Agrofloresta, ecologia e sociedade

Agrofloresta, ecologia e sociedade

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AGROFLORESTA, ECOLOGIA e

PATROCÍNIO FLONA Açungui

Esta coletânea reúne, de maneira complementar e articulada, pesquisas de diferentes áreas do conhecimento sobre a Agrofloresta. A prática agroflorestal representa uma resposta ao desafio da conciliação entre a necessidade de produção de alimentos e a sustentabilidade ambiental, e em paralelo se mostra como uma alternativa para a agricultura familiar, contribuindo para a sua permanência no campo, gerando renda e permitindo a conservação de suas tradições. Neste livro, a Agrofloresta é vista sob diferentes pontos de vista. O(a)s autore(a)s analisam seus processos biológicos, circulam pela compreensão de suas relações sociais e econômicas, percorrem espaços sobre o debate da alimentação e nutrição e se colocam diante dos impasses enfrentados no âmbito da normatização brasileira. A ideia de discorrer sobre as mais diferentes dimensões que perpassam a implantação, o desenvolvimento e a manutenção dos sistemas agroflorestais (SAFs), foi o que motivou a organização deste livro. Os capítulos aqui apresentados têm por base as práticas e experiências dos (as) agricultores (as) da Associação dos Agricultores Agroflorestais de Barra do Turvo/SP e Adrianópolis/PR, também conhecida como Cooperafloresta, localizada na região do Vale do Ribeira, na divisa entre os Estados do Paraná e São Paulo. A Cooperafloresta, por meio do Projeto Agroflorestar do Programa Petrobras Ambiental, foi palco, entre os anos de 2010 a 2012, do encontro e da articulação de estudantes dos Programas de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolimento (MADE), Tecnologia, Ciência e Gestão da Informação (PPCGI),

Sociologia e da Especialização em Educação Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), de pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Agroecologia (NEPEA) da UFPR, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio)/Floresta Nacional do Açungui, cujo objetivo foi o de realizar uma abordagem multi e interdisciplinar de pesquisa que permitisse compreender os fenômenos sociais, econômicos, ambientais, alimentares e legais da Agrofloresta, evidenciando, assim, a sua relevância como alternativa concreta para a construção de um futuro de sustentabilidade. As pesquisas aqui realizadas correspondem a diferentes contribuições em torno da prática agroflorestal, a partir dos mais diversos campos da ciência, contando com a presença de sociólogos, gestores ambientais, economistas, agrônomos, biólogos, nutricionistas, administradores, turismólogos, filósofos, engenheiros florestais, fotojornalistas, bem como de agricultores (as) da Cooperafloresta. Ressalta-se, no entanto, que o debate proposto por este livro não pretende esgotar a riqueza de informações que a prática agroflorestal e a experiência da Cooperafloresta encejam – mesmo porque uma das conclusões desse trabalho é de que ainda há muito por se pesquisar nesta área –, mas apresenta-se como um esforço inicial de leitura e sistematização de uma prática que traz em seu fazer toda a complexidade social, ambiental e cultural necessária à reconstrução da agricultura e do desenvolvimento rural.

Conselho Editorial

Adriana Espíndola Corrêa José Antônio Peres Gediel

José Juliano de Carvalho Filho

Eduardo Faria Silva

Myrian Del Vecchio de Lima Wilson da Costa Bueno

Walter Steenbock | Letícia da Costa e Silva

Rodrigo Ozelame da Silva | Almir Sandro Rodrigues Julian Perez-Cassarino | Regiane Fonini

COLABORADORES Carlos Eduardo Seoane | Luís Cláudio Maranhão Froufe

A281 Agrofloresta, ecologia e sociedade / organizador Walter Steenbock... et al. ; colaboradores Carlos Eduardo Seoane, Luís Cláudio Maranhão Froufe.— Curitiba : Kairós, 2013. 422 p.

ISBN 978-85-63806-15-4

1. Agrossilvicultura. 2. Agrofloresta. 3. Sistemas agroflorestais. 4. Ecologia. 5. Desenvolvimento sustentável. 6. Cooperafloresta. I. Steenbock, Walter. I. Costa e Silva, Letícia da. II. Silva, Rodrigo Ozelame da. IV. Perez-Cassarino, Julian. V. Fonini, Regiane. VI. Seoane, Carlos Eduardo. VII. Froufe, Luís Cláudio Maranhão. VIII. Título.

CDD (20.ed.) 634.9 CDU (2.ed.) 631-61

Depósito legal junto à Biblioteca Nacional, conforme Lei n.º 10.994 de 14 de dezembro de 2004.

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)

Index Consultoria em Informação e Serviços S/C Ltda. Curitiba - PR

© Cooperafloresta (Associação de Agricultores Agroflorestais de Barra do Turvo e Adrianópolis) 2013

Antônia Schwinden (Coordenação)

Glauce Midori Nakamura (Capa e Projeto Gráfico) Ivonete Chula dos Santos (Editoração Eletrônica)

Permitida a reprodução parcial ou total desta obra, em diferentes meios, desde que citada a fonte e não se preste a fins comerciais.

Aos agricultores e agricultoras agroflorestais da Cooperafloresta, cujo trabalho, saber e dedicação foram a base da elaboração deste livro.

Em especial ao Pedro Oliveira de Souza (Pedro Baiano), Sezefredo

Gonçalves da Cruz, Sidinei Maciel dos Santos, Maria de Lourdes Feltz Bonaldi, Gilmar Batista de Souza, José Moreira de Souza (Zé Baiano),

Benedito de Paula Moura (Ditão), José Gustavo da Silva (Zé Baleia),

Maria Lúcia Moreira (Dona Maria), Inês Maciel dos Santos (Dona Inês),

Clóvis Ribeiro Maciel, Claudinei Maciel dos Santos, Mauro Xavier da

Rocha, Adão Monteiro da Paixão, Joana Morato de Lima, Jorlene

Boaventura Rosa, Urias de Assis Mota, Maria Aparecida da Silva Mota,

Osni Alves Lourenço, Sebastião Farias dos Santos, João Paulo Maciel, José da Silva (Zé Silva), Teresa Gonçalves de Oliveira (Dona Teresa), Thiago (neto do Zé Silva), Paulina Pontes Maciel, Ana Rosa Ribeiro da Cruz (Dona

Ana), Reinaldo Batista Moreira (Nardo), Aparecido Ribeiro Maciel

(Aparecido), Dolíria Rodrigues de Paula Reis, Dalcides Marques dos Reis (Darço), Maria Aparecida Santos (Aparecida), Francisca Xavier da Rocha Pedroso, Vanilda Souza Santos de Paula e Pedrina de Paula Pereira que participaram diretamente das atividades de pesquisa sistematizadas neste livro. Igualmente à equipe técnica da Cooperafloresta entre os anos de 2011 e 2012 pelo trabalho e apoio a realização desse livro: Nelson Eduardo Corrêa Netto, Lucilene Vanessa Andrade, Eliziana Vieira de

Araujo, Rodrigo Ozelame da Silva, Artur Dalton Lima, Namastê Ganesh Maranhão Messerschmidt, Fernando Passos, Joana de Souza Mamedes,

Márcio Farias Maciel, Renata Rocha Gadelha, Claudio Leme Ferreira,

Osvaldo Luis de Sousa (Osvaldinho), Carlos Carriel de Castro, Claudiana Bonrruque da Mota, Adilson Gonçalves Batista e Jakson Barros Batista.

Prefácio Dos sonhos à utopia E à Criação DE altErnativiDaDEs: o (rE)ConhECimEnto Da ExpEriênCia Da CoopEraFlorEsta _ 9 Angela Duarte Damasceno Ferreira

Capítulo 1 primEiras palavras _ 15 Comitê Organizador e Fabiane Machado Vezzani

Capítulo 2 BrEvE histÓria Da CoopEraFlorEsta E Do pEDro, ContaDa por ElE mEsmo _ 25 Pedro Oliveira de Souza e Rodrigo Ozelame da Silva

Capítulo 3 agroFlorEstas E sistEmas agroFlorEstais no Espaço E no tEmpo _ 39 Walter Steenbock, Rodrigo Ozelame da Silva, Luis Claudio Maranhão Froufe e Carlos Eduardo Seoane

Capítulo 4 aspECtos pEDagÓgiCos no proCEsso DE Ensino-aprEnDizagEm DE agroFlorEsta, no âmBito Da CoopEraFlorEsta _ 61 Rodrigo Ozelame da Silva e Walter Steenbock

Capítulo 5 as vozEs Da FlorEsta E a ECologia Dos saBErEs _ 89 Rodrigo Ozelame da Silva, José Edmilson de Souza-Lima, Sandra Mara Maciel-Lima e Walter Steenbock

Capítulo 6 as Estratégias Da rEproDução soCial Dos agriCultorEs FamiliarEs Da CoopEraFlorEsta: um EstuDo DE Caso soBrE os proCEssos DE rECiproCiDaDE E soliDariEDaDE _ 125 Almir Sandro Rodrigues e Angela Duarte Damasceno Ferreira

Capítulo 7 a Construção Do sujEito agroFlorEstal por mEio Da étiCa Do haBitar: rEsistênCia E autonomia na visão DE munDo agroFlorEstEira _ 155 Priscila Cazarin Braga e Rômulo Macari da Silva

Capítulo 8 agroFlorEsta E alimEntação: o alimEnto Como mEDiaDor Da rElação soCiEDaDE-amBiEntE _ 197 Regiane Fonini e José Edmilson de Souza Lima

Capítulo 9 agroFlorEsta, autonomia E projEto DE viDa: uma lEitura a partir Da Construção soCial Dos mErCaDos _ 233 Julian Perez-Cassarino

Capítulo 10 a gEstão Da inFormação no proCEsso DE ComErCialização Da CoopEraFlorEsta _ 273 Letícia da Costa e Silva

Capítulo 1 gEração E uso DE inDiCaDorEs DE monitoramEnto DE agroFlorEstas por agriCultorEs assoCiaDos à CoopEraFlorEsta _ 305 Walter Steenbock, Rodrigo Ozelame da Silva, Carlos Eduardo Seoane, Luís Cláudio Maranhão Froufe, Priscila Cazarin Braga e Rômulo Macari da Silva

Capítulo 12 CaraCtErístiCas Estruturais Das agroFlorEstas DEsEnvolviDas no âmBito Da CoopEraFlorEsta _ 321 Walter Steenbock, Rodrigo Ozelame da Silva, Fabiane Machado Vezzani, Carlos Eduardo Seoane e Luis Cláudio Maranhão Froufe

Capítulo 13 avaliação Da DinâmiCa Do CarBono Em agroFlorEstas DEsEnvolviDas por agriCultorEs assoCiaDos à CoopEraFlorEsta _ 345 Walter Steenbock, Rodrigo Ozelame da Silva, Fabiane Machado Vezzani, Patrikk John Martins, Luis Cláudio Maranhão Froufe e Carlos Eduardo Seoane

Capítulo 14 por quE as agroFlorEstas Da CoopEraFlorEsta são Como são E para onDE Evoluirão? _ 363 Felipe Almeida Biguzzi, Carlos Armênio Khatounian, Elisabete A. De Nadai Fernandes e Guilherme Henrique Machado Faganello

Capítulo 15 vozEs Da pErmanênCia: a ConsErvação amBiEntal alCançaDa Com o sistEma Da agroFlorEsta _ 393 Martin Ewert, Rafaelle Mendes, Soraya Rédua e Carlos Eduardo Seoane soBrE os autorEs _ 421

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Prefácio

DOS SOnhOS à UtOpIa e à cRIaçãO De alteRnatIvIDaDeS: O (Re)cOnhecIMentO Da expeRIêncIa Da cOOpeRaFlOReSta

Angela Duarte Damasceno Ferreira

Nas situações-limite, mais além das quais se encontra o inédito-viável, às vezes perceptível, às vezes não, se encontram razões de ser de ambas posições, a esperançosa e a não esperançosa. Uma das tarefas do educador ou educadora progressista…é desvelar as possibilidades, não importam os obstáculos, para a esperança… (Paulo Freire. a pedagogia da esperança, 1992, p.6)

Na história, temos visto com frequência, infelizmente, que o possível se torna impossível e podemos pressentir que as mais ricas possibilidades humanas permanecem ainda impossíveis de se realizar. Mas vimos também que o inesperado torna-se possível e se realiza; vimos com frequência que o improvável se realiza mais que o provável; saibamos, então, esperar o inesperado e trabalhar pelo improvável. (Edgar Morin. os setes saberes necessários à educação do futuro, 2000, p. 92)

Este livro trata da construção de alternatividades vivenciadas por agricultores e agricultoras ligados à Cooperafloresta, uma organização que reúne famílias rurais dos municípios de Barra do Turvo, em São Paulo, Adrianópolis e Bocaiúva do Sul, no Paraná, na região do Vale do Ribeira, fronteiriça entre os dois estados.

Ali está em curso uma experiência agroecológica de produção agroflorestal, pela qual esses homens e mulheres enfrentaram problemas ecológicos e sociais, cuja magnitude ameaçava a sua própria reprodução social como agricultores e a de sua natureza próxima (JOLLIVET, 1999) – a terra em que vivem, sua disponibilidade de água, a qualidade do solo, ou seja, a base material de sua existência.

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Em sua parte do mundo, receberam pessoas de fora que lhes trouxeram ideias e propostas de mudança. Interagindo com essas ideias, iniciaram o caminho de transformação de suas relações com a natureza e com outros homens e mulheres. Foram alçados a patamares extralocais de vivência ao se inserirem em redes regionais como a Rede Ecovida de Agroecologia que, por sua vez, os vinculou a outras redes nacionais e internacionais. Participaram de encontros em que trocaram conhecimentos e construíram laços de identidade com muitos que também se viram em situações-limite e procuraram gestar o inédito viável nas suas trajetórias. Em redes, começaram a se inserir em uma incipiente e intermitente globalização alternativa (SOUSA SANTOS, 2005).

A percepção da riqueza dessa experiência levou muitos a visitá-la e a querer participar dela, seja como técnicos, colaboradores e pesquisadores.

Os trabalhos aqui reunidos foram realizados por um grupo de técnicos e pesquisadores de órgãos de pesquisa e de universidades públicas – destas, professores e estudantes de graduação, mestrado e doutorado. Compartilhando o interesse despertado pelos processos em curso na Cooperafloresta, empreenderam, em conjunto com agricultores e agricultoras, estudos sobre distintas dimensões de tais processos. Como eram muitos e tinham em comum a intenção de ser também colaboradores dos agricultores, organizaram-se para discutir algumas prioridades de pesquisa para a associação e seus membros. Procuraram articulá-las aos seus próprios interesses mais gerais, dados pelas suas formações e inserções profissionais, institucionais e políticas. Foi um esforço coletivo de produção de conhecimento. Envolveu a construção de um diálogo de saberes com as comunidades e um encontro entre diferentes disciplinas.

Olhares convergentes sobre o mesmo espaço social e natureza, ambos heterogêneos: os resultados mostram a emergência de um outro modelo produtivo que se acompanha por novas percepções sobre a vida, sobre a sociedade e as condições naturais de sua existência.

Para o leitor que vai iniciar seu caminho por este livro pode ser que sobrevenham duas perguntas: a primeira, o que esta experiência apresenta de importante a ponto de mobilizar tantas pessoas para estudá-la? A segunda, inevitavelmente, é uma questão de hermenêutica: os autores conseguiram apreender dinâmicas relevantes para sua compreensão?

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Podemos responder às duas perguntas paralelamente, antecipando elementos dos resultados de pesquisa que são amplamente desenvolvidos no corpo do livro.

Em primeiro lugar, há a constatação de que a história recente dos agricultores locais era marcada pelo aprofundamento de uma crise socioambiental ligada aos limites de seu acesso a meios para produzir e prover suas necessidades de reprodução biológica e social, assim como de reprodução do meio natural em que viviam. Eram, na sua maioria, agricultores tradicionais, muitos pertencentes a comunidades quilombolas e também trabalhadores que vieram para a região se instalar como agricultores. Muitos haviam feito a incorporação parcial de insumos convencionais (venenos, adubos) e faziam uso de maquinário alugado os quais, associados à coivara (queimadas) e desmatamento, aprofundaram seus problemas com a produção, especialmente no que diz respeito aos impactos sobre o solo e demais recursos naturais. Muito além de locais, seus limites produtivos e de comercialização os uniam de forma dramática ao conjunto do campesinato nacional, marcado por uma precariedade estrutural que bloqueou seu desenvolvimento nos marcos da sociedade brasileira, assim como em outros países do mundo (WANDERLEY, 1996).

A crise era também de identidade e de sentido: famílias que deixavam para trás sua condição social de agricultores porque saiam da terra; filhos que não se viam com futuro na agricultura e empreendiam a jornada para a cidade onde nunca entravam, ficando nas periferias das cidades e das ocupações urbanas (WANDERLEY, 2002), em uma precariedade aumentada pela perda dos meios de consumo que a produção de subsistência proporcionava; agricultores que se sentiam em situação de fracasso e cuja existência era ignorada porque não se moldavam aos pré-requisitos para a modernização convencional. Crise, enfim, pela percepção difusa de sua subalternidade.

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