlberg.

Alves dos Santos (Augusto Joaquim) - Doutorado pela Universidade de Coimbra, Alves dos Santos deixou-nos uma importante obra pedagógica, com destaque para: O Crescimento da Criança Portuguesa, Subsídios para a Constituição de uma Pedologia Nacional (1913); Psicologia e Pedologia, Uma Missão Científica no Estrangeiro (1913); Elementos de Filosofia Científica (1915); Um Plano de Reorganização do Ensino Público (1921). Foi um dos divulgadores em Portugal do movimento da educação nova. Nasceu em 1866 e faleceu em 1924.

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